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Fargo (1996 - EUA)

Os irmãos Coen levam até as últimas conseqüências uma decisão errada, e o buraco negro parece não ter fim depois que Jerry Lundegaard (William H. Macy) coloca em prática a genial idéia de sequestrar sua esposa para arrancar do sogro o dinheiro do resgate. Tudo planejado de maneira tão certinha quanto amadora que só um loser como ele seria capaz. Mas o filme dos Coen não está exatamente sustentando nessa esfera, a história transcorre com o humor negro e sempre gélida e por vezes desprezível visão dos cineastas.

A riqueza de Fargo está nas entrelinhas, na caracterização esplendida dos tipos interioranos dos EUA, nos milhões de "Yeahh" que os personagens repetem, na vida pacata evidenciada a cada cena (por mais que o segundo anterior tenha sido aterrorizante como se nada abalasse a tranqüilidade da rotina de cada um deles). Nesse contexto a figura chave é a delegada (Frances McDormand) e toda o universo à sua volta, seus parceiros, seu marido, o antigo colega de escola, com esse punhado de personagens os Coen fazem de seu humor negro um poderoso retrato dos rincões de um país despreocupado com o que estiver à margem de suas mesquinhas vidinhas. De resto, toda a violência bizarra e sanguinolenta, os personagens esquisitões e asquerosos, farão parte do universo que os diretores criam a cada filme.

Veja SP - online

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Semana passada estava viajando e por isso o blog ficou sem posts, e também não pude destacar, mas foi muito legal que o blog da Veja SP tenha destacado a Toca do Cinéfilo e também o blog do meu amigo Chico Fireman como os blogs da semana (já tinhamos aparecido por lá na época da última Mostra SP).

Segue o link:


E falando na Vejinha está começando o Anima Mundi 2010 e eles prepararam umas reportagens interessantes, vale a pena uma olhada, segue links também:

Link 1 - o que você não pode perder no festival

Link 2 - entrevista com Alê Abreu, que criou a vinheta deste ano do Anima Mundi

Link 3 - home com todas as matérias

Adeus Dragon Inn

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Bu San / Goodbye, Dragon Inn (2003 - TAI)

Retrato de nossos tempos, mais uma sala de cinema fecha suas portas, na platéia meia dúzia de gatos pingados, poucos ali para realmente celebrarem a derradeira sessão. Entre a imponência das poltronas vermelhas vazias, homens mais interessados em parceiros sexuais, a faxineira manca apaixonada pelo projecionista que está sempre muito longe dela. A chuva cai, somente dois curtos diálogos durante todo o filme, um silencio observador em cada canto daquela enorme construção de paredes mal-cuidadas, goteiras, deterioração e decadência.

Meros elementos enriquecendo a força dos planos de Tsai Ming-Liang, a potencia narrativa é a verdadeira propulsora dessa melancolia fotografia manchada de um lugar prestes a morrer esquecido na memória dos freqüentadores. Se ao final, o longo plano focalizando o silencio e as poltronas vazias parece ecoar toda a dor daquele local que embalou tantos risos, amores, dramas e sentimentos conflitantes, são os pequenos ambientes, o staff, e a maneira cirúrgica com que Ming-Liang e suas obsessões estéticas promovem um silencio no coração do público que vê aquele cinema (mal-assombrado?) fechar suas portas num triste e vazio adeus.

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The Last Picture Show (1971 - EUA)

Encravado numa cidadezinha dos EUA estão os personagens do filme de Peter Bogdanovich que causou frisson em Hollywood como primeiro a retratar a vida monótona, desgastada, a juventude de nenhuma perspectiva, as mulheres renegadas a papel secundário nos casamentos, preconceitos e desesperança. Nisso tudo há o cinema, refugio para casais de namorados, para reencontros de velhos amigos.

