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Por intermédio do blog do notável poeta e tradutor Érico Nogueira (link ao lado) conheci a poesia e a tradução de Marco Catalão, que já foi alvo destes Arquivos implacáveis. E me reencontrei com o poeta, crítico e tradutor Carlos Felipe Moisés. O primeiro contato com Carlos Felipe se deu em 1995, em Recife, através da antologia Sincretismo, poesia da Geração 60, organizado por Pedro Lyra. Todos esses encontros aconteceram virtualmente, isto é, do modo mais antigo, e para nós modernos desde Gutenberg, de encurtar distâncias.
Os dois poemas postados mais abaixo foram retirados dos dois volumes: Lição de casa & poemas anteriores e Noite nula, os dois pela Nankin Editorial www.nankin.com.br
Há ótimas entrevistas e resenhas sobre a obra de Carlos Felipe Moisés nos seguintes links:

www.verdestrigos.org/sitenovo/site/cronica 03/11/2008
www.affonsoromano.com.br 22/11/2008
http://diariodonordeste.globo.com 12/12/2008
www.weblivros.com.br 09/12/2008
http://sambaquis.blospot.com 12/01/2009
www.cidasepulveda.com 22/03/209
www.germinaliteratura.com.br/palavrascruzadas 03/2009

ARQUIVOS IMPLACÁVEIS
À maneira de João Condé

Nome - Carlos Felipe Moisés
Onde nasceu e a data - São Paulo, SP : 20/05/1942.
É casado, têm filhos? - Sim. Uma filha e um filho (este faleceu aos 18 anos).
Altura - 1m78
Peso - 80kg
Número dos sapatos - 41
Prato preferido, bebida e jogo - Feijoada, uísque, pôquer.
Gosta de cinema, teatro, qual prefere? - Muito. Mais cinema que teatro.
Poeta e prosador preferido - Fernando Pessoa, Machado de Assis.
Tipo de música e músico preferido - Não tenho preferência: MPB, jazz, música barroca; Cartola, Villa Lobos, Thelonius Monk, Vivaldi...
Qual o pintor preferido? - Mais de um: Van Gogh, Picasso, Matisse, surrealistas como Magritte e Delvaux.
Qual a cor predileta? - Não tenho uma só, depende do momento. Hoje é azul, escuro.
Quando escreveu seu primeiro texto? - Lá pelos 11-12, instigado pela professora, mas não guardei cópia, nem lembrança.
Dos seus livros publicados qual o preferido e por quê? - O último, Lição de casa, é o que vai mais direto ao ponto. Mas acho que vou gostar mais do próximo.
Se pudesse recomeçar a vida o que desejaria ser? - Fotógrafo.
Seu principal defeito - Sempre buscar uma explicação.
Sua principal virtude - Sempre buscar uma explicação.
Coleciona alguma coisa? - Comecei várias coleções (selos, moedas, figurinhas etc.), logo desfeitas, até me convencer de que o que vale a pena não é colecionável.
Algum hobby? - Fotografia.
Uma ou duas grandes emoções em sua vida? - Ganhar o título de bicampeão paulista de basquete (infanto-juvenil), em 1957-1958, como titular e cestinha de um time que tinha Victor, Otto, Plínio, Peninha, enfrentando adversários como Rosa Branca, Sucar, Mosquito, Ubiratan.
É crente ou ateu? - Nem um nem outro, só desconfio.
Três livros que mudaram sua vida ou, se não mudaram, tocaram fundo - Paulicéia desvairada, Memórias póstumas de Brás Cubas, Poemas de Alberto Caeiro. Se puder acrescentar um quarto: Claro enigma.
Se pudesse escolher, como gostaria de morrer? - Em silêncio.

POEMAS DE CARLOS FELIPE MOISÉS

CARREGO AS ESTAÇÕES


Carrego as estações comigo
e tenho as mãos cansadas.
(No bolso esquerdo um riacho murmura.)
Ali, onde pequenas pedras se acumulam,
uma canção exala seu vapor,
depois se perde.

Jardins de primavera circulam no meu corpo,
um céu de ouro verte seu perfume
e um vento ignorado agita suas asas.
Pasto de segredos,
mescla de memória e desejo,
meu corpo caminha com a chuva
(carrego as estações comigo),
à procura do sonho de uma nuvem fria.

Tantas folhas trago nos braços
que um pássaro, solidário, se oferece
para carregar as estações comigo.
Do peito aberto os meus jardins se vão
e o pássaro me ajuda (memória
e desejo) a semear meu corpo.

