reencarnações

 

exumação

 


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agosto 7, 2008

qui 7ago08 22:37
Recriando o cachorro louco

[enquanto finalizo o terceiro post sobre o tema ensino de jornalismo x mercado de trabalho, deixo vocês com a resenha que fiz sobre à espera de tom para a paradoxo. como foi publicada sem os links que selecionei, coloco-os aqui neste blog-blefe.]

No encarte de Pesadelo na Discoteca, da banda carioca Zumbi do Mato, o vocalista Löis Lancaster vislumbrava um futuro onde o estilo de cantar de Tom Waits, que era ouvido com ressalvas pelos ocidentais, acabaria agradando os servos do Islã. Carlos Careqa talvez não queira chegar a este ponto, mas é indiscutível que À espera de Tom acertou em cheio os fãs de Tom Waits, costumeiramente viscerais quando se trata de defender o universo idiossincrático deste. Um exemplo: se isso não tivesse acontecido, eu não estaria agora, escrevendo estas palavras a respeito desta homenagem realizada por um artista ímpar para outro. Ahá!

[update: como os devidos links foram colocados na resenha publicada pela paradoxo, tirei o texto que estava aqui na íntegra, para que possa ser lido em seu habitat natural - obrigado, renata d´elia e marcus cardoso, editora de música e editor-chefe. fica, neste blog, apenas um aperitivo da resenha.]

julho 30, 2008

qua 30jul08 15:04
Ainda sobre jornalistas e diplomas

Sei, não é de hoje, que não estou só quando entôo o mantra "o jornalismo morreu". Encasquetado com algumas questões que não pude tratar a contento no post anterior, enviei três singelas perguntas a dez professores universitários cujas opiniões aprendi a respeitar, embora vez ou outra discorde d´algumas - o que já era esperado, não ? Destes, apenas Vitor Menezes, Raquel Recuero e Adilson Cabral enviaram suas considerações. Não sei os motivos dos demais não terem respondido, mas apresso-me a dizer que estas são perguntas em aberto, sempre à espera de maiores considerações. Surgindo mais algumas, posto-as aqui. Por enquanto, sigam aquele carro:

Recentemente, Paul Bradshaw perguntou em seu blog se as escolas de comunicação preparam estudantes para uma indústria jornalística que não os quer, apontando a redução de - aham - material humano nas redações e a formação profissional (ou falta de) em relação às mídias digitais com diversos exemplos. Uma das questões que me parece relevante é: "preparar" alunos para o mercado ou proporcionar uma formação humanista ? Sim, trata-se dum velho pensamento dicotômico colocado em xeque. Como vocês lidam com isso ?

Vitor Menezes - As escolas de jornalismo foram inventadas por jornalistas, justamente por perceberem que a dimensão técnica da profissão é menos importante do que as suas implicações éticas e humanísticas. Mas este era um outro tempo, quando jornais eram empresas aventureiras, quase sempre de políticos ou de jornalistas, que viam no jornalismo muito mais uma forma de interferir politicamente na vida pública, do que exatamente uma forma de ganhar dinheiro -- embora uma coisa acabasse, muitas vezes, por gerar a outra.

Nos dias atuais, os jornais muito mais se pensam como empresas do que como veículos de jornalismo. E daí a importância que conferem aos técnicos, sejam eles repórteres que apuram/redigem/editam com rapidez, ou administradores e especialistas em recursos humanos e as suas idéias quase sempre risíveis para promover a tal boa ambiência nos locais de trabalho.

Nas duas faculdades onde leciono, a Faculdade de Filosofia de Campos e a Faculdade Salesiana de Macaé, ambas cidades do Norte Fluminense, ainda percebo uma acentuada carga de conteúdo humanístico, o que considero uma opção acertada. A técnica muda a todo instante, já o que se faz com ela e o sentido que tem uma profissão precisam de noções mais consolidadas.

É engraçado quando os jornais reclamam que não encontram alunos com o perfil que desejam, quando na verdade eles estão por aí, aos montes. O que parece é o contrário: vejo muitos formandos mais criativos, mais preparados, do que muitos dos jornalistas que estão nas redações. O que há é que os estudantes estão sendo preparados para um jornalismo mais interessante, que ainda está por ser feito, e que não tem sido encontrado no mercado tradicional. É como se um sapateiro reclamasse por não mais encontrar aprendizes interessados em seu ofício. Repito: o jornalismo ensinado pelas universidades é melhor do que o praticado nas redações.

