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junho 22, 2009

seg 22jun09 02:28
Exigindo diploma para tanto chororô

Enquanto entidades classistas, vários jornalistas e estudantes universitários insistiam em imputar à queda da exigência do diploma todos os males de uma profissão duramente criticada não de hoje, havia quem entendesse que este é apenas um elemento a mais no cenário de transformação - necessária - do Jornalismo.


Minha estréia no Trezentos, falando sobre a queda da obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão de jornalista.

junho 10, 2009

qua 10jun09 02:33
Blog da Petrobrás: crítica à mídia ou manobra política tática?

Escrevo oportunamente este post sobre o trelelê acerca do blog da Petrobrás - doravante aqui tratado como Blogobrás- no dia marcado para que o Supremo Tribunal Federal talvez julgue a obrigatoriedade do diploma. "Talvez" porque, como bem pontua Rogério Christofoletti, a pauta pode ser soterrada pelo julgamento do Mensalão e do caso Goldman. Ou seja, há temas mais pertinentes a serem tratados do que este imbroglio maniqueísta entre corporativos e midialivristas. Como, talvez, o próprio caso Blogobrás versus jornalões, uma vez que estamos presenciando vespeiro em fúria após fortes cutucões, fato - jornalístico - que pode levar a uma outra configuração da atuação midiática tradicional.

Ainda bem.

O síndico deste condomínio, organizado que só, fez um belo apanhado hipertextual analítico sobre o caso - quero ser igual a ele quando ficar bem velhinho. Portanto, reservo-me o direito de não mais fazer rodeios. É preciso deixar bem claro que não há heróis nesta história. Não se trata de defender a Petrobrás - que realizou uma manobra política tática em tempos de CPI assobiando no ar - ou meramente culpar os jornalões - que estão batendo pezinho como crianças birrentas, quando deveriam procurar formas de "contra-ataque" mais efetivas. Trata-se aqui de compreender a natureza desta tática, entender porque a birra é a resposta da imprensa e as implicações diretas da publicização, feita pela fonte, da íntegra da entrevista - não importando se antes ou depois da matéria publicada, a bem dizer -, como pondera o jornalista Leandro Fortes.

Da minha parte, pontuo algumas questões debatidas com o advogado Túlio Vianna, em um rápido, porém elucidativo bate-papo. Vamos considerar que informação jornalística pode ser tratada como um bem de interesse público - alguém aí falou em utopia ? A Petrobrás, uma empresa pública, é acionada pela imprensa a prestar informações relativas à CPI. Até onde eu entendo, as informações que alimentam uma CPI, por serem de interesse dos cidadãos, possuem caráter público. Pergunto a Túlio Vianna quais são as implicações jurídicas no fato da Petrobrás estar publicizando as entrevistas que concede por email aos jornais, antes mesmo da publicação das matérias. De bate-pronto - e pensando em publicar as perguntas e respostas antes que eu escreva este texto -, ele responde: "Qualquer empresa pública só tem dois tipos de informações: as públicas e as sigilosas. A regra é simples: as sigilosas não podem divulgar pra ninguém; as públicas elas divulgam pra quem quiser, como quiser".

Então por que esse chororô todo da imprensa, seu Túlio ? Transparência no trato com a coisa pública não deveria ser um ato juridicamente louvável ? Deixo-o responder antes que leve a cabo a ideia de colocar a entrevista logo em seu blog: "Os jornais estão querendo monopólio de notícias de órgãos públicos, o que evidentemente seria ilegal, caso praticasse, pois a empresa estaria dando informações privilegiadas a um veículo em detrimento dos outros".

A chiadeira dos jornalões está centrada em um sigilo nunca acordado entre fonte e jornalista a respeito de informações em uma entrevista - e, nesse caso, voltam as distorções a respeito dos termos "ética" e "moral" que condenam o que está sendo feito no Blogobrás. Como jornalista e professor de Jornalismo, entendo que a fonte pode tranquilamente publicar uma entrevista a qual respondeu - afinal, também produziu aquela informação. Cabe ao jornalista, se for sagaz no xadrez político que é a profissão, traçar uma estratégia para desenrolar-se desse novelo, tirar proveito de um momento que o termo "transparência" está assim tão associado à "informação jornalística" e lidar com esta última realmente como um bem público. Em suma: pensar e agir como jornalista - que não deveria deixar-se pegar de calças curtas.

Hum, talvez esteja aí o aspecto psicológico da perda de tempo fazendo birra.

Este episódio parece revelar mais um ato da novela jornalística, no que diz respeito à necessidade de mudanças estruturais desta prática, especialmente no campo da comunicação digital. Retomo a conversa com Túlio Vianna, que ficou ali, alguns parágrafos acima, e pergunto se ele considera que entidades classistas deveriam prestar maior atenção em episódios como este e não apenas concentrar esforços em prol da obrigatoriedade do diploma em jornalismo. Postando-se neste parágrafo, ele não titubeia: "Entidades classistas de jornalistas, advogados ou qualquer outra, são criadas para proteger os interesses da classe, então é natural o protecionismo. O legislador, porém, deve legislar não no interesse de uma classe, mas no interesse público e me parece óbvio que não há qualquer interesse público no monopólio da divulgação da informação pela classe dos jornalistas detentores de um diploma universitário".

