budapeste, era duas, ou melhor três. buda, peste e óbuda. buda é uma colina, morada da aristocracia. que ficou figée no tempo. do outro lado do danúbio, peste abrigava os funcionários e operários. a planície que se abriu para o mundo, cosmopolita. óbuda era ela sozinha, que foi se aproximando e onde as moradas comunistas foram construídas. tudo lembrando muito as superquadras de brasília. e como o niemeyer é comunista... tudo se explica.
buda
peste
óbuda
"você sonha seguir a carreira de escritor? você pretende escrever a próxima obra prima da literatura francesa? você conta se tornar membro da academia de letras e receber o prêmio nobel? esse pequeno livro é feito pra você! [...]"
tradução da contracapa de um livrinho chamado "les rillettes de proust et autres fantaisies littéraires". são cinqüenta astúcias rumo à consagração como "grande escritor", ou "grantécrivain"!
o título é uma brincadeira com as famosas madeleines (uma espécie de bolinho de laranja que vai muito bem com chá) descritas por marcel proust. aquelas, cujo sabor evoca a infância, a casa materna do personagem. fossem rilletes (uma espécie de mini terrine, enfim, um patê) e não madeleines, muda tudo; o lugar, o train de vie...
o livro, antes de ser lido, já é objeto delicioso. porque ainda existem editores, fous furieux, que imprimem em papel de alta qualidade; uma capa cor de creme à moda antiga(*), e, requinte dos requintes, a nós de separarmos as páginas...
será mon petit plaisir à moi de hoje. mas não resisti ao primeiro conselho, voilà o copié-collé:
copiar-colar
"se a inspiração se faz desejar, não espere por ela. vá até sua biblioteca e copie as primeiras frases de romances de sua escolha. com muita paciência e um pouco de sorte, você escreverá uma obra coerente a custo mínimo."
"a primeira manhã de abril lançava seu sopro florido sobre a ilha grega de cefalônia. era uma manhã de domingo, de um ano que se iniciava esplendidamente. os primeiros banhistas, matinais, já saídos da água, passeavam a passos lentos, em pares ou solitários, sob as grandes árvores. o vento, morno e adormecido, levantava braçadas de folhas contra a janela. durante todo o dia, nessa mansão um pouco campestre demais, que parecia feita apenas para sesta, eu mergulhava num desses devaneios profundos que invadem todo mundo, mesmo um homem frívolo, no meio das festas mais tumultuadas. emily calava. nós estávamos a sós novamente. sobre esse sentimento desconhecido, cujo tédio e doçura me obsecavam, eu hesito em dar o nome, o belo nome grave da tristeza. quem sou eu? um velho que reclama sempre o presente e gaba o passado."
texto composto com "as primeiras frases" dos seguintes romances: albert cohen, mangeclous; franz kafka, le veredict; guy de maupassant, mont'oriol; boris vian, l'herbe rouge; marcel proust, le temps retrouvé; honoré de balzac, sarrasine; julien green, mont-cinère ; louis-ferdinand céline; mort à crédit; françoise sagan, bonjour tristesse; andré breton, nadja; voltaire, l'homme aux quarente écus.
(*) sobre capas, aqui na frança, uma série de editoras usa capas padrão para todos os seus lançamentos. assim, de olho, é possível reconhecer os gallimard, capa creme, título vermelho; os stock, capa negra, caracteres azuis; os mercure capa azul clara, título vermelho... porque importante é o texto. e porque, apesar de terem feito a revolução, os franceses tem penchant pela tradição.
enquanto isso,
olho o movimento
pensei que era casamento
mas não,
é primeira comunhão.
dez anos depois de as bicicletas de belleville (les triplettes de belleville), sylvain chomet estréia na frança o longa de animação o ilusionista (l'illusioniste). se "as bicicletas" já eram um bijou de animação à moda antiga, "o ilusionista" tem roteiro de jacques tati. inédito!
a história é rocambolesca. como vocês sabem jacques tati fez "as férias do sr. hulot" (les vacances de m. hulot), "meu tio" (mon oncle), "traffic"... seus filmes são compostos de uma série de situações, gags, onde os diálogos têm um papel secundário. como vocês também sabem, ele escrevia, dirigia e atuava. ele era o sr. hulot.
tati desistiu de fazer o ilusionista por causa de uma fratura em uma das mãos, que o impediria de fazer o papel do mágico... ele guardou o roteiro e fez o genial "playtime".
muito tempo depois a neta do cineasta, que detinha o roteiro, assistiu "as bicicletas" e se encantou com universo poético do filme. achou qualquer coisa de tati no traço, no universo de chomet e - por que não?, naquela história meio doida de uma vovó que treina seu neto pro tour de france. ela entrou em contato com o sylvain chomet, mas antes de poder encontrá-lo, faleceu. seus sucessores levaram adiante o projeto. chomet leu o roteiro, emocionou-se. e "o ilusionista", que é um clone do monsieur hulot, entra em cartaz na frança essa semana.
ele se chama stromae, maestro ao contrário. ele é belga (enquanto as diferenças entre flandres e wallonie não implodirem esse país construído de toutes pieces chamado bélgica). por isso, e por causa desse clip - gestualmente, cenicamente falando, a comparação com um monstro: brel, jacques brel (que compôs e interpreta uma das canções da minha vida: les prénoms de paris).
as letras são interessantes, irônicas, humor de autodérision; a musique, ganas de abrir as janelas e sair dançando da sala pra cozinha. o título do post é o nome de outra canção.
esse guri ficou algumas semanas no primeiro lugar da billboard européia, justamente com o single "alors on dance", na frente dessa certa lady gaga (uma obvia releitura de madonna, e que me dégoute d'ailleurs), coisa que ele se orgulha humildemente, afinal cantando em francês.
sinon, o pop francês - da frança, é, na enorme parte do tempo, pénible. com efeito, os ídolos pop daqui, os confirmados, são terríveis... um certo johny halliday - uma espécie de roberto carlos rock'n'roll - os óculos escuros, as jaquetas de couro e as plásticas dão um ar decrépito à esse senhor de não sei quantos setenta anos... e quando tu diz que nunca o viu mais gordo, é o espanto geral. tem um tal michel polnaref, que gosta de chocar e debochar desses franceses que, não se enganem, são na maioria bem pudicos. bem, pra dizer pouco, c'est pas mon truc, de jeito nenhum. outra que lota salas de espetáculos cantando letras de uma pobreza olímpica é uma dénommée mylene farmer. um quadro assim nos interpela e nos perguntamos... várias coisas... enfim, c'est affreux.
não obstante, tem um cara que eu gosto: bénabar, cujo effet papillon fez sensação ano passado. e, salvando um pouco a pátria, literalmente, a personalidade preferida dos franceses, segundo pesquisas, há anos: yanick noah. ele foi um campeão de rolland garros, que virou cantor, e os franceses são fous de lui. hoje mora nos estados unidos, o filho mais velho dele joga basquete (e parece que bem) lá.






















