[antes, um alerta: este é um post enorme, porém necessário]
Recentemente, um post do Pedro Dória sobre o futuro do jornalismo deixou-me encasquetado. Algumas inquietações acerca do escrito batucaram em minha cabeça, assim como o mantra "o jornalismo morreu", e passei a dividi-las com alguns caros amigos. Mostro o resultado aqui para vocês, destacando trechos do post do Dória e metralhando perguntas a respeito destes pontos para Alec Duarte, Ana Maria Brambilla, André de Abreu, Conceição de Oliveira, Pedro Markun e Sérgio Leo, que responderam as perguntas que foram mandadas para várias pessoas. Mas vamos aos fatos, somente aos fatos:
Aqui nos EUA, metade dos jornais vão morrer nos próximos dez anos. Os grandes, tipo New York Times, sobreviverão. Possivelmente sairão menores do que entraram. A curto e médio prazo, a situação no Brasil é diferente. Os governos FH e Lula trouxeram muita gente para a classe média e o número de alfabetizados aumenta. Há mais leitores de jornal. Mas, a longo prazo, isso só quer dizer uma coisa: os grandes grupos de mídia brasileiros têm mais tempo do que os norte-americanos para enfrentar as mudanças que já estão acontecendo. Em sua maioria, estão postergando tais mudanças por dois motivos. O primeiro é que não sabem exatamente o que têm de fazer. O segundo é porque nós, jornalistas, somos bichos extremamente conservadores. Resistimos a mudanças.
Temos aqui um cenário bem pré-apocalíptico. Ao mesmo tempo em que discutimos viabilidade e implementação de redações integradas para projetos em multimídia, estamos vendo a atual crise mundial "coincidir" com mais uma crise dos jornais, fazendo com que várias publicações - essencialmente nos Estados Unidos - fechem suas portas. Como este efeito da crise não chegou ao Brasil, será possível que gestores de áreas online de publicações tupiniquins apreendam uma lição a partir deste "modelo americano" e revejam estratégias ?
André de Abreu: Eu penso que não e o problema está justamente aí. O gestor de uma redação é, na sua essência, um jornalista que aprendeu a gerir na prática. Ele não aprendeu na faculdade e há apenas um curso que forma gestores de empresas jornalísticas no Brasil (que eu conheça). Desse modo, o jornalista, a priori, é um profissional que não tem as características ou o conhecimento para administrar uma empresa. A maioria dos jornais hoje tem na publicidade o seu grande sustentáculo financeiro, o que é uma estratégia equivocada. Nenhum investidor em sã consciência basearia seu negócio ou a maior parte dele e uma única fonte para sua sustentabilidade. Entretanto, a publicidade é aquela receita cujos dividendos soltam aos olhos dos inexperientes gestores jornalistas, pois o retorno é praticamente imediato. Hoje, se vê as conseqüências dessa estratégia cega em longo prazo. Que os jornais entrariam crise, não há dúvida. Por uma questão geracional, inicialmente. A nova geração, daqueles nascidos dos anos 80 em diante, não cresceu com o hábito de leitura de jornal e não sentiram falta disso. Afinal, a falta de investimento nas redações nas últimas duas décadas fez com que o grau de exclusividade que se tinha nas páginas de papel se esvaecesse. Com o advento da web, em paralelo, as pessoas começaram a observar que não dependiam tanto assim do jornal para sobreviver, já que o conteúdo dos jornais online eram praticamente os mesmo do impresso, ou seja, apuração feita por recém-formados baseado em release e informações de agência de notícias. O Brasil só não foi tão afetado não pelo aumento da educação dos leitores, como afirmou o Dória, já que o que aumenta é o número de periódicos criados e não o número de circulação. Historicamente, ela vem caindo desde o início do século tendo picos de retomadas com o aumento do PIB. Como a crise não afetou o Brasil como afetou os EUA, logicamente, o anunciantes não retiram de forma repentina suas verbas dos jornais na proporção e na velocidade ocorrida nos EUA. Além disso, houve um crescimento histórico da classe média nos últimos anos, o típico consumidor desse produto. De todo, a tal quebra dos jornais é questão de tempo, já que eles se tornaram grandes conglomerados, com finanças nada otimizadas e apoiados numa fonte de receita que vem e vai de acordo com os humores do mercado. E como ninguém quer arriscar em estratégias mais ousadas em longo prazo, a tendência é dos próprios jornais cavarem seus buracos.
