não importa o quão cdf você foi em ciências: se você não seguiu carreira nessa linha, provavelmente já não se lembra do que aprendeu. sem contar que, se você tem mais de 25 anos, muita coisa já se descobriu desde o segundo grau - é nisso que se baseia o sucesso de canais de tevê como natgeo e discovery channel, duas inesgotáveis fontes de assunto do narghee-la.
a última novidade da programação científica da tevê fechada é "a grande corrida da vida". trata-se de um "tudo o que você sempre quis saber sobre sexo..." com pesquisas substituindo as piadas do woody allen: tem centenas de atores fantasiados de espermatozóides percorrendo cenários que equivaleriam, em dificuldade e dimensões, aos ambientes enfrentados por eles para chegar até o óvulo. tais cenas são combinadas com cientistas explicando o perrengue que os gametas masculinos passam na tentativa de se tornar zigoto.
a tarefa é muito mais complexa do que se imaginava.
pra começo de conversa, os espermatozóides que estão na dianteira ficam espremidos dentro do canal seminal do homem, aguardando uma ejaculação que os libertem. é uma situação tão claustrofóbica que nós, mulheres, até achamos que existe algum sentido quando um ou outro homem diz que vai passar mal se não transar com alguém. na verdade, é a pressão que os espermatozóides estão fazendo pra sair daqueles canais apertados! mentira, não acredito que homens precisam mais de sexo que as mulheres nem nada, mas que dá agonia ver tanto espermatozóide comprimido, esperando sair, isso dá.
daí o homem transa e eles finalmente são liberados. fim dos problemas, certo? errado, é o começo deles! os espermatozóides precisam passar da vagina para o útero através do buraquinho que fica no colo cervical, que não só é meio difícil de alcançar como todas as paredes são cheias de canaizinhos que dão em lugar nenhum, só pra confundi-los! ou seja, vários espermatozóides desorientados acabam ficando presos nesses canaizinhos e apenas uma minoria chega ao útero propriamente dito.
o útero, por sua vez, é tipo um campo de batalha da idade média, estilo coração valente. lá estão os sofridos espermatozóides, quilômetros de chão para percorrer até chegar às trompas de falópio (sem bússola nem guia de turismo), quando são atacados pelos anticorpos femininos! vocês acreditam?! o organismo da mulher interpreta os espermatozóides não como aliados da reprodução (algo pelo qual nossos corpos anseiam mensalmente) mas como inimigos infecciosos! sem contar quando um espermatozóide megacompetitivo resolve aniquilar um semelhante!
em suma: mulher é difícil mesmo quando se faz de fácil!
desnecessário dizer que, com todos esses percalços, são poucos os espermatozóides que chegam até uma das trompas. e mesmo 50% deles vai se dar mal no final, porque apenas uma das duas trompas libera o óvulo fértil.
em compensação, a metade de espermatozóides que acerta é premiada com um bálsamo de substâncias revigorantes, que os alimenta e os prepara para a reta final, que é a de quem entra primeiro no óvulo. tipo um final de semana num spa antes de jogar a final da copa do mundo.
a moral dessa história toda, é claro, é darwiniana: seleção natural em nível microscópico. se dá bem o espermatozóide mais saudável e sortudo. o organismo da mulher age no sentido de apertar os obstáculos. afinal, ela vai ter que aturar nove meses de loucura hormonal para premiar esse espermatozóide com a geração de um novo ser.
ele tem que valer a pena!
juntando essa dificuldade toda com os horrores do parto, eu fico muito intrigada como chegamos a sete bilhões de pessoas no mundo!