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Nas Escolas de Jornalismo, aprende-se, entre outras curiosidades, uma visão crítica sobre o fenômeno dos fait divers (isto é, aprendia-se; não sei o que se ensina hoje nas escolas de jornalismo, onde até pontifica diretora sem experiência em reportagem, que, bem montada em sua estabilidade de emprego público, produz delírios do esquerdismo infantil pós-moderno, e saúda a precarização das relações de trabalho com palavra de ordem em favor da mobilização sindical para os free-lancers _ gente que cheirou Derrida demais, isso às vezes acontece).
Como dizia eu, fala-se do fait divers em escolas de jornalismo. É esse tipo de notícia curiosa, muitas vezes irrelevante, mas que, como definiu a jornalista Marta Salomon, tem enorme "índice de praia", termo de carioca: é o tipo de notícia que o pessoal, na praia, gosta de comentar; aquela bobagem insólita, curiosa, de onde até, quem sabe, pode sair alguma filosofia.
Isso aí em cima, aliás, é um nariz de cera, como estarão em breve ensinando os cursinhos técnicos de jornalismo que serão criados para preparação de futuros candidatos a assessores de imprensa escolhidos em concursos públicos.
Mas eu falava do fait divers e esse nariz de cera não me deixa ir direto a ele. Está meio escondidinho, na Folha de hoje:
Assaltante esquece currículo em van após crime e é preso no Rio.
Ele se chama Everton Cleiton. Entrou numa van, veículo pós-moderno do tipo que transporta jovens autônomos, trabalhadores e também "midialivristas" e toda essa gente que mereceria ter o poder que acreditam terem os jornalistas, para mudar essa ordem injusta que está aí, mas que é sustentada por organizações criminosas que, como se sabe, mantém o José Sarney e o Gilmar Dantas no poder.
O Éverton Cleiton, um arauto dos novos tempos pós-fordismo, sem carteira assinada ou profissão bem definida, resolveu contrariar, à sua maneira, a desigual ordem capitalista, arrancando a propriedade privada dos passageiros da van onde estava. Eram uma dúzia, informa o jornal, para que essa realidade-melhor-que-a-ficção bem descreva os passageiros da van, como ovos embalados à disposição, no supermercado.
(Como se enfiam doze pessoas numa van sem quebrar ou pelo menos amassar os ovos é coisa que deixo para os doutos, esse pessoal erudito que reduz Habermas a pó de traque e discute a pós-modernidade com laivos de genialidade que um jornalista ignorante como eu jamais conseguria)
Everton Cleiton e dois amigos levaram celulares e mil reais, numa prova de que os marginais, heróis não são; são mequetrefes; bandido que morde os ricos geralmente é integrado e rico. Está aí o Chico Buarque, que acaba de fazer 65 anos e já falou do assunto, para não me deixar mentir.
Mas voltemos à cena do crime. Assaltados os passageiros, Éverton Cleiton, na pressa, incompetente que nem pau-mandado da imprensa gorda, deixou na van uma mochila.
Nosso Éverton Cleiton é um personagem que, se batizado por algum autor, seria criticado como tentativa ridícula de avacalhar a onomástica das classes populares. Mas é esse o nome que traz em seus documentos, e, indiferente ao mau gosto paterno, tinha sonhos de vincular-se ao mundo fordista, da carteira, INSS e décimo-terceiro salário. Essa falta de sintonia com a pós-modernidade foi seu erro, e fez valer a mentalidade do século XIX: para o crime, seu castigo.
Dentro da mochila esquecida na van, estavam, também olvidados, a carteira e um currículo do assaltante (ou quem sabe jornalista. Vai que o currículo, que não li, embora não registre passagem por algum curso de Jornalismo, inclui alguma contribuição, com algum artigo, para o jornal da comunidade).
Os meganhas, que não leram Derrida, Habermas, muito menos Foucault, (e, por isso, não sabem que esse negócio de vigiar e punir é algo totalmente em desacordo com os paradigmas atuais do mundo novo ensinado nas escolas de comunicação), pois os meganhas leram o currículo do Éverton Cleiton e viram que, como currículo de um cara antenado, tinha endereço, e-mail e, quem sabe, até a página dele no Twitter. Bom isso, do Twitter estou inventando; sou jornalista, distorço tudo para melhor atender a meus interesses e do status quo, que posso fazer?
Os policias grampearam o cara. Arranjaram uma colocação para o nosso herói, mas na delegacia, no depósito de recolhidos pelo sistema. Onde já se viu levar currículo para assalto. Daqui a pouco vão reivindicar exigência de diploma para o ofício de bandido.
Dá pena. Éverton Cleiton, segundo a Folha, dizia no currículo que já foi ajudante de pintor, serralheiro e estoquista, e é um rapaz "educado, de fino trato" e tem "facilidade de trabalhar em equipe, muita vontade de crescer profissionalmente e disponibildiade de horários".
Pena que exijam formação acadêmica e especialização para exercício do cargo de ministro do Supremo Tribunal Federal.
Se tivesse bons amigos, sei lá, no Mato Grosso, com esse currículo e um cursinho técnico de Direito, tenho certeza de que Éverton Cleiton não faria feio na Suprema Corte.
Agora, com licença, que tenho de tirar a lazanha do forno, que já está queimando e tenho uma reputação a zelar.