Raquel Recuero - Eu tenho um posicionamento meio controverso a respeito do papel da Universidade. Acho que o papel dela é formar críticos e não técnicos, ou seja, preparar o aluno para ser capaz de pensar, compreender o mercado, saber avaliá-lo, criticá-lo e posicionar-se a partir disso. E para isso, é claro que uma formação humanista é a melhor. E acho isso pelo simples fato de que é impossível, hoje, dizer que alguma faculdade prepara alguém para o mercado. O mercado está em constante mudança e, muito, muito rápido. O aluno que aprende o Corel 10 na faculdade pode ter a certeza de que, quando se formar, já se usará o Corel 15 (ou um programa completamente diferente). E durante todo a sua vida no mercado, as ferramentas e as técnicas estarão em constante mudança e o profissional terá de adaptar-se ou ficar rapidamente ultrapassado. Não que a técnica não deva ser ensinada, mas ela não deve ser o único ou principal foco de um curso universitário de jornalismo. Acho que a formação crítica a respeito da atualidade e daquilo que nos cerca é essencial.

Adilson Cabral - É uma dicotomia que não deveria existir, pois sempre permanece a demanda de uma formação profissional que incorpore essa visão humanista. Falta debate entre professores, faltam referências/projetos de qualidade a serem adaptados / intercambiados, falta diálogo. E isso é fruto tanto de uma indústria cada vez mais concentrada e pragmática como da falta de propostas no campo humanista que se contraponham a esse projeto de sociedade e de mercado de trabalho.

Um dos debates mais pobres nesse sentido é o da afirmação da obrigatoriedade do diploma de jornalismo no contexto desse mercado de trabalho a despeito da qualificação das relações de trabalho nas redações, que ficam relegadas a segundo/terceiro plano pelas organizações de trabalhadores do setor.


Neste mesmo texto do Bradshaw, o jornalista Patrick Thornton espicaça as escolas de jornalismo, dizendo que a maior parte delas está obsoleta. No Brasil, retomam-se os embates acerca da obrigatoriedade do diploma em Jornalismo, no mesmo momento em que um livro como "Eu, Mídia" é lançado e o Movimento em Defesa dos Jornalistas sem Diploma busca articular-se e "contra-atacar". Neste cenário, quais são os papéis possíveis aos estudantes e professores de Jornalismo ?

VM - Acho que estes movimentos são interessantes para manter acesa a necessidade de lutar pela legitimidade do jornalismo. Se estas vozes surgem e ganham alguma relevância, são sintomas de que a infinita crise do jornalismo se mantém, o que não é de todo um mal, dado que, como qualquer outra profissão, ele precisa ter a sua necessidade questionada a todo instante.

Não creio que a luta pela obrigatoriedade do diploma, ou pela regulamentação da profissão -- que é bem mais que uma luta pelo diploma -- sejam ações contrárias a estes questionamentos. São apenas as expressões desta luta pela legitimidade da profissão.

Ainda acredito no jornalismo como uma profissão, que por se confundir com comunicação de modo mais amplo e como noções como liberdade de expressão e entretenimento, acaba por ter seu papel menos nítido neste mundo de excesso de informações. Mas este papel ainda existe.

É muito bacana que cada um possa ser a sua própria mídia. E muito bacana que informações relevantes possam ser veiculadas a partir de um celular. Mas a questão é: quem garante isso de modo perene e industrial? Quem assume o compromisso de colocar esse conteúdo a todo minuto nas ruas? Quem busca formas de sobreviver deste fazer profissional? Ainda é o jornalismo e os jornalistas.

E falo isso na condição de jornalista, mas também de blogueiro -- que não me obrigo a postar todos os dias e nem tenho a pretensão de manter um blog jornalístico, a despeito de reunir vários jornalistas.

Ainda acredito no papel que têm os tais cães perdidos, como definidos por Ciro Marcondes Filho, e por isso defendo a tribo, o fazer profissional e as suas especificidades. Alguém precisa passar a madrugada à espera da libertação do refém, precisa arriscar-se acompanhando uma operação policial, e precisa estar disponível para o entediante feijão-com-arroz do dia-a-dia. O jornalismo pode até alimentar-se dos diletantes, mas não sobrevive deles.

