O último do Tarantino

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Eu não sou exceção, também curto os filmes do Quentin Tarantino. O cara faz entretenimento de muito boa qualidade, o que sempre foi e ainda é e vai continuar a ser raro. Faz mais de três meses que eu assisti ao Bastardos Inglórios (Inglourious Basterds, 2009, 153 min) numa sala de shopping. Então é certo que muito já esqueci e só vou mandar um comentário superficial (como se eu fosse acostumado a fazer análises críticas muito profundas). O ponto forte da filmografia do Quentin são os diálogos e no Bastardos eles continuam lá, muito bem num ritmo natural e cadência fluente. Outro serviço que ele executa na boa é a direção. Já os roteiros do cara são aquela história: aluno aplicado nas aulas de fórmula pra roteiro. Como o próprio Pulp Fiction assume no título, são todos folhetins (muito bem construídos, escreva-se). E geralmente com alguns vários punhados de referências culturais misturadas no liquidificador projetado. No caso de Bastardos, acho que a tal homenagem às trilhas do Ennio Morricone ficou meio fora de lugar e fraca, não me pareceu ter razão de ser, sei lá, fora de lugar e tamos conversados. O Morricone merece homenagem ou citação muito mais cavala e apropriada. Mas, buenas, o último filme do Tarantino começa muito bem e se desenvolve muito bem também, tranquilo, fui preso sem revolta pela narrativa da projeção. Mas do meio pro fim, Bastardos Inglórios dá umas derrapadas que não me convenceram, quase me arrancaram fisicamente da sala (porque dentro de mim eu já tinha escapado). Ali, pra mim, o filme se perdeu como a terrível raposa falante do Anticristo (Antichrist, 2009, 104 min) de Lars von Trier, da qual eu tive que me recuperar respirando lentamente por uns três minutos até conseguir retornar ao filme. Horrível, duma estapafurdice ridícula, a raposa falante. E por essa e algumas outras simbologias idiotas (o tronco decadente de árvore posando de signo fálico arruinado - Blé!), acho que o Lars von Trier perdeu de fazer um Puta filmaço. Anticristo é bom filme, mas podia ter sido muito, muito melhor e menos metido a besta.
Voltando ao caso do Bastardos, a ideia do final deve ter subido à cabeça do Tarantino como se ela justificasse tudo. Tipo "já tenho essa ideia pro fim que achei genial e original então é só acabar o filme num pastelão de qualquer jeito que vai ficar tudo beleza". Foi a minha impressão e isso que nem achei grandes trecos a ideia. Mesmo que o objetivo tenha sido mesmo esse desfecho pastelão sem graça, não foi bem realizado. Toda a forma de conclusão do roteiro (filmado) ficou muito nas coxas, otária, mal-acabada em relação ao resto. Não falo aqui do "desrespeito" do roteirista à História Oficial, mas do desleixo quanto à ficção pretendida. Até a mentira mais tosca merece um mínimo de verossimilhança e plausibilidade, vamos combinar. Dois fatos berrantes recordo que me incomodaram:

1) É sempre fácil (e é natural que seja, tem que ser) despencar no maniqueísmo quando o assunto é nazismo, mas tem escolhas que eu vejo desnecessárias. Falo do instante de hesitação piedosa da personagem Shosanna (Mélanie Laurent - boa, muito boa) diante do célebre ator nazista caído na sala de projeção. Pra mim, ficou forçado demais, não precisava. Não.
2) Foi ridícula e estúpida a rendição do coronel Hans Landa (Christoph Waltz - espetáculo), não condisse com a inteligência da personagem. Fiquei de boca aberta que aquilo estivesse no roteiro e fosse usado no filme. Infantilidade bisonha. Totalmente incrível.

Ainda quero rever o filme pra enxergar com mais clareza e reconhecer outras besteiras (talvez nem existam. Talvez) que me pegaram e chutaram no subconsciente (e no superconsciente) e fizeram com que eu achasse o final tão ruim e desparelho em relação ao resto da última empreitada cinematográfica do Tarantino. Declaro então: o desfecho de Bastardos Inglórios é entretenimento de defeituosa qualidade, fato que o diretor tinha toda a capacidade de evitar. Certo que há uma legião abundante pra discordar de mim. Que venha.

Regulamento individual para 2010 e além

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Art. 1º - Desneurotize automaticamente.

Art. 2º - Produza fontes alternativas de renda que neutralizem qualquer espécie de prostituição profissional.

Art. 3º - Cace o mosquito do empreendedorismo e exija ou compre ou, em último caso, implore genuflexo por uma picada na veia da testa.

Art. 4º - Beba, no mínimo, por baixo (bem baixo, baixo demais), uma garrafa de Chimay por mês.

Art. 5º - Amplie consideravelmente a fidelidade ao seu espírito idiota e bote fé no instinto primitivo.

Art. 6º - Esqueça a posição política da Alternância Ilusória de Poder e anule o voto nas eleições presidenciais.

Art. 7º - Aja muito sempre antes de pensar. Pare de sonhar e pratique. Mais atividade, menos contemplação. Mas, continue lendo este até o fim, faç' favor.

Art. 8º - Escreva, escreva, escreva e depois atire fora, na poubelle (piada interna/A.F.C.A.), o pior do menos ruim.

Art. 9º - Adquira um aparelho fotográfico decente.

Art. 10º - Viaje para o Morro das Pedras e fique por duas semanas, ao menos uma vez por ano.

Art. 11º - Transforme o alongamento do esqueleto num hábito.

Art. 12º - Não gaste todos os seus trocados em bala e chiclete (Nota pros dias burros: este é um artigo simbólico).

Art. 13º - Resfrie a mufa nos prazeres (sabe aqueles prazeres?, é, nesses, e naqueles outros também), se continuarem não querendo te levar pra dar voltas no carrossel.

Art. 14º - Leve uma cópia deste no bolsinho com zíper da carteira, já que os Órgãos de Fiscalização e Corregedoria são internos, desleixados e corruptos.

PS: Outros artigos relevantes poderão ser adicionados ao andar da carruagem cotidiana.

Eu não

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Eu não quero habitar aquele apartamento brilhante
Onde um besouro ao entrar pela janela já cai morto no assoalho branco
Onde as aranhas se recusam a tricotar o aconchego mortífero das teias

Eu não consigo circular nessas rodas de inteligência rameira e pedante
Onde as bebidas secam de medo em canecos pós-modernistas
Onde a verdade é retilínea demais e a mentira não vale um bocejo

Eu não posso respirar nas higiênicas salas de reunião e escritórios
Onde a labuta cansa tanto todos de tanta falta de serventia
Onde os corredores têm complexo de labirinto sem saídas

Eu não tenho a bravura congênita pra suportar multidões ao redor
Onde os indivíduos miscigenam-se num monstro ensandecente e fascista
Onde a razão pro aglomerado humano geralmente não pode me convencer

Eu não, eu não.

Mas acontece que tudo isso no cotidiano me caça
Me morde, mastiga, me cospe
Esfrega no meu semblante que inevitável mascaro
O que eu já sei decorado e finjo não entender:

Eu não apareci no mundo sangrando e nojento dentre as pernas da mãe
Pra mascar sementes duras numa caverna sombria de montanha nenhuma.

Longes grudentos

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Acapulco vibes overdose, ela saiu com essa e era ruim, meu deus, era ruim demais, um dó-e-sol muito além de monótono raspado nos bordões do violão e letra sussurrada numa voz enrouquecida de propósito (o que me levou a engolir meio mililitro de ternura e pena na saliva seca) ilustrando noites de uísque sem gelo, e muito pó, cigarros acendidos um no outro e anfetaminas e coitos no calor suado que um "ventilador de pesadas pás de ferro" não amansava; tudo uma nostalgia clichê de momentos que ela deve ter encenado de verdade (exceto pelo final trágico, eu tenho a impressão), não num quarto de hotel pulgueiro em Acapulco, mas noutro quartinho sujo duma casa antiga em alguma rua escondida do Partenon. Sabe aquelas tremedeiras típicas num colchão encardido e lambidas mordendo pele no bafo de álcool, dentes trincando, risadas e tossidas e pés imundos, tapas leves aqui-ali, uma lágrima involuntária, goles sobre goles, baforadas de fumaça grossa e silêncio entre algum debate trivial e tentativas desajeitadas dum exercício cansado que esqueceu o tesão em qualquer dobra do lençol? Sim, todo esse teatro exagerado sobre-over da página onze ou vinte e nove dum gibi descolorido da indústria cultural junkie rocker. Experiências requentadas autoimpostas e fantasiadas com farrapos reciclados de contracultura impostora. Uma cantilena patética no pior sentido, incrível, mas que eu já esperava. Então?, ela pergunta, o rosto branco afogado na revolta preta dos cabelos. Interessante, eu respondo sem mentir. Faz tempo eu ancoro meu bote nessas palavras dúbias que me esquivam da mentira pura e limpa. Bebo um gole do chá gelado (ruim porque aguado de gelo derretido), deixo o copo na penteadeira e puxo o Di Giorgio bege das garras pintadas de preto com lascas roídas na ponta das unhas pra deitá-lo no sofá ao lado (as cordas soando de leve uma nota ignorada) e sento na beira da cama. Firmo a mão esquerda úmida na coxa gorda, suave. Ela antecipa, num tremor dos lábios, um beijo que eu retardo, adio, e isso me arrepia duro, mas eu sigo na lenta como prefiro e quase não acredito na minha sorte (outra vez), na minha estrela que num brilho bom me massageia, joga no meu trajeto mais outro desses biótipos perfeitos, liso e carnudo e neurótico e adolescente, lotado de problemas e curvas que me olha esperando a mesma chave pruma porta óbvia e viciada que nunca leva pro destino querido. E outra vez (quase não creio) como sempre vou poder mergulhar, afundar, por hora e meia ou mais, no esquecimento de um resto sem gosto, na cadência pulsante que me aviva sem medo. Livre do depois que não existe agora, daquele acelerar caminhos inúteis ou projetos diários de tédio até voltar outra vez, na intimidade duma outra ninfeta perdida, a um símile da lentidão muda e trêmula que provoco e apanho enquanto (grudados e distantes) deitamos.

Trilha sonora original

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É prática banal e institucionalizada montar a trilha sonora de um filme a partir duma coletânea de músicas (pop ou não) aleatórias e recortadas ao invés de compor uma trilha original. O CD com a soundtrack do filme é lançado feito uma mixtape eclética, o que deve ajudar nas vendas. E de repente é mais fácil e barato para a produção pagar direitos autorais do que encomendar uma trilha original. Sei lá. O caso é que virou mania que não sai de moda. Incontáveis cineastas fazem ou já fizeram essa salada sonora nos filmes que dirigem. Alguns roteiristas devem já pensar na música tal antes de escrever alguma cena. Wes Anderson é um diretor de cinema que usa a tática da mixtape nos filmes e, inclusive, abusa de cenas em slow motion com alguma musiquinha boa e apelativa tocando junto. Um truque ancião que, se bem-feito, é certo que funciona. O brabo é o exagero. Quentin Tarantino é outro que já vendeu muito CD soundtrack encravando uma set list bem garimpada nos filmes que executa. Em outros casos, são usadas várias músicas de um mesmo compositor na mesma película. O filme Ensina-me a Viver (Harold and Maude, 1971), do Hal Ashby, é um que praticamente só usa músicas do Cat Stevens na trilha. A Bela Junie (La Belle Personne, 2008), dirigido pelo Christophe Honoré, também encaixa uma boa leva de sons do Nick Drake no correr da película. Enfim, exemplo não falta. O caso é o seguinte: não é que eu seja exata e completamente contra essa prática, é que na maioria das vezes isso acaba vulgarizando uma música interessante, destrói a integridade (física e metafísica) da música. Sim, muitas vezes, a música é perfeita para a cena e foi escolhida com critérios legítimos e de forma que dialoga com a cena, podendo, na melhor das hipóteses, valorizar a própria música. Não é o que costuma acontecer em imensa parte dos filmes nos quais a música é arremessada por cima dos fotogramas só pra encher a faixa de áudio. Usar um naco da música tal numa cena, só porque ela é bonitinha e vai vender CDs e porque o espectador vai reconhecer o som (ou pra exibir ecletismo musical) é sacanagem, é retalhar uma obra dentro de outra "obra". Repito, não sou contra o uso de músicas não-originais (inclusive, os exemplos acima não se encaixam exatamente na minha ira), só queria mais cuidado e respeito com alguns sons que eu curto, cacete. Um cara que faz misérias, no ótimo e perfeito sentido, com trilhas não-originais é o Kubrick. O vínculo entre imagem e som nos filmes do Stanley é sempre cavalo (normal, cinematograficamente o cara não é humano, é cavalo mesmo). Mas então... Abro aqui uma campanha, irada e modesta, em favor da trilha sonora original.

