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Então, senhoras e senhores "convidados": é possível vocês escreverem novos decálogos?
*o blog completou dois anos neste condomínio em maio último e eu nem falei nada. tsk.
** sim, é um maldito meme. vai encarar?
Atualização: Ana Maria Brambilla e Alec Duarte já deram suas opiniões sobre a morte da blogosfera. Mas ainda estou esperando quem escreva novos Decálogos da Audiência Precavida.
[início do livro - inacabado, é claro - Cabeça de Transformer, de autoria deste que vos digita.]
As hipergazetas que você criou em Piritas Siderais preconizaram, de certa maneira, uma forma de escrita que hoje é possível ser percebida no Twitter. Poderíamos então considerar que as hipergazetas e os contos-manchetes seriam os pais de uma narrativa adaptável/utilizável em microblogagem?
A antevisão dos escritores de FC sempre foi um mistério para mim. Vejo esse caras como uma mistura de áugures e analistas radicais de um presente perfeito. Com relação a essa última colocação, a antevisão é apenas uma justificativa de interpretação projetiva do presente. Tanto que não deveriam ser chamados de futuristas, e sim de presentistas. Com relação às hipergazetas, creio que não se tratou de um caso de antevisão, pois eu estava imbuído naquele momento pela tecnologia dos hipertextos (o livro foi concebido entre 1987 e 1993). Tanto que as hipergazetas eram frases distribuídas em disquetes (sic) que, quando carregadas no computador, poderiam ser recombinadas por meio de cliques sobre os ícones de um besouro, que intermediavam as frases. Portanto, hipergazetas e microblogging são um caso de coincidência total.
Muito se tem falado - e criticado - a respeito do "jornalismo twitter": uma cobertura concisa e em tempo real neste sistema de microblogagem. Você considera que a utilização de contos-manchetes - não por empresas jornalísticas - poderia ser um caminho "lúdico-filosófico-opinativo" viável para este tipo de cobertura?
Creio que sim. Ao menos traria uma dimensão "ficcional" aos fatos. Não foi o McLuhan quem disse que o texto jornalístico é o que gera os fatos, e não o contrário? Outra coisa proposta pelas hipergazetas é a concentração informacional oferecida por pílulas textuais. É como se tivéssemos que, atualmente, "compactar" o texto como compactamos as imagens estáticas e os vídeos. Esse tipo de recurso poderia oferecer um panorama mais denso em menor espaço-momento.
Até que ponto os sistemas de lifecasting e microblogagem estão explorando - ou podem explorar - uma narrativa de hipergazetas? Você enxerga possibilidades de uso destes sistemas nesse sentido?
Por enquanto, não vejo ainda algo nesse sentido. Mesmo por que eu não esperaria que as hipergazetas estivessem tão alastradas assim. Elas pertencem a um livro obscuro, escrito sob várias influências e certamente com laivos autotélicos! [Autotélico: Diz-se do que tem sentido apenas para si próprio, como no caso de um autor que supostamente escreve só para si mesmo, convencido de que a literatura é apenas entendível por quem a produziu]
Mocorongos mal-intencionados mixam microblogagem com microbrodagem, monetizando maledicências e mocozando milongas?
Cara, você é um GRANDE escritor de hipergazetas! Já disse isso e repito aqui agora em público!
Enquanto entidades classistas, vários jornalistas e estudantes universitários insistiam em imputar à queda da exigência do diploma todos os males de uma profissão duramente criticada não de hoje, havia quem entendesse que este é apenas um elemento a mais no cenário de transformação - necessária - do Jornalismo.
Minha estréia no Trezentos, falando sobre a queda da obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão de jornalista.
Ainda bem.
O síndico deste condomínio, organizado que só, fez um belo apanhado hipertextual analítico sobre o caso - quero ser igual a ele quando ficar bem velhinho. Portanto, reservo-me o direito de não mais fazer rodeios. É preciso deixar bem claro que não há heróis nesta história. Não se trata de defender a Petrobrás - que realizou uma manobra política tática em tempos de CPI assobiando no ar - ou meramente culpar os jornalões - que estão batendo pezinho como crianças birrentas, quando deveriam procurar formas de "contra-ataque" mais efetivas. Trata-se aqui de compreender a natureza desta tática, entender porque a birra é a resposta da imprensa e as implicações diretas da publicização, feita pela fonte, da íntegra da entrevista - não importando se antes ou depois da matéria publicada, a bem dizer -, como pondera o jornalista Leandro Fortes.