Sérgio Leo: Já vejo em algumas redações ensaios de mudança, com palestras dirigidas aos funcionários sobre a necessidade de "agregar valor", de transformar a todos em jornalistas multimídia, com treino para vídeo e podcast. A mim, isso parece complicado, porque não se fala em aumentar o número de repórteres nem a infra-estrutura. Essas mudanças, se feitas sem planejamento adequado, com investimentos em formação de pessoal e tecnologia, podem representar apenas mais trabalho, mais tensão, perda de qualidade de vida, sem grande ganho de qualidade para o material informativo.
Sérgio, vou te repassar a pergunta que intitula um dos livros do Philip Meyer: os jornais podem desaparecer ?
Sérgio Leo: Não creio que os jornais acabarão, mas terão de mudar de plataforma, migrando, cada vez mais, para o mundo virtual. O jornal de papel tende a acabar, sim. Mas não dá para prever quando, hábitos não se mudam facilmente. No dia em que alguém criar um jornal exclusivamente de internet que consiga repercussão e influências, os outros seguirão correndo.
Conceição, como historiadora e atenta leitora de jornais, me diga: em relação à crise dos jornais, "a curto e médio prazo, a situação no Brasil é diferente", como diz Pedro Dória?
Conceição de Oliveira: Eu não acho que não é diferente não. Os jornalões que existem hoje no país estão afastando leitores eles não dizem nada pra esta nova classe média alfabetizada proveniente dos extratos C e D e a meu ver os jornalistas dos jornalões vão perder inclusive aqueles que de algum modo aturavam as bobagens em detrimento de um ou outro artigo, a Folha por exemplo. com o episódio da ditabranda vai agüentar um protesto bem organizado no sábado, tem campanha pra cancelamento de assinatura partindo inclusive da academia. O jornalismo voltado para as classes C e D com notícias inteligíveis e de interesse destes grupos sociais e serviços não foi ainda inventado, alguns sites como o Vi o Mundo, que acaba de inaugurar um blog de saúde dentro do seu site, está se aproximando disso, engatinhando.
Lêem os sites de jornais, é verdade. E é por isso que uma das sugestões da moda é que se os jornais cobrarem alguns centavos por cada artigo online tudo se resolve. Na IDEO, ou em todo o Vale do Silício, há uma certeza: jornais não conseguirão cobrar por conteúdo. Por um motivo simples: notícia de graça existe às pencas na web. O que acontece com quem cobra por conteúdo é que termina sem ser lido. O New York Times cobrava pela leitura de seus colunistas, e o dinheiro lhe rendia uma quantia bastante razoável. Mudou de idéia e sacrificou a fonte de renda porque suas colunas não eram mais tema de debate. Deixar de repercutir é justamente o que um jornal não pode fazer.
O modelo de micropagamentos ou microdoações é sustentável ? Melhor: é possível funcionar no Brasil, seja na versão online de um jornal, seja em iniciativas empresariais não-convencionais ?
Alec Duarte: Quando você fala em "iniciativas empresariais não-convencionais" em penso logo no next big thing, então não falarei sobre elas. Doações? Coisa de americano. Tenta arrancar dinheiro de um europeu ou asiático. E de um brasileiro? Muito difícil em projetos de massa, mas absolutamente executável se percorrida a Cauda Longa. No mercado de nicho, há milhares de possibilidades de oferecer conteúdo associado ao pedido de oferendas aos clientes. Sobre os micropagamentos e os jornais on-line: é a estupidez campeã de 2009 (surgiu no final de 2008, é verdade, mas sem tempo de figurar na retrospectiva do ano). Refiro-me à Web: esqueça o muro do conteúdo pago. Ele te esconde das máquinas de busca, e o prejuízo em tráfego/audiência é sempre maior do que o auferido com o nickel-and-dimed. Em dispositivos móveis (notadamente celulares), a cobrança é óbvia e desde sempre. Nada mudou, apenas o maior acesso (e sempre maior) a esses produtos.