E voltamos a ideia de "monopólio da informação", termo que suscitou, no meio desse bafafá todo, discursos inflamados e ânimos exaltados - tanto do lado de quem defende quanto na ala dos que condenam o Blogobrás, é bom frisar. No meio deste destempero, quero destacar, além das notas que a Abraji e ANJ soltaram, a prática, em listas de discussão como a do Fórum Nacional de Professores de Jornalismo, de chamar de "petistas e governistas" todas as pessoas - especialmente blogueiros - que se manifestam favoráveis à estratégia adotada pela Petrobrás. Fico imaginando que, ao tratar desse assunto em sala de aula de turmas de Jornalismo e manifestar minha opinião a respeito do Blogobrás, eu talvez deva ter algum receio de soar "petista e governista" - posição esta que passo ao largo, do mesmo modo como friso que, nem de longe, sou tucano. Mas certos reducionismos eram esperados, o que é próprio do "ambiente democrático de discussão" que pauta os entreveros acerca de questões jornalísticas.

[update: como era esperado, o julgamento da obrigatoriedade do diploma em jornalismo para exercício da profissão foi adiado - sem data prevista para voltar à pauta do STF um novo julgamento está marcado para o próximo dia 17, outra data cheia de pautas a cumprir. E no xadrez político, o Blogobrás recua e passa a postar as entrevistas somente após a publicação da matéria nos meios de comunicação. Jogo de comadres reloaded ?]

abril 10, 2009

sex 10abr09 22:25
À sua imagem e semelhança

Faz um tempinho que eu fui convidado por Gisele Jota, apresentadora do progama Caleidocóspio, da TV Horizonte, daqui de BH, para gravar uma participação no quadro "Se liga". A idéia era indicar quatro blogs para um público adolescente, que é o alvo do programa. O primeiro foi o do jornalista Sérgio Léo. Agora, a produção do programa disponibilizou - eita verbo ! - os outros três vídeos. Eis aí as bagaças.

Tudo o que eu penso sobre Arnaldo Branco - não recomendado à pessoas sensíveis:


Tirando o chapéu para Cristiana Soares:


Sendo socialmente aceitável ao falar de Raquel Recuero:


Uma grande sacada foi colocar um ator para ler um post escolhido pela produção do programa. De minha parte, apreciei bastante o resultado deste quadro, apesar de constatar que, em vídeo, pareço uma cruza de Artur Dapieve, Tom Waits e Rocky Balboa.

E o pior é que possivelmente repetirei a dose. Tremam.

abril 5, 2009

dom 5abr09 04:05
Diploma em tempos de crise do jornalismo ?

A data escolhida para o julgamento, pelo Supremo Tribunal Federal (STF), da obrigatoriedade do diploma em Jornalismo deu o tom de piada pronta em relação a como este assunto está sendo comumente debatido junto à sociedade. Acredito que fazer com que o defunto Jornalismo transmute-se em Lázaro passa longe de concentrar esforços em campanhas pró-diploma, como se esta ação representasse a cura para todos os males. Penso, em casos como esse, em visão estratégica. Como jornalista que nunca deixei de ser, tive oportunidades de acompanhar de perto estrategistas políticos que considero brilhantes - mesmo estando em lado oposto a alguns deles, inúmeras vezes - e nunca os vi abordar nenhum caso com que lidavam apenas em um front.

Daí que deste meu bunker, vejo que um ataque a esta crise aborda vários pontos: uma revisão das diretrizes curriculares dos cursos de Jornalismo - que está em andamento -, análise e execução de modelos de negócios envolvendo conteúdo web e fiscalização das relações de trabalho em redações. Um amigo sindicalista, sintetizando o cenário de batalha, uma vez me disse: "é um jogo de política e business". Se é realmente assim, então coço meu cavanhaque - imaginário há um tempinho -, alertando metaforicamente a audiência sobre a inexistência de um pensamento estratégico menos tacanho que não coloque a obrigatoriedade do diploma em Jornalismo como um ponto nevrálgico no cenário de crise midiática. Ainda aproveito a deixa e olho para a câmera, comentando em cumplicidade, que já fui menos sutil sobre o tema em outras ocasiões.

Defender cegamente o diploma de Jornalismo como condição sine qua non para a qualidade do fazer jornalístico em tempos de revisão de diretrizes para o curso e imputar uma provável culpa qualitativa à "produção da audiência", produção que é estimulada pelo Jornalismo Colaborativo, soa como ferocidade autoritária. É querer negar os rumos da história, é querer perpetuar um modelo cristalizado de jornalista, como se este agente social não merecesse uma revisão constante de seu papel junto à sociedade da qual faz parte e deve ser um observador/comentarista atento, para dizer o mínimo. É deixar de lado até mesmo análises de modelos de negócios que estão sendo colocados em prática, em resposta ao fechamento de portas que atinge os jornalões, como a criação do Printcasting.com, do mesmo grupo que gerencia o Bakersfield Californian. O que me deixa menos preocupado é encontrar ponderações mais equilibradas em relação a este tema.

Como professor de Jornalismo, Publicidade e de uma pós em Produção em Mídias Digitais, não dou um tiro no pé quando digo que não defendo o diploma obrigatório para a prática jornalística. Do mesmo modo, não defendo a existência de um órgão regulamentador da profissão - como a OAB é para os advogados. Sou franco-atirador, não kamikaze. Em minha defesa - como se precisasse, hah, chupins ! -, que não consigo compreender uma universidade pelo prisma de uma vendedora de diplomas, mas sim como um espaço de capacitação plena do exercício desta ou daquela profissão, imbuindo um estudante - no nosso caso, de Jornalismo - de uma formação humanista e de pensamento estratégico que o permita analisar seu campo de atuação. Parece simplista ? Não mesmo. Ter esse conjunto de valores em mente pode propiciar uma formação que capacite o jornalista diplomado a ter, por exemplo, argumentos que rebatam a opinião de diretores de conteúdo de jornalões que atrelam a morte do jornalismo ao acesso livre à informação na web.