O monstro da casa azul

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Era manhã nublada quando abriram os portões. A mesma avenida, casas, botecos, gente, igual. Eu levava a bolsa no ombro, não tinha muito: um batom vermelho esfarelando, um espelhinho quebrado num dos cantos formando um triângulo, moedas, a carteira com identidade e CPF, o Novo Testamento de bolso, cortador de unhas, lixa, as duas chaves unidas por um barbante e o lenço rosa. Atravessei a avenida e fingi não ouvir os assobios que pulavam das janelas gradeadas, as gurias. O velho clichê Não olhar pra trás. Desci a ladeira e segui a rua, um cusco magricela passou por mim com as orelhas altas e o olhar de quem viu muita merda. Eu na paranóia que fossem ficar me olhando na rua, falando pelas costas, mas as pessoas passavam como se eu fosse um fantasma banal. Mais um quilômetro de pernada. A duas quadras da casa do tio Olavo, reconheci um casal vizinho, passeavam o labrador, não me reconheceram. Mais um pouco e já podia ver a casa azul do outro lado da rua. O mesmo azul. Tio Olavo tinha ao menos pintado a casa de verde oliva e consertara os degraus da entrada, pude ver ao chegar.
Subi a escadinha nova e bati na porta, bati várias vezes e com força. E aí o tio Olavo surgiu da penumbra da sala segurando a maçaneta. O cabelo grisalho e revolto, a cara de sono, bocejou e deu espaço pra que eu passasse, me beijou no rosto. Te esperava só em agosto, falou. Pois é..., respondi. Trancou a porta e pediu que eu fizesse um café. Larguei a bolsa no velho sofá de couro sintético e olhei pra ele. Uns grisalhos amplificados e só. Até aquele blusão verde e calça cinza eram do meu tempo.
Na cozinha, o tio sentou na cadeira de palha e perguntou, Tudo bem contigo?, mas eu sabia a pergunta era outra. Melhor agora, respondi, riscando um fósforo, e acendi a chama no fogão. Jorrei água na chaleira e botei pra esquentar. Fiquei com medo de não te encontrar, eu disse. Coçando a barba rala, ele bocejou. Eu ainda deixo a chave no mesmo lugar, respondeu, mas o tom da voz dizia não morro tão cedo, não me querem lá.
Botei o café no coador, despejei a água fervente e sentei de frente pra ele. Um silêncio gostoso nós curtimos no véu daquele perfume forte que dominava a cozinha. Não tive saudades nem da Rita, tio, mas de ti eu senti a falta, eu disse. Entortou os lábios num olhar de reprovação carinhosa. Sobrou alguma coisa?, perguntei pra tranquilizar o tio. Claro, respondeu, bem mais da metade.
Bebemos o café em poucos goles e eu pedi licença pra tomar uma ducha. Meu quarto estava empoeirado, mas os lençóis limpos e o cobertor tinha um leve cheiro de canela. Tomei o banho que enrugou meus dedos e deitei. Dormi até as oito horas da noite, o sono atrasado da ansiosa noite passada.
Saí do quarto e senti cheiro de molho cozinhando, dois pratos e copos na mesa. Enquanto o tio terminava de cozinhar, abri as cortinas da sala e olhei pra casa azul do outro lado da rua, o mesmo azul, as duas janelas projetavam uma luz esbranquiçada. Fechei as cortinas com cuidado. Jantamos no sofá, vendo o noticiário das oito na televisão. O tio bebeu vinho, eu preferi o suco de laranja de caixinha. Vimos o capítulo de uma novela horrível, o tio gostava, e depois um filme sobre um cara que naufragava numa ilha deserta. Achei bom o filme. Lavei os pratos, talheres, copos, panela e carreguei o tio pra cama. Ele começara a roncar no segundo ano do naufrágio. Escovei os dentes e desliguei a luz da sala, sentei no sofá. Acostumei os olhos ao escuro.
Duas horas e quarenta e dois piscava o relógio da cozinha. Olhei pela fresta das cortinas, as duas janelas fechadas da casa azul, nenhuma luz. Abri a porta e saí. Atravessei a rua deserta, a umidade deformava a luz do poste a uns metros da casa. Pulei o muro de cimento enrugado e contornei a casa azul até os fundos. Uma lâmpada ficara acesa acima da porta. No chão de terra, espalhados, um triciclo baixo de ferro amarelo, uma piscina plástica redonda, um espeto enferrujado e um banquinho de madeira. A pitangueira continuava ali, no canto do muro. Tirei do bolso o barbante com as chaves e testei a primeira. Nada. Fiz a segunda chave girar duas voltas e abri a porta. Já contava com a mesma fechadura. Entrei e tirei os sapatos. A porta fechada, fiquei uns segundos parada no escuro da sala. Aos poucos, fui reconhecendo o sofá e a mesa no centro. Andei até o primeiro quarto, Rita dormia roncando como sempre, um ronco tímido. No outro quarto, tive que abrir a porta, mas ela não rangeu. Escutei as respirações descompassadas. Consegui enxergar a silhueta sobre a cama, o monstro escuro feito de dois corpos entrelaçados. Segui para a cozinha. Esperava encontrar o mesmo jogo de facas.

Tomada de ombro

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O assunto é a clássica solução Plano e Contraplano do cinema pra agilizar os diálogos dum filme, a Tomada de Ombro. Personagem #1, confrontando a lente, diz algo e num canto do quadro vemos um pedaço de cabeça, ombro e costas da personagem #2 que escuta. Alterna para a fronte da personagem #2 que responde para, noutro canto do quadro, o pedaço de cabeça, ombro e costas da personagem #1 e vai-se invertendo sucessivamente (mas bah!, como eu sou um mala didático). Buenas, o que eu vou escrever a seguir vai soar (gritar) ridículo, fútil e provavelmente como um equívoco total. Mas, não é de hoje que eu proponho a minha existência (de vencedor da corrida de espermatozóides) a divagar sobre inutilidades. A impressão que eu tenho às vezes, em alguns filmes, é que a personagem ouvinte, de costas, transparece através dos cabelos, da pele, da caveira, uma expressão estática no rosto. Uma reação (ou falta de) fora de sintonia, que não condiz com o que a personagem falante expressa. Talvez pra agilizar e baratear a produção, já que o rosto do ouvinte não aparece no quadro, o diretor ou o ator não se preocupem com as reações, invisíveis na tela, ao que está sendo dito. Eu posso estar errado, já que muitas produções utilizam duas câmeras filmando simultaneamente o diálogo, até para aproveitar alguma reação interessante da personagem que escuta. Mas, do contrário, a falta de reação adequada do ouvinte pode transparecer também no rosto de quem fala. Já que a atuação a dois (ou mais) é uma simbiose bilateral (simbiose bilateral acho que é redundância, mas agora já foi, fica pra enfatizar), mesmo que um lado não apareça pro espectador, ao reagir bem, ajuda o ator em quadro. O caso é que muitas vezes me peguei achando artificial aquele ouvinte parado de costas, parecendo um boneco. Resumindo, o que eu queria expor é que tem atores que não convencem nem de costas.

Da mala pro saco, eu revi um dia desses o Buffalo '66 (1998) do Vincent Gallo (que, por sinal, tem várias tomadas de diálogo bem interessantes usando foco e outros truques), e continuo gostando bastante. A produção megalomaníaca do garoto (que escreveu, dirigiu, atuou, musicou etc) é bem construída, engraçada e muito boa de assistir. Inclusive perdoei alguns mínimos detalhes fracos do filme, descontando na minha impressão de que o filme é uma fábula da origem e da reformulação de uma personagem. Pode ser muito bom em algumas cenas e bem mais ou menos em outras, mas se alguém não viu, aponto o indicador, vale. Já o The Brown Bunny (2003), também do VG, eu achei um porre quando vi. Sei lá, talvez tenha que rever, mas achei que ele fez o filme só pra ganhar um boquete da Chloë Sevigny. Talvez, daqui a alguns anos, eu escreva exatamente o contrário de tudo isso. Talvez. Mas assim é que vale. Sigam-me os contraditórios. Tudo é momento.

Perfumes caducos

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Saio sozinho pra rua na noite. Só quero expulsar da mente a tua carinha de boneca perfumada pedindo razão pra tudo. Farejando no pescoço ou na camisa algum coito recente já evaporado. O tabefe da mão esquelética na minha cara. A mesma cena de choro aprendida naqueles filmezinhos de romance idiota. Nojento. Cago pro teu sentimento morno de prateleira empoeirada. Teu ciúme de apartamentinho burguês, tua desilusão falsa de banho tomado. Vou atrás de paz submarina ou muito barulho talvez.
Não suportei o drama batido, saí num fervo atrás de outras curvas carne-osso, longe dos rancores esmiuçados, aquele porre. Liguei pro Valter, mas ele não atendeu. Passou um táxi, eu fiz sinal. Não conversei com o motorista. Pedi que parasse no posto de gasolina. Andei pela avenida e vi uma loira de casaco vermelho na esquina.
Tu aí, vem cá. Pode ser...
Segui, não me perguntou nada, caminhou calada. Tirou um espelhinho da bolsa vermelha e retocou a maquiagem. Hotéis passavam por nós, ela indicou um, não gostei. Eu não me decidia, tinha que apresentar uma entrada escura, luzes fracas, prédio antigo, as paredes com a tinta descascando. Me perguntou a hora, limpou algo na minha cara. Nada de paixão ideal, discurso sentimental, orgulhinho machucado. O tesão pela moeda e só. A rua já ia acabar, eu desisti da tal entrada escura e carreguei aquele casaco vermelho pro último hotel que vi. Segurei a porta prum casal que saía, esperei um obrigado, inútil, passaram. A mão enrugada, unhas lilás, tirou da bolsa um telefone vibrante que simulava o badalar de sinos. Agucei os ouvidos, queria ouvir a conversa, mas ela desligou.
Peguei a chave, quarto térreo, como pedi. Entramos. Paredes amareladas oprimindo a cama, o cobertor azul-marinho. Respirei fumo, desinfetante, ranço e sei lá o que mais. Sim, até aquela minestrone de cheiros me sussurrava algo mais limpo e real. Teus perfumes de fora caducariam ali. Tirou o casaco e vestido, os mamilos cor de barro, a vulva careca. Fiquei com a camisa, larguei calça e paletó sobre o biombo espelhado. Num gesto clássico, dedilhou o polegar e o dedo médio e eu disse, quanto mesmo? Fez o preço. Paguei. Deitamos. Desenrolei a camisinha no pau e meti. Estoquei com vontade aquela carne abusada. Rápido como deve ser.
Vai mais outra?, perguntou.
Não, valeu, tá bom pra mim, respondi.
Chamei o Valter, voltava de uma corrida até a Estrada do Forte, resolvi esperar. Nove minutos, ele chegou, grande Valter. No trajeto, concordamos sobre o caso Dodô, patifaria. Falou de galhos com a filha mais nova, fiquei na minha. Doze e dezesseis no taxímetro, leva quinze.
O Arnaldo me atendeu à porta, sorridente, garrafa de vinho na mão, perguntou de ti: Foda-se, falei. Me apontou a geladeira, servi o copo d'água até a beira, virei tudo de uma vez. Molhei a camisa. Andei até a sala. Cumprimentos, piadinhas, pouca gente, ainda. Todos na sala em volta do telão, concerto de jazz, vários artistas, nojo. Falei que ia ao banheiro e fugi de todo aquele jazz fodido. Abri o pacote que roubei da cozinha e fui comendo as bolachas de chocolate no elevador espelhado. Olhei meu rosto mastigando, bonito. Sem dores nem marcas do teu tapa bem-educado. Só a cicatriz adolescente acima da sobrancelha.
Ia ligar pro Valter, mas o frio da noite não incomodava, caminhei. Fui descendo a Independência, fumando. Entrei num café, pedi um expresso com chantilly e peguei o jornal, disponível no balcão. Pela primeira vez no dia, me senti tranquilo.
Quando cheguei em casa, o papagaio assobiou e deu uma gargalhada. Tranquei o bicho na área de serviço. Um bilhete no balaústre da sala: Vou dormir na casa da Joana. Me liga. Desculpa. Tive que rir. Servi um copo d'água e fiquei olhando pra ele. Uma boa madrugada solitária. Sem teu questionário interminável, teorias, frases refeitas. Muito obrigado, valeu mesmo. Tomei um banho de quase meia hora, e depois cochilei pelado assistindo televisão - um inglês ensinava a cozinhar frango. Levantei, comi os restos de macarrão do almoço, dei uma cagada e liguei pro Valter.

Coceira viva

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Boneco de carne curtida
Um enigma intracraniano
Cardíaco
Acostumado no mundo
Incômodo
No erro dos atalhos
Tão mirabolantes
E cheios
De tédio
Sátira funérea pulsante
Cautela atabalhoada
Estripulia calculada
Osso tremente e sério
Umidade vermelha
Na correnteza arterial
E solidão de berros intraduzíveis
Na ânsia de colidir epidermes
Em fricção vagarosa
Pra ligeira delícia,
E a dor de cortes abertos
E a coceira viva no miolo da cicatriz.

