Deus dará aos mais pensativos motivos para triplicar seus pensamentos, ao ponto em que não terão mais tempo pra nada.
Dará aos mais tímidos E pensativos, motivos para quadruplicar sua timidez.
Aos mais medrosos E pensativos, motivos para quintuplicar o medo.
Aos mais hesitantes E pensativos, motivos para não conseguir dar um passo.
Aos não pensativos dará a vida comum, viagens, pequenas realizações e permite que vão em frente, porque atrás vem gente.
1. A biblioteca na selva
Entrei na caverna, iluminada pelo artoche na mão de Guran TBone, o vigésimo. Ele é o tataraneto do Guran original, o pigmeu bandar, que era o chefe dos bandar, e não me pergunte o que é um bandar.
A caverna está esquecida na selva - ainda há uma selva por ali, só que reduzida a alguns hectares, quando já foi quase infinita e indevassável. Não mais. Mas, de alguma forma, aquele trecho da antiga selva de Bangala está intacto e, por encresça que parível, a Caverna da Caveira se mantém.
É claro que Guran TBone deu um jeito de disfarçar a entrada, um jeito muito prosaico e eficaz: tascou um out-door gigante com propaganda do governo atual: a cara bisonha do presidente, um tirano local, normal nesses paisezinhos de merda como Bangala, e com dizeres tipo "a nova administração exige que você faça a sua parte, una-se, filie-se ao partido da grande revolução", palavras que espantam turistas como inseticida espanta moscas, e a caverna ficou escondida atrás do out-door. Ninguém vai lá. Todos têm medo de que ali mesmo tenha um posto avançado de recrutamento partidário do governo. De forma que todos deixam a caverna em paz.
Eu me encontrei com Guran TBone na cidade mais próxima, Jojoville, que foi crescendo em torno do antigo quartel general da extinta Patrulha da Selva.
- O poço ainda está lá - afirmou Guran TBone, - com a passagem secreta e tudo, só que igualmente camuflado como isso aqui.
As sombras, nossas sombras, dançavam nas paredes da caverna à medida em que caminhávamos, em silêncio, pelo antigo corredor que levava à biblioteca do Fantasma.
2. Entrando na caverna
Acreditando ainda em fantasmas, assim no plural, fantasmas reais que permaneciam na caverna ao longo dos séculos, Guran TBone usava seus amuletos ostensivamente, -
"para esses caras não ficarem muito à vontade quando eu chego. Sabe, eles podem ser meio desagradáveis".
Essas foram as suas palavras e ele seguia na frente, com o artoche ardendo na mão, como em filmes de terror dos anos trinta.
Não tínhamos ainda passado a primeira galeria e já ouvíamos uma respiração nas sombras, alguns objetos caíam no chão e algumas portas - eu não via nenhuma porta - batiam lá no fundo, na escuridão.
- Você precisa de botar umas lâmpadas por aí - arrisquei, falando alto, porque se tem uma coisa que eu não suporto é uma caverna cheia de fantasmas.
Guran TBone, do alto de seus 1,83 metros de altura, (nada mal para um descendente dos pigmeus originais, bem baixinhos) virou a cara pra mim e sorriu seu melhor sorriso de guia turístico:
- Não se incomode com essas pobres almas infantis. Tudo que elas querem é atenção.
Eu lembrei a ele que não carregava amuleto algum comigo, de forma que estava me sentindo meio desamparado ali. Ele retrucou, dizendo que eu podia cantar:
- Tem uma coisa que esses fantasmas realmente não suportam. É só cantar qualquer coisa que lembre uma opereta. Experimente Funiculi, Funiculá. Você sabe, não?
Por sorte eu sabia. Fomos os dois entrando na caverna e entoando o negócio. Os fantasmas realmente debandaram.
3. A Primeira Porta
Meu pé patinava. Meu tosco sapato de explorador, comprado num brechó esquisito em Jojoville, fazia mais barulho do que eu gostaria, entrando numa caverna cheia de fantasmas, atrás do fantasma principal.
Despistei, querendo dar tempo ao tempo. Capenguei um pouco e me queixei da velha cicatriz no joelho, mas Guran TBone não se abalava com esses truques baratos de turista e seguia, passos largos, para o fundo, invisível na escuridão.
A primeira parada foi em frente a uma porta cuja madeira, à luz do archote de Guran, revelou-se enfeitada de pequenas esculturas, esculpidas a canivete, ou algo parecido.
Uma porta maciça, de madeira negra, toda esculpida com pequenos monstrengos alados. Na luz do archote, as sombras tremulando sobre eles, os pequenos gárgulas pareciam em perene festança, pareciam vivos.
- Que coisa, - eu disse - uma porta cheia de capetinhas. Parecem até que estão vivos, né?
- De certa forma, estão mesmo - disse GuranTBone e, ao ouvir essas palavras, dei um passo e meio para trás.
- Mas eles não saem daí, de jeito nenhum - disse Guran. Isso não me aliviou nem um pouco.
- Parece que nós vamos atravessar a porta, certo? - perguntei. - Então faça o favor de abrir. Você abre e eu passo. Não ponho a mão nesse negócio de jeito nenhum - completei.
Guran TBone sorria, com todos os seus dentes brancos e grandões:
- É melhor mesmo. Essas coisinhas mordem.
4. A sala dos uniformes
Passamos através da porta. TBone manuseou rapidamente o trinco com uma das mãos, enquanto balançava o archote com a outra, em direção à porta:
- É assim que se faz, você tem que ameaçar esses bichos pra eles não te morderem - e nós entramos numa grande sala.
A luz do archote não chegava até o teto. Muito alto. Mas lá longe, encostada na parede em frente, havia uma fileira de silhuetas estranhas e Guran TBone, depois de fechar a porta, caminhou naquela direção.
- Tá vendo, lá?
Eu estava vendo, mas eu não sabia se queria chegar muito perto. Pelo menos até descobrir o que era aquilo. De longe pareciam ser pessoas em pé, imóveis, mas havia algo de estranho no jeito como estavam dispostas.
Mantive uma distância que julguei segura, caminhando uns cinco metros atrás de TBone, enquanto ele se aproximava dos vultos.
- Aqui estão os uniformes - ele disse e eu percebi finalmente o que estava vendo.
Dispostas em esquifes de vidro, simetricamente distantes um do outro, estavam dependuradas as roupas de todos os Fantasmas. Uma coisa meio grotesca. Poucas coisas são mais patéticas do que roupas vazias, roupas de gente morta, bem entendido.
Alguns dos Fantasmas eram mais baixos do que eu supunha, a julgar pelas roupas. Guran TBone pareceu adivinhar minhas impressões:
- Muitos fantasmas tiveram problemas com alfaiates, pesos e medidas. Algumas dessas malhas ficaram ou frouxas demais ou curtas demais, e naquele tempo não era fácil arranjar uma roupa dessas.
- Tô vendo - eu disse, pra disfarçar meu desconforto em estar ali, olhando aquelas tristes e vagamente sinistras fantasias.
- Veja bem - continuou TBone, - muitos deles tiveram que improvisar com o que tivessem à mão.
Caminhou até uma das fantasias:
- Essa aqui, por exemplo, é feita das cortinas de um teatro.
Notei o sorriso meio galhofeiro na cara brilhante de Guran TBone, que olhava pra mim, levantando as sombrancelhas.
- Tá bem, explica esse negócio - falei.
- Esse fantasma - disse ele, fazendo uma pequena pausa para criar suspense, - trabalhou no teatro inglês, no final do séc. XVI... era ator -, acrescentou.
Fiquei quieto, esperando a conclusão.
- Você não está percebendo, você se parece com esses turistas com merda na cabeça, cara.
Continuei quieto porque não sabia onde ele queria chegar.
- Shakespeare. Tô falando de Shakespeare, cara. Esse fantasma foi ator no teatro de Shakespeare.
(continua...)