Purista, eu ? Nem. Prefiro acreditar em coerência.

março 8, 2009

dom 8mar09 11:10
Algumas cousas que eu sei sobre os cinco anos da Verbeat


dumdum5

Eduardo: "fala co´a minha mão ai, rapá!"


Sou um crente: acredito em simetrias. Meu filho, Eduardo - que também atende por DumDum* -, completa 5 anos agora em 2009. Malu, a filha do vizinho do condomínio verbeater, Caco Ishak, também. E foi justamente no dia 5 de março que a Verbeat completou seu quinto ano de existência líquida. Sim, todo esse arranjo númerico foi milimetricamente elaborado e colocado em prática por Tiagón e Gejfin, embora ambos neguem de maneira veemente que são pessoas calculistas. Mas como não acreditar que haja intencionalidade por trás - opa - de pessoas que redigem um manifesto pela liberdade e democratizaçao da Comunicação ? Sei que eles têm culpa no cartório a respeito de toda essa simetria. Eu sei.

Afinal, leprechauns e exus têm grau de parentesco.


caco e filha2

Caco e Malu: o império se expande


E essa proximidade, essa simetria, essa cumplicidade, tudo isso me faz sentir paranoicamente orgulhoso de também fazer parte deste condomínio. Há por aqui pessoas cujas opiniões aprendi a respeitar - nunca direi seus nomes; mordam-se ! -, pessoas que me fazem ponderar sobre jornalismo, comunicação digital, literatura, conspirações, malditas piadas internas e, sobretudo, essas tais redes de relacionamento. Se juntássemos todos os vizinhos daqui em uma mesa de bar, facilmente seríamos enquadrados como formação de quadrilha. Há algum advogado no condomínio ? Faz favor de apresentar-se.

Tal assertiva dai de cima é fácil de ser constatada. Devo até hoje uma trilha sonora para o livro desse sujeito, meu livro está na estante dessa vizinha, já resenhei o livro deste irmão-em-armas para um jornal carioca, já ganhei uma garrafinha de Jim Beam deste camarada aqui - que é parceiro de muitas empreitadas -, aposto bastante nessa guria, que será uma grande aquisição quando começar a dar aula, este senhor aqui me deve uma garrafa de Jack Daniels - autografada -, já co-editei um site literário e político com esta grande presença e hoje preparo dossiês incriminatórios com este caro amigo, que já disseram tratar-se dum fake meu.

Confesso que poucas vezes me senti tão em casa quanto por aqui. Alguma lei que rege o universo deve ter sido quebrada.

*o apelido pode dar a vocês uma idéia do temperamento do guri.

março 4, 2009

qua 4mar09 06:17
O futuro (do jornalismo) é uma câmara de gás

[antes, um alerta: este é um post enorme, porém necessário]

Recentemente, um post do Pedro Dória sobre o futuro do jornalismo deixou-me encasquetado. Algumas inquietações acerca do escrito batucaram em minha cabeça, assim como o mantra "o jornalismo morreu", e passei a dividi-las com alguns caros amigos. Mostro o resultado aqui para vocês, destacando trechos do post do Dória e metralhando perguntas a respeito destes pontos para Alec Duarte, Ana Maria Brambilla, André de Abreu, Conceição de Oliveira, Pedro Markun e Sérgio Leo, que responderam as perguntas que foram mandadas para várias pessoas. Mas vamos aos fatos, somente aos fatos:

Aqui nos EUA, metade dos jornais vão morrer nos próximos dez anos. Os grandes, tipo New York Times, sobreviverão. Possivelmente sairão menores do que entraram. A curto e médio prazo, a situação no Brasil é diferente. Os governos FH e Lula trouxeram muita gente para a classe média e o número de alfabetizados aumenta. Há mais leitores de jornal. Mas, a longo prazo, isso só quer dizer uma coisa: os grandes grupos de mídia brasileiros têm mais tempo do que os norte-americanos para enfrentar as mudanças que já estão acontecendo. Em sua maioria, estão postergando tais mudanças por dois motivos. O primeiro é que não sabem exatamente o que têm de fazer. O segundo é porque nós, jornalistas, somos bichos extremamente conservadores. Resistimos a mudanças.
Temos aqui um cenário bem pré-apocalíptico. Ao mesmo tempo em que discutimos viabilidade e implementação de redações integradas para projetos em multimídia, estamos vendo a atual crise mundial "coincidir" com mais uma crise dos jornais, fazendo com que várias publicações - essencialmente nos Estados Unidos - fechem suas portas. Como este efeito da crise não chegou ao Brasil, será possível que gestores de áreas online de publicações tupiniquins apreendam uma lição a partir deste "modelo americano" e revejam estratégias ?