Ali planto meus braços,
debaixo daquelas árvores meus olhos ficam,
os pés, roídos pela terra, penduro numa árvore
e o tronco multiplico em cem pedaços
- lá vai, junto com as pedras,
no bojo do riacho antigo.

E pois que carrego as estações comigo,
os lábios deixo além, no descampado,
e peço ao pássaro que pelos cabelos atiro
o que sobrou de mim
àquele mar onde me espera a memória
(e o desejo) do tempo em que não soube
carregar as estações comigo.

MONK & MULLIGAN


Toda lição é de casa. Uma ensina a aprender
outra aprende a ensinar. Não sei para quando
será a viagem. Não sei se parti, se já estou
de regresso nem se a lição é de fato minha,
dos pombos que giram no telhado ou do silêncio
entre o sussurro de Monk & o sopro de Mulligan
no meio da sala: 'Round midnight.
Lá fora (
sol alto) lição interrompida. O sal da lição?
Não saber. Sabida, lição já não é.

Naquele
tempo eu viajava para longe, toda semana.
Um dia estranharam minha alegria ao partir.
"É tão bom assim?" "Não, é que aprendi
a antegozar o prazer da volta." Nada se iguala
ao alívio antecipado do dever cumprido. A casa
acumula todas as lições : ontem, hoje - o mesmo
tempo a escoar entre o já-não-mais e o ainda-
não - centro de tudo o que sou ou tenho. Mas não
tenho : a casa o contém. E não há lição que o
detenha.

O que tenho é um retrato na parede
: um menino me fita apaziguado, seu olhar
se dissolve na brisa. Escancaro as janelas
e o calor da tarde me lembra : outono se foi,
inverno se foi, primavera aí vem (o rendilhado
de Monk prossegue & o sopro agudo de Mulligan).
Outra primavera : midday midnight. O menino
salta do retrato, se aninha no sofá e me lembra
a sorrir : é hora de volta à lição interrompida.

Sorrio que sim, à sombra do jasmineiro
em flor.

É tarde. Não sei a lição (há pouco
estava no jardim). Como enfrentar classe
tão avançada? A sombra se adensa, é noitinha.
O olhar do menino me fita, não sei se do retrato
ou do canto do sofá onde se aninha,
não sei
se do olho iluminado da noite, e sorri. Sorrio
que sim. É a hora. (Monk & Mulligan insistem
agora sim : 'Round midnight. Lição de casa.)

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DAS ELEGIAS: LÍQUIDA


A curva não é só carícia,
e sua graça muitas vezes
é aguda.
Se excessiva corrompe:
constante doçura na língua.

A forma é a intensa feminina,
começa no que delineado é coisa
e além do corpo é forma que não
se finda, pois
se colo que acolhe
também pode sufocar
se não calma e
ainda.

Alguns modos de perceber a feminina:
cúpula,
árvore,
vale,
anca,
água,
vento
na campina.

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O texto abaixo com os respectivos poemas foram retirados do site http://www.culturapara.art.br/opoema/

Sebastião Alba, nasceu em Braga, Portugal em 1940. Após viajar para Moçambique, passou a conviver com um importante grupo de escritores e intelectuais. Foi jornalista, teve uma vida bastante agitada e cheia de desilusões, com passagens por prisões e hospitais psiquiátricos. Alba passa com o tempo a viver como andarilho, acabando por morar na rua e morrendo atropelado por um motorista em Braga sua terra natal.


NINGUÉM MEU AMOR

Ninguém meu amor
ninguém como nós conhece o sol
Podem utilizá-lo nos espelhos
apagar com ele
os barcos de papel dos nossos lagos
podem obrigá-lo a parar
à entrada das casas mais baixas
podem ainda fazer
com que a noite gravite
hoje do mesmo lado
Mas ninguém meu amor
ninguém como nós conhece o sol
Até que o sol degole
o horizonte em que um a um
nos deitam
vendando-nos os olhos.


A UM FILHO MORTO

Ontem a comoção foi da espessura dum susto
duma árvore correndo
vertiginosamente para dentro do desastre

E já não choramos. Passamos
sem que o mais acurado apelo
nos decida

Nas camisas
teu monograma desanlaça-se.
Tua mão vê-o nos céus nocturnos
sabe que há uma ígnea
chave algures

Minha tristeza não tem expressão visível
como quando a chuva cessa
sobre a dádiva fugaz do nosso sangue
que hoje embebe a terra

É tal a ordem em nós
que um odor a bafio sai de nossas bocas
e uma teia de aranha interrompe o olhar
que te envolveu em vão.