Linda Maria*

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Os oito dias que eu passei na casa do Anderson foram deprimentes. Vazio e lentidão total por dentro e ao redor. Agora, eu certamente estou explodindo com um sorriso animal de satisfação na cara enquanto olho pra ti, Linda Maria que lê estas linhas que escrevi ontem (hoje). Sabe aquelas histórias sombrias e tristes que arrancam gargalhadas no parágrafo certo e fazem pensar de maneira diversa um assunto que parecia esgotado? E fascinam pelo estranho assimilável e emocionam vagamente construindo uma tensão suspensa e irresistível? Pois é mais ou menos esse tipo de história que aqui se espalha unida nas seguintes páginas. Já reli duas vezes e sempre me fisgou desigual a trajetória dessa personagem simples que, atirada numa situação extravagante, tenta manter o naco de sanidade restante. Lembra aquele dia de Reis, tardezinha nublada, que entrei no apartamento e te achei chorando de frente pra janela? Eu não disse nada, só fiquei ali perto, na penumbra. E ouvi tua voz meio rouca pedir: conta uma piada. E só consegui lembrar aquela dos sapos voadores que o Rafinha inventou. E ouvi tua risada fraca e depois o resto jorro do que ainda sobrava pra chorar. Naquele momento, eu mirava o céu azul escurecendo, me veio na memória um trecho no capítulo XIV do livro manuseado por ti agora. E preferi não perguntar o motivo do choro e esperar teu desabafo natural se essa intenção resultasse da tua vontade. Por algum tempo depois daquele dia eu envaideci de orgulho, orgulho por não ter perguntado nada. Mas, agora, me vem um pedaço de dúvida pinicar atrás da orelha. Por isso, eu peço que, ao fim da leitura desta história a seguir, teu veredicto esclareça se fiz o certo ao não perguntar sobre a tua evidente tristeza rompida naquela tarde. E também espero muito que este livro, um dos meus preferidos, possa também ser um dos teus.

Um beijo inacabável com paixão demais,
Paulo Roberto
POA - 16/07/2009


*Dedicatória manuscrita em tinta preta na página de rosto de um livro (em ótimo estado de conservação) da estante de promoções exposta em algum sebo de Porto Alegre.

Curiosidade Ficcionista

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Hoje eu vi duas malas grandes e abertas na esquina aqui de casa, uma preta em pé, outra marrom deitada, com uma pilha de lixo ao redor. Chovia e, debaixo do meu guarda-chuva, olhei praquelas malas no brilho molhado da calçada e (lá veio me dominar) quis muito saber por onde andaram as malas, o que levaram, pra quem e o que testemunharam lá inanimadas.
O que eu quero dizer é que do pouco que sei sobre mim, um fato é: sou um cabra curioso demais. É quase patológico e acabo sempre focando em detalhes supérfluos. Se alguém me diz que lambia um sorvete quando viu o maior acidente automobilístico do ano, começo perguntando o sabor do sorvete e por aí vai. Se um camarada foi mordido por um cachorro, já quero saber o nome do bicho, a raça, cor etc. Eu podia me esforçar pra cavoucar algum exemplo mais estapafúrdio, mas deixo assim. Acho é que essa curiosidade gratuita é um dos motores que me impulsionam a estimar tanto a Ficção. De tanto acaso cotidiano que estimula essa curiosidade, muito pouco pode ser esmiuçado em detalhes reais e desimportantes. Daí talvez venha a minha compulsão por inventar. Óbvio que há outras razões, tanto claras quanto obscuras, pra tanta curiosidade (muitas vezes intrometida). É certo que também a hipocrisia hedionda, a ideologia parcial, o interesse econômico e diversos et ceteras que simulam fatos em jornais e 'documentos' históricos e relatos 'autênticos' também me empurram fortes pra mentira e a verdade da ficção.

PS: Aconteceu pra dar um fecho mais redondo nesta crônica egocêntrica: Ainda hoje, na volta pra casa, já tinham limpado a esquina das malas e do lixo. Mas um pouco adiante estavam dois guarda-chuvas (um preto e outro vermelho) quebrados num canteiro. Mas eu preferi não viajar em cima do trajeto que eles pudessem ter feito até ali. Por enquanto...

Boletim de Ocorrência

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ESTADO DE SANTA GUADALUPE DO OESTE
SUPERSECRETARIA DE SEGURANÇA PRIVADA
MILÍCIA CIVIL S.A.
PENÚLTIMA DELEGACIA DE REPRESSÃO AOS COITADOS


BO nº: 969448/2009

Delegado: Almeida
Agente plantonista: Juremar Godoy

Natureza da ocorrência: Lesão epidérmica hedionda seguida de xingamentos chulíssimos
Data: 08/06/2009
Local: Rua Lindomar Sampaio, 334, Bairro Supernova,
Maria Bonita da Serra/SGO
Hora do registro: 19h39m
Hora do incidente: 16h30m

INDICIADO: Angelo Castilho
Doc. Ident. nº: não consta
Pai: Dimitri Castilho
Mãe: não consta
Cor: Vermelho
Idade: 44 anos
Est. Civil: divorciado
Prof.: Cigano
Nac.: não consta
Nat.: não consta
Residência: Onde calhar
Local de trabalho: Terra

VÍTIMA/COMUNICANTE: Maria Rosa do Amparo Lubeck
Doc. Ident. nº: 4.556.97 - SSSP/SGO
Pai: Rodolfo Lubeck
Mãe: Dulcinéia Lubeck
Cor: parda
Idade: 49 anos
Est. Civil: viúva
Prof.: Gerente de butique
Nac.: brasileira
Nat.: Maria Bonita da Serra/SGO
Residência: Rua Lindomar Sampaio, 334, Bairro Supernova,
Maria Bonita da Serra/SGO
Local de trabalho: não consta

TESTEMUNHAS:
1)Amália Antunes, residente na Rua Genoveva Kampff, 125, Bairro Supernova, RG: 3.152.63 SSSP/SGO, fone: 323-2112.
2)Rui Barbosa Leite, residente na Rua Ernesto Zimmer, 455, Centro, Maria Bonita da Serra/SGO, RG: 2.222.33 SSSP/SGO.

HISTÓRICO: Relata a vítima que, na data supracitada, o autor, seu amásio irredutível que há mais de onze anos aparece de vez em quando e fica por alguns dias, chegou de longa temporada ausente, charmosamente embriagado, e na calçada frontal à modesta residência da vítima agrediu-a com ósculos úmidos, cócegas, beliscos delicados e abraços lúbricos após a mesma ter se negado a dar-lhe vinte e cinco centavos para comprar chicletes em razão de suposta halitose. Segundo o relato das testemunhas, o indiciado, ao encontrar-se fatigado de tanta agressão, sentou no meio-fio e passou a insultar a vítima com lamentáveis adjetivos de admiração abjetamente suplicantes. Declarou, ainda, a vítima, que esta foi a primeira vez que o acusado teria agido de forma tão asquerosa. Nada mais.

EXAMES REQUISITADOS: (Minuciosos) Corpo de delito e coleta epitelial a serem realizados, mediante módico, porém justo, suborno, nas dependências do Instituto Médico SuperLegal.

FORMA DE PAGAMENTO: Seis parcelas de 231 Reais e quarenta e sete centavos debitados no Cartão de Crédito.

Juremar Godoy (Mat. 033.078/99)
Agente Milicial de plantão

Maria Bonita da Serra, SGO, 08 de abril de 2009.

Zero a zero terminal

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O moribundo sentado no chão da cozinha tem os olhos semicerrados, giram num lento contínuo, alheios da paisagem doméstica. O indicador e o dedo médio esfregam a baba do chá de cavalinha no fundo da xícara pousada na lajota ao lado. O moribundo veste chambre vermelho e declama numa voz baixa, grave, rouca:

Rejeito arcos de sorriso torto
Nas caras bibelô de fachada
Cotovelos palestrando perdigotos
Como fossem cobiçados nortes
Máscaras no espanto ensaiado
Mascando gomas tutti frutti
A observar o nada evidente.
Anseio a dor entorpecente
Pra resistir calado
Ou demolindo atrozes muros
E pontes.
Verdade...
A verdade
Que inexista,
Não é motivo
Para não investigá-la
Insistindo em simular
Enganos inverossímeis.
Eu, sozinho, apenas
No meu trajeto solo insano
Não pude vislumbrar a fuga
Da babel indestrutível.
Pessimismo desconfiado
Colecionando ruínas.

O gato, branco feito um corvo albino, aparece miando na soleira da porta. O moribundo cambia olhares com o gato por um segundo, não um segundo interminável que pausa tudo, não, somente um segundo real, e arremessa e atinge a xícara no lombo do bichano que foge num berro estridente. A xícara rodopia na lajota produzindo uma sonoplastia harmônica até emborcar imobilizada. O moribundo expele um híbrido rouco de tosse e gargalhada e submerge num choro de pena do gato branco, branco feito um anjo neurótico e egoísta. Rosto limpo de lágrimas e muco esfregados no vermelho do chambre, ele ergue o corpo num pulo desajeitado. Encarando a limpeza fria e cinza da pia, por enquanto, o moribundo parece contente e não espera mais. Avança até a sala nuns passinhos arrastados de colegial sardenta com trancinhas e no trajeto chuta de calcanhar a xícara que vai parar nos pés do refrigerador. Tenta num tom alto demais assobiar a Cavalgada das Valquírias e acaba soprando desafinada a melodia. Senta na poltrona de falso couro esverdeado. Pressiona o botão ON/OFF no controle remoto e muda para o canal de esportes. Aos quarenta e três e quarenta do segundo tempo, seu time está empatando fora de casa e o árbitro acaba de avisar dois minutos complementares. O moribundo grita prum dos jogadores surdos que rouba a bola do adversário. O moribundo vibra, como se acreditasse ainda no embuste da vitória.

Índios não cavalgam tobianos

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Chove um pouco no terceiro dia de agosto e Wolfgang (eu) olha pela janela. O vento enruga o chão de água do rio num movimento constante. Tem uma bola deformada de brilhos bem no meio do rio, descrita pelo jato de sol que escorre dum buraco nas nuvens. As mãos de Wolfgang (eu) estão encolhidas nos bolsos do casaco de gabardine cinza. A silhueta negra de uma barcaça chata passa deslizando nas rugas d'água e aquele edifício feio, sujo e alto à esquerda atravessa a chata bem no meio até que ela surge inteira no meio do rio. E Wolfgang está cansado de narrar, em terceira pessoa, os arredores pra si mesmo; então pra embaciar o barulho do chuveiro ligado e o que ele significa eu (Wolfgang) repasso aquela tarde dum janeiro retrasado: Wolfgang (meu avô) acabou de ler uma das minhas histórias de ficção-fantasia e diz: "Não, não, isso aqui tá errado, é falso, os índios não cavalgam, nem nunca cavalgaram um tobiano na vida. Eles achavam que era muito chamativo, dava pra avistar o bicho de longe e..." Eu interrompo meu avô pra dizer: "Mas, me responde uma coisa: essas chatas que carregam lixo pra lá e cá por acaso eram porta-aviões na guerra dos Farrapos?" E no espaço/tempo de um soco rápido já me sinto mal, portador de uma culpa que algum mosquito gordo me injetasse numa picada. Wolfgang (meu avô) fica meio perdido olhando a parede bege e então eu solto uma frase que generaliza tudo e ficamos conversando sobre toda essa ficção 'científica' rolando por aí que não é nada mais que fantasia pura ou conto de fadas mesmo. E então escurece e Wolfgang (meu avô) esmurra meu ombro de leve e vai embora, atravessa a rua, dobra a esquina, anda uns quinhentos metros e entra no edifício feio e cumprimenta o porteiro e certamente conversa alguma coisa com ele. Então sobe um andar no elevador e entra no apartamento e executa umas tarefas habituais que desconheço e deita no sofá e dorme e sofre uma parada cardíaca enquanto sonha com o olho negro e o traseiro da menina que trabalhava no café aqui da frente. A parte do sonho fui eu que inventei, mas o resto é basicamente o que aconteceu. Continua, segue o barulho da água corrente do chuveiro e, como se eu pescasse doidamente com os ouvidos, escuto o ruído estridente da broca de furadeira no apartamento aqui do lado. E broca, broca, lenteio a respiração, e broca... broca... então consigo ver meu tio Manfred abrindo um buraco na parede com sua furadeira de estimação e minha tia Judite do lado segurando a mangueira do aspirador de pó ligado pra sugar as migalhas de reboco. Mas a broca silencia no apartamento aqui do lado e a imagem se desfaz. Resta o barulho do chuveiro e o jorro dos pingos quentes por toda aquela carne tenra e suja, gostosa e nojenta e é como se eu não tivesse ainda me decidido se me afundo outra vez na vária humilhação doentia e desfaço aquelas malas cheias quase submersas no colchão da cama. Se pisoteio pra engolir o pedaço apodrecido de orgulho que ainda me sobra. Se finjo que esqueci tudo numa cena telenovelesca e tragicômica de medo pelos caminhos puros e isolados. Ou deixo tudo (o arrastar de malas e suspiros e a batida na porta) acontecer pelas minhas costas num bocejo ofendido e vacilante enquanto sigo mirando a chata desaparecer deslizando na água enrugada. A chata que recorda e ainda anseia o pouso de algum B-52 farroupilha. Mas o barulho do chuveiro cala de repente e só fica esse silêncio desgraçado.