André de Abreu: Eu penso que não e o problema está justamente aí. O gestor de uma redação é, na sua essência, um jornalista que aprendeu a gerir na prática. Ele não aprendeu na faculdade e há apenas um curso que forma gestores de empresas jornalísticas no Brasil (que eu conheça). Desse modo, o jornalista, a priori, é um profissional que não tem as características ou o conhecimento para administrar uma empresa. A maioria dos jornais hoje tem na publicidade o seu grande sustentáculo financeiro, o que é uma estratégia equivocada. Nenhum investidor em sã consciência basearia seu negócio ou a maior parte dele e uma única fonte para sua sustentabilidade. Entretanto, a publicidade é aquela receita cujos dividendos soltam aos olhos dos inexperientes gestores jornalistas, pois o retorno é praticamente imediato. Hoje, se vê as conseqüências dessa estratégia cega em longo prazo. Que os jornais entrariam crise, não há dúvida. Por uma questão geracional, inicialmente. A nova geração, daqueles nascidos dos anos 80 em diante, não cresceu com o hábito de leitura de jornal e não sentiram falta disso. Afinal, a falta de investimento nas redações nas últimas duas décadas fez com que o grau de exclusividade que se tinha nas páginas de papel se esvaecesse. Com o advento da web, em paralelo, as pessoas começaram a observar que não dependiam tanto assim do jornal para sobreviver, já que o conteúdo dos jornais online eram praticamente os mesmo do impresso, ou seja, apuração feita por recém-formados baseado em release e informações de agência de notícias. O Brasil só não foi tão afetado não pelo aumento da educação dos leitores, como afirmou o Dória, já que o que aumenta é o número de periódicos criados e não o número de circulação. Historicamente, ela vem caindo desde o início do século tendo picos de retomadas com o aumento do PIB. Como a crise não afetou o Brasil como afetou os EUA, logicamente, o anunciantes não retiram de forma repentina suas verbas dos jornais na proporção e na velocidade ocorrida nos EUA. Além disso, houve um crescimento histórico da classe média nos últimos anos, o típico consumidor desse produto. De todo, a tal quebra dos jornais é questão de tempo, já que eles se tornaram grandes conglomerados, com finanças nada otimizadas e apoiados numa fonte de receita que vem e vai de acordo com os humores do mercado. E como ninguém quer arriscar em estratégias mais ousadas em longo prazo, a tendência é dos próprios jornais cavarem seus buracos.

Sérgio Leo: Já vejo em algumas redações ensaios de mudança, com palestras dirigidas aos funcionários sobre a necessidade de "agregar valor", de transformar a todos em jornalistas multimídia, com treino para vídeo e podcast. A mim, isso parece complicado, porque não se fala em aumentar o número de repórteres nem a infra-estrutura. Essas mudanças, se feitas sem planejamento adequado, com investimentos em formação de pessoal e tecnologia, podem representar apenas mais trabalho, mais tensão, perda de qualidade de vida, sem grande ganho de qualidade para o material informativo.

Sérgio, vou te repassar a pergunta que intitula um dos livros do Philip Meyer: os jornais podem desaparecer ?

Sérgio Leo: Não creio que os jornais acabarão, mas terão de mudar de plataforma, migrando, cada vez mais, para o mundo virtual. O jornal de papel tende a acabar, sim. Mas não dá para prever quando, hábitos não se mudam facilmente. No dia em que alguém criar um jornal exclusivamente de internet que consiga repercussão e influências, os outros seguirão correndo.

Conceição, como historiadora e atenta leitora de jornais, me diga: em relação à crise dos jornais, "a curto e médio prazo, a situação no Brasil é diferente", como diz Pedro Dória?

Conceição de Oliveira: Eu não acho que não é diferente não. Os jornalões que existem hoje no país estão afastando leitores eles não dizem nada pra esta nova classe média alfabetizada proveniente dos extratos C e D e a meu ver os jornalistas dos jornalões vão perder inclusive aqueles que de algum modo aturavam as bobagens em detrimento de um ou outro artigo, a Folha por exemplo. com o episódio da ditabranda vai agüentar um protesto bem organizado no sábado, tem campanha pra cancelamento de assinatura partindo inclusive da academia. O jornalismo voltado para as classes C e D com notícias inteligíveis e de interesse destes grupos sociais e serviços não foi ainda inventado, alguns sites como o Vi o Mundo, que acaba de inaugurar um blog de saúde dentro do seu site, está se aproximando disso, engatinhando.

Lêem os sites de jornais, é verdade. E é por isso que uma das sugestões da moda é que se os jornais cobrarem alguns centavos por cada artigo online tudo se resolve. Na IDEO, ou em todo o Vale do Silício, há uma certeza: jornais não conseguirão cobrar por conteúdo. Por um motivo simples: notícia de graça existe às pencas na web. O que acontece com quem cobra por conteúdo é que termina sem ser lido. O New York Times cobrava pela leitura de seus colunistas, e o dinheiro lhe rendia uma quantia bastante razoável. Mudou de idéia e sacrificou a fonte de renda porque suas colunas não eram mais tema de debate. Deixar de repercutir é justamente o que um jornal não pode fazer.

O modelo de micropagamentos ou microdoações é sustentável ? Melhor: é possível funcionar no Brasil, seja na versão online de um jornal, seja em iniciativas empresariais não-convencionais ?

Alec Duarte: Quando você fala em "iniciativas empresariais não-convencionais" em penso logo no next big thing, então não falarei sobre elas. Doações? Coisa de americano. Tenta arrancar dinheiro de um europeu ou asiático. E de um brasileiro? Muito difícil em projetos de massa, mas absolutamente executável se percorrida a Cauda Longa. No mercado de nicho, há milhares de possibilidades de oferecer conteúdo associado ao pedido de oferendas aos clientes. Sobre os micropagamentos e os jornais on-line: é a estupidez campeã de 2009 (surgiu no final de 2008, é verdade, mas sem tempo de figurar na retrospectiva do ano). Refiro-me à Web: esqueça o muro do conteúdo pago. Ele te esconde das máquinas de busca, e o prejuízo em tráfego/audiência é sempre maior do que o auferido com o nickel-and-dimed. Em dispositivos móveis (notadamente celulares), a cobrança é óbvia e desde sempre. Nada mudou, apenas o maior acesso (e sempre maior) a esses produtos.