Sebastião Alba


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Depois de muita luta e sofrimento, consegui fazer a cirurgia de hérnia discal. Durante todo o processo, minha mulher Állex Leilla (linka ao lado) postou em seu blog uma carta que ela escreveu e enviou para pessoas amigas para poderem repassá-la, imprensa e afins. A amiga Kátia Borges, poeta e jornalista do A tarde, de Salvador, escreveu um comentário (reproduzido abaixo) relatando o que aconteceu com a família dela com o mesmo plano de saúde de que fomos vítima. O segundo comentário, também reproduzido abaixo, é de um médico, que se denomina Dr. Roberto Sampaio, que se achou no direito de censurar os e-mails enviados por Állex. A resposta de Állex é a terceira reprodução abaixo, com a qual concordo plenamente.

Kátia Borges disse...
Oi, Állex, passei um sufoco inacreditável com o UNIMED Salvador em 2002. Meu pai tinha esse plano e quando ele estava mal e precisava de internação urgente, na noite em que morreu, todos os hospitais (todos) recusaram o plano. Ficamos desamparados, rodando pela cidade com uma pessoa gravemente enferma no carro,a pior noite da minha vida. Ele acabou morrendo naquela madrugada. Enfim, lutem e façam valer os seus direitos. Não importam os nomes. UNIMED é uma empresa que não respeita os usuários.

1:12 AM

Unimed Salvador disse...
Prezada Srª Álex Leilla,

Em primeiro lugar, na condição de médicos e, portanto, de profissionais voltados para a promoção da saúde das pessoas, desejamos ao senhor João Batista Fernandes Filho um pronto restabelecimento de sua cirurgia de hérnia de disco e uma melhora efetiva em sua situação de saúde.

Sobre o processo de autorização do referido procedimento cirúrgico, faz-se necessário esclarecer que a Unimed Salvador cumpriu com corretude e interesse a sua função de buscar a autorização junto à operadora de planos de saúde do paciente, a Cooperativa Unimed Leste Fluminense. Da mesma forma, nossa área especializada fez gestões no sentido de se superar os trâmites técnicos para o uso de material cirúrgico de alta complexidade, o que resultou na realização da cirurgia no último dia 24 de setembro de 2009.

Diante disso, demonstramos nossa surpresa e descontentamento com a disseminação de seu e-mail, o qual não só difama de forma explícita e inverídica a nossa Cooperativa de Médicos, como também agride através de termos ofensivos todo o Sistema Unimed, a maior rede de Saúde Suplementar do Brasil, formado e respaldado no trabalho sério e reconhecido de 370 Cooperativas de Saúde e de quase 100 mil médicos, presentes em 93% do território nacional, honrados em cuidar da saúde, qualidade de vida e bem estar de cerca de 14 milhões de brasileiros conveniados conosco.

Ainda que tudo se contextualize em um momento de justificada apreensão de quem aguarda a solução de um problema de saúde, rechaçamos veementemente toda e qualquer atitude caluniosa e difamatória dessa natureza. Em nome dos milhares de profissionais de saúde que, diariamente, se dedicam dignamente à oferta de saúde suplementar em nossa cidade e país, manifestamos aqui nesse espaço o nosso repúdio às suas mensagens eletrônicas, sem prejuízo de que possa vir a ser tomada medida judicial cabível.