Nosso modelo de imprensa não é uma tradição de séculos. Ele data, isto sim, de entre os anos 1920 e 40, nos EUA. Alguns princípios são sacrossantos para nós, jornalistas. Um deles é a separação entre Igreja e Estado: quem mexe com publicidade, nas grandes empresas, não dá pitaco na redação. Os anunciantes não podem achar que têm o poder de intervir. Quando esse tipo de interferência ocorre, em geral nos jornais que cheiram mal, nós jornalistas olhamos com desdém. Outro princípio que corre em nosso sangue é o da isenção e objetividade. Somente os fatos. Opinião fica delimitada às colunas e página de editoriais.
O modelo caducou.
Sérgio, você conhece algum caso, de qualquer país, onde o departamento de publicidade de um jornal não tentou influenciar a dinâmica da redação ? Você já olhou com desdém uma ação como essa ?
Sérgio Leo: Essa separação sacrossanta é defendida com unhas e dentes nos jornais sérios, Jorge. Mas há casos, sim, de publicações (revistas e mais recentemente alguns jornais) em que anunciantes e amigos dos donos "recomendam" linhas de abordagem e pautas aos jornais. Isso é mais provável em jornais pequenos, regionais. Nos grandes, quando fica evidente esse tipo de influência, a publicação tende a perder prestígio, e capacidade de influência. Há casos recentes, que não me cabe nominar, de publicações importantes que foram relegados a posição marginal por causa da falta de compreensão por parte dos donos a respeito dessa divisão entre o que é material publicitário e o que é jornalístico. É mais comum o contrário: matérias das redações põem o pessoal da publicidade em palpos de aranha; eu mesmo, no valor, vivi um caso emblemático: logo no lançamento do jornal, fiz uma matéria, baseada em relatório secreto do BNDES, que apontava a situação falimentar da Varig, e previa dificuldades para a empresa. Como reação, o que me chegou à redação de Brasília foram as notas oficiais da empresa, que respondi com os dados que dispunha, e o jornal continuou publicando matérias sobre o caso. O que eu não soube na época, e vim saber só três anos depois, numa reunião informal conversando com alguém da chefia, é que a Varig retaliou duramente o jornal. O Valor tinha contrato de permuta, pelo qual, em pagamento por inserções publicitárias normais, recebia passagens para os repórteres (é prática comum, as passagens são usadas para os deslocamentos comuns na reportagem); além disso, havia u8m acerto para distribuição do jornal na ponte aérea, uma forma de divulgar uma publicação que ainda não era conhecida, e precisava ganhar popularidade, para estimular a venda de assinaturas. Por causa de minhas matérias, a Varig cortou esses acordos. Não fiquei sabendo de nada, e o jornal continuou me pedindo suites das matérias, normalmente. Quando me contaram o que houve, a Varig já estava falida, minhas matérias reconhecidas e a informação em nada afetaria minha cobertura, já que eu estava acompanhando outros assuntos...
Em "Os elementos do jornalismo - o que os jornalistas devem saber e o público exigir", Bill Kovach e Tom Rosenstiel nos apontam que, se uma publicação jornalística assumir para que lado político, ideológico ou comercial pende, pode angariar mais credibilidade do que se optar pela omissão. É possível então acreditar em uma prática jornalística opinativa ? E no fantasma da imparcialidade ?