Nosso modelo de imprensa não é uma tradição de séculos. Ele data, isto sim, de entre os anos 1920 e 40, nos EUA. Alguns princípios são sacrossantos para nós, jornalistas. Um deles é a separação entre Igreja e Estado: quem mexe com publicidade, nas grandes empresas, não dá pitaco na redação. Os anunciantes não podem achar que têm o poder de intervir. Quando esse tipo de interferência ocorre, em geral nos jornais que cheiram mal, nós jornalistas olhamos com desdém. Outro princípio que corre em nosso sangue é o da isenção e objetividade. Somente os fatos. Opinião fica delimitada às colunas e página de editoriais.

O modelo caducou.

Sérgio, você conhece algum caso, de qualquer país, onde o departamento de publicidade de um jornal não tentou influenciar a dinâmica da redação ? Você já olhou com desdém uma ação como essa ?

Sérgio Leo: Essa separação sacrossanta é defendida com unhas e dentes nos jornais sérios, Jorge. Mas há casos, sim, de publicações (revistas e mais recentemente alguns jornais) em que anunciantes e amigos dos donos "recomendam" linhas de abordagem e pautas aos jornais. Isso é mais provável em jornais pequenos, regionais. Nos grandes, quando fica evidente esse tipo de influência, a publicação tende a perder prestígio, e capacidade de influência. Há casos recentes, que não me cabe nominar, de publicações importantes que foram relegados a posição marginal por causa da falta de compreensão por parte dos donos a respeito dessa divisão entre o que é material publicitário e o que é jornalístico. É mais comum o contrário: matérias das redações põem o pessoal da publicidade em palpos de aranha; eu mesmo, no valor, vivi um caso emblemático: logo no lançamento do jornal, fiz uma matéria, baseada em relatório secreto do BNDES, que apontava a situação falimentar da Varig, e previa dificuldades para a empresa. Como reação, o que me chegou à redação de Brasília foram as notas oficiais da empresa, que respondi com os dados que dispunha, e o jornal continuou publicando matérias sobre o caso. O que eu não soube na época, e vim saber só três anos depois, numa reunião informal conversando com alguém da chefia, é que a Varig retaliou duramente o jornal. O Valor tinha contrato de permuta, pelo qual, em pagamento por inserções publicitárias normais, recebia passagens para os repórteres (é prática comum, as passagens são usadas para os deslocamentos comuns na reportagem); além disso, havia u8m acerto para distribuição do jornal na ponte aérea, uma forma de divulgar uma publicação que ainda não era conhecida, e precisava ganhar popularidade, para estimular a venda de assinaturas. Por causa de minhas matérias, a Varig cortou esses acordos. Não fiquei sabendo de nada, e o jornal continuou me pedindo suites das matérias, normalmente. Quando me contaram o que houve, a Varig já estava falida, minhas matérias reconhecidas e a informação em nada afetaria minha cobertura, já que eu estava acompanhando outros assuntos...

Em "Os elementos do jornalismo - o que os jornalistas devem saber e o público exigir", Bill Kovach e Tom Rosenstiel nos apontam que, se uma publicação jornalística assumir para que lado político, ideológico ou comercial pende, pode angariar mais credibilidade do que se optar pela omissão. É possível então acreditar em uma prática jornalística opinativa ? E no fantasma da imparcialidade ?

Sérgio Leo: Eu acho que a imparcialidade é um objetivo, ainda que saibamos, por todas as teorias semiológicas, linguísticas, hermenêuticas, antropológicas, sociológicas, que é impossível produzir um discurso isento de preconceitos e pré-concepções. O jornalista tem de sempre buscar, como numa investigação científica, a prova da verdade, a informação que poria por terra suas conclusões, suas certezas. Isso melhora a qualidade do material jornalístico e impede que o repórter embarque em furadas, como costuma acontecer quando ele já vai para a apuração decidido a confirmar algum parti-pris. Há espaços para a opinião nos jornais, inclusive o editorial. Se os jornais, escolhendo um partido ou candidato, passam a direcionar a cobertura noticiosa para favorecê-lo, vai perder, e não ganhar credibilidade, na minha opinião.

Vocês, leitores, não acreditam que sejamos objetivos. Vocês têm certeza de que os donos de jornais têm interesses e que usam seus veículos para encaminhá-los. Acham que nós, jornalistas, temos ideologia que refletimos nas reportagens que escrevemos. Em vários momentos da história, foi assim mesmo. Hoje, a grande imprensa brasileira - só lembro de uma exceção - vive um momento de extremo profissionalismo. Mas não adianta. Credibilidade perdida não se recupera na esquina.

Não é só no Brasil, é em todo o mundo: leitores não acreditam na objetividade jornalística. E uma campanha publicitária não resolverá o problema.

Como leitora de jornais, você acredita que o "extremo profissionalismo" da imprensa brasileira evita ou minimiza a dinâmica dos interesses das empresas de comunicação a serem veiculadas juntamente ou como informação ?