Ingredientes pra conversa vadia

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A coitadice do Sarney. Não foi ele sozinho quem inventou o sistema. E o pior são ainda os bons, os legais, os imaculados que apenas querem afastar o senador continuando a perpetuar o Sistema (e para eles, ridículo, o afastamento, a exoneração e até a aposentadoria remunerada são condenações tenebrosas). Só o que urge é a reforma cavalar da Máquina, utopia das mais idiotas. Se não for pra transfigurar o Sistema todo, deixem o senador na dele, saindo o homem, muda apenas La Famiglia (ou mudam apenas as moscas).

De fabricação russa, um fuzil folheado a ouro apreendido num morro do Rio de Janeiro (progresso natural da desordem, organização do caos, piada de humor negro etc).

A reencarnação de Michael Jackson. Sua formação traumática e a eficiência das porradas para o sucesso. Sua vocação pop e a sua bizarra metamorfose. Seu trabalho relevante e a parte podre da obra, suas atitudes no mínimo estranhas e seus passinhos de dança bem ensaiados, mas descaradamente chupados de James Brown.

Flatulência espalhafatosa e denunciante dum vietcongue no arbusto, às margens do Mekong, em 1971.

Asas desajeitadas de um morcego nadando na água limpa da piscina duma tia.

A influência da mídia sobre a 'personalidade' opinativa do homem comum.

O suposto sabor das patas de caranguejo de fiorde, receita de programa culinário na tevê.

O cinema como um instrumento para a apatia abjeta das populações.

Sobre a Moda: Um camaleão de algodão-doce na chuva, um funeral precipitado, um festival de catalépticos cremados.

Missiva dos traumas dissimulados

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Caro Doutor,

Relato a seguir caso de amigo meu que solicita considerações de ordem profissional: Até os sete, oito anos, ele foi um piá quase normal. Gritava, corria, brincava despreocupado sem dar muita atenção aos arredores, aos outros, enfim, ao mundo exterior e suas exigências e expectativas. Foi então que algo aconteceu (ignoramos o fato) e meu amigo fechou-se ensimesmado num suave, fingido e convincente autismo. Talvez, começasse ali a perceber a contundente resistência de quase todas as manifestações alienígenas que o cercavam em relação a seus desejos, crenças íntimas, valores abstratos, ideias e ilusões peculiares. Era demais raro encontrar demonstrações equivalentes a seu pensamento e sensibilidade. Por outras e essas trancou sua persona aparente e antes gorda de imprudência num acanhamento ordinariamente considerado como débil. Não deixou de observar, contudo, estudar até, o sublime e repugnante caos que se tramava (proposital ou acidentário) ao seu redor. Ao contrário, óbvio, gastava tempo maior em miradas meticulosas. Sem esquecer é claro de por eternidades ligeiras desligar-se em automergulhos egotistas. Talvez construísse remorsos gigantes por tanta inércia contemplativa, mas o caso é que não creditava muita serventia a incontáveis manifestações verbais ou ativas. Até os 14 anos meu amigo sobreviveu encaramujado. Então cansou de tanta masturbação interna e decidiu retornar aos poucos ao pragmatismo de atividades normais e verborreias vulgares. De certa forma, diz ele, sentiu-se obrigado a isso. E tentou então percorrer seus trajetos e atalhos com independência, muitas vezes não conseguindo fugir aos empurros de ventos influentes e abjetos. Conta o meu amigo que até hoje, aos 29 anos, continua a debater-se entre incoerentes impulsos e dúvidas e medos e ousadias estéreis e os hálitos repelentes de bichos à espreita. E afirma também sentir um banzo vertiginoso das viscosas paredes do casulo. Mais ou menos isso.

E então, Doutor, alguma luz? Mínima que seja? Algum tarja-preta com sabor de framboesa pra receitar?

Desde já,
Muito grato,

J. G.
09/07/09 - São Lourenço do Sul

PS: Hummm, deixa pra lá...

R.S.V.P!!!!

R.S.V.P!!!!

O meu isqueiro em verso livre

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Cópula infernal
Da faísca de sílex
E sopro gasoso ou fluido
Chama solitária
Gorda ou magra
Inflamada de azul amarelo
Língua trêmula de fogo
Onde imolo num arder o meu tabaco
Poder combustivo barato
Metal e plástico
Nirvana piromaníaco
Centelha inestimável e particular
Roldana que roça na pedra
No impulso de um dedo
Em urgência de labareda pigmeia
Possuir na mão esse aparelho gênio
Criador inflamável
É ruborizar as pálidas madrugadas
Infinitas Gracias te devo
Meu supremo camarada
De luz bem ardente
E servidão brilhante
O meu isqueiro
Levo sempre no bolso
Fulgurante adormecido
Brasa garantida
Meu bonito
Leve
Poderoso
Espetacular
Isqueiro.

isqueiro uno1.jpg

Minhas três ou sete pernas formam um borrão correndo a oito por hora na esteira rolante entre calçada e rua e minha amiga morde um pedaço de nuvem entre sonhos de um ocidente moldado pelo império cartaginês e não romano. Mas aí a gente não existiria, afirmo telepaticamente a minha amiga. Envolta em peles de cabra roxa, ela ignora meu comentário estúpido e continua sonhando com edifícios sem janela e. Há uma rarefeita névoa em cinza-claro que paira inocente estuprando a atmosfera. Minhas pernas estão cansadas, mas continuo correndo no mesmo metro quadrado. Mais um pássaro (quero-quero) espatifa-se morto no asfalto fofo. Bonifácio, meu vizinho de frente, varre o quero-quero para um dos necrotérios improvisados nos canteiros da rua. Até o fim haverá insanos engajados no vício da utilidade pública, penso. Minhas pernas fatigam totalmente e caio de costas, sou arrastado pela esteira. Um outdoor animado (atarraxado na esteira) me segue apresentando um reclame de televisão realidade onde vejo:

Carnes pedestres carcomidas
pelo ódio surdo aos gritos agonizantes
de misericórdia dos próprios ossos automutilados
em peregrinações ajoelhadas por aléias intermináveis ladeadas
por troncos de jacarandá queimados num chão de cacos vidro púrpura.
Carnes pedestres aceitando
horrores com a tolerância de uma
pedra (submissão infame) e talvez torturando
em sádicos requintes outras minorias inofensivas ou indefesas.
Carnes pedestres regurgitando
teses superembasadas a defender
inutilidades supremas e perversidades gratuitas e pseudolucrativas.

Cerro as pálpebras com força e tento recriar na imaginação um episódio antigo de um desenho animado que eu gostava tanto, mas não consigo: os desenhos correm em movimentos embaralhados na minha mente. Sento com as pernas cruzadas e percebo que a esteira está dando a volta na quadra. Sem pensar, recolho um pedregulho que vai passando (imóvel) na calçada ao meu lado e no vigor dos braços arremesso o pedregulho no outdoor. O pedregulho some para dentro do buraco que abriu na tela e a transmissão da imagem acaba num retângulo escuro que domina o miolo do outdoor. O contorno do buraco imita uma estrela gorda e assimétrica. Impávido, o orgulho me invade e eu aceito. Percebo que já dobrei a quarta esquina e agora posso ver a minha amiga crescendo aos poucos no meu âmbito visionário. Antes que ela cresça demais, dou duas cambalhotas e paro na calçada ao seu lado. Por cima das peles de cabra roxa. Minha amiga parece olhar além dos meus joelhos esfolados. Ela soluça e o pedaço de nuvem escapa na racha momentânea entre seus lábios e fica parado no ar. Um grito de quero-quero convoca nossa atenção. Do meio de seus colegas inertes no canteiro fúnebre, o quero-quero decola num voo desajeitado e some entre dois prédios no beco sem saída do outro lado da rua. Minha amiga tenta surpreender o pedaço de nuvem numa mordida rápida, mas o pedaço de nuvem desce veloz numa queda vertiginosa até o meio-fio, rola e desaparece num bueiro próximo que ignorávamos.

O Artista

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O Artista é nojento. Nauseia e nem pena provoca. Não me refiro aos metidos que por coerção de circunstâncias várias e de alguma forte e lisa Mão são inseridos em qualquer meio artístico e ali sobrevivem sem talento algum. O Artista de que falo tem um talento mediano, estudou sua arte e continua estudando. Digamos que seja um ator ou atriz, o Artista. Ele (ou ela) canta afinado e sabe dançar razoavelmente. Ele inclusive aprendeu alguma performance acrobática circense, ele acha que isso revalida sua condição de Artista e tem orgulho disso. O Artista leva sua arte muito, MUITO a sério, demais. Sua arte é o que importa. Ele escolhe seus papéis, suas personagens, com muito cuidado e critério. Ele não precisa de dinheiro, já tem uma outra fonte de renda que o mantém, portanto pode escolher os projetos que achar melhores. Se alguém desimportante interrompe o ensaio do Artista é uma tragédia, ele fica indignado e alcança olhares satânicos ao interruptor. Mas se a pessoa que o interrompe cativa algum tipo de interesse no Artista, ele é camarada, amável e perdoa tudo na hora. Seu ensaio perde instantaneamente o ar Sagrado. O Artista não cansa de elogiar algum colega seu que não possua talentos nenhum, mas que tenha se tornado célebre na profissão. Desde que esse colega não seja um diletante, um fake, desde que tenha estudado como ele e continue estudando e também leve MUITO a sério sua vocação. O Artista é, claro, de Esquerda. Mas tem apenas opiniões requentadas e não reflete sobre a política ou sobre relações sociais, só repete o que já ouviu ou leu em algum lugar. Sua canhotice é apenas uma pose conveniente. Sua arte também reflete um pouco desse esquerdismo, mas sua arte é para intelectuais barrigudos e limpos e otários de classe média pra cima. O Povão é uma abstração numérica boa para evocar em alguns discursos levianos entre margaritas e champanhe. O Artista é um individualista produzido em série que despreza qualquer indivíduo que não seja ele próprio ou algum clone seu. O Artista procura e se envolve e se reproduz com sua tribo, não suporta diferenças fora do palco. E enxerga apenas seus pretos e brancos já predeterminados, não quer examinar os tons de cinza. Há sentimentos no Artista, mas são aprendidos e categorizados e servem a propósitos específicos. Ele é tipo um robô de carne e ossos levemente humanizado e cheio de dramas reciclados escondidos na manga. Eu não sei quem é O Artista, mas ele existe e não reconheceria o seu perfil aqui nestas linhas de análise e juízo superficiais. Ficaria na dúvida, mas logo estaria convencido de que se trata de outra criatura. Retiro o que escrevi lá no começo. O Artista provoca sim muita, muita pena.

Um cigarro (e a rua que não atravessei)

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Lá estava ela, saindo das galerias subterrâneas meio sem fôlego dos degraus subidos, mas já procurando o isqueiro na bolsa pra acender o cigarro entre os lábios. Por cima da jardineira bege, vestia o casaco de brim camuflado que, numa terça-feira quente e nublada, roubara de mim. Afastou uma mecha loira de cabelos da boca e acendeu o cigarro. Covas fundas abriram no rosto quando ela sugou a primeira tragada. Os fones brancos nos ouvidos (eu juro que podia ouvir o som) provavelmente tocando aquele tipo de música que ainda não compreendo. Eu fiquei ali, um ombro escorado no poste e uma das mãos no bolso do casaco. Ela não me viu (tem algo de miopia e não usa lentes de contato ou óculos, detesta lentes). Num movimento ligeiro das mãos, arremessou o isqueiro pro interior da bolsa e fechou o zíper. Os mais pirados e corretos malabares, usando garrafas e copos, aprendi com ela. Suas acrobacias perfeitas ainda são uma espécie de lenda em alguns círculos, tudo bem, exagero um pouco talvez, mas bem pouco. Jack chegou a entrar numa sucursal de depressão quando ela se demitiu do bar. Ela nunca precisara da grana. E a diversão não reverberava mais daqueles olhos pretos. Devo muito a ela. Me arrancou de narcoses violentas que, na época, me dominavam em aconchegantes abraços de polvo. Me jogou a corda pra que eu saísse das fossas e me limpou os dejetos do corpo. Me deu de comer na boca e me pagou algumas dívidas torturantes. Minuciosa, beijou e manuseou minha anatomia completa sem sacanagem subentendida. Esquentou meus pés gelados e mãos frias e me entretinha com mirabolâncias geniais entre chás e cigarros. Mas todo o efeito que ela teve em mim não surgiu de ensinamentos ou estudos que me pregasse. Foi aos poucos observando aquela criatura natural e pluricórdia, percebi as tonalidades mais furtivas. Desprendida e devotada, introspectiva na hora certa e expansiva nos lugares adequados. Artista das filas de banco e das salas de espera tinha uma arrogância modesta que não contava merecidas vantagens. Um rosto e nariz finos, peitos pequenos e um traseiro carnoso que descia em pernas magras, cheia de carinhos na ponta dos dedos, mas fria e quieta e séria na cama, tudo pela cartilha da ABNT debaixo do lençol, o que pra mim veio como um choque. Eu esperava tudo, menos aquela formalidade estranha que tentei mas não consegui decifrar. Ninguém é mais que perfeito, já dizia um paquiderme gigante que eu tive numa existência passada. Tinha uma esquisita fobia a gatos e cachorros. Se acordasse pela manhã, o que o trabalho noturno rareava, ela sacava a mania de interpretar todos os tipos de papéis imaginários, dramas patéticos. Escovava os dentes sempre flanando pelo apartamento. Ela sabia e eu também: nós em nós cegos, juntos, não podia durar. Tinha data de validade. Então ela foi com a mochila nas costas até o País de Gales (investigar informalmente suas vagas origens) e nunca mais até hoje. Eu consegui apenas (lentamente) retirar a mão do bolso do casaco. Ela olhava para o céu ao soltar a última baforada de fumaça. Agachada, raspou a brasa do toco de cigarro no meio-fio e jogou a bagana num cesto de lixo ao lado. Atravessou a rua e entrou na livraria da esquina. Escorado no poste, parado, as mãos frias, fiquei ali, ainda escutando aquele som que não compreendo.