Atenciosamente,

Dr. Roberto Sampaio
Vice-presidente da Unimed Salvador

5:34 PM


Állex Leilla disse...
É muita cara de pau mesmo, invadir meu espaço, meu blog, para vir depois de tanto sofrimento e problemas que causou a mim e a meu marido querer me calar com esse mensagem ridícula e acima de tudo covarde, porque sem endereço para resposta. Quais foram os esforços que a UNIMED de Salvador fez? Nunca saber do que se tratava quando ligávamos? Dizer que o prazo era de 15 dias úteis para resposta à solicitação de cirurgia e após 15 dias não ter nenhuma posição? Mandar que nos dirigíssemos à nossa UNIMED de origem? Entrar com pedido na justiça de desvinculamento da liminar por "entender que a UNIMED de Salvador é independente da UNIMED LESTE FLUMINENSE"? Quais foram, sr dr. Roberto Sampaio, os esforços que o senhor alega ter feito? Meu marido foi de fato operado, mas não porque a Unimed Salvador fez qualquer esforço pra isso, mas porque depois da liminar não cumprida, não obedecida, fomos à imprensa e usamos de todas as formas para pressionar a porcaria de plano de saúde que você se acha no direito de vir, aqui, defender. E fez a cirurgia dia 26/09, não em 24/09, pois até nisso houve uma competência enorme: a cirurgia foi agendada para 24/09, ele foi internado dia 23/09, mas descobriu, depois de tomar remédio, ficar 12 horas em jejum, que houve um "erro" e a cirurgia só seria feita dia 26/09. Erro do Hospital? Erro da Unimed daqui? Erro da Unimed Leste Fluminense? Ninguém sabe. No refeitório do hospital UNIMED, única opção para os acompanhantes de pacientes fazer suas refeições, a salada tinha um "elemento vivo e branco", comumente conhecido como verme, passeando. Comunicado à sr. nutricionista responsável, ela apenas se limitou a dizer que "infelizmente, aquele passou no controle de qualidade". De junho, quando começamos a lutar pela cirurgia, até setembro, quando ela foi feita, o que mais nos chega é depoimentos, como o da jornalista Kátia Borges acima, relatando o descaso, a falta de decência e de respeito desse plano, qualquer um deles, para com seus associados (clientes, melhor dizendo). E me vem o sr., um médico, com essa lenga-lenga? Falo e escrevo o quanto eu quiser e mando emails para quem eu quiser contando o que aconteceu. E não ouse a me ameaçar "enviesadamente", dr. Roberto Sampaio, porque eu não tenho medo nem respeito pelo seu cargo de presidente de uma empresa absolutamente digna de desprezo e que merece ter uma intervenção, se possível da polícia.

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VI


O que não é instante nem eterno,
nicho aberto no tempo, num só rasgo
de impura claridade, porque viva;
talvez, sim, ex-memória, sem que os lagos
do olvido gota alguma lhe pingasse.
O que não é instante nem eterno,
estado: aí o córrego se empoça
sob a mata, colhe-se no pote a
sede futura, cálida palavra,
a tilápia na lata, dois meninos
em estadia líquida na tarde,
que se faz noite umbrosa em querosene,
que se faz manhã em gota de sereno,
quem bebe aí senão o inseto mínimo
desse querer que sonha ser estado.

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O conto abaixo é do jovem Paulo Raviere, que conheci quando ainda trabalhava no extinto sebo Berinjela daqui de Salvador. Depois que abrimos nosso sebo, o falecido Diadorim, Paulo também o frequentava e passávamos tardes regadas a café e conversa. Leitor ávido, tradutor, poeta, Paulo Raviere possui talento e caráter e um belíssimo caminho pela frente.


