
notei faz algum tempo que grande parte das histórias (se não todas) que tinha pra contar costumavam começar numa despreocupada garrafa de cerveja - ou mesmo de qualquer outra coisa -, daquelas que você SORVE pra relaxar & matar um tempinho, mas que, de repente, revela-se porta aleatória dentre muitas, para muitos caminhos possíveis, como se se o dono do bar me tivesse aberto outra garrafa senão AQUELA, tudo seria completamente diferente.
na sexta-feira, 7 de agosto, no entanto, ignorei essas coisas. tinha a crença ingênua de que ir tomar umas no bar não ia alterar em nada o curso dos meus planos - porque às vezes faço planos, para futuros bastante próximos apenas, pois até mesmo o ZIGUEZAGUEAR tem um norte para onde, errante, simplesmente VAI - e estes planos, a princípio, em nada combinavam com DESVIOS demasiadamente alcoólicos.
mas acontece.
ou melhor, não era nem pra ter acontecido: a coisa toda começa quando, horas antes de me sentar à mesa do bar, me decidi que não ia haver coisa alguma.
os planos: fazer o Itupava na manhã de sábado, 8, acampar no fim da trilha e chegar até Morretes no dia seguinte, de onde voltaríamos de ônibus.
MAS.
quinta-feira, 6 de agosto: excessos, multa & mais excessos
em poucas palavras, foi o seguinte: chamei amigos para festejar a gripe do porco sob meu teto. HEAVY DRINKING. um ou outro baseado parecia surgir via geração espontânea de bolsos e mangas quaisquer. produzíamos barulho considerável em horário inadequado. mas tem vezes que não há o que fazer: todo CAOS é necessário quando embalado por sorrisos e risadas. era o caso. e não seria eu que iria acabar com aquilo tudo. que gritassem mais, se fosse preciso. eu estava bêbado & não dava a mínima.
a noite, então, continuou na rua: marcha ébria & garrafas em punho, por uns 20 ou 30 minutos dos quais me lembro apenas de uns 5, e que CULMINOU num bar de JAZZ. a grande surpresa era que frente à banda havia uma cortina de cor clara e onde deveriam estar mesas & platéia, um grupo de garotas com vestidos exóticos formava uma roda e cantava coisas junto da melodia oculta, giravam para lá e para cá estalando dedos, batendo palmas, imitando instrumentos com belas vozes. coisa interessante. e, louco como eu estava, tinha algo de surreal. mas aí acabou, houve uma pausa e minha memória me trai: lembro-me de ouvir um jazz ao longe, quase como música ambiente, embora fosse mesmo uma banda no palco já DESCORTINADO. eu dormia numa mesa e havia uma garota no meu colo. acordei mesmo quando um velho qualquer mandou que ela retirasse meus óculos. retirou. xinguei os dois & fui pagar a conta. na calçada encontrei uma amiga (que se chama D.) passando mal. outro amigo, soube depois, vomitou tudo o que podia lá dentro. mas já estava melhor. colocamos D. num taxi e voltamos pro meu apartamento. alguns outros vieram andando. era 3 ou 4 da manhã e pretendíamos encerrar a noite, mas eis que outros 5 ou 6 amigos, que bebiam por aí, resolveram aparecer.
aí a bebedeira teve que continuar.
mais excessos, mais barulho & uma vaga lembrança de ter sido notificado via interfone de que estávamos nos divertindo demais - e, no dia seguinte, assinei uma multa. quando a bebida acabou, alguns se mandaram e outros se deitaram. não sei quantos dormiram aqui. mas tivemos que dormir em QUATRO numa cama de casal, enquanto o restante devia estar em situação parecida nos dois colchões de solteiro. ao meio-dia, um a um, foram indo embora. D.&C., casal de amigos, hermanos espaçonautas, foram os que sobraram por aqui. a ressaca nos pegou de jeito e passava das quatro da tarde quando resolvemos sair pra procurar um PF pra comer.
sem sucesso, é claro. acabamos numa dessas redes de restaurantes, único lugar com arroz & feijão àquela hora. foi ali, na mesa, que D. me perguntou se eu iria mesmo fazer a trilha com outros amigos. disse a ela que sim.
"você sabe quem vai, né?"
me disse. pensei por dois segundos. antipatias & cansaço. não valia a pena.