Sérgio Leo: Eu acho que a imparcialidade é um objetivo, ainda que saibamos, por todas as teorias semiológicas, linguísticas, hermenêuticas, antropológicas, sociológicas, que é impossível produzir um discurso isento de preconceitos e pré-concepções. O jornalista tem de sempre buscar, como numa investigação científica, a prova da verdade, a informação que poria por terra suas conclusões, suas certezas. Isso melhora a qualidade do material jornalístico e impede que o repórter embarque em furadas, como costuma acontecer quando ele já vai para a apuração decidido a confirmar algum parti-pris. Há espaços para a opinião nos jornais, inclusive o editorial. Se os jornais, escolhendo um partido ou candidato, passam a direcionar a cobertura noticiosa para favorecê-lo, vai perder, e não ganhar credibilidade, na minha opinião.
Vocês, leitores, não acreditam que sejamos objetivos. Vocês têm certeza de que os donos de jornais têm interesses e que usam seus veículos para encaminhá-los. Acham que nós, jornalistas, temos ideologia que refletimos nas reportagens que escrevemos. Em vários momentos da história, foi assim mesmo. Hoje, a grande imprensa brasileira - só lembro de uma exceção - vive um momento de extremo profissionalismo. Mas não adianta. Credibilidade perdida não se recupera na esquina.
Não é só no Brasil, é em todo o mundo: leitores não acreditam na objetividade jornalística. E uma campanha publicitária não resolverá o problema.
Como leitora de jornais, você acredita que o "extremo profissionalismo" da imprensa brasileira evita ou minimiza a dinâmica dos interesses das empresas de comunicação a serem veiculadas juntamente ou como informação ?
Conceição Oliveira: Só o Dória acha que jornalista não tem ideologia, este é o discurso mais inócuo que já vi, achei que o jornalismo já havia se liberado desta síndrome de imparcialidade. Jorge e demais leitores, o Dória deve estar muito tempo fora do país, aonde ele vê extremo profissionalismo nos jornais? Nem naquilo que deveria ser básico o cuidado mínimo de checar uma informação vemos mais , não faz muito tempo o plantão da globo e o portal do G1 anunciaram a queda de um avião no centro de são Paulo e era um incêndio na fábrica de colchões; o caso recente da brasileira Paula oliveira na Suíça; comparar por exemplo as manchetes da época do mensalão e da corrupção da Yeda Crusius, veja a matéria de quinta no site do Rodrigo Vianna. Jorge, creio que já respondi a questão, mas reforçando o que disse: bota aspas neste extremo profissionalismo, viu! Profissionalismo passou ao largo de nossa grande imprensa há bastante tempo, são inúmeros os exemplos que eu poderia citar de fatos recentes onde nada foi checado e notícia que é bom foi deixada de lado. Coloquemos nesta lista a cobertura perversa sobre a invenção da epidemia de febre amarela que levou milhares de pessoas a se vacinar sem necessidade, provocando inclusive óbito, o movimento dos sem-mídia entrou com denúncia no M.P (faça uma busca no Viomundo por 'febre amarela' para ler os artigos da jornalista Conceição Lemes especialista em saúde que vc terá todo o histórico da pataquada das Cantanhede da vida que para prevalecer a visão perversa da política que apóia abre mão da ética do jornalismo, da função social que este deve ter.
Desse modo, como não creio no extremo profissionalismo da grande imprensa sua ausência não evita e nem minimiza interesses do jornalismo corporativo.
Na verdade neutralidade, apartidarismo, objetividade não existe. Fora daqui vemos grandes jornais assumirem publicamente seu alinhamento ideológico Le Monde com o Partido Socialista, o L'Humanité com o Partido Comunista, o The Guardian com o Partido Trabalhista, nos EUA, igualmente os jornais não têm dificuldade em assumir quem apóiam (uns mais criticamente que outros). Mas aqui ao contrário fica este discurso vazio e desonesto (afora o Vermelho, por exemplo que faz jornalismo partidário), mas os jornalões da grande imprensa alardeiam a ficção da neutralidade, 'do rabo preso com o leitor' e ao olharmos minimamente a pauta e como ela é tratada fica muito claro de que lado o veículo está e de modo geral do lado mais conservador da sociedade.