RR - Eu penso que, na prática, não é diploma que faz um jornalista. Mas também acho que a Universidade ajuda, sim, a formar jornalistas mais críticos e mais capazes de articular-se diante do mercado. Conheço jornalistas excepcionais que não tiveram formação universitária (pré-obrigatoriedade) e também conheço jornalistas formados que são incapazes de exercer a profissão com competência. Do meu ponto de vista, a questão do diploma é cada vez menos relevante. Eu acho que os alunos devem procurar a universidade como um espaço para abrir os horizontes, gerar um crescimento humano e crítico e os professores devem pensar em como proporcionar isso e não apenas o ensino da "técnica", mas do "pensar sobre a técnica". Assim que penso que a grande questão não é o diploma, mas sim, a recolocação do jornalismo diante dos desafios das novas tecnologias. Esta circunstância sim, coloca em xeque o papel "tradicional" da mídia. Costumo discutir com os alunos que há uma grande mudança no sentido de que a Mídia chamada "tradicional" no jornalismo, sempre foi raramente questionada pela sociedade. Hoje, com o advento das tecnologias interativas e massivas da Internet, o jornalismo é criticado, o trabalho do jornalista é constantemente avaliado, discutido e debatido. Com isso, os erros, os problemas, os interesses econômicos e políticos aparecem cada vez mais. E, se o jornalista não faz bem seu trabalho, haverá quem tome para si esta função (jornalista ou não) e o fará na Internet. O grande diferencial do jornalista formado deveria ser a credibilidade e a capacidade crítica, cada vez mais valorizada nesses espaços e infelizmente, cada vez menos discutida nos bancos universitários.

AC - Valorizar a profissão, valorizando as relações de trabalho nas redações e a formação profissional capaz de evidenciar essas contradições e formas de superá-las. A defesa da obrigatoriedade do diploma nesse contexto acaba legitimando a indústria tal como ela vem sendo estabelecida, pois não aponta para mudanças significativas nas práticas de trabalho.

Poderíamos considerar que a crise do jornalismo encontra-se resumida da seguinte forma: entraves no ensino - desde questões laboratoriais até possíveis desacertos conceituais sistematizados na primeira pergunta - mais quedas de braço políticas entre sindicatos e entidades acadêmicas com empresas de comunicação mais visão empresarial tacanha, baseada na premissa "o que ? eu ? correr riscos ?" ?

VM - A questão é que não vejo uma crise maior nas escolas de jornalismo do que a existente nos próprios veículos. E, como disse anteriormente, percebo um vigor até maior nas escolas do que nas redações. E quanto aos sindicatos, é um erro acreditar que eles são anacrônicos ou criam caso por qualquer coisa. Acho os sindicatos dos jornalistas até bem cândidos, perto das mazelas que a categoria enfrenta. Sou assessor de imprensa do Sindicato dos Petroleiros do Norte Fluminense, e sei o que é uma categoria organizada. Na relação com os patrões, os jornalistas são uns anjos.

RR - O problema atual, para mim, não é a questão do diploma. É o problema da "mercantilização" do ensino superior apoiada pelo governo federal. Vejo uma quantidade enorme de novos cursos sendo criados sem nenhum critério, faculdades abrindo sem nenhuma condição de funcionamento, sem biblioteca, sem nada... Há uma quantidade enorme de novos cursos de jornalismo sendo abertos sem sequer um professor da área. Será que, nesse universo de cursos sem qualidade, o diploma será um diferencial? Será que não deveríamos discutir esse problema primeiro? São questões que me fazem pensar bastante.

AC - A visão tacanha está mais alastrada e impregnada do que a gente pensa...mas da crise estão sendo reinventadas formas de pensar o jornalismo das quais podem sair sínteses interessantes.


julho 26, 2008

sáb 26jul08 21:23
Sobre jornalistas, diplomas e "a ameaça da cibercultura"

Quieto estava no meu canto, quando uma conjunção de fatores espicaçou-me. Em recente artigo publicado no site do SJPMRJ, Muniz Sodré imbuiu-se do afã de defender a obrigatoriedade do diploma em Jornalismo e juntou a produção webjornalística neste imbróglio, como base validadora para sua argumentação. Uma estratégia equivocada, pontuada por alguns desvios conceituais e de interpretação. O principal deles: repercutir a cantilena pseudo-nemésica de que os processos comunicacionais desenvolvidos pela - para, através, entre, de viés, na - Internet representam a extinção dos jornalistas. Lembrei-me, nesse momento, das Senhoras de Santana e todo aquele discurso de livrai-nos do mal, amém. Valei-me, meu São Marcelo Nova !