"então não vou."
as primeiras cervejas do dia
(ou: "foda-se, vou sim.")
já em casa, fumando um cigarro no escuro da sala, pus na balança os possíveis incômodos & as chances de me arrepender da minha decisão. a balança pendeu para este lado. não ia ficar em casa por causa de uma garota (aka M.) & um sujeito (aka N.) que, quando juntos, me enchem o saco. bastava mandá-los à merda e isto até poderia ser REVIGORANTE.
o telefone tocou logo após esta constatação. um sujeito chamado S. pedia que eu fosse buscá-lo no terminal do Guadalupe, pois J. (bom amigo & idealizador da coisa toda) prometera buscá-lo lá mas não atendia o telefone.
"tá bom, cara, mas QUEM é você?"
"estou em frente à Ultrafarma, com umas malas."
de fato estava lá. nunca o havia visto antes. viemos pra cá & trocamos umas palavras. J. ainda não atendia o telefone. eu estava com sono & bebia uma cerveja que alguém abandonara pela metade na geladeira. o silêncio incomodava porque iríamos passar os próximos dois dias juntos, conversas curtas e desconexas surgiam de vez em quando. amenidades.
finalmente J. liga no celular dele e diz que está num bar. uma cervejinha antes de ir não faria mal algum. no meio do caminho, cruzamos com um pequeno grupo misto de amigos & desconhecidos que vinham pra minha casa buscar uma garrafa de conhaque que sobreviveu à festa da gripe. voltamos, pegamos a garrafa e fomos todos pra lá, bebericando o DREHER.
o bar - minha segunda casa - estava cheio. sexta à noite é sempre assim. passava das 21h. J. dividia uma mesa com uma garota, o que justificava a incomunicabilidade. sentamos ali e o grupo do conhaque voltou para a grande mesa que ocupavam com outros tantos conhecidos.
N. também estava por lá, noutro canto, e disse que não ia conosco. é um bom sujeito, mas muito repetitivo. o conheci naquele mesmo bar, uns meses atrás. tomamos uns porres de juntos & etc., mas com o tempo fui me cansando. M., que iria sim conosco, provavelmente estava em casa & só ia aparecer às 5h30 da manhã do dia seguinte, como combinado.
sei apenas que a primeira garrafa veio tão rápido quanto se foi. e aí veio a segunda, a terceira, e você sabe como são essas coisas. às vezes ia de copo vazio interagir com os amigos do DREHER & conseguir uns dois dedos de bebida. também ia conversar com N. de vez em quando.
"vamos virar a noite?"
"não posso. vou fazer a trilha amanhã."
gostei de uma amiga dele e achei que poderia conseguir algo ao longo da noite, ainda que curta. pouco antes das 23h, deixei o bar e fui com J. ao mercado, ali perto, comprar umas bolachas, bananas, miojos & uma garrafa de cachaça para levarmos pro Itupava. a garota dele foi junto e eu voltei sozinho com as coisas. rolava um aniversário no bar, umas mulheres cantavam parabéns e um bolo surgiu do nada. N. e a amiga se sentaram por lá, e comentei com S. que não seria nada mal um pedaço de bolo. nos metemos na mesa e conseguimos uns pedaços. ficamos bebendo por ali. acabei perdendo a amiga de N. (vou chamá-la de A.) para o meu recém companheiro de trilha. entretanto, aquilo não me incomodou muito.
passava da meia-noite e o movimento ali foi diminuindo. decidimos todos que era melhor irmos para outro bar, ali perto também, e beber um pouco mais.
dei a chave pra J. e ele trouxe os mantimentos pra cá, disse que preferia dormir um pouco. já estava um pouco bêbado, também. sobramos eu, N., S. & A.: aquele que me incomodava, o até então desconhecido que ganhou a garota & esta garota qualquer que perdi pra ele, respectivamente.
um grande grupo.
a não-preparação para a não-ida
"e que tal um pó?"
porra, como fui perder uma garota dessas? topei. S. deu pra trás. N. segurava duas garrafas (é um bar desses que se bebe na calçada) e disse que não tinha muita grana. resolvi pagar a parte dele e juntamos 20 pratas. ela foi atrás da droga, FAREJANDO em algumas rodas ao longo da rua. foi conseguir só no final da quadra. aí bebemos mais sabendo que não haveria trilha nenhuma naquele dia.
acontece.
então fomos os três fazer a LIGAÇÃO noutra rua. ela preparava as carreiras no orelhão com a minha carteira da faculdade enquanto eu transforma uma nota de dois reais num belo canudo. fez OITO de tamanho razoável - o que atestava contra a qualidade do PRODUTO, vale dizer. fez as honras e fomos revezando.