Um sonho de ontem

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Ontem eu sonhei: Subia eu, mais uma criançada e um tio meu (que às vezes era um ex-chefe no episódio) a encosta dum morro cuja vegetação não era densa. Detalhe que a encosta era infestada por leões, muitos, demais. Mas a regra de sobrevivência, palestrou meu tio, era nunca recuar diante dos leões ao cruzar com eles e seguir em frente; regrinha difícil de cumprir já que os bichos rugiam com raiva na cara de quem cruzasse. Mas, segundo meu tio, os leões atacariam somente quem recuasse, e pra matar na tranquilidade. Ninguém recuou. Enquanto a criançada e meu tio-agora-na-pele-de-ex-chefe subiam parecendo despreocupados, eu engolia o meu cagaço cada vez que passava por um daqueles imitadores (bem mais furiosos e ejetando perdigotos) do logo cinemado da MGM. Chegamos a uma clareira gramada em declive e paramos prum lanche. Sem fome, desci o declive até uma formação rochosa onde havia uma ducha natural de água com cristais (não me pergunte, não sei) que escapava de uma rocha suspensa. Tomei um banho ali, rodeado por uma névoa fina e grama alta e musgo e pedra, e que banho, um dos melhores que já tomei. Vesti as roupas e subi o declive. Avistei, saindo do meio de uns arbustos, uma hiena, gorda e cheia de dentes de tubarão piá escancarados. Meu tio não comentara nada sobre hienas. Consegui me esconder num abrigo cheio de entradas e saídas que as raízes de uma árvore grossa tinham construído. Afundado na terra, fiquei ali, abafando a respiração. A hiena andou pela grama e circundou a árvore que me escondia. Entrou no abrigo das raízes por um lado, passou por mim e ficou parada numa das outras saídas. Não me viu. Já eu podia ver perfeitamente o bicho que mirava a parte alta do declive. A boca, sempre aberta num sorriso irônico, oferecia uns dentes que pareciam clavas hiperafiadas nas pontas. E a baba grossa não querendo desgrudar do focinho. Eu, encurralado num pavor que tentava sonegar em inércia e silêncio, me agarrava com as duas mãos numa raiz. Fechei os olhos, suplicando mudo ao ACASO!, e minhas mãos agarradas na raiz foram (no escuro) transfigurando-se em minhas mãos sobre o meu peito -- eu de repente acordado em cima da cama.
Algum Freudinho de plantão por aí? (Só para interpretações absurdas, a verdade não interessa já que pode ser tanto muito enfadonha quanto por demais escabrosa).

Paralelas e perpendiculares tortas

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Juliano chegou cedo e resolveu tomar um café no bar da esquina. Pediu um cortado e uma barra de chocolate. Percebendo que o atendente olhava para ele como se tentasse adivinhar algo, Juliano bebeu o café em dois goles e embolsou a barra de chocolate, saiu e ficou esperando em frente ao prédio. O zelador varria as folhas e papéis da calçada. Tinha um bigode fino e carregava um cigarro na orelha esquerda. Reunira a varredura num monte a recolher no saco plástico preto que desprendeu do cinto. Olhou pela primeira vez para Juliano por um segundo e como se fosse um mágico apresentando um truque novo levou o cigarro da orelha para a mordida dos lábios e entrou no prédio pelo portão da garagem. Juliano ficou olhando a silhueta do homem afastando-se. Achara o zelador parecido com seu pai. Secou o suor das mãos no jeans e escondeu-as no bolso do casaco. Tateou a embalagem metálica do chocolate e pressionando com o polegar quebrou a barra ao meio. Mesmo sem fome, achou que seria o certo comer o chocolate. Ia jogar a embalagem na calçada, mas seu pai, e o zelador varrendo; guardou-a no bolso. Sentiu um leve soco no ombro e virou-se para enxergar os olhos verdes e o sorriso de Jamile. As sardas em seu rosto, avistado tão de perto, pareciam ter proliferado. Beijaram-se no rosto sem um abraço, apenas a mão de Juliano apoiada na ombreira alta do casaco lilás de Jamile. Ela disse demorei por causa de uns exames aí, nada sério. Ele mostrou a hora marcada no relógio, a mesma combinada por eles no dia anterior. Entravam no prédio, Jamile guiava como se Juliano estivesse ali pela primeira vez. Cumprimentaram o porteiro em sua camisa azul e seus ouvidos atentos ao rádio. No elevador, Juliano amassava a embalagem do chocolate enquanto detalhava sua mudança de cargo no banco. Jamile escutava e fingia roer a unha do polegar direito, um velho hábito em outros tempos muito sedutor, ele pensou. Sim, não reconhecia constelações de sardas no rosto tão próximo de Jamile. Chegaram ao quinto andar, já não esbarrariam um no outro, na escuridão do corredor -- agora as luzes acendiam automáticas, sensíveis a qualquer movimento. A nova porta do apartamento não era pintada de branco, Juliano notara, era madeira envernizada, o cinqüenta e um em metal prateado. Ela destrancou a porta e teve de ligar as luzes, as janelas todas fechadas. Fora a falta dos quadros nas paredes, o apartamento estava igual a sete meses antes. A televisão era nova. Juliano sentiu forte cheiro de incenso. Sândalo vagabundo não-indiano, pensou. Ela ofereceu coca ou suco de uva, era só o que tinha. Ele pediu um copo d'água. Jamile olhou para ele por um segundo como se não entendesse e rumou para a cozinha. Juliano sentou no sofá e ficou olhando seu reflexo na tela da televisão. Ela voltou, elogiando os cabelos longos e os óculos novos de Juliano, alcançou a ele o copo d'água, e sentou ao seu lado. Pois é, ele disse e bebeu um gole. Ficou segurando o copo com as duas mãos até decidir largá-lo na mesa de centro. Jamile acariciou os cabelos longos de Juliano e se aproximou. Paralisado, Juliano recebeu o beijo e retribuiu. Ela já montava em seu colo quando Juliano afastou o corpo de Jamile e disse não vai dar, tenho compromisso daqui a pouco, e além do mais... Ela ajeitou o casaco e o corpo no sofá. Numa rápida troca de olhares, Juliano reconheceu mais espanto do que mágoa no olhar de Jamile. Ela levantou em silêncio e pisando forte sumiu pela porta do quarto. Ele tirou a embalagem de chocolate do bolso e ficou olhando para os reflexos prateados e coloridos. Jamile voltou carregando uma pilha de uns dez discos e três livros e largou tudo no sofá ao lado de Juliano. Pronto, ela disse. Ele juntou tudo em um braço e levantou do sofá. A magreza daquela pilha denunciava para Juliano a falta de muitos itens. Coloca no lixo pra mim, ele pediu, mostrando a embalagem do chocolate. Jamile pegou a embalagem e jogou no chão, não olhava para ele. Ele disse eu vou indo então, e saiu. Desceu no elevador e na saída não viu o porteiro, apenas o rádio emitindo manchetes em voz grave. A calçada já tinha novas folhas e papéis espalhados. Andou até a parada de ônibus, mas resolveu pegar um táxi que passava. No trajeto que atravessara três bairros não conversou com o taxista, ficou olhando a paisagem urbana. Abriu o portão do prédio e subiu os dois lances de escada. Destrancou as duas portas e entrou no seu apartamento iluminado pela luz da rua, as janelas abertas. Sentou no pufe ao lado do aparelho de som e, deixando os livros de lado, remexeu na pilha de discos. Escolheu o Talking Book e puxou, cuidadoso, o disco de dentro da capa. Um arrepio chicoteou sua espinha ao notar os riscos no vinil negro, iam todos para o lado errado, gravados em perpendiculares e paralelas tortas. O lado B estava parecido. Foi conferir os outros discos: Loaded, sim; After Hours, também; Rubber Soul, idem. Todos letalmente arranhados. Até os livros haviam sido rabiscados por dentro e algumas páginas estrategicamente arrancadas. Juliano sempre soubera -- sua inevitável fuga daquela história teria um alto custo. Mas até compreender o primeiro arranhão no disco de Stevie imaginara suas contas já quitadas e com juros doídos. Juliano foi até a janela e olhou para o céu abarrotado de nuvens azuladas. Tinha outros discos para escutar e outros livros para reler. Aqueles riscos tortos e páginas rasgadas eram também inevitáveis, pensou Juliano. O óbvio chegando sempre atrasado. E foi até a cozinha em busca de um copo cheio d'água.

Deslocado

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Encarando-me ali de cima as gárgulas decrépitas em maus sorrisos pagãos sob o céu sem lua dum novembro abarrotado de vento me largam numa ansiedade mansa e tenho vontade de sair, mas não. Os tempos de um constante sair noturno acabaram, não posso mais voltar àquela deriva tão sem amanhãs e propósitos, congregado com gente que não conheço (quem conheço não me atura) na diversão ilusória que por instantes no espelho do banheiro mostra a cara medonha. Fico, então, olhando pela janela da área de serviço, a rua lá embaixo que desce numa ladeira interminável, o enfadonho deslocar da noite. Uns passantes lá embaixo que nem enxergo direito, algumas nuvens vindo feito exército vagam em marcha, fico olhando, e passam por trás daquele prédio magro e alto e saem desfiguradas do outro lado, não reconheço mais a formação nebulosa anterior e olho pras lajotas que esfriam meus pés. E penso que todos (e tudo) passam constantemente por detrás de prédios. Levo um susto (a chaleira piou) e dou alguns passos até o fogão, interrompo a saída das chamas. Distraído, queimo a ponta de dois dedos no bojo da chaleira. Enquanto assopro a queimadura, olho para o cimento enrugado onde falta um único azulejo amarelo na parede da cozinha. Vou até o quarto, calço meias e tênis brancos, apago as luzes do quarto, sala e cozinha. Paro no escuro por uns dez segundos, respirando na lenta. Azar, eu penso. E saio.

Cabelinho de anjo

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Eu tinha esse amigo, o Marlon, ele me disse uma vez (os cotovelos esparramados no balcão de um bar) que execrava os tipos com "cabelinho de anjo". E, meio que rindo depois de um gole de uísque, acrescentou:
-- Não dá pra confiar numa criatura dessas, que sai cuspindo cacho loiro atrás de cacho loiro de dentro do crânio.
Feito. O germe do preconceito acabou se instalando no meu sótão mental, no meu porão sensorial... Depois disso, se eu enxergasse um transeunte apressado fazendo pular seus cabelinhos de anjo, lembrava da Lei de Marlon. Preciso dizer que sempre fui suscetível demais ao que me dizem os próximos. Sei reconhecer minha fraqueza de carneirinho.
Uns dois anos depois de contagiado por essa doutrina estapafúrdia do Marlon (isto é, há um mês e meio atrás), tive a oportunidade de abafar aquele preconceito. Usei de racionalizações patéticas do tipo: Ondulações capilares em forma de loira mola não podem macular o caráter de um indivíduo; Cachos dourados não levam uma pessoa a absorver e canalizar perfídia pra dentro dos miolos; Cabelo de anjo não deve ser uma ironia (tão banal e fácil) arquitetada pelo acaso; Nunca ouvi ou li nenhuma explicação científica a respeito; Raça, classe ou credo não determinam... e et cetera e et cetera e et cetera.
Foi o seguinte: acabou que me foi designado um funcionário, subordinado a mim, que exibe sem vergonha alguma o tal cabelinho de anjo (neste relato, faço uso daquela proteção ridícula do Não-citar-nomes, exceto o de Marlon que já não vejo faz tempo e ele que vá se fomentar). Espirais longas num amarelo vivo carregava na cabeça o tal funcionário, um formato amarelado que me dava leves náuseas. Mas não vou entrar em detalhes (mais um subterfúgio risível de resguardo). Em resumo, saltei por cima do preconceito e incumbi o Cabelo-de-anjo de um serviço importante que lhe competia. Mas o animalzinho loiro acabou cometendo (por simples negligência) um erro tão básico e desastroso que me causou a) um sermão humilhante por parte do supervisor-chefe, b) uma quantia considerável de multa descontada do meu salário e c) a perda de prestígio entre colegas e superiores que ignoravam pormenores e não aceitariam explicações estéreis.
Foi assim. Vi o preconceito gratuito, que herdei de um outro indivíduo, ser transformado num conceito arraigado e ressentido. A tragédia foi que o caso aumentou em mim a confiança instintiva em meus demais preconceitos. E que os futuros representantes da raça Cabelinho-de-anjo tenham extrema cautela ao cruzar meu caminho. Podem acabar expiando de forma bestial os equívocos de outro.

