O Mensageiro

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The Messenger (2009 - EUA)

Soldado ferido na Guerra do Iraque é destinado ao trabalho de informar familiares sobre a morte de seus entes na guerra. O exército considera que a informação deve ser dada ao vivo, por militares, e num curtíssimo espaço de tempo antes que a CNN ou algum site da internet chegue primeiro aos olhos dos familiares. Havia dois caminhos a percorrer depois de desenvolvida sua premissa dolorida e angustiante, a opção do filme dirigido por Oren Overman foi infelizmente a mais óbvia dentro do tema, optando pelo desequilíbrio dos ex-combatentes, pela dificuldade de adaptação e pelas feridas que parecem nunca curar-se. Sem exceções, as cenas em que os militares batem à porta das casas e transmitem a triste notícia causam assombro e destruição, cada um recebe a seu modo, sempre com uma tristeza sem fim. Esse mar de infelicidade refletido nos homens frustrados com o horror da guerra, com suas vidas em frangalhos após terem largado tudo para combater, são ecos dentro de almas que mais parecem queijo suíço, estatelados pela solidão, pelo abandono, pela falta de perspectiva. Um romance torto que não engrena, a perda do bom-senso, no fundo Overman (ex-combatente também) justifica comportamentos.

Estamos Todos Vivos

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Bokura wa minna ikiteiru (1993 - JAP

Um ser tão estranho este filme que não é tarefa fácil trilhar um raciocínio, primeiro pela disparidade do seu último trabalho (A Partida, vencedor do Oscar de Filme Estrangeiro) e essa comédia rasgada e debilóide que Yojiro Takita dirigiu no início da carreira. Não chega a ser um desperdício, dentro do conjunto de absurdos há elementos de crítica social (principalmente voltando-se à política expansionista do próprio Japão) que funcionam muito bem no primeiro terço do filme. Num país fictício perto de Bangladesh vivendo de um golpe militar, duas construtoras japonesas disputam a licitação para construção de uma ponte. A podridão do jogo político e os retratos estampados da pobreza local não parecem tão disformes dao humor tosco (divertido) e nada criativo. Eis que surge um novo golpe de Estado e o filme descamba para caminhos absurdos, hasteando a bandeira do boboca e causando raiva naquilo que deveria ser o ápice do filme (a barganha do rádio). É tudo tão tosco e pobre de argumento que diverte, é verdade, mas de uma maneira onde o riso vem do ridículo e não do realmente engraçado.

Invictus

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Invictus (2009 - EUA)

O novo filme de Clint Eastwood tem apanhado mais que a Geni da música do Chico, as vezes custo a acreditar com tamanha perseguição (mas quem sou eu se tenho grandes ressalvas a tantos filmes adorados dele como Gran Torino, A Conquista da Honra e Cartas de Iwo Jima, só para ficar nos recentes). Invictus faz referência a um poema que durante grande parte dos 27 anos de encarceramento, Nelson Mandela revisitou-o com um mantra para encontrar forças necessárias para superar o apartheid e a cela minúscula onde viveu por tantos anos. Dali para a presidência da África do Sul, a promessa de construção de uma nação. Num trabalho precioso de Morgan Freeman, Mandela é encarnado como um sujeito amargurado e extremamente sensível e educado, não só na preocupação de chamar cada um pelo nome, como na predisposição de ser tratado, sim como um líder, mas nunca como um deus que devesse ser servido por súditos. O discurso do filme tem seu lado piegas, Clint Eastwood prova filme após filme ser um grande contador de histórias com seu ritmo pacato, com suas obsessões doloridas e personagens que resguardem algum amargor (nisso Mandela dialoga com o solitário rabujento de Gran Torino). A admiração pelo chefe de estado chega a momentos enfadonhos, até demagogos, pouco importa porque a força do filme está em outro lugar. Em um golpe de sabedoria incrível Mandela empenha-se em transformar o símbolo máximo do esporte (para os brancos sul-africanos e consequentemente símbolo de apartheid) em orgulho nacional, numa forma de unir o país (e nisso o esporte é ferramenta perfeita). A Copa do Mundo de 1995 de rugby, jogada na própria África do Sul, é transformada por Mandela num campo de batalha ideológico de união de uma nação, de unificação dos povos que se odiavam até ontem. E Clint emociona com uma percepção incrível dos sentimentos e moções que o esporte oferece, mesmo sem entender de rugby, só com o cheiro de suor dos jogadores, as sequencias violentas dos jogos e toda a emoção da torcida, temos um filme de impacto, de alto índice de adrenalina. O hino cantado na final, a vibração em cada ponto, em cada try, a superação, estamos falando de um momento único onde a influencia de um homem mudou os rumos de um país.