"até que presta."
demos três tiros cada um e N., dois. beijou-o por nada e fez o mesmo comigo depois. estava de bom tamanho pra mim. S. nos esperava sozinho na frente do bar e não viu nada do que aconteceu.
tudo o que sei é que garrafas cheias apareciam na minha mão sem que eu gastasse um centavo sequer. conversávamos agitados na calçada oposta & íamos bebendo cada vez mais. vi um sujeito com quem eu tinha trocado duas ou três palavras ainda no outro bar caído no chão e tomando na boca uma JOELHADA de um homem na casa dos 40. corremos pra evitar os chutes seguintes. N. se desculpava pelo conhecido e eu dizia pro cara que aquilo tinha sido desnecessário. A. levou a VÍTIMA pro outro lado da rua enquanto seguíamos discutindo. antes que o homem e seus amigos resolvessem que também merecíamos umas porradas (o que quase aconteceu), encerramos a discussão. ao longo da madrugada, e por várias vezes, ele retornava com um amigo para tirar satisfações - ambos, diziam, eram agentes penitenciários e parecia que aquilo não ia acabar nunca. em verdade, estávamos todos bêbados & o agredido CHORAVA DE RAIVA num canto. finalmente, sabe-se lá por quê, acabou vindo se desculpar antes de ir embora e tomamos o resto de uma garrafa juntos.
A. nos avisou que o sujeito do pó ia se mandar também. gastei o resto da minha grana e conseguimos as últimas 10 pratas que o cara tinha. nova ligação. mesmo esquema. três carreiras. S. veio junto dessa vez, pra observar.
mais cervejas surgiram e fui conferir o relógio: CINCO DA MANHÃ.
resolvemos voltar porque J. devia estar acordando aqui em casa. no caminho, N. desembolsou inacreditáveis SETENTA pratas no cartão de crédito pra comprar cervejas e energéticos (e até um sorvete) num posto 24hs.
"você é um idiota. devolve essa merda."
"olha, sou EU que estou pagando. não tem problema."
então tá.
chegamos em casa às 5h30. J. ainda dormia. fumei um cigarro e me sentei num canto: o efeito da droga já tinha passado há tempos e todo o cansaço dos últimos dias e a embriaguez recente vieram feito um UPPERCUT que simplesmente me NOCAUTEOU.
J. andava impaciente pela casa dizendo que tínhamos que ir logo, que não podíamos demorar muito e tudo mais. eu assentia com a cabeça apoiada numa das mãos, resistindo para continuar sentado e não me deitar, e torcendo para que fôssemos pro meio do mato só no dia seguinte.
mas eu TINHA que ir. pus isso na cabeça, de algum jeito.
única saída possível: CAFÉ. bebi um copo inteiro de café puro. bebemos também umas latas de RED BULL. J. foi ao posto e voltou com uma garrafa de vinho cheia de álcool automotivo (para conseguirmos cozinhar no acampamento) e umas ampolas de GUARANÁ. tomamos aquilo também. aproveitei a PORRADA energética pra levantar num salto e ir arrumar minha mochila, o que fiz em dois minutos: enfiei a garrafa de cachaça enrolada num cobertor, uma bermuda, um par de meias, uma toalha de ROSTO (não fez sentido na hora, mas me foi útil depois), algumas coisas quaisquer e um isolante térmico de alguém que amarrei do lado de fora da mochila.
estava pronto pra ir.
M., a garota que ia conosco, por sorte não apareceu (e também não fomos atrás dela). por isso, achei que seria divertido convencer N. a entrar naquela roubada com a gente, só de sacanagem. e não foi difícil. ele não tinha mochila nem nada, então teve de levar as CERVEJAS & outras coisas. A., que não ia de modo algum, ficou surpresa com a movimentação toda.
eram 6h30 da manhã e estávamos no terminal do Guadalupe, entrando num ônibus que nos levaria até Quatro Barras.