Conceição Oliveira: Só o Dória acha que jornalista não tem ideologia, este é o discurso mais inócuo que já vi, achei que o jornalismo já havia se liberado desta síndrome de imparcialidade. Jorge e demais leitores, o Dória deve estar muito tempo fora do país, aonde ele vê extremo profissionalismo nos jornais? Nem naquilo que deveria ser básico o cuidado mínimo de checar uma informação vemos mais , não faz muito tempo o plantão da globo e o portal do G1 anunciaram a queda de um avião no centro de são Paulo e era um incêndio na fábrica de colchões; o caso recente da brasileira Paula oliveira na Suíça; comparar por exemplo as manchetes da época do mensalão e da corrupção da Yeda Crusius, veja a matéria de quinta no site do Rodrigo Vianna. Jorge, creio que já respondi a questão, mas reforçando o que disse: bota aspas neste extremo profissionalismo, viu! Profissionalismo passou ao largo de nossa grande imprensa há bastante tempo, são inúmeros os exemplos que eu poderia citar de fatos recentes onde nada foi checado e notícia que é bom foi deixada de lado. Coloquemos nesta lista a cobertura perversa sobre a invenção da epidemia de febre amarela que levou milhares de pessoas a se vacinar sem necessidade, provocando inclusive óbito, o movimento dos sem-mídia entrou com denúncia no M.P (faça uma busca no Viomundo por 'febre amarela' para ler os artigos da jornalista Conceição Lemes especialista em saúde que vc terá todo o histórico da pataquada das Cantanhede da vida que para prevalecer a visão perversa da política que apóia abre mão da ética do jornalismo, da função social que este deve ter.

Desse modo, como não creio no extremo profissionalismo da grande imprensa sua ausência não evita e nem minimiza interesses do jornalismo corporativo.

Na verdade neutralidade, apartidarismo, objetividade não existe. Fora daqui vemos grandes jornais assumirem publicamente seu alinhamento ideológico Le Monde com o Partido Socialista, o L'Humanité com o Partido Comunista, o The Guardian com o Partido Trabalhista, nos EUA, igualmente os jornais não têm dificuldade em assumir quem apóiam (uns mais criticamente que outros). Mas aqui ao contrário fica este discurso vazio e desonesto (afora o Vermelho, por exemplo que faz jornalismo partidário), mas os jornalões da grande imprensa alardeiam a ficção da neutralidade, 'do rabo preso com o leitor' e ao olharmos minimamente a pauta e como ela é tratada fica muito claro de que lado o veículo está e de modo geral do lado mais conservador da sociedade.

Se o veículo trata dos movimentos sociais do sem terra, por exemplo, eles são os 'invasores' esta grande imprensa jamais usará o termo pelo viés dos sem terra (ocupação de terras griladas ou devolutas); se está se falando de criminosos da zona sul, são 'jovens aliciados', bandidos são os pretos e favelados; se for televisivo ainda é mais descarado, o telespectador não conhece o rosto dos bandidos da classe média, mas tem o close dos favelados, veja aqui um exemplo

Seria muito mais honesto assumir uma postura, eu respeito mais o Estadão claramente conservador, porque é coerente do que uma Folha ou um Globo e JB.

O problema, aliás, só é aumentado com o fato de que a Internet criará mais e mais pequenas empresas jornalísticas - aqui nos EUA já existem algumas. Com equipe muito enxuta, é difícil fazer a separação entre quem vende a publicidade e quem faz o conteúdo.

Alec, você recentemente, em seu blog, citou o fechamento da Rocky Mountain News e a formação de grupos de jornalistas demitidos dos jornalões com o objetivo de criar publicações online. Serão tempos de enxurrada de sites jornalísticos, alguns "publieditorialmente" elaborados ?

Alec Duarte: Mas esse tempo já passou, é o da explosão dos blogs jornalísticos. Estamos vivendo isso já, em iniciativas individuais. A definição operacional de blog ficou prejudicada após sites mimetizarem suas características (e vice-versa, os blogs viraram sites). Logo, isso [a enxurrada de sites jornalísticos] é fato. Há tempos o blog (e tudo o que isso implica _ou seja, a grife, a sensação de estar sintonizado com o avanço tecnológico, tudo traduzido num nome mágico) é o refúgio do jornalista inconformado com a frase "Não gostou? Cria seu próprio jornal então". Como minicorporações, portanto organizadas e com empregados, é um modelo de negócio que não enxergo crível, especialmente no Brasil _no Hemisfério Norte há mais chance de mais gente prosperar tentando essa via. Digo isso porque, mais do que o jornalismo, um negócio exige empreendedor e administrador, funções que via de regra passam longe dos interesses, da experiência e da cartilha do bom jornalista. Que, pior, acreditando-se realmente um especialista em generalidades, reluta em delegar essas tarefas.

A questão do modelo de negócios das redações é tão pesada e tão discutida que ela disfarça um problema muito mais profundo. Nos próximos anos, queiramos nós jornalistas ou não, o jornalismo será refundado, recriado, reinventado. Se continuarmos como estamos, na defensiva, fingindo que o problema é apenas um modelo de negócios, o novo jornalismo surgirá independentemente de nós.

A idéia - já implementada em algumas redações e que também estão sendo valorizadas em ambientes acadêmicos - de uma produção de caráter hipermidiático não seria o bastante para provar, de uma vez por todas, que o jornalismo já mudou há algum tempo ? O problema estaria então na (falta) de visão de pessoas que estão em cargos de chefia de áreas online/digital ?

Sérgio Leo: O problema, meu caro, está no tamanho do investimento (pessoal, tecnológico, conceitual, de treinamento) necessário para fazer esse jornalismo hipermidiático nas empresas.

Por mais imperfeita que seja, uma imprensa é fundamental para a democracia. É na imprensa, perante os olhos de todos, que os grandes debates nacionais acontecem. A imprensa surgiu para ser a voz do cidadão e o olho do cidadão nos afazeres públicos. É por causa da imprensa que eles, os eleitos, não podem fazer o que querem sem ser vistos
.

Já que estamos falando sobre democracia e jornalismo, tendo casos de distorções entre estes dois conceitos aqui no Brasil, então vale a máxima "melhor imprensa ruim do que nenhuma imprensa" ? E há, ainda no caso do Brasil, algo que blogueiros que tanto gostam de reclamar das práticas dos jornalões - assim como eu faço - possam realmente fazer, caso a idéia de redes seja realmente colocada em prática?