Apesar da frase que intitula este blog, nunca considerei a extinção dos jornalistas como algo factível - não sei se isso é bom ou ruim. Fazer da produção webjornalística uma crônica de morte anunciada do "jornalismo clássico como mediação discursiva e como funcionalidade específica de um grupo profissional", conforme estabelece Muniz Sodré, para justificar a necessidade de jornalistas profissionais formados por escolas de Comunicação não é algo meritório. É querer opor jornalistas e audiência em much ado about nothing, esquecendo de realmente dar tratos à bola do valor público da informação, uma das características que me ensinaram a ver como essencial para o Jornalismo. Digam que sou o último romântico e contra-atacarei dizendo que somente consigo compreender a Internet como comunicação interpessoal, interação, redes sociais, participação e colaboração, só para ficar em alguns tópicos.

Mas pensando dessa forma e aplicando esses valores aos papéis dos jornalistas, além de clamar por opiniões a respeito de formação acadêmica que supere a contenda escolas de jornalismo versus mercado, posso também ser enquadrado da mesma forma que "um arauto da chamada cibercultura" citado, porém não identificado no artigo. Se isso acontecer, posso dizer que prováveis respostas a esta questão que tal "arauto" apresenta e é repetida no artigo podem ser encontradas aqui. Ou aqui. Ou - quem sabe ? - aqui.

Muniz Sodré diz que uma resposta a esta questão é dada pela "progressiva conversão empresarial do papel à eletrônica", sustentando ainda que a natureza técnica desta transposição por si só pode delimitar as potencialidades de produção. Tal análise me assusta, porque é associada à idéia de que o jornal "pode trocar de suporte técnico, pode mesmo existir na complementação dos suportes (papel e eletrônica), mas continua impelido, como forma moderna e democrática da comunicação, pela ideologia humanista que garante a cidadania". Então uma delimitação técnica - cujo modelo de mera transposição/adequação de conteúdos não é o único a ser seguido, uma vez que pensamos em um caráter hipermidiático e colaborativo para o webjornalismo - poderia ser responsável pela falta de abordagem humanista em produções jornalísticas ? Socorro, Beth Saad !

Todas estas opções alinhavadas aqui, neste post, pressupõem esforço conjunto entre jornalistas e audiência, sempre apontando exemplos práticos e funcionais. O que me leva a pensar que talvez caiba às entidades acadêmicas que costumam manifestar-se de maneira lúcida em relação à exigência da formação superior para o exercício do jornalismo ponderar em relação a argumentações baseadas em uma contenda jornalistas versus audiência que não tem razão de existir.

junho 25, 2008

qua 25jun08 00:55
"Eu tão somente e cada vez mais prezo os meus amigos"


JR e Ayala cinza

Mais de uma vez** ouvi a reclamação: "você só sabe falar mal de tudo, não gosta de nada !". O pobrema, mizifios, é que não sou chegado à mistificação. Tanto é que não tenho ídolos; sempre procurei travar amizade com as pessoas que realmente admiro - o que me dá até mesmo oportunidades de xingá-los com mais propriedade. Até onde a vista alcança, nunca tive que ceder um milímetro à babação de ovo, puxação de saco ou congêneres para isso. Um tanto de cara-de-pau e mais um punhado de pequenas estratégias a compensar minha afamada rabugice garantiram-me sucesso em alguns destes casos. Claro, ser jornalista possibilitou conhecer algumas das pessoas que se encaixam na categoria citada acima e tê-las - até este momento, pasmem ! - como amigas. E todo esse intróito é apenas para dizer que hoje eu posso chamar de amigo o sujeito que tem uma parcela considerável de culpa pelo jornalista reclamão que eu sou. Seu nome: Sylvio Ayala.

Verdadeiro culpado apontado. Débitos dirigidos. Hail to the thief.

Por cortesia de Alessandra Nahra Leal, a autora da foto que ilustra este post e que também está na lista, estive cara a cara com Sylvio Ayala, num local tenebroso e mal-frequentado, cuja localização não posso revelar***. A função: colocar uns quinze anos - pelo menos - de conversa em dia. Tremenda satisfação finalmente conhecê-lo pessoalmente e poder culpabilizá-lo por sua participação em minha formação intelectual - atenção, Bródi Negão, é a primeira vez que uso o termo em benefício próprio !