Os desenhos de Marcelo d'Salete já tinham chamado minha atenção quando eu os vi na revista Graffiti 76% Quadrinhos.
Há poucos dias, mais precisamente no dia seis deste mês, na HQMIX Livraria, em São Paulo, eu conheci o cara. Tive uma surpresa, rapidamente deletada, porque a princípio eu não associei o desenho, que eu julguei "europeu", com a figura do próprio Marcelo, um cara negro, simpático, discreto - aquela discrição que nada tem a ver com timidez, mas com auto-confiança - , que sorria educadamente mas tinha o olhar de um avaliador de arte profissional. Olhos que observam atenta e calmamente as coisas em redor.
E deve ser isso mesmo porque o desenho do Marcelo é uma síntese, muito esquemática e muito artística do mundo ao redor - ou do mundo que ele resolveu retratar, não importa. O que importa é que essa síntese só é possível com um poder de observação muito apurado. Já vi isso em outros raros artistas - me ocorreu agora um Flavio Colin como exemplo.
Alguém sugeriu Muñoz, o desenhista argentino, como parâmetro da arte do Marcelo. É, tem a ver. Mas ele me lembra mais Jacques Loustal, o francês meio solitário da antiga Metal Hurlant. Elegância e solidão, duas coisas que exalam dos desenhos de ambos. Apesar da temática, que é a realidade urbana brasileira da grande maioria desfavorecida - e que muitas vezes resvala para a marginalidade crua e simples - , a arte de Marcelo não é marginal. Marcelo dispensa, com muita propriedade, o fascínio infantil pela escatologia, que é a tônica de centenas de publicações "marginais" que pululam por aí.
Nada de cu-caralho-buceta-maconha-merda-fuder-tripas-vômito, o foco obssessivo, hedonista e raso na genitália do mundo, ou o foco - meio nauseante - do ególatra no próprio umbigo sujo. Aqui o cordão umbilical já foi devidamente cortado há muito tempo e o bebê chorão não existe mais. Existe a maturidade de um mundo adulto, a visão adulta desse mundo - mais contundente que o berreiro infantilóide e generalizado porque impõe, pela força de uma arte refinada, uma reflexão, um espelho, uma indagação séria sobre o que estamos vivendo.
Continuo achando que a arte de Marcelo d'Salete é européia, mas na vertente do que a Europa tem de melhor: o refinamento causado por uma evolução artística que cobre já milhares de anos. É meio surpreendente encontrar isso por aqui.
Marcelo me presenteou com seu livro de histórias, NoiteLuz (ed. Via Lettera), devidamente autografado. Li e coloquei na estante, entre um Enki Bilal e um Hugo Pratt. É o lugar de honra da minha estante porque fica na altura dos olhos, fácil de pegar para reler.
On line, na revista Piauí, um belo e longo texto de Vargas Llosa em defesa da literatura dá o que pensar. Mas pensar sobre literatura é uma faca de vários legumes. Milhares de escritores, mesmo os considerados grandes escritores, fazem da literatura uma atividade simplesmente sombria. Não tenho mais a convicção de que a literatura seja a luz no fim do túnel, o túnel escuro da estupidez humana (sic). Nem que espalhe sequer algumas lâmpadas, mesmo que sejam essas lampadinhas vagabundas de natal, piscando com seus 25 watts de euforia natalina pelas paredes desse mesmo túnel. Em suma, não acredito mais que a literatura ilumine os desprovidos de luz ou de lanternas.
Frente ao irrefutável argumento de Vargas Llosa de que a literatura promove, protege e dinamiza a linguagem humana posso contrapor, como um advogado do diabo, o fato de que a literatura também é a indústria metafísica da angústia. A maioria dos autores citados carinhosa e saudosamente por Llosa - grandes autores de quem, aparentemente, é preciso ter saudades - são exímios tecelões de uma rede de nós cegos, iguais entre si pela qualidade comum de provocar angústia.
Não sentir essa angústia e continuar pulando alegremente de um inferno pro outro é algo que me faz duvidar da capacidade cognitiva de qualquer leitor - o que, por si só, contradiz a tese de que o exercício da leitura amplia a percepção geral do homem. A noção do abismo deveria ser natural mas uma enorme parte da literatura fomenta o salto suicida, sem para quedas. Por outro lado, perceber a angústia e gostar dela a ponto de usá-la como travesseiro é um negócio bizarro demais, pra não dizer doentio.
"O diabo na rua (leia-se: no mundo), no meio do redimunho (leia-se: literatura)", está rindo discretamente.
Rua da Bahia, centro de BH, perto do Palácio das Artes, onde vai rolar o festival dos quadrinhos. Um poster até maneiro, mas não necessário, para o FIQ. Pra que postergar?