Se o veículo trata dos movimentos sociais do sem terra, por exemplo, eles são os 'invasores' esta grande imprensa jamais usará o termo pelo viés dos sem terra (ocupação de terras griladas ou devolutas); se está se falando de criminosos da zona sul, são 'jovens aliciados', bandidos são os pretos e favelados; se for televisivo ainda é mais descarado, o telespectador não conhece o rosto dos bandidos da classe média, mas tem o close dos favelados, veja aqui um exemplo
Seria muito mais honesto assumir uma postura, eu respeito mais o Estadão claramente conservador, porque é coerente do que uma Folha ou um Globo e JB.
O problema, aliás, só é aumentado com o fato de que a Internet criará mais e mais pequenas empresas jornalísticas - aqui nos EUA já existem algumas. Com equipe muito enxuta, é difícil fazer a separação entre quem vende a publicidade e quem faz o conteúdo.
Alec, você recentemente, em seu blog, citou o fechamento da Rocky Mountain News e a formação de grupos de jornalistas demitidos dos jornalões com o objetivo de criar publicações online. Serão tempos de enxurrada de sites jornalísticos, alguns "publieditorialmente" elaborados ?
Alec Duarte: Mas esse tempo já passou, é o da explosão dos blogs jornalísticos. Estamos vivendo isso já, em iniciativas individuais. A definição operacional de blog ficou prejudicada após sites mimetizarem suas características (e vice-versa, os blogs viraram sites). Logo, isso [a enxurrada de sites jornalísticos] é fato. Há tempos o blog (e tudo o que isso implica _ou seja, a grife, a sensação de estar sintonizado com o avanço tecnológico, tudo traduzido num nome mágico) é o refúgio do jornalista inconformado com a frase "Não gostou? Cria seu próprio jornal então". Como minicorporações, portanto organizadas e com empregados, é um modelo de negócio que não enxergo crível, especialmente no Brasil _no Hemisfério Norte há mais chance de mais gente prosperar tentando essa via. Digo isso porque, mais do que o jornalismo, um negócio exige empreendedor e administrador, funções que via de regra passam longe dos interesses, da experiência e da cartilha do bom jornalista. Que, pior, acreditando-se realmente um especialista em generalidades, reluta em delegar essas tarefas.
A questão do modelo de negócios das redações é tão pesada e tão discutida que ela disfarça um problema muito mais profundo. Nos próximos anos, queiramos nós jornalistas ou não, o jornalismo será refundado, recriado, reinventado. Se continuarmos como estamos, na defensiva, fingindo que o problema é apenas um modelo de negócios, o novo jornalismo surgirá independentemente de nós.
A idéia - já implementada em algumas redações e que também estão sendo valorizadas em ambientes acadêmicos - de uma produção de caráter hipermidiático não seria o bastante para provar, de uma vez por todas, que o jornalismo já mudou há algum tempo ? O problema estaria então na (falta) de visão de pessoas que estão em cargos de chefia de áreas online/digital ?
Sérgio Leo: O problema, meu caro, está no tamanho do investimento (pessoal, tecnológico, conceitual, de treinamento) necessário para fazer esse jornalismo hipermidiático nas empresas.
Por mais imperfeita que seja, uma imprensa é fundamental para a democracia. É na imprensa, perante os olhos de todos, que os grandes debates nacionais acontecem. A imprensa surgiu para ser a voz do cidadão e o olho do cidadão nos afazeres públicos. É por causa da imprensa que eles, os eleitos, não podem fazer o que querem sem ser vistos
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Já que estamos falando sobre democracia e jornalismo, tendo casos de distorções entre estes dois conceitos aqui no Brasil, então vale a máxima "melhor imprensa ruim do que nenhuma imprensa" ? E há, ainda no caso do Brasil, algo que blogueiros que tanto gostam de reclamar das práticas dos jornalões - assim como eu faço - possam realmente fazer, caso a idéia de redes seja realmente colocada em prática?
