Distrito 9

| | Comments (0)

distrito9.jpg

District 9 (2009 - AFS)

O tiro do gato do roteiro de Terri Tatchell e do diretor Neill Blomkamp está na abordagem totalmente nova da chegada dos ET's ao nosso planeta. Eles não chegam agressivos com idéia fixa de escravizar, armas inimagináveis e tudo mais, muito menos são tolinhos facilmente adaptáveis. Não, eles simplesmente chegam, a espaçonave estaciona durante vinte anos sob o céu de Johanesburgo e os extraterrestres apresentam-se como um mero povo com seu grau de evolução, sua tecnologia e vão amontoando-se no tal distrito 9. Como qualquer outro povo isolado, jogado às traças, rapidamente o local transforma-se numa favela, eles reproduzem-se e passam a viver ao esmo. A relação com os humanos é conturbada, há preconceito, há desconfiança, as vezes algum confronto, porém contornável até que chega o dia em que as autoridades decidem removê-los de lá para um outro local mais afastado (exatamente como se faz com as populações mais pobres em áreas de mananciais ou de risco, ou quando pretende-se desapropriar para obras). A partir daí deixa-se de lado a ficção cientifica, a inteligência em fazer a correlação pobreza x extraterrestres e o que temos é um filme de ação, eficiente, agitado, cheio de promessas de inimigos que se unem, bem feito dentro da mesmice do gênero.

Coração Louco

| | Comments (0)

coracaolouco.jpg

Crazy Heart (2009 - EUA)

Remoendo novamente a mesma história do fracassado, sem rumo, julgando-se deixado de lado por todos quando ele mesmo fez as pessoas se afastarem. Assim encontra-se o cantor de country Bad Blake, sinônimo de decadência, fazendo shows alcoolizado em boliches no interior dos EUA. A mesmice oferecida pelo diretor Scott Cooper não leva o filme além de um sub-produto do gênero dos losers, o esforço convincente de Jeff Bridges não chega a causar nenhum remorso em chamar o filme de descartável, desnecessário. Considerar velha a história é um eufemismo terrível, chega do cinema retratando gente talentosa que trocou sucesso, família e amor, por uma garrafa de bebida e uma vida vegetativa até que "alguém" aparece e faça ascender a luz no fim do túnel. Aqui este papel é desempenhado por Maggie Gylleenhaal, e a atriz esforçada e carismática também pouco pode fazer com cenas tão esdrúxulas e corriqueiras. Meloso, tolo, o cúmulo do óbvio, nem o romance é convincente, até quando a grife Oscar vai nos atrair para reles produções picaretas?

Um Olhar do Paraíso

| | Comments (0)

umolhardoparaiso.jpg

The Lovely Bones (2009 - EUA)

Um filme de mau-gosto imensurável, primeiro porque os efeitos visuais em nada combinam com o tom da história sobre um brutal assassinato e estupro de uma menina de 14 anos. Segundo porque Peter Jackson esforça-se em criar um tom de fábula que nunca chega a vingar. Muito menos encanta antes do terrível crime na tentativa de inserir o público na década de setenta, os elementos culturais e o modo de se vestir estão lá, mas Jackson não acerta o tom em coisa nenhuma. Um acerto é ter no elenco Rachel Weisz, uma atriz que parece não errar o tom, e mesmo sem grandes cenas ela consegue ser convincente no papel da mãe que perde o rumo com a morte da filha, mas a grande atuação é a do marcante vilão protagonizado por Stanley Tucci, e suas obsessões pedófilas. No filme, a garota assassinada não vai ao céu, como em Ghost sua alma fica preso nesse mundo em que vivemos e ela acompanha dia-a-dia os fatos após sua morte, a crise familiar, toda a excentricidade de seu assassino, e principalmente todas as emoções e paixões que ela deixou de se sentir (refletidas no crescimento de sua irmã mais nova). Um Olhar do Paraíso não é um equívoco, mas sim um erro grotesco de alguém incapaz de compreender o tom e as necessidades que a história pedia, coisa feia Peter Jackson suavizando o chumbo.