G. F.
Outono de 1982

Obsessão creditória

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O presidente Lula afirmou algumas horas atrás que uma de suas obsessões atuais é reduzir o spread bancário, ou seja, quer loucamente reduzir os juros. Maravilha, concordo, abomino juros. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, quer a mesma coisa. Óbvio. O que ambos querem muito é aumentar a oferta de crédito no País. Querem baratear o crédito. Querem crédito, crédito, crédito. Esperam que dessa forma a crise atual passe tranquilamente. E suas intenções, acredito, são boas. Mas não entendo muito essa obsessão toda pelo crédito. Tem coisas muito mais urgentes que o crédito sambando soltas por aí. Não, não vou nem falar em saúde e educação que certamente importam mais. Eu penso que o que pode interessar mesmo é o cidadão ter um emprego decente e, além disso, um bom salário fixo pra poder pagar todo esse crédito que desejam enfiar goela abaixo do sujeito. Tudo bem, o crédito movimenta a economia, possibilita a compra de casa, carro, videogame, operação plástica, casa na praia, três dúzias de caixas de chiclete, cesta básica etc. E também disponibiliza a compra de educação e saúde, assuntos que parecem não mexer com as obsessões governamentais e que só se parece conseguir (mal e com parcimônia) com muito dinheiro. E, outra, crédito compra mais crédito e mais crédito e para o alto e avante. O que adianta conseguir crédito a juro baixo se depois a criatura não tiver como pagar? E, por acaso, não foi a oferta desenfreada de crédito nos Estados Unidos da América do Norte uma das grandes causadoras da atual crise financeira? Claro que muitos espertos se aproveitaram da situação e realizaram defecadas homéricas, roubaram, venderam putrefatos etc. Mas distribuir crédito lá e cá e acolá e aqui ou ali, mesmo barato, não me cheira a solução ou a caminho menos errado. Certo, não sou economista. Podem acusar o meu corpinho de estúpido, ignorante e assemelhados. Mas então que alguém, alguma alma, me explique essa obsessão pelo crédito sobrepujando outras frentes bem mais interessantes, básicas e necessárias. Meu excelentíssimo presidente da República: Não estou procurando me endividar, pelo juro que for.

Esses caras

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Esses caras que vagam por aí, pestes gangrenadas a proliferar feito coelhos tarados em progressão pseudogeométrica aguda e desordenada. Esses caras não podem me ouvir, se pudessem não dariam atenção ou pisariam bocejando meus ossos com sapatos italianos de solados mais limpos que o meu rosto. Esses caras saciam toda sede e estocam tonéis das fontes públicas pra legislar, executar e julgar em nome de corpos privados de interesses próprios e das tribos. E tantas tribos oponentes que fedem discursos contrários que parecem não concordar mas chafurdam na paridade, tribos inimigas que apertam as mãos grudentas em abraços obscenos e multiplicam prevaricações similares para lados opostos que só diferem nas nomenclaturas. Esses caras que se protegem atrás de siglas com significados infinitos e ordinários. Esses caras contam historietas de ninar tão inverossímeis que só deixam as mais antenadas crianças insones e desesperadas. Todas as provas concretas contra os crimes desses caras transmutam-se em piadas abstratas esmagadas pelas mãos amigas e poderosas de outros caras do mesmo barro. E não são apenas foras-da-lei, são ainda exploradores das lacunas legais e também aproveitadores de tudo que a lei tem de asqueroso, incontáveis disparates legítimos e ações amparadas por costumes legalizados e fétidos. E esses caras são como pastores de ovelhas ingênuas, multidões que ou raspam as sobras ou apenas acreditam nas frases históricas, embelezadas e ocas, retóricas-bibelô de casca de ovo recheadas de dejetos puros e frescos. Municipais, federais, bairristas ou estaduais estão disseminadas essas epidemias em forma de carne esqueletada de medonha qualidade. Sinto minhas entranhas humilhadas por terem alguns desses caras me levado na conversa durante minha adolescência bisonha, sad but true. Não me pegam mais. Tudo de bom que esses caras produzam não paga o resto. Posso correr atrás do menos ruim que puder acontecer, posso incomodar ou não em protestos estéreis, posso tentar o que for por mim ou quem mereça, mas esses caras, esses caras que mantenham distância ao menos física pois o que fazem esses caras afeta o ambiente todo ao meu redor. Mas não mergulho na amargura total, na depressão última. A luz no fim do túnel pode ser o trem vindo em minha surda direção, mas tem furos de ar na bolha que me fecha e talvez (ao menos pra mim que não sofri torturas ou privações bárbaras) toda experiência seja melhor do que não ter nascido. Ah, essa aparência de haver espaço pra mudança... Bah, meus bruxos, socorro, fui pro boteco.

Ass. Pregador alienado metralhador de adjetivos.

Escrete varzeano

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Como devota no rosário da tarde
Eu durmo
Com fé
Sem piedade

Toda penumbra de leões na cova
Eu prevejo
Eu finjo que desejo
Livre de atraente medo

Como torcida imberbe dum escrete varzeano
Eu berro forte
Sem pé
Nem profundidade

Como as tintas da paleta numa foto sem cores
Eu pinto:
Um insistir
Fantasmagórico
Uma escada que não termina
Nem pra baixo nem pra cima
Um bosque vasculhado em plenilúnio
Por soldados vaga-lumes obesos.

Como valsa de cenotáfios tenros
Eu agarro
Solto no absurdo
Algumas dores moribundas
Na fábula diária
De tudo
Ou tanto muito

Sem pé
Nem profundidade.

Resumo de um caso remoto

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Não sei onde foi parar. Se na Califórnia ou em Búzios, Nova Zelândia ou Canela. Não vejo faz tempo demais a magrinha quase loira e, segundo um amigo, muito elegante. Foi parceira de muitas (trabalhos e vadiagens), andou por aí sem rumo ao meu lado, amiga mesmo, bem leve e divertida e sem frescuras inúteis. Gente muito boa e bonita e pra cima, como era perfeito ressuscitar tempo morto ao lado dela. Nós fumávamos um ou dois escutando Mutantes no Gol branco que fora do meu tio camarada e marinheiro. Rindo de nadas cósmicos e universos rarefeitos. Chorando sem lágrima de notícias diárias e da História Terráquea. Eu não sabia então que deveria ter agarrado aqueles instantes com mãos e braços e pernas e unhas e lábios e dentes. E também foram noites ébrias por bares espalhados pela cidade, eu e ela entre outros camaradas em conversas fúteis tão engraçadas e canções eletrônicas e beijos lambuzados em outras bocas erradas. Aqueles olhos verdes e roupas coloridas, um casaco marrom que agora não esqueço, as pernas finas. E por que, me pergunto, por que fui tão cretino e desligado? Sem notar nada quando ela tirava um sarro meio sério da minha cara por causa da outra loira que insistia em sentar ao meu lado nas aulas de português? Por que não li os sinais nas entrelinhas fundas e verdes daquele par de olhos? Ou por que não me avisaram os amigos, colegas, transeuntes, deus, o diabo ou um garçom paraguaio? Mas não, não há motivos, só existe o que houve. Eu, que além de esquisito, sempre fui de falar absurdos e besteiras infames e crueldades de brinquedo sem calcular os possíveis resultados trágicos. E foi numa dessas frases levianas e estúpidas que, ainda rindo, sofri a chicotada escaldante dum olhar inédito da minha amiga. Um olhar estranho e duro que me intrigou desconcertado. Depois desse dia, ela começou a me evitar, a fugir de mim. Se eu entrava, saía, e se eu fosse atrás, esvanecia nas multidões de carne ou de concreto que nos rodeavam. Me deixando deprimido e desbussolado. Sentindo no osso a idiotice doída da maldita ignorância que me assolou aqueles tempos. E foi somente naquela ausência fria que descobri tudo que me habitava dormente e que acabou jorrando explodido na minha cara de otário. Então fiquei sabendo que ela tinha voado pro sudeste, pra morar com a família ou algo assim, e afundei meus cacos numa fossa ridícula. Anos depois, a encontrei num bar de Porto Alegre. Eu já estava indo embora. Abracei forte aquele corpo magro e gostoso. Uns beijos no rosto e umas conversas sorridentes rolaram. Ela disse lembrar de mim sempre que escutava Os Mutantes. E aquilo enfraqueceu meus joelhos: eu tinha ouvido Baby na versão em inglês naquela mesma tarde, mas não recordo agora se mencionei o fato. E pior, ela chegara de Floripa no dia anterior. Eu ia viajar pra mesma cidade dali a algumas horas. Coincidências que só serviram pra confundir os miolos debilitados da criatura patética que ainda devo ser. Fui embora, nada aconteceu. Não pedi telefone ou perguntei onde estava morando. Não me pergunte a razão, não sei ou não lembro. Nada mais. Viajei até Floripa e passei dias perfeitos e melancólicos olhando pro mar do Morro das Pedras. Voltei pra Porto Alegre e mais outros anos voaram. Nunca mais a vi ou soube algo dela. Mas nota-se que ainda penso nos caminhos bifurcados, nas paisagens diferentes e em tudo, tudo que não aconteceu...

Panorâmica de três minutos e meio

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A segunda música do lado B inicia num rolo básico de bateria (caixa, 1º tom e surdo) e segue numa batida funkeada de três acordes. As persianas metade abaixadas filtram a luz do sol que cai em pequenas pastilhas retangulares na parede e em parte da velha escrivaninha de carvalho. O ventilador de teto gira num borrão circular das três pás e insiste em suspender por intervalos meio que sincronizados as folhas amareladas cheias de garranchos em caneta azul de um caderno sem capa sobre a escrivaninha. No chão de parquê, duas garrafas vazias de água, um par de pantufas e um baú antigo de madeira num canto. O aparelho e as caixas de som também ficam no chão, vibrando ao lado de duas pilhas de LPs. O armário de quatro portas revestidas por um mosaico de imagens: ícones pop, paisagens, desenhos abstratos, retratos. Na parede uma tela sem moldura mostra em primeiro plano o rosto purpúreo de um homem com os lábios grossos e os dentes à mostra, os olhos, verdes, esbugalhados e cortados por finas linhas tremidas em vermelho. Por trás, em cinzas e azuis mesclados, os muros e prédios altos e uma nesga de céu quase preto. Ao lado da tela, um pato de pelúcia sorri estrangulado por um cinto preto suspenso pelo gancho da rede, duas argolas de metal prateado estão presas nas membranas interdigitais de uma de suas patas de pelúcia. O refrão entra alternando quatro notas, a letra num inglês cantado em falsete, o cowbell percutindo no fundo. Há um livro de jardinagem e o toco de um lápis no criado-mudo. A mulher de cabelos raspados (máquina dois) dorme deitada na cama com as costas amparadas por três travesseiros e sua respiração é fraca. O filhote de beagle tem os olhos fechados e a cabeça sobre a barriga da mulher. Ela tem a mão direita pousada no lombo do filhote. Num intervalo da música, a mulher abre os olhos. Ela olha fixo para além das imagens grudadas no armário e algo dificulta sua respiração. A música recomeça com o mesmo rolo inicial da bateria. A mulher fecha os olhos, sua cabeça cai, o queixo no ombro direito. Ela não respira mais. O homem de blazer vinho e calças azuis aparece na soleira da porta e fica parado olhando mulher e cão. O homem entreabre a boca por dois segundos e solta uma baforada de ar junto a uma pequena caída de ombros. Depois de olhar para o relógio no pulso, o homem sai e o refrão entra pela segunda vez. As pás do ventilador ainda confundidas no giro exaustor. Uma varejeira verde brilhante pousa sobre o focinho do filhote de beagle, ele abre os olhos (a mão da mulher escorrega de seu lombo) e começa a latir. Um latido estridente. O filhote então fareja o pescoço da mulher, lambe seu rosto e volta a latir. A varejeira voa ao redor. A segunda música do lado B vai desaparecendo no fade-out. Os latidos continuam.