Onde Vivem os Monstros

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Where the Wild Things Are (2009 - EUA)

Encontra-se na adaptação do livro infantil homônimo de Maurice Sendak, tudo o que se podia esperar de Spike Jonze. Uma direção levemente indie com câmera tremulante e diversos planos fechados, cortes rápidos e ritmo acelerado de narrativa, e principalmente uma capacidade invejável de mergulhar no universo infantil. Não se trata estruturalmente de um filme para crianças, mas sobre crianças e todas as aflições, medos, inseguranças e acima de tudo autojulgamentos de sua maturidade. O jovem garoto que se julga incompreendido pela família e se depara com um grupo de monstros numa floresta improvável sente na pele a vida adulta, as autoridades e responsabilidades da liderança, as diferenças de ego e comportamento, mesmo que entre momentos de diversão. A fofura dos monstros felpudos pode dar lugar a fúria e agressividade, e o menino fantasiado de lobo divide-se entre medo e insegurança aprendendo que discordâncias e irritações também são formas de amor. O mundo imaginário se torna real e com ele toda a fantasia cai por terra quando a realidade foge aos contos de fada, Spike Jonze capta isso oferecendo a atmosfera honesta da autovisão infantil e suas limitações comportamentais.

Nine

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Nine (2009 - EUA)

O fabuloso filme de Fellini (Oito e 1/2) virou musical na Broadway nos anos 80, agora chega aos cinemas uma adaptação da Broadway sob direção de Rob Marshall. De cara, fica nítido, que é tudo muito Chicago, Marshall não é capaz de se desvencilhar de seu filme anterior em estética, figurinos, direção de arte, iluminação e tudo mais. Como sub-produto de seu famigerado trabalho resta a força da história do cineasta Guido Contini (não deem para as críticas, Daniel Day-Lewis continua fantásticos oferecendo as nuances de falta de senso, de sensação de atravessar um momento completamente perdido na medida certa) passando por um bloqueio criativo enquanto é pressionado por produtores, equipe de filmagem, imprensa e toda a industria de cinema por seu próprio roteiro, por seu próximo filme. Enquanto a angustia e a pressão o fazem perder o equilíbrio, as mulheres de sua vida surgem como fantasmas, ora assombrando (como sua mãe (Sophia Loren, não passa de um vaso enfeitando o filme) e a estranha mulher selvagem da infância (Fergie em momento marcante num dos três grandes números musicais)), ora pressionando como sua atriz-fetiche (Nicole Kidman em homenagem a Claudia Cardinale), a amante Carla (Penélope Cruz, exagerada em alguns momentos, irresistível aos homens em sua lingerie sexy e posições provocantes), a jornalista com segundas intenções (Kate Hudson mandando bem na melhor música do filme, Cinema Italiano), a figurinista e eterno porto-seguro de amizade (Judi Dench) e a esposa Luisa (Marion Cotilard, a única que merece desenvolvimento mais dramático, oferecendo um excelente numero musical no final e uma grande cena após a exibição dos copiões). Nine sofre por ser exageradamente técnico, na maioria das vezes passa longe da empolgação para preferir monólogos difíceis e que não funcionam.