Velhos amigos são aqueles caras, ou aquelas pessoas, que resistiram à minha, ou à nossa, incapacidade de lidar com outras pessoas. Velhos amigos vão além da inconstãncia dos novos e, no final das contas, a gente chega numa certa idade em que não há mais tempo para novos velhos amigos. A gente tem os que conseguiu. Poder conversar, ou mesmo andar junto com esses caras é algo que não tem preço. De vez em quando a gente pensa neles e, também de vez em quando, procura suas companhias. Eu tenho alguns amigos e, realmente, sou fiel a eles, talvez para sempre. Alguns deles:

Esse é o Corto Maltese, me tirou de uma ressaca moral certa vez.

Ken Parker. Atira muito bem e acerta alguns alvos invisíveis dentro da nossa cabeça, meu.

Príncipe Valente, um sujeito alegre que racha alegremente cabeças de gente ruim. Mas é um príncipe no trato.

Frank Cappa, sujeito finíssimo. Às vezes meio atormentado, como acontece com pessoas de bom coração. Mas se defende bem, defende os amigos, inclusive, e tira fotos incríveis pela vida.
Esses são alguns dos meus velhos amigos. Mundo estranho.
O tempo passa - e essa, pensando bem, é uma das frases mais enigmáticas que se pode pronunciar ou escrever, em qualquer idioma. E as coisas continuam mais ou menos as mesmas e aquela aposta, entre o velho Lu e o T.P., ainda tá valendo
.



Já perto do final da história, uma razoável explicação sobre a inventividade humana nos milênios que virão. E os três amigos voltam a se encontrar no boteco mais in da cidade infernal.




Continuando com a história, segue-se a expulsão do Éden. Todo mundo é posto pra fora dos jardins do velho jardineiro celestial. "Todo mundo" é forma de expressão, porque na verdade são só dois, no máximo três, indivíduos. Mais alguns milênios e serão bilhões. Pior que coelhos.




Um dos três capetas se apresenta como voluntário e vai para o mundo recém criado pelo Todopoderoso. Chegando lá encontra o famoso Éden, a famosa árvore, o famoso casal original etc. Todo mundo conhece, mais ou menos, essa parte da história.