Um Homem Sério

| | Comments (3)

umhomemserio.jpg

A Serious Man (2009 - EUA)

A camada que o reveste é a direção recheada de uma assinatura autoral dos irmãos Coen, num estilo de condução cerebral, engenhosa, sem perder seus toques de humor negro os Coen filmam com elegância, pena que filmam um objeto oco. A trama de um professor judeu consultando rabinos para encontrar o caminho após o pedido de divórcio da esposa ou discutindo dilemas morais contra um aluno estrangeiro que tenta suborná-lo não passa de um grande e irritante vazio. O estilo redondo dos Coen é desperdiçado por um personagem irreal, descartável, sem carisma, e o filme sua para eclipsar seus problemas (que surgem em cascata) quando de tantas fraquezas a série de acontecimentos negativos o torna ainda mais loser do que o aceitável. O vizinho irritado, a vizinha provocante, a falta de dinheiro, a mente fértil no roteiro pulveriza a história desse homem pacato trocado por um outro supostamente "sério".

Simplesmente Complicado

| | Comments (3)

simplesmentecomplicado.jpg

It's Complicated (2009 - EUA)

Acima de tudo privilegiando o humor, as comedias românticas de Nancy Meyers utilizam mais da comédia que a maioria dos exemplares do gênero, o amor é sempre tratado de forma melosa, adocicada, cercado de trapalhadas divertidas. Como história é um cacareco, um bagaço de cana chupado, mas é tão divertido vem uma Meryl Streep apaixonada pelo canalha do ex-marido, ver Alec Baldwin e um feroz apetite sexual e Steve Martin no papel de um arquiteto certinho, ressabiado, um romântico introspectivo. Toda a lorota de relações entre pais e filhos, entre os meandros do triangulo amoroso e os sentimentos de culpa são puro veículo para preencher o roteiro, o que vale mesmo é a diversão como na cena do notebook ou do saguão do hotel. Viva as aventuras sem idade, viva o amor em qualquer tempo, viva a experiência aliada ao coração palpitando, se os personagens têm algum requinte ou não, se nós mesmos complicamos demais nossas vidas, pouco importa, no filme de Nancy Meyers o que vale é se divertir com bons atores e algum desenlace amoroso.

preciosa.jpg

Precious (2009 - EUA)

Chega a ser um filme irritante, no papel da coitadinha uma negra gordona escorraçada pela mãe, maltratada e sem amigos na escola, uma garota sem perspectiva, atrasada, nascida para ser posta de lado. O diretor Lee Daniels usa e abusa de uma temática "filmes de negro" como quem quer alavancar uma discussão de que apenas os negros passam por tal tipo de discriminação. Sendo que todo aquele sofrimento seria sentido e exposto por qualquer um que estivesse em posição parecida (aparência física, comportamento, nível escolar, classe social), um discurso de anos passados que já não se encaixava num planeta tão preocupado com o meio-ambiente e tantas outras questões, uma adolescente rejeitada não parece ser questão racial quando se discute equiparações salariais, quando Obama é o presidente dos EUA. Fora a bandeira levantada, o filme irrita pelas cenas "supostamente" explosivas na relação mãe-filha, Mo'Nique levou um Oscar de coadjuvante por fazer cara de mal, berrar e jogar coisas na filha. Enfim, Preciosa insiste numa tecla batida e rebatida, se pelo menos tivesse competência para tratar do tema, mas não, sobrevive da discussão racial enquanto perde-se numa história de mãe abusando financeiramente da filha, ou de uma escola especial para alunos problemáticos que de tão estranha soa surreal. Ainda por cima aparece uma Mariah Carey sofrível em cena.

De Oscar a Coldplay

| | Comments (0)