APENAS UM SONHO


Os generosos são raros. Ainda existe quem esteja disposto a compartilhar o pão com quem tem fome, mas esperando que um dia também coma a sua talha. Essa é uma generosidade ordinária, que parte do princípio egoísta de que é dando que se recebe, e que não merece tanta atenção. Esta história se trata dos generosos por natureza, cujo alimento é o próprio ato de dividir o seu pão, sem esperar nem mesmo um sorriso como paga do sacrifício dado. Os generosos por natureza são bastante raros, de maneira que, se aparece um por século, já é muito; os gênios, os santos e os mártires são abundantes numa comparação direta com eles. Talvez a comparação com alguns deuses seria mais exata, porém é inconveniente, porque eles próprios, ao contrário, requerem os sacrifícios dos outros. Os generosos não precisam de nada. Deixemos então as comparações e fiquemos somente com este conceito: são raros.
A história é breve e, se não pretende dar lição de moral, pretende, menos ainda, impressionar. Seria até banal, se o personagem retratado não fosse um espécime de humano tão raro. Então, entendamos esta história como um simples registro de fatos, talvez com o fim de fazer que sintamos abençoados por pertencer ao mesmo mundo que uma pessoa de tal qualidade.
Aconteceu no Corredor da Vitória. Dona Conceição estava muito apressada e só não corria porque o seu corpo pesadão não conseguia. Tinha um contra-peso, sua sobrinha órfã que ela criava como filha. Anita era o nome, era uma menina muito inquieta e traquina, que realmente dava trabalho. Iam de mãos dadas, Dona Conceição puxando a menina com nervosismo e a menina empacada. Estava encantada com todo o mundo que a rodeava, apesar de ser um caminho rotineiro. Tudo era atração para Anita: "Mamãe, olha que árvore grande!"; "mamãe, olha um homem dormindo no chão!"; "mamãe, olha que casa diferente!". E a mãe, irritada, gritava com a pobre menina: "Vamos Anita, vamos logo que já estamos atrasadas!". A menina, com medo, a seguia, mas num passo arrastado, olhando para trás.
Assim, andando nesse passo lento, passaram pelos casarões antigos, pelos edifícios, pelos museus, teatros, estacionamentos. Quem anda pelo Corredor da Vitória já conhece. Não menos conhecidos de nossos transeuntes são os flanadores que os acompanham em suas andanças. Gente de toda espécie. O vendedor de lanche, o dono de banca, o mendigo que pede comida, os estudantes, os porteiros, os velhos fofoqueiros, todos atrapalhando o caminho de Dona Conceição e atiçando a curiosidade da menininha, que os olhava apaixonadamente.
À frente de uma lanchonete requintada, Dona Conceição pára. Encontra uma amiga de sua época de colégio, que não via já tinha tempo e que a faz esquecer a sua pressa.
- Maria Rita! É você mesmo?
- Conceição! Quanto tempo, hein?
E se abraçam fraternalmente. Anita puxa a tia pela saia e é ignorada.
- Nunca mais vi ninguém de nossa época!
- Então não soube ainda do João Carlos...
Dona Conceição coloca a mão na boca, toda ansiosa.
- Mamãe, mamãe. - Gritou a menina, e a tia fingia que não era com ela.
- Não. O que houve?
- Casou com Joaninha.
- Com a Joaninha, aquela garota quietinha? - Havia certo tom de despeito em sua voz.
- Mamãe! - esperneia.
- Ela mesma!
- Menina, não se meta em conversa de adulto!
- Mas mamãe, eu...
- O que menina? - esbraveja a mãe nervosamente, de maneira que assusta não só a menina, mas também Maria Rita. Ela olha um pouco encabulada para sua amiga e fala, tentando se explicar:
- Essa menina me dá nos nervos. Estou pensando em devolver para o pai antes que me mate do coração.
Maria Rita faz uma cara de "eu entendo". Dona Conceição volta à conversa:
- Você dizia que a Joaninha casou com o Jotacê...
- Sim, já tem mais de um ano.
- E como eu não fico sabendo dessas coisas? - Exclama intrigada - Teve festa?
- Teve sim, eu fui. - Maria Rita responde num pavoneio disfarçado.
- Mamãe, mamãe! Me dá dinheiro! - Anita muda de tática e fala logo o que quer, ainda puxando a mãe pela saia.
- E pra que você quer dinheiro, minha filha? - Fala com pressa.
- Pra comprar um sonho.
- Não! - Fala com uma voz definitiva.
Coloca a mão na testa e se vira para o nada num lamento.
- Ai, ai, meu Deus. Essa menina só quer saber de comer doce...
E voltando-se para a menina:
- Não, se não você não almoça direito!
A menina ainda tenta negociar, toda chorosa:
- Mas mãe, eu não vou...
- Não, eu já disse! - Ela responde levantando o dedo indicador. Então se volta para sua amiga mais uma vez.
- Sim, Maria, você tem notícias do Tobias?
- Oh, não soube? Está no hospital.
- Meu deus, mas ninguém me fala nada mesmo! O que é que ele tem?
- Os médicos não sabem dizer direito ainda, mas é problema no coração, parece.
- Virgem Maria! - Ela faz o sinal da cruz, horrorizada. - Temos que visitá-lo.
- Eu já fui ontem.
- Ah, pois vai ter que...
- Mamãe, mamãe! - A menina puxa a saia dela de novo.
- Ah, meu deus! - coloca a mão na testa olhando para cima - Mas não se consegue conversar direito quando essa menina está por perto! - então se vira para a menina.
- Toma, toma logo esse diabo de dinheiro e compra esse sonho! Mas não quero nem saber de gente doente porque não almoça direito! Não me venha dando trabalho depois!
A menina estava tão contente que parecia que nem tinha ouvido nada. Nem diz obrigado, como a sua mãe lhe ensinara. A mãe, por seu lado, estava tão aliviada com a saída da menina que se esquecera de reprimi-la por essa falta, como era costume fazer.
Anita, com o dinheiro na mão, toda saltitante conforme seus modos, vai à lanchonete requintada e pede pra atendente colocar o sonho num pacote. Na saída, percebe que a mãe estava bem distraída na conversa "...porque precisamos ser solidários uns com os outros, então você vai comigo pro hospital ver o Tobias e eu não quero nem saber...".
Olhando para os lados, ela sai de fininho e, escondida da mãe, vai à direção oposta. Assim, sem ousar tocar no sonho, mas completamente interessada nele, procura um voluntário pelas calçadas.