Bogdanovich mostra o Texas árido como local inóspito cuja única fonte de vibração é a linda e espivetada Jacy Farrow (Cybill Sheperd uma lolita linda, estonteante), desinibindo-se para o sexo, abalando corações, enquanto em sua grande maioria os personagens agem de forma mecânica, comportamentos pré-estabelecidos e rígidos. De resto um ranço dos tempos de western, uma herança desprendendo-se aos poucos no cotidiano dos cidadãos, o contraponto entre os jovens inquietantes que ou partem para o exército ou acostumam-se com o pacato e inóspito e os adultos impregnados dos conceitos do passado

Pai e Filha

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Banshun (1949 - JAP)

Noriko (Setsuko Hara) anda de bicicleta com o assistente de seu pai, numa cena linda focalizando os dois a certa distância, temos sensação de um flerte. O pai atina para a possibilidade de casar a filha com seu companheiro de trabalho, ela ri ingenuamente: "ele está noivo, pai". Noriko não guarda o sonho de todas as mulheres, dedica-se a seu pai com o afinco que as mulheres japonesas dedicavam-se a seus maridos à época, não vê diferença entre o pai e um marido. A sociedade é impiedosa, seja pelos olhares da vizinhança, pelos comentários da tia e de sua melhor amiga. Novamente Yasujiro Ozu e seu cinema pacato de diálogos fúteis e nada elaborados tratando das minúcias de uma cultura japonesa conservadora, de uma época pós-Segunda Guerra, de minúsculas influências ocidentais enquanto as tradições permanecem cultivadas.

O pai tem um plano, dentro daquele estilo paciente e discreto ele planeja o casamento da filha, sem forçar a barra, mesmo que para isso traga uma tristeza momentânea e algumas saias-justas que de alguma forma possibilitam a Noriko abrir os olhos a o que se espera dela. E nesse ponto, nada se equipara à sequencia no teatro, o ciúmes, o vislumbre dos olhos (em casal) da sociedade para sua solteirice beirando os trinta, a dor da percepção, o caminhar pela mesma rua a certa distancia do pai. Não é um filme só sobre essa relação pai-filha, ou sobre a necessidade de seguir as regras da sociedade, é também um filme sobre amadurecimento.

Svjedoci

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Svjedoci / Witnesses (2003 - CRO)

Às vezes encasqueto com uns filmes que nem sei porquê. De onde raios tirei tanto interesse por assistir esse filme completamente desconhecido que teve algum destaque no Festival de Berlim de 2003? Falta de explicação à parte, o filme do diretor croata Vinko Bresan é um daqueles multivisões de um mesmo fato, com roteiros pouco elucidativos além das poucas peças do quebra-cabeças que cada nova visão do fato apresenta (sim, assistiremos várias vezes as mesmas cenas, as mesmas falas, porém os cortes espertos ajudam a dar dinamismo). A história sobre a guerra na região dos Balcãs que culminou com a divisão da Iugoslávia em vários países aponta o ódio entre Servios e Croatas, o que era um plano de três amigos militares croatas para assustar um vizinho Sérvio irritante, transforma-se num crime com uma testemunha (a filha pequena da vítima). Bresan reconta a guerra sob a visão de uma família, nos traz para dentro do cotidiano croata de flagelo, e de uma vida militar sufocante, um filme que merece atenção.

Villa Amalia

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Villa Amalia (2009 - FRA)

Na maioria dos casos que conhecemos, o mundo de uma mulher (de um homem também) desmorona quando se descobre que o marido tem uma amante. Ann o segue, vê o beijo à porta da casa, e sim seu mundo desmorona. Ou para ser mais exato, implode. Essa é a diferença crucial que faz de Ann (Isabelle Huppert) uma pessoa diferente, o reencontro com um amigo da infância é momento tão inoportuno será arma ao seu favor, alguém tão distante de sua vida até aquele momento (principalmente daquela relação que está prestes a terminar). Benoît Jacquot usa de cortes bruscos, algumas cenas terminam antes da ação, a sensação é de que algo mais se desenvolve e não estamos vendo (algo irrelevante, porém algo mais).

A força de Ann e do filme está nessa característica própria dessa mulher forte que foge de todos os clichês que a vida lhe reserva. O marido pede desculpas, tenta recomeçar, o velho-novo amigo que lhe serve de muleta tenta apaixonar-se por ela, todos a sua volta discordam desse desapego que Ann esboça (largar profissão, vender bens e sumir) a todo que construiu. Ela simplesmente parte, e desfaz de tudo que teve até aquele instante, é mais que um recomeço, um verdadeiro reboot. Nesse momento entra em cena a Vila Amalia, um pequeno lugar esquecido da Itália, onde não se busca perguntas e nem respostas, onde o tempo passa a seu tempo e Jacquot mostra que uma mulher que não age por clichês pode encontrar novos caminhos.