oscar2010.jpg

Oscar e Coldplay

Como não poderia ser diferente, o assunto é Oscar. E neste ano de 2010, por mais que as indicações fossem pulverizadas em 10 filmes (um pior que o outro na grande maioria dos que ocuparam as vagas infladas), você tinha que optar por um partido. PT ou PSDB, não, Avatar ou Guerra ao Terror (sem querer fazer qualquer associação a direita ou esquerda como alguns da imprensa fizeram, muito menos a "cinema comercial" x "cinema autoral/independente"). Ou você vislumbrava-se pelo 3D e todo o poderio técnico de efeitos especiais (de um filme clichê que apenas repagina outros filmes de imenso sucesso), ou escolheria algo mais tangível e ainda vivo (como a ocupação americana no Iraque que parece não ter mais fim). O que fez a academia é simples, eles são reis em reconsiderar, em compensar, e outros equívocos que jamais premiam os reais merecedores dos prêmios; por isso optaram pelo bom filme Guerra ao Terror, que sim é muito superior a Avatar, só que a premiação soa muito mais como escolhemos-o-filme-que-vai -representar-a-Guerra-no-Iraque. Assim a Academia fecha uma história que começou lá no governo Bush, quando da invasão que foi repudia em massa por atores e demais participantes da industria cinematográfica, todos mostraram-se amplamente contrários à invasão, e agora no tempo de Obama é hora de eleger o nosso filme, nosso símbolo. Isso talvez vá representar uma diminuição na quantidade de filmes do tema (o que é ótima notícia já que houve alguns filmes simplesmente terríveis, vide o do Paul Haggis), ainda assim injusta já que também houve filmes melhores e de cara Redacted de Brian de Palma brilha como o grande filme da Guerra do Iraque. Privilegiando um filme melhor que o arrasa-quarteirão rei absoluto das bilheterias a Academia mostra que se vende a muitas coisas, mas não às estatísticas de bilheteria, se não seria fácil e todo ano davam o Oscar ao campeão de bilheteria.
O que eles não conseguem é realmente premiar o melhor filme, dessa vez foi Bastardos Inglórios e seu diretor Quentin Tarantino os injustiçados. Tudo bem, enquanto muitos daqueles filmes serão completamente esquecidos da memória, o filme de Tarantino será mais um inesquecível que você assiste quantas e quantas vezes estiver na TV. De muito representativo a vitória de Bigelow em direção, quebrando assim o tabu, abrindo espaço para que os melhores sejam escolhidos daqui em diante, seja qual for o sexo. Sua carreira sempre à margem da grande indústria coloca agora seu nome numa linha de frente. A categoria que mais me interessa é de Filme Estrangeiro, e nessa concorriam, por exemplo, o filme que mais aguardo este ano (O Profeta), um dos meus cineastas preferidos (Michael Haneke), e o filme que me encantou e torci por sua vitória (o incrível O Segredos dos Seus Olhos), que se faça justiça ao ótimo cinema argentino.
Fugindo um pouco da polêmica Avatar x Guerra ao Terror, o que era aquela cara de mau-humor do George Clooney, que coisa estranha. E o esquecimento de Farrah Fawcett nos que se foram no último ano. Pelo menos foi digna a homenagem a John Hughes, diretor que marcou minha geração, que nos prendeu muitas tardes em casa sorrindo e nos identificando com personagens complexos, inteligentes e perfeitos sinônimos da década de 80. A festa ficou melhor sem música, ganhou seu momento Domingão do Faustão com aqueles depoimentos desnecessários aos atores e atrizes indicados (tinha gente lá que não tinha o que dizer), e por fim premiaram a dupla de atores que cabe perfeitamente no perfil Oscar de homenagem com um prêmio gente que eles acreditam que nunca terá outra chance de indicação (mas isso só o tempo dirá).


Antes do Oscar teve no Morumbi o show do Coldplay, primeiro que bagunça para entrar, a banda cantando seus hits e ainda havia uma fila enorme do lado de fora (não sei como a produção não se atenta a esse tipo de coisa, quer dizer sei sim, eles não tem a capacidade de tirar do caminho onde irão cruzar mais de 40 mil pessoas um monte de catracas, imagina se atentar na fila e atrasar alguns minutinhos do show). Com isso entrei na pista no meio de Yellow, e aquele visual amarelo e a energia da música trouxeram uma excitação que não durou muito tempo. O som muito baixo, mas tão baixo que chegou-se a ouvir muitas vaias do pessoal da arquibancada que não conseguia ouvir. Algumas das músicas do disco novo não empolgam, Coldplay tem um quê de Radiohead em algumas canções, mas sempre fica no quê e a banda também não parece cativar o público resultando num show comportadinha que dava p/ curtir sentado mesmo (exceção é claro a Viva La Vida quando Chris Martin levantou o Morumbi e arremessou-se ao chão nas últimas frases), outro grande momento foi Shiver acústico (sorte minha que estava bem perto do palquinho, deu para aproveitar bem), a chuva de borboletas coloridas em Lovers in Japan criou uma linda atmosfera mas quando tocou The Scientist é que Coldplay mostrou q eu veio. Gente emocionada, uma canção embalado a multidão, um momento inesquecível que fez tremer muita gente, e cada frase na voz triste de Chris Martin parecia doer no fundo da alma "Nobody said it was easy / It's such a shame for us to part "