Detalho o crime: no começo dos famigerados anos 90, ele editou dois números do jornal libertário chamado O Bobo da Corte, que tratava de política, literatura e subversões a granel. A qualidade do material - gráfico, editorial, textual, etc, etc, etc - acachapou-me de primeira. Dois pensamentos estribaram-se em minha cachola assim que tive o primeiro número em mãos. O primeiro, evidentemente, foi um palavrão. O segundo foi: quero escrever como esse malaco. Era o que faltava para que eu decidisse embicar de vez em direção ao jornalismo - e do tipo em que eu acredito desde sempre.

Mas o ato hediondo de Sylvio Ayala não se concentra apenas nisso. Não satisfeito com a bagunça que havia armado, tratou ainda de colaborar para que eu compreendesse a necessidade de uma auto-definição política. Que me orgulho de manter inflexível até hoje. Aprendi com ele, seguindo a uma distância calculada suas produções com o passar o tempo, um bocado sobre como ser este exucaveiracover que incorporo ao batucar textos de qualquer espécie.

E pensar, seu Sylvio, que o senhor havia escapado incólume todo esse tempo de ter esta culpa pesando sobre tua carcaça.

Conversar com ele fez com que eu lembrasse de outras conversas representativas que ocorreram nos últimos cinco anos - quando eu envelheci sobremaneira - com pessoas com as quais sempre aprendo bastante. Há a lembrança de uma conversa com o malacomano João Filho numa noite de 2004, em Salvador, fumando cigarrilhas baratas e proseando sobre tridentes, grand guignol, estética do perrengue e outros assuntos menos cotados na tabela periódica de elementos. Há a atenção prestimosa do casal Tadeu Sarmento e Patrícia Gondreck, acompanhada por Jack Daniels, Leonard Cohen e John Coltrane, contando histórias de família. Há as histórias de Löis Lancaster, outro desses culpados, camaradagem que rendeu parcerias das quais me orgulho com empáfia****. São pessoas como estas que mantêm a minha fé na humanidade. Em honra e glória a esses amigos distantes - e outros mais -, bebi umas Devassas e umas doses de uísque dia desses. Santifiquei-os.


* o título desse post veio - apropriadamente - de uma conversa com tadeu sarmento

** duas ? três ? cadê as estatísticas ?

*** merchandising é proibido aqui na verbeat. ordem dos donos.

**** empáfia: fato corriqueiro.


junho 12, 2008

qui 12jun08 15:36
Decálogo da Audiência Precavida

No último dia 21 completou-se o primeiro ano que este blog está hospedado no condomínio Verbeat, por obra e graça de Tiagón e Gejfin. Por estar envolvido até agora nas comemorações, entretido com uísque, charutos e bandalheiras que me eram ofertadas - o que é natural à prática do jornalismo -, não pude escrever um post comemorativo. Mas agora que abrandaram as safardanices, calhordagens e sardonices - porque estas não findam, como sabem os caros leitores -, resumo em um decálogo preceitos norteadores de uma boa conduta para a audiência que insiste em engalfinhar-se com o tal do jornalismo. O motivo disso ? Durante estas comemorações, entre uma baforada e outra de um charuto oferecido por André Deak, ouvi diversas vezes a seguinte assertiva, com pequenas variações: "se o jornalismo morreu, a audiência celebra a missa de sétimo dia". Vai depender do vinho, digo, do que esta audiência se propõe a fazer. Ou vocês acham que estamos falando aqui de coroinhas e beatas ? Sigam a bolinha:

1) Toda vez em que falarem "e agora as notícias do dia" leve sua mão ao coldre.

2) Esmurre os próprios olhos antes de assistir telejornais. Dificilmente o que vier depois lhe será mais doloroso.

3) Entre um e outro vício reserve tempo para a caridade. Desconfie.

4) A revolução não será televisionada, downloadeada, printscreenizada ou efecincozada.

5) Colecione chatos (Pthirus pubis, bem entendido). Indique-os como referência quando lhe perguntarem sobre credibilidade.

6) Na dúvida se jornalismo pode ou não ser entretenimento, responda sempre: achei tendência.

7) Borrife spray de pimenta ao redor ao ouvir o termo "quarto poder". Atrai bons fluidos.

8) Nunca pergunte a um jornalista para qual lado o vento sopra.

9) "Somos os cavaleiros que dizem Wii" não associa-se às Novas Tecnologias de Informação e Comunicação.