Paulo Raviere

| comente!

Sei que elogio em boca própria é vitupério, mas este (no link abaixo, ou na lista ao lado) saiu do teclado do Ricardo Domeneck:

http://ricardo-domeneck.blogspot.com/2009/09/alguns-pensamentos-sobre-escrita-de.html

| comente!

Três trechos-epígrafes.

O sol-síntese
na gota
que explode
na palma aberta da pétala
em que um
colibri
vem bicar
sedento da seiva
amanhecida,
que ele sorve a
terça parte
e é a combustão para sua
sutilíssima
vida.

***

A vida é vôo sem pouso,
pois que gravita;
tão plena e única
em seu levitar
que nada, nada
interdita.

***

A vida, amor meu, não descansa,
a pele do mundo palpita,
às vezes em loucura mansa,
às vezes em doçura aflita.

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OS DIAS GRANDES


Manhã dissipadora,
azul e antifantasmas,
seu vasto lençol de luz
protege sem esconder,
materna como quem nutre.
Se todo o entorno aclaras
também a alma, ex-pavor,
deambula pela casa
menos dor e inflamada.
Nesta quarta-feira austera,
nítida como uma culpa,
ajuda-me a destecer
os caminhos começados,
quantas vezes a malha
no novelo esgarçada,
o linho-dádiva e sujo
nos quintais, campos e praças
e nas ocultas cisternas
que do berço à cova nos
dessedenta e maltrata,
como convém a essa doença -
mais tratada mais se espalha,
saúde que escalavra.
Manhã inédita e arcaica,
reverência contemplada,
apesar do dia sólido
em folha sorvendo sol:
totem desmistificada.

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VOCÊ SABE O QUE É TER UMA DOR, MEU SENHOR?
METAFÍSICA MÉDICA

- Respire.
- ... ai!
- Respirar dói?
- Às vezes.

Hérnia Extrusa, musa antiga ou nova musa? Lá vou eu de muletas, saci branco, forçando a direita, que a esquerda é impraticável, com minha mulher toda música, minha heroína!, depois de quase três meses, sem um fio de Ariadne que nos conduza por labirintos telefônicos, liminares cósmicas e pressões de ordem metafísica lutando contra o plano de saúde UNIMED.

- Agora é o quê, moça?
- Aqui consta que o senhor já fez a cirurgia.
- Bem, não podemos desconsiderar que essa é realmente nova.
- Como, senhor?
- Nada. Apenas listando desculpas surreais para um possível homicídio.

Minha hérnia extrusa-extrema é exigentíssima: doce pouco? Ela dispensa. Alimentação radical? Sim, radical mesmo, três meses entre (aarrgg!) verduras (ui!) cruas, NADA industrializado, litros de chás, clorofila (aarrgg! Eu sou forte) e por aí vai; mil sessões de fisioterapia, mais mil espetadas de acupuntura, pilates, RPG (RPG? Não, esse eu não fiz) e afins; tira sangue daqui, injeta soro e anestésicos dali, doutor cuidado com os opinóides e morfinóides, em vez de dormir eu fico doidão, tanto fio que me sinto um títere, e a bichinha não cede. A dor, eu quero dizer, porque a hérnia...

- O que foi agora, moça?
- O sistema mudou, então precisamos fazer nova cotação de material.
- Pergunto-me se saiu da imaginação doentia de Kafka ou de um desses malucos franceses. Jarry teria capacidade para tanto?
- Quem, senhor?
- Um ex-amigo meu, bom de mira por sinal.

Minha extrusa só aceita dormir quase sentada, andar, como já disse, sou um saci branco de muletas apoiado na direita, dirigir é melhor não, recomenda a esquerda. Ontem, sábado de sol, depois de tentativas furadas, quer dizer, frustradas conseguiram espetar a veia da mão esquerda. Tenho pavor de agulhas! Fico pálido, quero desmaiar, enfim. Saindo da emergência a dor piorou, mas doutor é gente boa e liberou mais uma receitinha do meu velho camarada Arcóxia, para quem conhece não se preocupe, o de 120 mg saiu de circulação, agora só o bom 90 mg, meu preferido. Bem, há alguns contratempos, azia dulcíssima etc, etc...

- E agora moça?
-



v e r b e a t b l o g s

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