Pedro Markun: Como puro exercício hipotético: "Por mais imperfeita que seja, a rede é fundamental para a democracia. É na rede, perante os olhos de todos, que os grandes debates nacionais vão acontecer. A rede surgiu para ser a voz do cidadão e o olho do cidadão nos afazeres públicos. É por causa da rede que eles, os eleitos, não podem fazer o que querem sem ser vistos". Dito isso, acredito que precisamos desse espaço, dessa voz e olhar coletivo e alguma forma disso é sempre melhor que forma nenhuma. Não acredito tanto assim em blogueiros, a ponto de dizer que existe algo que 'nós' possamos fazer. O que vale é continuar com nossos esforços individuais - como o do Idelber Avelar e continuar tentando articualr nossos esforços coletivos - algumas, mas nem todas as tentativas de 'blogagem coletiva'. É e vai ser sempre uma briga contra moinhos, blogueiro não tem super-poder. A verdade é que não existe alavanca mágica, ou truque de backstage para colocar a rede em movimento, a rede vai funcionar a medida que tivermos pessoas suficientes engajadas na produção, reprodução e contestação do conteúdo. É parte inclusão digital, parte inclusão social... mistura com educação e senso crítico. On the rocks.
Sérgio Leo: Um exemplo das limitações da blogosfera: procurei, no fim de semana, relatos independentes, blogueiros, analíticos, sobre o orçamento do Obama e as demissões na Embraer. Nada encontrei além de comentários fragmentários, quase sempre remetendo a informações da grande imprensa... Jornalismo, em blogue ou na imprensa tradicional, demanda tempo, dedicação, organização e dinheiro, bastante dinheiro. Os blogues entram muito bem num campo que os jornais não sabem explorar, o tal mundo wiki, colaborativo, auto-corretivo. Se quiser, desenvolvo depois essa idéia.
Um dos grandes desafios técnicos do jornalismo é, na verdade, como melhor interagir com o público em busca de informação ao mesmo tempo em que organiza a informação coletada. Não é um problema trivial. É um dos problemas mais fundamentais para o futuro da profissão e já há algumas experiências interessantes.
Em termos de colaboração, eu tenho trabalhado com a idéia do jornalista como um cartógrafo da informação, no sentido de organização, tratamento e publicação de informação pensando hipermidiaticamente. Além disso, esse conceito leva em conta a interação com comunidades e redes. Não parece adequado, levando-se em conta a natureza dos meios digitais e seus desafios - se ainda cabe essa palavra -, que esse papel seja hoje mais do que uma possibilidade ?
Ana Maria Brambilla: Pra este primeiro trecho que designastes a mim, encontrei uma possível resposta alguns parágrafos depois, escrita pelo próprio Dória: "opúblico também não anda lá muito satisfeito em sua interação conosco." Separei esse trecho do autor pra evidenciar como é ciente, por parte dos jornalistas, a demanda por interação que vem do público, que já não tolera mais somente ouvir e comentar o noticiário com seus próximos.
Quanto à dinâmica geral dos jornalistas e dos produtos editoriais acolherem o público, concordo contigo que já não seja mais uma possibilidade. Poderia te responder "é uma realidade". Mas vou um pouquinho além e te digo "é uma obrigação". Jornalista que não responde a e-mail de seus leitores não está apto a trabalhar com jornalístico digital. Por quê? Porque a cultura digital tem como traço característico a APROXIMAÇÃO entre seres humanos por suas idéias, interesses, a despeito de localizações geográficas ou diferenças intelectuais, financeiras, religiosas etc.
Essa demanda do público chegar até a mídia, até a esfera até então "produtora" de informação é antiga, mas nunca foi possível em função de limitações técnicas dos meios. No momento em que temos um ambiente pluridirecional por ESSÊNCIA, a expectativa de contato é natural por qualquer parte. A lei dos 6 graus de separação que tanto explicou o surgimento das redes sociais se cristaliza nas práticas do mundo digital como "ninguém é inacessível". Muito menos o jornalista, que é
um profissional justificado pela existência do... público! Sem público para fruir, não há noticiário, não há jornalistas.