Oscar 2010

| | Comments (0)

avatar_guerra_div.jpg
imagem roubada do Estadão


Oscar 2010

Bom, a festa já está marcada com os amigos, os trajes escolhidos, o prosecco está gelando, os filmes já foram assistidos (ou a grande maioria deles), agora é esperar pelos Oscars divididos por Avatar (eca) e Guerra ao Terror madrugada a dentro e se divertir com os comentários em grupo. Poderia fazer como todo mundo e postar ou os prováveis vencedores ou os meus preferidos. Vou fazer diferente, é duro ficar escolhendo numa lista que você não concorda com nenhum ou que você não assistiu a todos os concorrentes (faltaram 2 de Filme Estrangeiro e mais um filme ou outro que recebera indicações para completar a lista), então vou listar os filmes em minha ordem de preferência, entre todos os que foram indicados (seja qual for a indicação, já que vários bons filmes ficaram de fora dessa lista estapafúrdia de 10 filmes). E vamos a eles:

Bastardos Inglórios****
O Segredo dos Seus Olhos****
A Fita Branca***1/2
Amor sem Escalas***1/2
Invictus***
Direito de Amar***
Guerra ao Terror***
Nine**1/2
Educação**1/2
10º O Mensageiro**1/2
11º Distrito 9**1/2
12º Up - Altas Aventuras**1/2
13º A Teta Assustada**1/2
14º Avatar**
15º Sherlock Holmes**
16º Preciosa*1/2
17º Star Trek*1/2
18º Um Sonho Possível*
19º Um Homem Sério*
20º Um Olhar do Paraíso*

Direito de Amar

| | Comments (0)

direitodeamar.jpg

A Single Man (2009 - EUA)

Gosto da obsessão estética desse primeiro trabalho de Tom Ford como cineasta, os impecáveis trajes de cada um dos personagens (como era de se esperar), as nuances de cor (e suas mudanças dentro de cena), a sutileza da trilha sonora muito presente, a fotografia como um todo (alguns planos fechados no pé ao levantar-se da cama ou outras pequenas argúcias corriqueiras que fazem a diferença). Tudo se ajeitando para uma tradução de solidão sentida pelo personagem de Colin Firth, lentamente descobrimos que sua tristeza latente é oriunda de um acidente, o professor universitário sofre a dor da perda a cada inspirar de seus pulmões. Em sua melhor amiga (Julianne Moore, ninguém representa melhor estas décadas do que ela), encontra novo foco de solidão, uma relação ambígua, calorosa, ressentida, bebem e dançam para abafar mágoas (ao som de Stormy Weather com Etta James nos vocais eles oferecem um momento inesquecível). "Uma relação verdadeira" deve ser a citação mais sutilmente preconceituosa do cinema. Há realmente pequenas preciosidades como a cena do telefone, tudo tão delicado e elegante, e triste. Da amargura sem fim há discursos blasés, filosofias superestimadas, e uma nova esperança que não segue tão bem conduzida quanto o restante, ainda assim Tom Ford apresenta muito bem toda a capacidade de um homem em sofrer a perda de um amor.

Um Sonho Possível

| | Comments (2)

umsonhopossivel.jpg

The Blind Side (2009 - EUA)

Esperar pelo pior é um problema, porque ainda pode ocorrer de você subestimá-lo e vir algo ainda pior do que o esperado. Eis o filme de John Lee Hancock, a sem sombra de dúvida bonita história verídica de solidariedade, amor e tantos outros belos sentimentos que transformou a vida de um garoto negro jogado às traças num respeitado jogador de futebol americano, nas garras do cineasta não alcança nem ares de fábula resultando apenas num conjunto de clichês e cenas que muito aproximam-se com uma novela das oito brasileira. Cenas de draminhas e diálogos pobres, ausência total de um quê cinematográfico que fuja do óbvio e a preocupação única de conduzir a narrativa, contar a história, como se ela resultasse sozinha num filme. O filme é tão medíocre que até criticar é difícil, e tentar alçar o desempenho (correto, sem afetações, porém uma sub-Erin Brockovich) de Sandra Bullock a algo digno de prêmios e elogios é quase um sacrilégio. Não passa de uma jarra de água com açúcar, história da Disney para adolescentes, usando dos clichês para um público que o própria filme julga incapaz de outra linguagem mais sofisticada.



v e r b e a t b l o g s

Michel Simões

  • 31 anos, cinéfilo, teimoso, assiste 200 filmes por ano e acredita ter uma vida quase normal.

    E-mail

    assine o feedFeed RSS