Pedro Markun: Como puro exercício hipotético: "Por mais imperfeita que seja, a rede é fundamental para a democracia. É na rede, perante os olhos de todos, que os grandes debates nacionais vão acontecer. A rede surgiu para ser a voz do cidadão e o olho do cidadão nos afazeres públicos. É por causa da rede que eles, os eleitos, não podem fazer o que querem sem ser vistos". Dito isso, acredito que precisamos desse espaço, dessa voz e olhar coletivo e alguma forma disso é sempre melhor que forma nenhuma. Não acredito tanto assim em blogueiros, a ponto de dizer que existe algo que 'nós' possamos fazer. O que vale é continuar com nossos esforços individuais - como o do Idelber Avelar e continuar tentando articualr nossos esforços coletivos - algumas, mas nem todas as tentativas de 'blogagem coletiva'. É e vai ser sempre uma briga contra moinhos, blogueiro não tem super-poder. A verdade é que não existe alavanca mágica, ou truque de backstage para colocar a rede em movimento, a rede vai funcionar a medida que tivermos pessoas suficientes engajadas na produção, reprodução e contestação do conteúdo. É parte inclusão digital, parte inclusão social... mistura com educação e senso crítico. On the rocks.

Sérgio Leo: Um exemplo das limitações da blogosfera: procurei, no fim de semana, relatos independentes, blogueiros, analíticos, sobre o orçamento do Obama e as demissões na Embraer. Nada encontrei além de comentários fragmentários, quase sempre remetendo a informações da grande imprensa... Jornalismo, em blogue ou na imprensa tradicional, demanda tempo, dedicação, organização e dinheiro, bastante dinheiro. Os blogues entram muito bem num campo que os jornais não sabem explorar, o tal mundo wiki, colaborativo, auto-corretivo. Se quiser, desenvolvo depois essa idéia.

Um dos grandes desafios técnicos do jornalismo é, na verdade, como melhor interagir com o público em busca de informação ao mesmo tempo em que organiza a informação coletada. Não é um problema trivial. É um dos problemas mais fundamentais para o futuro da profissão e já há algumas experiências interessantes.

Em termos de colaboração, eu tenho trabalhado com a idéia do jornalista como um cartógrafo da informação, no sentido de organização, tratamento e publicação de informação pensando hipermidiaticamente. Além disso, esse conceito leva em conta a interação com comunidades e redes. Não parece adequado, levando-se em conta a natureza dos meios digitais e seus desafios - se ainda cabe essa palavra -, que esse papel seja hoje mais do que uma possibilidade ?

Ana Maria Brambilla: Pra este primeiro trecho que designastes a mim, encontrei uma possível resposta alguns parágrafos depois, escrita pelo próprio Dória: "opúblico também não anda lá muito satisfeito em sua interação conosco." Separei esse trecho do autor pra evidenciar como é ciente, por parte dos jornalistas, a demanda por interação que vem do público, que já não tolera mais somente ouvir e comentar o noticiário com seus próximos.

Quanto à dinâmica geral dos jornalistas e dos produtos editoriais acolherem o público, concordo contigo que já não seja mais uma possibilidade. Poderia te responder "é uma realidade". Mas vou um pouquinho além e te digo "é uma obrigação". Jornalista que não responde a e-mail de seus leitores não está apto a trabalhar com jornalístico digital. Por quê? Porque a cultura digital tem como traço característico a APROXIMAÇÃO entre seres humanos por suas idéias, interesses, a despeito de localizações geográficas ou diferenças intelectuais, financeiras, religiosas etc.

Essa demanda do público chegar até a mídia, até a esfera até então "produtora" de informação é antiga, mas nunca foi possível em função de limitações técnicas dos meios. No momento em que temos um ambiente pluridirecional por ESSÊNCIA, a expectativa de contato é natural por qualquer parte. A lei dos 6 graus de separação que tanto explicou o surgimento das redes sociais se cristaliza nas práticas do mundo digital como "ninguém é inacessível". Muito menos o jornalista, que é
um profissional justificado pela existência do... público! Sem público para fruir, não há noticiário, não há jornalistas.

A crise toda citada pelo Pedro Dória me parece ter um começo muito claro: há público. Há MUITO público. E esse público nunca consumiu TANTA INFORMAÇÃO. Por que, então, os veículos se vêem em crise? Porque a oferta aumentou e diversificou, enquanto a prática jornalística se manteve intacta, "soberana" em seus preceitos do começo do século XX.

Ora! Quem sabe já não é hora de REVER estes preceitos? Eles começam pela impossível segregação entre jornalistas e público. Ou antes disso: o público TAMBÉM PRODUZ informação, o que pode nos levar a entendê-los como nossos concorrentes, em uma escala macro. Podemos abrir espaço em nossos veículos para que essa informação produzida pelo público ganhe visibilidade e agregue qualidade ao nosso trabalho. Ter o público como nosso concorrente ou colaborador, portanto, é uma escolha nossa. E pode ser uma questão de sobrevivência ao jornalismo.

Três modelos estão surgindo para sustentar o bom jornalismo. A base é propaganda e continuará sendo. As empresas jornalísticas terão que ser mais enxutas do que jamais foram para lidar com a falta de dinheiro das assinaturas.

O segundo modelo são fundações. Fundações, ONGs financiadoras, estão investindo em seus setores para que o público seja melhor informado sobre assuntos que lhes interessam: saúde, educação, moradia - não importa. É o novo jornalismo militante.