10) O jornalismo morreu ? Apele para o Cabôco Mamadô.

junho 1, 2008

dom 1jun08 13:21
Contos da Terra Plana

Antes de mudar de Campos para Belo Horizonte, organizei - juntamente com Vitor Menezes - a coletânea Contos da Terra Plana, reunindo escritos de autores campistas sobre a cidade que habita(va)m, tanto por amor quanto por ódio. O livro levou quatro anos para ser publicado e finalmente será lançado hoje, dia 1º de junho, na Bienal do Livro de Campos. A coletânea que reúne a "nova safra de autores campistas", que autodenominava-se Aglomerado Terra Plana - terra plana é a forma como chamamos Campos -, ambientou suas paranóias, singelezas, obsessões e safardanices nas quebradas de uma cidade que hoje vive momentos de polvorosa política. Eu estou ali com os contos "Kemosabe e o apanhador nos campos de cana-de-açúcar" e "Depois do centenário, até que chegue a primavera", uma homenagem esquizóide a Waldir de Carvalho - escritor já falecido e para o qual nunca mostrei o original desse conto, esperando que ele pudesse ler no livro. O grupo não existe mais faz algum tempo, assim como a Mutável Saralho Band, que era o braço lítero-musical do aglomerado, responsável pela leitura dramatizada de mini-contos em saraus. O que não significa que não haja mais produção literária nessa "nova safra". Continuo dizendo hoje o que já dizia quando saí da terra plana: o melhor escritor de Campos chama-se Jules Rimet. Basta ler "Esmeraldo", "Magrão" e "Filha do Diogo" para ter certeza.

maio 20, 2008

ter 20mai08 01:22
Redes são conversações


palestra aglomerado da serra
"seguinte: a apropriação criativa tem que ser constante no cotidiano de vocês, pô !"


A semana que passou reservou-me uma variedade de momentos em que comprovei, de novo e de novo e de novo, a veracidade da frase que dá título a este post. No dia 12 de maio, fui convidado pelo projeto RedeMuim a fazer uma palestra no Centro Cultural Vila Marçola, no Aglomerado da Serra, sobre processos criativos e tecnologias digitais. A idéia central era falar sobre apropriações criativas, hibridização e recombinações midiáticas como formas de expressão artística e cultural - esse foi o singelo briefing que me passaram. E deveria falar sobre isso em pouco mais de uma hora; tremendo risco de meter tudo num balaio de gatos e acabar parecendo (mais) pedante. Mas não contavam com minha astúcia ! Junto à moçadinha que se desenfronhou de casa e enfrentou a friaca que fazia naquela noite, dispensei o microfone e desfiz a "mesa de palestrante" que haviam armado para mim.

- Se alguém veio esperando uma palestra, sinto ter que decepcionar essa pessoa. Eu vim aqui para conversar com vocês.

Olhares incrédulos. O vigia do centro cultural, postado do lado de fora, solta uma tosse nervosa. Ao fundo, trilha sonora imaginária de filme de bang bang. Disparo o verbo:

- Eu quero conversar com vocês sobre como arte, tecnologia e cultura podem sempre se juntar para criar e recriar valores. Pra começo de conversa, vamos falar sobre re:combo, moçada do Recife, terra do manguebeat. Falar sobre BNegão e como é possível driblar a indústria. Falar de artistas como todos vocês que estão aqui.

O vigia não mais tossia lá fora. Do lado de dentro, atores de teatro, rappers, músicos de róqui pesado e pessoas ligadas à rádio comunitária do Aglomerado da Serra, além da equipe do RedeMuim, movimentavam a conversa. Na leva, falamos sobre direitos autorais, dribles no jabá, cultura livre, espaço cultural como espaço público - e formas de intervenções artísticas apoiadas nessa idéia -, sobrando ainda espaço para espinafrar o Jota Quest e congêneres.

O leitor mais espertinho desse blog pode se pegar pensando: "mas não há nenhuma grande novidade aí!!!". E quem está pensando fast food aqui ? De conversações e recombinações é que estamos falando! Tanto aqui como naquele momento. Processo de formação e implementação de redes: sobreposição informacional, camadas interpretativas, cartografia da informação. Eu voltei para casa naquela noite com algumas caraminholas na cachola, a reverberar sob o mantra "não espere nada do centro, se a periferia está morta". Andei debatendo algumas delas na semana que passou com pessoas que apreendi como amigas.

Mas isso é assunto pra outra conversa.