A crise toda citada pelo Pedro Dória me parece ter um começo muito claro: há público. Há MUITO público. E esse público nunca consumiu TANTA INFORMAÇÃO. Por que, então, os veículos se vêem em crise? Porque a oferta aumentou e diversificou, enquanto a prática jornalística se manteve intacta, "soberana" em seus preceitos do começo do século XX.
Ora! Quem sabe já não é hora de REVER estes preceitos? Eles começam pela impossível segregação entre jornalistas e público. Ou antes disso: o público TAMBÉM PRODUZ informação, o que pode nos levar a entendê-los como nossos concorrentes, em uma escala macro. Podemos abrir espaço em nossos veículos para que essa informação produzida pelo público ganhe visibilidade e agregue qualidade ao nosso trabalho. Ter o público como nosso concorrente ou colaborador, portanto, é uma escolha nossa. E pode ser uma questão de sobrevivência ao jornalismo.
Três modelos estão surgindo para sustentar o bom jornalismo. A base é propaganda e continuará sendo. As empresas jornalísticas terão que ser mais enxutas do que jamais foram para lidar com a falta de dinheiro das assinaturas.
O segundo modelo são fundações. Fundações, ONGs financiadoras, estão investindo em seus setores para que o público seja melhor informado sobre assuntos que lhes interessam: saúde, educação, moradia - não importa. É o novo jornalismo militante.
Por fim, não micropagamentos, mas doações.
Integração de redações pode soar como enxugamento de redações, uma solução estratégica para contornar mais uma crise dos jornais ? Haverá um modelo de negócios que possa destacar-se diante de uma crise dos jornais e do jornalismo ?
André de Abreu: Se bem feita não. Integração de redação é algo bem caro quando bem feito. Mais que unificar fisicamente processo, o maior e mais caro problema é educar os profissionais para essa nova realidade. Entretanto, o "jornalista-gestor" de visão curta, principalmente no Brasil, enxerga nessa integração um jeito fácil e rápido de aumentar receita. Os mais velhos de casa e mais experientes - aqueles que, em sua maioria, têm um diferencial em relação ao que existe de graça na internet - acabam saindo naturalmente. Ficam os jovens, com salários mais baixos, mas, tecnicamente, mais capazes. Em alguns jornais a integração virou uma verdadeira seleção natural, assim como aconteceu com a introdução dos computadores nas redações nos anos 1980. Por isso, um jornal preocupado com sua perpetuidade em longo prazo, não deveria investir em grandes integrações no momento, pois os custos com treinamento e acompanhamento dos mais experientes leva tempo, custa caro e os resultados vêm mais tarde. De todo modo, um modelo definitivo e 100% confiável ninguém descobriu (aliás, quem descobrir ficará rico). O que existem são tentativas. A Newsweek tomou a audaciosa decisão de praticamente eliminar o noticiário da semana e investir em investigação, opinião e análise, aumentando o preço de capa e das assinaturas. Outra discussão feita no exterior é as dos jornais se tornarem fundações sem fins lucrativos. Aqui, no Brasil, as revistas do IDEC e do Pro-Teste são dois exemplos de publicações que sobrevivem há anos sem sequer um anúncio. Elas sobrevivem das mensalidades pagas pelos seus associados que, em troca, recebem conteúdos exclusivos e de qualidade não oferecida por qualquer site da web.
De qualquer forma, doações funcionam de tempos em tempos, para um objetivo específico, em troca de um serviço que os leitores aprenderam a respeitar e apreciar. Não são um modelo recorrente que ajude a bancar o dia-a-dia das operações.
É um mundo muito diferente este que está à nossa frente. E as mudanças estão apenas começando.
Fiz a seguinte pergunta para alguns: "então, a partir daqui, para onde é que nós vamos, hein ?". Não obtive resposta de nenhum deles. Sabe-se lá o motivo. Repasse então você, meu irmão trabalhador, minha amiga dona de casa.
A minha resposta eu deixo para um outro post.