Um filme e alguns versos vagabundos

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Milk

Eu esperava o começo do filme e ao meu lado alguém dizia ter visto na TV Bandeirantes uma mulher ensinando a fazer sexo anal em ritmo de funk. E depois alguns dizem que a TV brasileira não é instrutiva. Começa o filme, assisto e gosto. Milk - A voz da igualdade é um bom filme, bem feito, normal, nenhum colosso da cinematografia. Mas a história de Harvey Milk, ativista político que luta pelos diretos dos gays nos anos setenta do século vinte da São Chico dos Iu Éss Ei é interessante. Vale a sessão. Bem dirigido pelo Gus Van Sant, um cara que volta e meia aparece com uma bomba retumbante de excremento filmado. Tamos no lucro. As atuações estão ótimas. Sean Penn está muito bem (só pra rimar), Emile Hirsch também (idem), e gostei de ver a Alison Pill (nostalgia talvez) que está a cara da Maureen Teefy no filme Fama (Fame, 1980) de Alan Parker. O único porém nauseabundo é o Diego Luna (o Tenoch do ótimo Y tu mamá también, de Alfonso Cuarón). A interpretação do rapazote é enervante de tão ruim. Se a ideia (sem acento) foi criar uma personagem que dá verdadeiro asco e destoa do restante das interpretações, deu certo. Fora isso, tudo tranquilo sem trema.


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Escambo de feitiços inúteis

Juliete me confessou
Derramar o próprio mijo
No meu chá todas as tardes
Numa obscura magia ridícula
Só pra me levar pros seus lados
Num feitiço tolo encantado

Então eu escrevi o nome de Juliete
Numa folha de papel amarelo
Amassado
Enfiei a folha na boca dum sapo
Costurei a boca do sapo com linha preta
E enterrei o sapo a oito palmos do chão
Comigo não tem dessas, eu sou foda, pensei

Mas tudo continuou na mesma
Julieta viva pra lá
Eu indiferente pra cá
E só de madrugada fui ter pena do sapo
Coitado.

Domingo passado

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Restava digerir o churrasco debaixo do pé de acerola naquela tarde quente. Estapear a multidão de moscas ao redor. Suportar o calor com goles de cerveja e alguma conversa. Segundo L. as moscas estavam de botas, pesadas, sinal de chuva. O que parecia óbvio pela cara cinza do céu. Acerolas caíam maduras bombardeando nossa roda preguiçosa. Um desperdício de frutas mitigado vez em quando por algum de nós que juntava uma do chão e enfiava na boca, sem lavar, tudo natural. O assunto então era a saúde dum cara que eu não conhecia. Hiperálgico, diagnosticou J. Perguntei o significado daquela palavra. J. me explicou. Fiquei pensando entre as tragadas de Marlboro se eu era um hiperálgico emocional ou se era mais uma farsa autoimposta que eu comprava sem conferir os dentes. Não me decidi. Atirei a bagana entre os tijolos empilhados da churrasqueira de onde vinha um lençol de fumaça cortado em tiras pelos espetos vazios que descansavam na horizontal. Então alguém disse Ó!, escuta! Dava pra ouvir a aproximação da chuva que vinha dos lados da praça central. Ela chegou rápida, pingos grossos. Enquanto os outros levantavam, juntando cadeiras pra dentro de casa, ajudei T. a carregar a mesa de fórmica até o galpão. Ficamos debaixo das telhas olhando a chuva. O freezer ficava ali, abri mais uma cerveja. Bebemos a olhar a chuva batendo na água da piscina. Pernas e pés encharcados pelos pingos que ricocheteavam no chão. T. me garantiu que a chuva iria ficar mais forte. Perguntei se era a primeira vez que ele fazia vinho branco. Sim, foi meu pai quem pediu, ele disse. Perguntei quantas garrafas ele enchia por safra. Vem que eu te mostro, me disse. Andamos pela grama debaixo da chuva (acerolas esmagadas) e atravessamos a penumbra da lavanderia, descemos dois degraus e pelo portão aberto da garagem percebi que a chuva estava mais forte. Entramos no porão (mesmo porão onde eu dormi por um mês inteiro há milênios atrás). T. apertou o interruptor, mas a luz não acendeu antes dele massagear a lâmpada fluorescente. Destampou um tonel e vi as bagas de Niagara oxidadas. Ele remexeu aquele sumo que emergiu num verde claro do fundo em contraste com as bagas acastanhadas da superfície. Tampou o tonel, puxou dois fios do teto e uniu as desencapadas pontas de cobre, a luz acendeu no quartinho ao lado. Três metros por um, tijolos à vista. Mais ou menos duas centenas de garrafas de vinho tinto deitadas. Segundo T., eram a metade da última safra. Alguém correu lá em cima no piso de madeira da casa, os passos pesados. A lâmpada queimou numa das passadas. Saímos do porão e a chuva já penetrava em jorros pelas laterais da garagem. T. ficou desentupindo a calha com um pedaço de taquara e eu fiquei olhando pra chuva. Pensando. Com aquela fantasia já antiga de viver como produtor de vinho e nada mais. O velho sonho de fazer vinho como única ocupação profissional, em algum sítio distante cheio de sol e verde. Eu só podia rir e acender outro Marlboro. A chuva parou e me atirei na piscina. Nadei e boiei, nadei submerso de uma ponta à outra, milhares de vezes, não era muito grande a piscina. Apoiei os braços na borda e fiquei olhando para a casa antiga. Cacos incontáveis de um espelho brumado que refletia tantas partes de mim e do meu passado. V. passou por ali arrastando as havaianas verdes. Pedi que ela me alcançasse uma folha de manjericão. Ela riu, me alcançou o pedido e saiu a gritar com alguém da casa. Fiquei sentindo o perfume forte da folha, quase engoli a folha pelo nariz. A chuva estava pra voltar, uma desculpa pra me tirar da piscina. Mas ela veio e eu continuei ali - os pingos grossos na água, nos ombros, na cabeça, eu não queria sair. Fiquei ali, quase todo submerso, olhando pra casa antiga, cheirando a folha de manjericão.

As letras miúdas do Contrato

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Abro e fecho os olhos, abro, fecho e abro. A não ser por essa luzinha verde piscando a escuridão é total. Também a sensação é de prazer total. Tento mexer os braços e pernas mais uma vez. Não consigo. Tirando as pálpebras e globos oculares, nada em meu corpo obedece aos meus comandos. Estou surdo, os lábios imóveis (eu acho) e remotos, não sinto língua nem dentes, parece que não tenho mais a boca. Mas ainda posso respirar e a pele continua sensível. Sei que estou parcialmente submerso num leito de gosma quente. Fecho os olhos. O espectro fosco da luzinha verde continua ali insistindo em piscar. Aquela sensação ininterrupta de prazer já é monótona e tenho vontade de bocejar. Mas essa vontade melancólica passa frustrada. Verde aceso, apagado, aceso, apagado, verde. Acordo com a sonoplastia estrondosa de uma batida de carros vinda do outro lado da janela fechada. Pulo da cama, o único móvel do quarto. Não sinto sono algum, vou correndo ao banheiro, os pés leves e rápidos. Lavo o rosto, a água está gelada, quero ficar ali pra sempre, lavando o rosto, mas não posso. Um alarme inaudível, lá - no fundo de tudo, não me deixa esquecer da hora marcada. O compromisso que não posso prorrogar. Fortuna inestimável sem valor algum. Já estou vestido num jeans predileto e numa camisa branca amarrotada, então apenas enfio os pés no mocassim preto e saio depois de beber um copo d'água. Se eu estivesse procurando os carros batidos na frente do meu portão não os veria e talvez ficasse intrigado. Mas, tentando lembrar a melodia de um swing escocês, sigo pela calçada de ardósias quentes, mãos descansando nos bolsos de trás da calça. Quase tropeço num poste que surgiu caído na esquina. O céu nubla de repente escurecendo a manhã e um vento morno começa a soprar. Sinto pingos no rosto. Sinto algo batendo no ombro e me viro, vejo apenas um vira-lata correndo em direção à minha casa. Minhas pernas enfraquecem, os joelhos cedem espatifando-se na calçada, não sinto dor alguma, fico zonzo e olho pro céu azul sem nuvens e é como se na minha cabeça eu ouvisse um pássaro assobiando aquela melodia que eu tentava lembrar. Meus ombros formigam e bruscamente cortinas verdes de quatro paredes, chão e teto vermelhos, me cercam rápidas. Desperto para a luz verde piscando à minha frente. Quando percebo que a gosma amornou, um pensamento me invade num flash negro: O homem nasce ali, vive por aí, morre lá. E assim que morre nasce de novo nos mesmos lugar, tempo e circunstâncias, vive experiências idênticas e morre na mesma praça do mesmo jeito e nasce novamente igual e assim por diante ao infinito. E isso acontece com todos os homens e bichos e legumes e estrelas e pedras. A mesma vida se repetindo num loop sem fim. E a cada existência a única coisa que pode se alterar ou não são as sensações de déjà-vu. Exaurida em mim essa conjectura ingênua e apavorante, tento começar mais uma vez a retrospectiva falha da memória de minha biografia. Mas não consigo, sinto agora o domínio do que eu temia chegando cada vez mais forte: a sensação de prazer total que me acomete começa a ficar insuportável e asquerosa. Feito um enxame superpopuloso e mudo massageando meu corpo num formidável e ardente sufoco. Fecho olhos e verde fosco pisca luz morna gosma abro rodopiando globos órbitas fecho anseio sonho dormir tento tento verde gosma pisca inútil. Não, não tenho sono.

(Cría Cuervos) Um mero agradecimento

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Buenas, não é sobre a Faixa de Gaza nem sobre a morte do Ron Asheton. Há tempos eu vinha querendo escrever algo sobre este cabra: Carlos Saura, cineasta espanhol. Já vi alguns de seus filmes (Ana y los lobos, 1973; Mamá cumple cien años, 1979; Tango, 1998) e fui agradado. Ana e os lobos é uma loucura abençoada, socador. Mamãe faz cem anos é bom. Tango, mesmo sendo o mais recente, foi o primeiro que vi, em 98, e, apesar da fotografia perfeita em cima do tango bem dançado, não curti muito. Mas, cinema (como a música e a literatura e...) é momento (óbvio). A criatura precisa estar pronta e aberta pra assistir, ouvir ou ler determinadas obras. Quem sabe vendo agora eu goste, não sei, pode ser. Mas na real nem era sobre o Carlos Saura especificamente que eu queria escrevinhar e sim sobre um dos filmes do hombre: Cría Cuervos (104 min, 1976). Fato que é um dos meus prediletos e já revi umas oitenta e oito vezes. OK, é phoda escrever sobre um autor conceituado e cultuado ou sobre uma obra premiada e já tão bem estabelecida. Chega a ser ridículo, mas, eu e o ridículo = Carne & Unha. E também já é produção antiga, então no pasa nada. Seguinte: Cría Cuervos é um mergulho nas memórias da infância triste (nem sempre, c-a-laro), mórbida e trágica de Ana, interpretada por Ana Torrent (escolhida a dedo de Midas) e por Geraldine Chaplin (idem). O filme é um petardo espetacular (bah!, escusas) que passeia decentemente e com alguma psicologia latente-pulsante pelas experiências infantis de Ana, mesclando realidades e fantasias nostálgicas a 24 fotogramas (válidos) por segundo. Ana Torrent ficou, ali, registrada como uma Divindade por quase cem minutos de cinema. A cena do teatro das meninas é uma coisa, sim, uma coisa. E todas as outras cenas, preciso dizer. A versão da música ¿Por qué te vas?, de José Luis Perales, ficou perfeita na trilha. Mas já digitei teclas demais. O que eu queria mesmo era apenas agradecer e muito ao diretor do Cría Cuervos, ao elenco, aos produtores, à equipe inteira, à película usada na fotografia, à época, ao clima nos dias de filmagem, aos equipamentos usados e assim por diante... Muchas, muchas gracias! MUCHAS.