Amor sem Escalas

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Up in the Air (2009 - EUA)

O empenho em exprimir a atualidade social de um país em crise financeira, com demissões massacrando uma sociedade desacostumada e despreparada a momentos de instabilidade emocional dessa magnitude, proporciona artifício apropriado a aproximar público das convicções exclusivistas e pertinentes de Ryan Bingham (George Clooney). Como executivo viaja os EUA demitindo pessoas que não conhece, buscando encontrar algum alento a suavizar situação tão abrupta e violenta em funcionários dedicados por anos, décadas a uma empresa. Enquanto isso vive em hotéis e aeroportos, mais de trezentos dias ao ano, ótima armadura para esquivar-se de relacionamentos humanos (sejam eles amorosos ou familiares). Entre milhas e mais milhas, cartões preferências em companhias aéreas e facilidade em aeroportos, a relação com duas mulheres confrontam os ideais de solteirice do convicto homem solitário. Perguntas pertinentes aos que abriram as porta de sua vida à fase mais madura e sabendo das dificuldades e empecilhos de uma vida com cônjuge e filhos permanecem convictos de que pouco lhes falta e a recompensa é infinitamente superior. Estamos num filme sobre camuflar a verdade, em apegar-se a pequenos hobbies ou joguinhos a fim de esconder nossas deficiências, nossos extensos hiatos. Jason Reitman não perde sua pegada pop, mas adere a um lado mais elegante de conduzir uma história que flerta com humor para também camuflar o mergulho na alma humana de forma abrupta e corajosa indagando um assunto clichê ora com suavidade pueril, ora vôos rasantes pela necessidade humana que quando deflagrada causa estragos e sacode convicções.

Crítico

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Crítico (2009)

A arte do ver e fazer cinema, numa sábia compilação de depoimentos/entrevistas o crítico de cinema Kléber Mendonça Filho apresenta neste documentário uma intensa discussão entre julgamentos e a recepção de tais julgamentos. De um lado cineastas, de outro críticos, cada um expondo seu lado da moeda, percebe-se nitidamente o ego tomando conta dos dosi lados, inveja e revolta. Enquanto alguns cineastas pouco importarem-se com os críticos, depois de tanta bagagem e tanta paulada, alguns como Guns Van Sant e Elia Suleiman demonstram toda sua irritação, frustração, ódio mortal em alguns casos. Por outro lado os críticos sofrem ao criticar ou não filmes de amigos, ou julgam-se deuses do mundo do cinema ao apontar falhas ou alavancar filmes que só correspondem a seus gostos próprios. Nunca haverá acordo entre crítica e cineastas, e com muita sagacidade, sem participar nenhum momento da discussão KMF traz a tona toda essa disputa de vaidades, toda a encruzilhada do mercado cinematográfico. Entre momentos impagáveis temos Cláudio Assis afirmando pouco importar-se com o que dizem de seus filmes, Samuel L. Jackson confundido com Laurence Fishburne e Elia Suleiman puto com o crítico que escreveu num jornal americano que um de seus filmes começava e terminava com alguém dormindo e no meio disso era difícil se manter acordado (e não é verdade?).

Sherlock Holmes

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Sherlock Holmes (2009 - EUA)


Dificil começar de tanta porcaria que Guy Ritchie contaminou sua visão de Sherlock Holmes. O detetive idealizado por Arthur Conan Doyle ainda soluciona os casos magistralmente, ainda é auxilidado por seu fiel escudeiro Watson, mas isso quando sobra tempo porque o que se vê são sequencias e mais sequencias de lutas (que se alguém disser que Jack Chan dublou tais sequencias eu não me surpreenderia nenhum um pouco). A pancadaria come solto, nosso detetive agora luta boxes e demais modalidade no ringue, e não é só isso (como diria o comercial das facas Ginsu) a câmera está elétrica, os cortes mais velozes que F1 na reta, e chacoalham mais que avião prestes a cair. Não concentre muitos os olhos ou a tontura vai tomar conta do corpo, entender o que se passa é perca de tempo dentro dessa aceleração exarcebada. Guy Ritchie é mais um que conseguiu aniquilar outro personagem clássico da história, agora são todos brutamontes com meros traços do que realmente conhecemos. Mas quando sobra tempo não é que Holmes é fascinante em seus métodos de trabalho, em sua lógica perfeita, e claro na atuação precisa e amalucada de Robert Downey Jr (eis um cara que me leva ao cinema).