ENFIM, o caminho do Itupuva
(ou: THE UNLIKELY JUNKIE TREKKER)
desnecessário dizer que vai contra toda e qualquer recomendação médica - e até mesmo contra o BOM SENSO - se meter a encarar uma trilha de OITO HORAS sem NENHUM preparo físico. também beira a estupidez fazer isso sem ter dormido & tendo enchido a cara na noite anterior. e, por fim, é completamente SEM NOÇÃO se meter numa dessas cheirado de COCA (que por si só pode considerada sem noção em QUALQUER ocasião).
mas foi exatamente o que eu fiz.
do trajeto de ônibus até o Itupava, nada de especial além do fato de que íamos bebendo cervejas e que eu não conseguia sentir sono algum, ainda que me sentisse cansado. S. parece ter cochilado um tanto e J. conversava com N., que achou por bem MIJAR ali mesmo, ônibus, dentro de uma lata vazia de cerveja. o chão molhou um pouco, a lata ficou num canto e não quero imaginar o que aconteceu após a primeira curva depois que saímos de lá. mas aí descemos no ponto final, o terminal de Quatro Barras, e pegamos outro ônibus, cujo nome já não me lembro e seguimos também até o final. praticamente todos que desceram ali fizeram a trilha também - um pessoal mais bem equipado e muito mais SAUDÁVEL.
há um posto do IAP logo no começo da trilha e é necessário preencher um cadastro antes de entrar naquela região. assinei como responsável pelos outros três e dei o telefone de casa (onde não havia ninguém) e o nome da minha mãe (que mora noutro estado) como contato em caso de algum IMPREVISTO. afinal, se conseguimos chegar até ali, era ÓBVIO que ia dar tudo CERTO.
eram 9h30 da manhã de sábado, um dia bonito de céu aberto, quando começamos a caminhada.
logo no começo remanejamos as CARGAS, que incluíam também duas barracas para duas pessoas. acendi meu primeiro cigarro e fui puxando a fila. o único arrependimento que tenho é que nenhum de nós portava uma câmera para registrar o percurso. o Itupava é um lugar muito bonito: segundo consta, era uma trilha indígena do século XVII, cujo calçamento foi feito por escravos, e que liga a região de Curitiba até a cidade Morretes. é, em verdade, uma grande descida pela Serra do Mar, ainda que o caminho serpenteie entre vales e riachos e tenha diversos ACLIVES íngremes e longos o bastante pra te roubar completamente o fôlego. após o primeiro deles, fizemos uma pausa e alcançamos um grupo saudável que saiu antes de nós. N. pediu que reduzíssemos o ritmo, porque já não aguentava.
"cara, isso aqui não é nada. temos ainda umas sete horas pela frente."
J. já tinha percorrido parte da trilha duas semanas antes. acamparam por três dias na primeira parte do percurso. sabia do que estava falando. troquei o jeans pela bermuda e me livrei da camiseta. mais uns goles d'água, outro cigarro e seguimos. N. arranjou fôlego e passou a puxar a fila num ritmo bem forte. ultrapassamos de fato o grupo que havíamos encontrado e alcançamos um outro, que fazia uma pausa na primeira ponte. até a Casa do Ipiranga, uma construção em ruínas que fica no cruzamento da trilha com a ferrovia de Morretes, isso se repetiu: alcançávamos um grupo de pessoas em alguma parada e saíamos depois deles, para daí ultrapassá-los de fato e deixá-los bem pra trás. até esta casa, aliás, a trilha não é muito pesada. o que vem depois, no entanto, é mata fechada, trilha estreita e pedras MUITO lisas e úmidas, além de banhados e obstáculos traiçoeiros. lembro-me de ter tomado sozinho uma das cervejas quentes antes de encarar uma subida demasiadamente longa, a partir da qual tivemos que ir deixando N. - que agora não tinha mais fôlego e estava arrependido - pra trás.
"se você cruzar com um cadáver meio cabeludo e de barba, fale pra ele se apressar."
e dei este recado para umas três pessoas pelas quais passamos - uma das quais retornava depois de haver desistido. quase duas horas depois, quando fizemos uma pausa mais longa e ele pôde nos alcançar, soube que os recados de fato foram entregues. o cacho de banana que eu trazia na mochila foi o que nos impulsionou morro acima num dos primeiros vales que chegamos. eu puxava J. e S. num ritmo rápido e às vezes nos alternávamos na liderança da fila. era curioso ouvir apenas o som dos passos, do vento e, por vezes, de algum riacho, mas NENHUM pássaro. no meu caso, quando tudo ficava ainda mais silencioso, ouvia também o som da cachaça balançando dentro da garrafa - um GULP GULP GULP como se alguém a estivesse esvaziando. e então eu andava mais rápido, pisava mais forte, pra me distrair dela e prestar atenção no caminho, pra ficar só na cerveja quente (que só eu bebi), pra não fazer merda. porém, quando o cansaço batia e o ritmo diminuía um pouco, lá estava aquele som de novo, me tentando - gulp gulp gulp.