Por fim, não micropagamentos, mas doações.

Integração de redações pode soar como enxugamento de redações, uma solução estratégica para contornar mais uma crise dos jornais ? Haverá um modelo de negócios que possa destacar-se diante de uma crise dos jornais e do jornalismo ?

André de Abreu: Se bem feita não. Integração de redação é algo bem caro quando bem feito. Mais que unificar fisicamente processo, o maior e mais caro problema é educar os profissionais para essa nova realidade. Entretanto, o "jornalista-gestor" de visão curta, principalmente no Brasil, enxerga nessa integração um jeito fácil e rápido de aumentar receita. Os mais velhos de casa e mais experientes - aqueles que, em sua maioria, têm um diferencial em relação ao que existe de graça na internet - acabam saindo naturalmente. Ficam os jovens, com salários mais baixos, mas, tecnicamente, mais capazes. Em alguns jornais a integração virou uma verdadeira seleção natural, assim como aconteceu com a introdução dos computadores nas redações nos anos 1980. Por isso, um jornal preocupado com sua perpetuidade em longo prazo, não deveria investir em grandes integrações no momento, pois os custos com treinamento e acompanhamento dos mais experientes leva tempo, custa caro e os resultados vêm mais tarde. De todo modo, um modelo definitivo e 100% confiável ninguém descobriu (aliás, quem descobrir ficará rico). O que existem são tentativas. A Newsweek tomou a audaciosa decisão de praticamente eliminar o noticiário da semana e investir em investigação, opinião e análise, aumentando o preço de capa e das assinaturas. Outra discussão feita no exterior é as dos jornais se tornarem fundações sem fins lucrativos. Aqui, no Brasil, as revistas do IDEC e do Pro-Teste são dois exemplos de publicações que sobrevivem há anos sem sequer um anúncio. Elas sobrevivem das mensalidades pagas pelos seus associados que, em troca, recebem conteúdos exclusivos e de qualidade não oferecida por qualquer site da web.

De qualquer forma, doações funcionam de tempos em tempos, para um objetivo específico, em troca de um serviço que os leitores aprenderam a respeitar e apreciar. Não são um modelo recorrente que ajude a bancar o dia-a-dia das operações. É um mundo muito diferente este que está à nossa frente. E as mudanças estão apenas começando.
Fiz a seguinte pergunta para alguns: "então, a partir daqui, para onde é que nós vamos, hein ?". Não obtive resposta de nenhum deles. Sabe-se lá o motivo. Repasse então você, meu irmão trabalhador, minha amiga dona de casa.

A minha resposta eu deixo para um outro post.

fevereiro 20, 2009

sex 20fev09 05:20
Exu´s Hell Delivery: nós encomendamos sua alma

Na minha cabeça, não é verão e nem é carnaval. E tudo fica azul. Ainda mais em tempos onde as Diretrizes para os cursos de Jornalismo serão reavaliadas e modificadas - finalmente. Ou quando é anunciado que Publish2, assim, sem mais delongas, irá lançar uma plataforma de auxílio ao Jornalismo Colaborativo, chamada Digital Sunlight. São acontecimentos dessa monta que ajudam minha cachola a não escarafunchar-se, apoquentada, no ala la ô destes três dias de folia.

E para engripar o festerê, eis algo bem sério. A convite do programa Caleidoscópio, da TV Horizonte - da PUC Minas -, gravei minha participação no quadro Se Liga, em novembro do ano passado. Foram quatro indicações de blogs, que começaram a ser veiculadas agora. A apresentadora e editora do programa, Gisele Jota, prometeu colocar os quatro vídeos no Youtube assim que passarem na TV. O primeiro blog indicado e comentado foi o do Sérgio Leo.


Preciso chamar atenção para três fatos neste vídeo. O primeiro é que estou parecendo o Artur Dapieve. E segundo: notem toda minha naturalidade diante de uma câmera de vídeo. Só não é pior porque, "enquanto jornalista", sei o que estou fazendo quando parto para batucar. O terceiro: sim, eu sou um homem sério; são os detratores que arrendam uma imagem contrária.


[e no próximo bloco]

limpando blogosfera pb
No mês passado, participei da Campus Party Brasil, mediando a mesa do Ricardo Noblat, conforme constava na programação do Campus Blog, "braço blogueiro" do evento. Nessa mediação, fui cavalheiro com Noblat - cujo blog não gosto e finalmente disse isso diretamente para ele -, deixando-o tagarelar a vontade, mesmo quando perdia o fio da meada e perguntava sobre o que mesmo ele estava falando. Mas não pude deixar de perguntar se ele sentia-se uma "autoridade da blogosfera". Desse monólogo, ops, bate-papo com o público, fiquei sabendo que ele dorme com dois travesseiros de pena de ganso - assim como Doni e Biajoni.

Mas o que eu realmente quero contar é que ganhei, das mãos do camaradinha Rafael Apocalypse, minutos antes de começar esta mesa, um "kit de higiene" - xampu, pasta de dente, sabonete e que tais. Uma série de piadas com esse kit para a mesa passaram pela minha cabeça, devo confessar. Mas já disse que fui um cavalheiro.

A grande questão é que, ao contar isso para alguém, é inevitável que ouça a pergunta: mas isso é para limpar a blogosfera ?

Não me tentem. Já disse que sou um cavalheiro.

Tanto é que saúdo e peço passagem - opa, opa -, mesmo com certo atraso, aos novos vizinhos de condominío: Guga Schultze, João Filho, André Pase, Lia Amâncio, Leda e Laerte!

Eles é que são os hunos, os selvagens e bárbaros deste pedaço. E nem é fantasia.