Da minha parte, pontuo algumas questões debatidas com o advogado Túlio Vianna, em um rápido, porém elucidativo bate-papo. Vamos considerar que informação jornalística pode ser tratada como um bem de interesse público - alguém aí falou em utopia ? A Petrobrás, uma empresa pública, é acionada pela imprensa a prestar informações relativas à CPI. Até onde eu entendo, as informações que alimentam uma CPI, por serem de interesse dos cidadãos, possuem caráter público. Pergunto a Túlio Vianna quais são as implicações jurídicas no fato da Petrobrás estar publicizando as entrevistas que concede por email aos jornais, antes mesmo da publicação das matérias. De bate-pronto - e pensando em publicar as perguntas e respostas antes que eu escreva este texto -, ele responde: "Qualquer empresa pública só tem dois tipos de informações: as públicas e as sigilosas. A regra é simples: as sigilosas não podem divulgar pra ninguém; as públicas elas divulgam pra quem quiser, como quiser".
Então por que esse chororô todo da imprensa, seu Túlio ? Transparência no trato com a coisa pública não deveria ser um ato juridicamente louvável ? Deixo-o responder antes que leve a cabo a ideia de colocar a entrevista logo em seu blog: "Os jornais estão querendo monopólio de notícias de órgãos públicos, o que evidentemente seria ilegal, caso praticasse, pois a empresa estaria dando informações privilegiadas a um veículo em detrimento dos outros".
A chiadeira dos jornalões está centrada em um sigilo nunca acordado entre fonte e jornalista a respeito de informações em uma entrevista - e, nesse caso, voltam as distorções a respeito dos termos "ética" e "moral" que condenam o que está sendo feito no Blogobrás. Como jornalista e professor de Jornalismo, entendo que a fonte pode tranquilamente publicar uma entrevista a qual respondeu - afinal, também produziu aquela informação. Cabe ao jornalista, se for sagaz no xadrez político que é a profissão, traçar uma estratégia para desenrolar-se desse novelo, tirar proveito de um momento que o termo "transparência" está assim tão associado à "informação jornalística" e lidar com esta última realmente como um bem público. Em suma: pensar e agir como jornalista - que não deveria deixar-se pegar de calças curtas.
Hum, talvez esteja aí o aspecto psicológico da perda de tempo fazendo birra.
Este episódio parece revelar mais um ato da novela jornalística, no que diz respeito à necessidade de mudanças estruturais desta prática, especialmente no campo da comunicação digital. Retomo a conversa com Túlio Vianna, que ficou ali, alguns parágrafos acima, e pergunto se ele considera que entidades classistas deveriam prestar maior atenção em episódios como este e não apenas concentrar esforços em prol da obrigatoriedade do diploma em jornalismo. Postando-se neste parágrafo, ele não titubeia: "Entidades classistas de jornalistas, advogados ou qualquer outra, são criadas para proteger os interesses da classe, então é natural o protecionismo. O legislador, porém, deve legislar não no interesse de uma classe, mas no interesse público e me parece óbvio que não há qualquer interesse público no monopólio da divulgação da informação pela classe dos jornalistas detentores de um diploma universitário".
E voltamos a ideia de "monopólio da informação", termo que suscitou, no meio desse bafafá todo, discursos inflamados e ânimos exaltados - tanto do lado de quem defende quanto na ala dos que condenam o Blogobrás, é bom frisar. No meio deste destempero, quero destacar, além das notas que a Abraji e ANJ soltaram, a prática, em listas de discussão como a do Fórum Nacional de Professores de Jornalismo, de chamar de "petistas e governistas" todas as pessoas - especialmente blogueiros - que se manifestam favoráveis à estratégia adotada pela Petrobrás. Fico imaginando que, ao tratar desse assunto em sala de aula de turmas de Jornalismo e manifestar minha opinião a respeito do Blogobrás, eu talvez deva ter algum receio de soar "petista e governista" - posição esta que passo ao largo, do mesmo modo como friso que, nem de longe, sou tucano. Mas certos reducionismos eram esperados, o que é próprio do "ambiente democrático de discussão" que pauta os entreveros acerca de questões jornalísticas.
[update: como era esperado, o julgamento da obrigatoriedade do diploma em jornalismo para exercício da profissão foi adiado - sem data prevista para voltar à pauta do STF um novo julgamento está marcado para o próximo dia 17, outra data cheia de pautas a cumprir. E no xadrez político, o Blogobrás recua e passa a postar as entrevistas somente após a publicação da matéria nos meios de comunicação. Jogo de comadres reloaded ?]
Tudo o que eu penso sobre Arnaldo Branco - não recomendado à pessoas sensíveis:
E o pior é que possivelmente repetirei a dose. Tremam.