Vinte Anos

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Avere Vent'anni (1978 - ITA)

Anos 70, tempos de sexo livre, movimento hippie, Lia (Gloria Guida) e Tina (Lilli Carati) são duas jovens em busca exclusiva de diversão sem precedentes. Influenciadas pela atmosfera libertária procuram saciar seus desejos sexuais, sem pudores, sem limites. Dentro desse universo de transgressão Fernando di Leo delicia marmanjos com suas beldades desavergonhadas enquanto imerge a câmera sob tipos que freqüentam a comunidade hippie onde as moças instalam-se em Roma. Assim temos drogados, golpistas, os que almejam libertar-se de certas "influências", os que apenas buscam a vida sob Paz e Amor, nesse pequeno e imundo habitat Di Leo resume o universo hippie. De outro lado o conservadorismo, os moralistas e o motim contra tudo que esteja fora da cartilha pragmática. Numa cena de impacto estarrecedor, o confronto liberdade sexual versus moralismo atinge o ápice da discussão proposta por Di Léo, a trama externou tantas práticas e malícias sexuais para no final expor os julgamentos da sociedade de forma direta e sanha. Carlos Reichenbach está muito certo quando relaciona o filme à hipocrisia do caso Uniban.

Admiradora Secreta

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Secret Admirer (1985 - EUA)

A coleção de filmes dos anos 80, hoje considerados cults, se alastra em momentos de nostalgia aos que à época eram meros adolescentes sem internet, downloads, TV a cabo ou vídeo-games tão fantásticos. Tempo mais ingênuo, de nos deliciarmos com pequenas historias de amor na tv, daquelas que podíamos viver na escola já que não tinha essa de todo-mundo-ficar-com-todo-mundo como é agora. Um filme como Admiradora Secreta soaria boboca para a atual geração, mas continua guardado na memória dos que tantas vezes apaixonaram-se pelo (a) amigo (a) sem que a coragem de assumir sentimentos lhes tomasse de arrombo. Atualmente, numa revisão, a maioria destes filmes frustra a recordação, ainda assim guarda este ou aquele instante incrível que te faz recordar das emoções ao ver o filme à época, ou mesmo de situações de seu passado. A tal carta secreta endereçada a Michael (C. Thomas Rowell) toma rumos inesperados, causando uma confusão sem tamanho no mundo dos adultos, e todo esse núcleo da trama é terrivelmente ruim, apostando na comédia pastelão o diretor David Greenwalt apenas tira espaço do que realmente interessa: o triângulo amoroso envolvendo Michael, Tina (Lori Loughlin) e Debbie (Kelly Preston). Tina é aquele tipo de garota que qualquer um com bom senso se apaixonaria, o filme prova isso a cada cena em que ela e Michael contracenam, a ternura de seus olhos, o bom senso de suas posições, a fidelidade de sua amizade, tudo a deixa mais linda e apaixonante. Enquanto isso o cego Michael suspira pela mais bela da escola. Clichês, clichês e mais clichês, além da incapacidade de Greenwalt em aproveitar o que havia de melhor no filme preferindo apenas transmitir mensagens encurtando o tempo de várias cenas (algumas na lanchonete, ou quando Toni deita no braço de Michael). Após tantos anos, antes de rever o filme, só de ler o título na mente duas lembranças fortes, a corrida desesperada para o final brega e necessário, e principalmente o sorriso envergonhado de Toni abrindo cartas no vapor.



v e r b e a t b l o g s

Michel Simões

  • 31 anos, cinéfilo, teimoso, assiste 200 filmes por ano e acredita ter uma vida quase normal.

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