só fomos reencontrar N. algumas horas depois, por volta das 15h, quando atingimos o Santuário do Cadeado para de fato descansarmos um pouco. após uma longa subida e uma interminável descida de pedras lisas, onde a concentração é tudo o que você tem pra não cair feio, o caminho DESPENCA até o segundo cruzamento com a ferrovia e tem-se uma vista fantástica do conjunto do Marumbi. ali no parapeito do Cadeado, e na falta de uma câmera, perdi longo tempo olhando para aquelas montanhas a fim de manter na memória toda aquela paisagem.
meus cigarros já iam acabando e as cervejas quentes estavam com N., que demorava demais pra nos alcançar. quando o fez, no entanto, foi algo engraçado observar um dos grupos, que acabou nos alcançando também, repleto de faces de reprovação e surpresa pelos meus hábitos BOÊMIOS em plena Floresta Atlântica. nem eu sabia direito (e ainda não sei) como havia chegado até ali fazendo tudo aquilo e sem estar morto feito meu colega, mas, ora, era apenas o que me dava vontade de fazer.
o entretenimento era ouvir a ladainha de N. sobre o quão arrependido estava de ter ido conosco e que tudo o que queria era estar em casa com seu cachorro. do Cadeado até o fim da trilha, seguimos mais ou menos juntos, sem muito distanciamento, numa descida interminável até uma estrada de terra: pra baixo, o Porto de Cima, pra cima, o acampamento do Marumbi.
fomos subindo.
descanso merecido
uma vez na estrada de terra, constatamos que estávamos completamente exaustos. ao contrário do caminho que havíamos deixado para trás, aquilo era uma apenas uma estrada com barrancos dos dois lados. e o sentimento com que a percorríamos também era diferente: queríamos apenas chegar LOGO e não havia mais nada de interessante para ver. acredito que eram quase 17h e a pressa se justificava porque deveríamos chegar ao acampamento antes do anoitecer. senti cãibra em ambas as pernas ao mesmo tempo, o que me obrigou a parar e PRAGUEJAR um pouco antes de continuar subindo até a estação Marumbi. paramos numa estação anterior para descansar e comer algumas bolachas, antes de entrar novamente no meio do mato por quase 1km até nosso destino, ao pé do Marumbi.
chegamos por volta das 17h30. uma placa informava que a trilha contava com pouco mais de 16km e previa cerca de 8 horas caminhada para o andarilho PADRÃO. não sei dizer quantos quilômetros separam o acampamento do fim da trilha, mas vencemos todo este percurso em aproximadas 7h30. ou seja: BEM RÁPIDO.
algumas barracas já estavam montadas no gramado de tamanho razoável, gente que percorreu outras trilhas ou que partiram antes de nós. nos acomodamos num canto, largamos as coisas e ficamos um bom tempo sem fazer nada, olhando pro chão e suspirando alívio & certa satisfação. ao lado, dois idiotas tentavam montar uma barraca e discutiam feito crianças. a fim de humilhá-los gratuitamente, montamos nossas duas barracas em alguns poucos minutos e voltamos a observá-los: depois de certo tempo e muita PIRRAÇA, estava em pé uma barraca algo DISFORME que caberia bem numa exposição de arte moderna. além do gramado, havia uma construção com banheiros para hombres y mujeres, com um par de chuveiros quentes cada, graças aos quais pude EXPURGAR suor & densas camadas de barro das minhas pernas. a toalha de rosto que levei, antes sem função, tornou-se toalha de banho e me quebrou um grande galho.
eu fumava um cigarro atrás do outro enquanto via a água esquentar lentamente sobre um fogareiro improvisado numa lata de atum cheia de álcool. N., no meio do caminho, decidiu que iria parar de fumar, então acabou me dando um maço de FREE quase cheio, que fui fumando pra guardar o único MARLBORO vermelho que me restava para quando a aquela porra toda acabasse. duas paneladas de três miojos depois, conversamos à luz do fogareiro que ainda queimava e, quando se apagou, pouco antes das 21h, fomos APAGAR nas barracas também. e embora fosse proibido beber por lá, TIVE de fazer as honras e justificar a presença daquela YPIÓCA na minha mochila, tomando algumas goladas na privacidade da barraca para dormir MELHOR.