Serbis

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Serbis (2008 - FIL/FRA)

Filme painel a cerca de uma família vivendo em torno de um fuleiro cinema pornô (há algum que não seja?), um pouco filme de Robert Altman, um pouco Adeus Dragon Inn de Tsai Ming-Liang. Entretanto, Brillante Mendoza conduz essa teia repleta de pequenos e minúsculos personagens sob a ótica do submundo pornográfico filipino, enquanto a matriarca passa o dia resolvendo pendências judiciárias (o filme acompanha parte de um dia apenas), filhos, sobrinhos, genros e demais familiares (um cabide de empregos) têm seus pequenos dramas retratados.

São relações de infidelidade flagradas, gravidez indesejável, e uma série de problemas que normalmente atacam a camada mais pobre da população e aqui ficam mais evidenciado pelo convívio com a prostituição e tráfico que invade desde o saguão do lindo edifício até a própria sala de cinema que mais funciona como ponto de encontro para prostituição. Isso sem falar na fétida situação de cada cômodo, Mendoza abusa dos planos fechados e acentua a sensação de desconsolo do lugar a ponto de sentirmos na pele o odor de um banheiro, ou o desagradável das paredes pichadas.

Dentro desse panorama caótico que futuro poderia almejar essa família? Jovens e adultos, casamentos esfacelados ou namoros juvenis inconseqüentes, à beira de um submundo retratado de maneira contundente e contígua por Brillante Mendoza (chama atenção a forma como filma o espaço, com que usa os ambientes, sensações de paredes imensas, de halls gelados, de quartos claustrofóbicos), vividas que cruzam o tempo sem qualquer direção.

Tudo Pode Dar Certo

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Whatever Works (2010 - EUA)

Demorei dias após tê-lo assistido para sentar à frente do computador, não queria ser contaminado com a impulsiva necessidade de transcrever diálogos, de recuperar algumas falas, não seria justo com o próprio filme e com a genialidade desses momentos. Eles não estão lá somente a enriquecer, a mostrar o quanto Woody Allen é capaz de divagar os conhecimentos de sua experiência de vida, suas filosofias (empíricas ou não), sua particular visão de mundo e sociedade. Não, no fundo eles são a própria personalidade do diretor, que em tantos e tantos filmes interpretou esse personagem inteligente, crítico, hipocondríaco e com muitos outros etc; e outras vezes optou por alter-egos como o caso de Larry David.

E mais do que nunca, este é um filme sobre o otimismo do maior dos pessimistas, praticamente uma negação a boa parte do que prega Allen em discursos verborrágicos. E porquê? Talvez Allen tenha percebido que nem tudo pode ser apenas racional, que as coisas simplesmente whatever works, por isso que o genial físico indicado ao Nobel e dono de uma visão tão peculiar de mundo contraria seus discursos (apenas por tempo determinado) em detrimento a doçura de uma sulista jovem e ingênua que simplesmente entra em sua vida. Brincando com o amor e suas possibilidades mais inimagináveis, o filme expõe esse personagem tão bem construído com suas manias a um lugar comum de que discurso e vida real não combinam, e quando acontece o óbvio é que entra uma veia extremamente otimista de quem acredita que o amor é sim a estrada de asfalto esburacado que transmite boas vibrações enquanto você a cruza.

Princess

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Princess (2006 - DIN)

Um padre (ou missionário, whatever) caminha pela rua à procura de um endereço. Encontra, entra na casa e segue entrando até se deparar com uma cena que o perturba uma mulher fazendo sexo com três homens, e uma equipe filmando. O diretor Anders Morgenthaler realiza um estranho jogo entre animação em 2D e cenas filmadas (no melhor estilo vídeo caseiro). Conta a história de um religioso deixando sua vocação para cuidar da graciosa sobrinha de cinco anos e vingar a morte de sua irmã. Seremos arremessados ao submundo da pornografia, dos bordéis, enquanto o protagonista transforma-se num vingador sanguinário.

A tosqueira das cenas jorrando sangue flerta diretamente com as cenas de vídeos gravados perfazendo flashbacks que explicam o caminho pela qual a irmã entrou nesse mundo da pornografia, inclusive é o irmão quem filma tudo quando ainda eram jovens. O filme vive nesse vai-e-vem também na relação tio-sobrinha, é tudo explosivo demais, fora essa transformação em serial killer de alguém que estava prestes a usar batina, animação para quem tem estomago e privilegia mortes gratuitas sem que o anexo tenha seu espaço.



v e r b e a t b l o g s

Michel Simões

  • 31 anos, cinéfilo, teimoso, assiste 200 filmes por ano e acredita ter uma vida quase normal.

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