trem das quatro
acordamos por volta das 9h, assim como boa parte dos outros mochileiros que já se espreguiçavam do lado de fora das barracas e - alguns - preparavam algo pra comer. resolvi fazer uma CENA na hora de abandonar meu abrigo e ir pra garoa de domingo quando notei, no dia anterior, que um pequeno grupo que vimos no começo da trilha também acampava por lá: eu usava uma bermuda e uma jaqueta aberta sem camiseta por baixo, e saí pro gramado cambaleando feito bêbado com um cigarro já aceso no canto da boca, resmungando BOM DIA para os que estavam próximos. junkie ranzinza no meio do mato. gestos de reprovação. sucesso.
guardamos nossas coisas, vestimos nossas mochilas e às 10h15 voltávamos para a estrada que nos levara até ali, dessa vez descendo por cerca de 10km até o Porto de Cima. uma vez lá, às 12h30, ao lado da ponte de ferro que passa sobre o rio NHUNDIAQUARA, ponderamos se iríamos a pé até Morretes - 8km pelo asfalto do acostamento - ou se ligaríamos para um táxi do tio de um sujeito com quem S. conversou no acampamento. ligamos. combinamos as 15 pratas e o sujeito apareceu alguns minutos depois num desses carros prateados de comercial de TV. foi o lugar mais confortável onde me sentara nas últimas 20 e tantas horas. largou-nos na frente de um restaurante de um conhecido dele, ao lado da rodoviária, onde finalmente pudemos comer comida de verdade.
nos arrastamos dali até o guichê da Graciosa, pra comprar as passagens de volta. gargalhei ao balcão quando a funcionária nos disse que os ônibus estavam todos lotados e que só teria vagas no das 20h. a expressão de frustração dos meus amigos fora impagável e, ainda que eu estivesse fodido também, era a única coisa que se restava a fazer.
já estivera em Morretes uma vez, talvez no fim de 2006, então guiei meus três companheiros até a estação de trem pra ver se conseguiríamos deixar a cidade sem ter de pedir carona pela estrada. morremos com 23 pratas cada um nas passagens, mas era a melhor saída. vagão 1, poltronas 45 até 48, às 16h. aí, foi inevitável:
não posso ficar
nem mais um minuto em Morretes
sinto muito amor
mas não pode ser
moro em Curitiba
se eu perder esse trem
que sai agora às quatro horas
só amanhã de manhã.
e fomos vagando pela cidadezinha, cantarolando estes versos sob céu nublado e temperatura agradável (ao contrário da última vez que estive lá, quando o calor estava insuportável e não havia sequer uma brisa). às 14h nos metemos num boteco, na esquina oposta da pracinha da estação de trem, onde bebemos algumas cervejas até a hora do embarque. o trem sai de Curitiba pela manhã e desce até o porto de Paranaguá; de tarde, é uma locomotiva na parte traseira que puxa o trem de volta, serra à cima, como se os vagões estivessem invertidos. e, por tudo que aconteceu, me parecia fazer muito mais sentido voltar pra casa de COSTAS, num TREM, do que no conforto monótono de um ônibus. e assim fomos.
após 50 minutos, o trem atingiu a estação Marumbi e da janela pudemos ver umas poucas barracas no acampamento & alguns dos mochileiros que acamparam conosco também acabaram embarcando. e aí fomos de vez, serpenteando as montanhas e, por vezes, tangenciando locais por onde havíamos passado no dia anterior. a viagem dura exatas três horas e desembarcamos, enfim, cá em Curitiba, às 19h.
N., menos arrependido & de fato decidido a parar de fumar, foi esperar a mãe num canto da rodoferroviária. nos despedimos e seguimos os três pelas ruas do centro. era uma noite bonita e eu estava feliz em voltar pra casa. me despedi de J. & S., que seguiriam pro terminal, e fui subindo as escadas com algum esforço até poder lançar minhas coisas num canto e suspirar profundamente - um misto de alívio, pesar & certo orgulho por ter feito essa merda toda.
minha casa estava completamente devastada pela festa de quinta-feira. não havia NADA limpo e nada pra comer. pra não pensar nisso, fui tomar um banho, um banho bastante demorado, e depois passei a revirar os DESTROÇOS atrás de algum flyer de pizzaria. encontrei um - e um maço cheio de Hollywood AZUL que N. deve ter comprado no posto. contei minha grana: 19 reais. exatamente o que me custaria. tamanho MASTER.
comi, fumei, dormi.
faria tudo de novo.
[ foto tirada por C., duas semanas antes. também passei por este local. ele me disse que o vira-lata preto sou eu. ]