Suculenta maçã mordida

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Marina falou de sinapses bloqueadas e eu continuava mudo, parado, sentindo uma gota de suor escorregar pelo rosto. E era importante que a gota seguisse sua rota sem que minha mão a impedisse. Marina falou de prazer e dor e transmissores e dopamina e eu mudo feito um tijolo abandonado no abrigo verde do musgo. Pelo menos era essa a imagem que me vinha por baixo da testa: muito musgo e água corrente e pedras na sombra de muitos galhos folharados e ausência de calor. O gelo derretido do copo encharcava a mesa, o burburinho vindo das outras mesas incomodando sem parar. Eu mandei que Marina falasse mais devagar, que ela me exasperava daquele jeito, ela parou um segundo e olhou direto no meu olho, eu desviei a mirada pro balcão e ela me chamou de Aspergerzinho depois de me mandar calar a boca e seguir o monólogo. Eu me arrependi por um segundo grosso (e pela centésima vez) de haver contado pra ela aquilo tudo alguns meses atrás. Girei o copo outra vez, a água escorregou da mesa pra minha calça e eu derrubei o copo na mesa mas já estava seco e ele só rodopiou brilhando até que a mão de Marina interrompeu o movimento. O rodopio tinha me hipnotizado de um jeito bom e lentamente virei o olhar para Marina, que calou por um momento, e só havia reprovação sendo transferida mutuamente por aqueles nossos quatro olhos vinculados. Ao menos foi assim que eu entendi aquele momento. Talvez ela pensasse mais coisas, não consegui saber. Mas logo ela riu seguida por mim e continuou a falar dos doces e da bicicleta e da estrela. Eu então lembrei de Marina posando de La Prière no colchão sem lençóis e jurando que nunca tinha visto a imagem.
Deve ter acontecido aos poucos, mas quando eu percebi o bar estava quase vazio, apenas uma mesa nos fundos ocupada por dois engravatados (por um segundo, eu quis arrancar aquelas gravatas nojentas). E o ar-condicionado começou a fazer efeito, eu não pingava mais. Pedi outro chope, "amigo! vê uma caneca, agora", e consegui prestar mais atenção à conversa de Marina. Ela me contou a idéia de um projeto para Aventuras de Apartamento - qualquer movimento aventuresco que pudesse ser praticado num apartamento. Eu pedi exemplos, mas ela respondeu que só tinha o esboço da idéia. Pensei nisso hoje depois do almoço, falou. Socorro, pensei. E eu já baixava os ombros a me afundar outra vez naquele tédio penumbroso e aborrecido agora sem suor, quando a caneca de chope apareceu em cima da mesa à minha frente. Uma crosta finíssima de gelo revestia o vidro da caneca. Bebi um gole. Gelado, gelado. Uma sensação agradável me preencheu e Marina pegou minha mão e foi passando a ponta do indicador nos meus calos. Eu não resisti e fiz um desenho meio redondo na crosta de gelo da caneca e olhei para Marina e marolas de seus cabelos castanhos tapavam parte do rosto. Ela mirava as linhas na palma da minha mão e eu quase perguntei o que ela estava pensando a penny for your thoughts, mas era melhor não saber, muito melhor. E era melhor saber que eu jogara todos aqueles tabletes psicotropicais na privada e bastava abraçar o chope gelado e era melhor não ser mais tão obcecado por tanto isolamento. E era muito bom saber que uns chopes adiante nós dois seguiríamos até o fim da rua e dobraríamos na esquina da Vicente e aberto o portão subiríamos quarenta e nove degraus da escada. E fazia muito bem imaginar: Eu abro a porta, ela acende as luzes daquele pinheirinho natalino ridículo (nostálgica Marina) com suas maçãs dependuradas nos galhos, e aí um banho frio e conjunto, e depois uma janta seja lá o que for e um swing lento saindo suave das caixas de som pretas e retangulares. E eu derrubo algum objeto na bagunça da casa e a gente gargalha e não é véspera porque só vale o hoje nesse jogo nosso e privado. E da janela aberta pra rua eu agradeço ao vento que começa a chegar do Sul e à chuva que vai caindo de conta-gotas até despencar e aos braços que me vêm por trás enlaçando a barriga. E caixotes de papelão fechados Aquele lado para cima (↑) e as malas abertas para serem desfeitas outro dia. E olhar a chuva caindo nas luzes da cidade e um dedo intrépido a invadir o meu umbigo em traços lentos e circulares. E talvez morder as pendentes maçãs suculentas do estúpido e falso pinheirinho iluminado de mais outro Natal.

Supermágoa figurativa

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Que raios lhe partam
E macacos lhe mordam
Que a pulga atrás da orelha
Aperte a corda no seu pescoço

Que o gato coma sua língua
Jorrando lágrimas de crocodilo
Que você bata com o nariz na porta
Engolindo sapos com pedras nos sapatos.

Rode a baiana
Arme o barraco
Ponha a boca no trombone
Chute o balde

Isso não vai lhe quebrar nenhum galho
Meu olho gordo é osso duro de roer.

A vertical da parede

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Hoje de manhã (não era resquício de sono nem delirium tremens) eu vi um passarinho tentando pousar na parede lateral da casa vizinha. Aquela mesma parede que tem os números 1883 cavados na carne do reboco. Sempre achei que fosse a data de construção da casa, talvez ainda ache. Mas o bicho voava em direção à parede e tentava fincar as patas finas na argamassa velha dura e vertical, não conseguia e tentava mais uma vez, inútil. Continuou nessa umas quatro ou cinco vezes, desistiu e voou pra longe dali. Algum outro imbecil que testemunhasse a mesma cena talvez tivesse pensado em internar o pássaro numa clínica psiquiátrica pruns choques elétricos revigorantes. Outro ainda talvez visse a cena como um pano de fundo decorativo pra pensar em dívidas ou no fim-de-semana em São Lourenço. Eu não, eu acabei me identificando com aquele bicho cego ou burro que tentava pousar na vertical da parede. Só que eu não desisto e não consigo voar pra longe.

Queime depois de ler (Coen Bros)

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É só mais um filme dos irmãos Coen e assim como vários outros filmes dos brothers me contentou bastante. Queime depois de ler (Burn after reading, 2008, 96 min) é simples, eficiente, divertido, Óliú mainstream de qualidade. Pode até ser a velha fórmula dos hermanos Joel & Ethan, uma comédia de sete a setenta equívocos crassos que vão degringolando no écran, mas funciona muito (mais ou menos como aquela receita mais que perfeita de uma torta de maçã ou pudim branco, sem ordem de preferência). Entretenimento bem enquadrado, bem escrito, bem atuado e etc. que vale perder a hora e meia de projeção.
Nada a ver com Onde os fracos não têm vez (No country for old man, 2007, 122 min) que não é comédia, claro, e a meu ver, desde o início, foi um esforço (ou desafio) de Joel e Ethan para papar o Oscar.
E, voltando ao Burn after reading, o elenco inteiro muito bom, até o George Clooney se safa bem. E o John Malkovich, putz-grila, nos primeiros dez segundos de filme só com uma olhadinha pra trás e uma meia frase já paga a atuação com juros. Aos que já gostam dos Coen Brothers, recomendo, aos que não gostam, idem. Só vendo pra poder falar mal depois.

Dois cachorros

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1°) Não sei exatamente o nome ou a raça do primeiro, mas acho que foi um vira-latas chamado Toby e sempre imaginei sua pelagem bege (eu nem era nascido na época). Um tio-avô meu queria (não sei os motivos) se ver livre do cão. E saíra de carro pela cidade, várias vezes, pra tentar abandonar o bicho em lugares cada vez mais distantes da própria casa. Mas, inútil, o bicho sempre retornava. E meu tio, irredutível, não se sensibilizou com a fidelidade farejante do Toby. Chamou meu pai para ajudar na missão. Então, numa tarde, meu tio e meu pai e Toby pegaram a balsa que levava de Porto Alegre a Guaíba. Lá, os dois homens andaram um pouco pelas ruas de Guaíba e conseguiram despistar o bicho e perderam-se dele como combinado. Lamberam uns sorvetes pra matar tempo e pegaram a balsa de volta. Quando chegaram na casa de meu tio-avô, lá estava o cachorro na frente do portão com a língua pra fora. Tinha vindo na balsa anterior. Um causo básico de esperteza e faro poderosos...

2°) Anos depois da história acima, eu combinei de encontrar meu pai (sim, outra vez meu pai) na casa de uma amiga sua que morava num apartamento na ladeira da General Câmara. Subi ao AP e fui apresentado à moça. Não lembro seu nome. Sentei numa poltrona da sala e logo apareceu um pequinês com os pêlos longos e completamente arrepiados (sabe aqueles bichos de desenho animado que acabaram de sair da máquina de lavar?); ao redor dos olhos, o pequinês tinha duas rosquinhas negras, como se tivesse levado dois diretos num boxe impossível. Foi aí que meu pai, orador compulsivo, fez questão de me contar a história:
A moça amiga dele vai ao supermercado levando o pequinês. Não pode entrar com o bicho no estabelecimento. Amarra a coleira do cachorro no pára-choques do carro. Faz as compras. Volta. Entra no carro e arranca. Dirigindo, a moça vê, uma vez que outra, uma mancha aparecer na parte de baixo do espelho retrovisor. Mas é muito rápido. Uma sinaleira avermelha e ela pára. O motorista do carro ao lado está apontando desesperado para a traseira do seu carro. E através dos vidros fechados, ela consegue ler os lábios do motorista gritando "O cachorro! O cachorro!"
O resultado estava na minha frente com os olhos emoldurados por hematomas circulares. Coitado do bicho, trágico mesmo. Mas eu não conseguia parar de rir da história contada, até a moça meio que ria com olhares de pena. Ela penteava o pêlo do pequinês e por alguns segundos o pêlo ficava baixo. Mas então, PLOC!, saltava num arrepio ereto pra evidenciar aquele trauma terrível.

PS 1 - Os dois casos acima são verídicos, mas provavelmente um pouco deformados pelos caprichos insondáveis de uma memória seqüelada (de leve)...

PS 2 - Hoje mesmo eu vi uma senhora na Borges de Medeiros empurrando um carrinho de bebê com dois poodles dentro.

Charles nunca fez isso

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Latidos de cachorro andaluz
Na brisa da noite sem lua cheia
Sonhos de trêbado na bodega de esquina
E preces decrépitas dum mendigo astigmata

Lupanares sujos abrigando singelas putas
E o garimpo eterno por menos piores aragens
Fervendo nas veias de um qualquer vampiro

O pesadelo que ninguém vê daquela menina ruiva
E o bocejo molenga de um garçom paraguaio
Silhueta insone de pássaro trapezista no fio de luz
Não percebe a liberdade da madrugada sem guia

Inexistem atalhos para a cama onde dorme Maria
E a distância é infinita por simples falta de amor

O sentido da vida piscando em néon vermelho
Na avenida Fantasma do andarilho tunante

Olhares vesgos de um idoso gato no meio-fio da calçada
Pro alvorecer iminente do dia onze atirado num mês quase frio

Desempregados despertam cismando esperança
E a padaria Genoveva ainda não abriu
Mas um cheiro de pão -- navega
Na rua Treze quase deserta.


PS - Postagem inaugural de EscárniOficina em novo endereço verbeatnik, optei por uns versos falcatrua de primavera. Gracias ao meu tocaio Casagrande pelos grandes serviços prestados.

Mergulho no sal

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É noite acabada já e na frente da casa a rede roxa ocupada por alguém roncante e os pés molhados do orvalho na relva mas tudo manda não dormir. Uns bichos estranhos voando num tráfego e zumbido constante e só a luz do sol sem ele ainda, e ainda martela de leve com peso no fundo a voz da vocalista careca da banda na madrugada cantando num Yodeling rasgante e meio desafinado, amuralhada pela bateria demente daquele magro de moicano suando sentado na banqueta baixa de madeira - os braços frenéticos. Mariazinha de blusa algodão gola v plissada e leve de frente pra mim, eu falava da mosca presa no âmbar cor de mel que no decote pingava da corrente prata no pescoço. E aí naquele breque inicial da segunda música ouvi o olho da Mariazinha gritar e toquei seu pescoço e senti o suor e o roçar da corrente e avancei um beijo na boca dos lábios finos e o gosto dum recente cigarro. E a noite toda depois disso parecia aquele beijo interminável dançante e mordido com pausas curtas pra beber e fumar e respirar quietos por fora. A trilha sonora que vinha do palco (tapete bege nuns compensados sobre vários engradados de cerveja) era da banda Verdureira Friqui, um caos barulhento e sujo de garagem esfumaçada. A gente não disse nada sério o show inteiro e eu tremia um pouco e olhava naqueles olhos uns caminhos doídos escondidos no preto. E então rolava outro beijo e mais silêncios de frases que só desconversavam. A Verdureira Friqui abandonou o palco recolhendo instrumentos e aí retumbou pelas caixas de som aquele hardcore inglês com letra linguajar chulo que sempre esqueço e não sei quem toca. E Mariazinha pegou minha mão e era a hora que não precisava ser e me vazou um olhar canino de souvenir definitivo e saiu, girei a banqueta pro balcão e bebi uma dose num gole pedi outra e vi no espelho sujo atrás do barman a blusa branca de algodão desaparecendo atrás das portas fechadas. Minha mão esquerda apalpando aleatoriamente as ninharias dentro da bolsa. Outra dose posta na minha frente. E agora que o sol apareceu todo percebo o ronco alto vindo da rede roxa na frente da casa. E ouço também como se acordasse o quebrar rouco e grave das ondas seis terrenos abaixo. E me decido não tão descontente por um mergulho. E olho pra trepadeira nas treliças de arame, umas formigas e insetos rodeando o íntimo duma tumbérgia aberta. Parecem tão tranqüilos os bichos pousados na carne da flor. Penso em fotografar mas desisto. Passo a língua nos lábios. E saio caminhando na pressa inevitável de ansiar o mergulho gelado no sal de qualquer onda que venha.

Axiomas apócrifos de um anônimo

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= Todas as telefonistas que se chamam Bárbara são loiras.
= Galileu estava errado: O Avaí ganhou a última partida fora de casa.
= A verdade é uma falácia no máximo verossímil.
= A realidade é uma apresentação putativa.
= Seres extraterrestres não possuem inteligência suficiente para a construção de naves espaciais.
= Para alguns, a morte é apenas orgia de vermes, a execução banal da cadeia alimentar.
= Se nunca é tarde demais, os moribundos não existem.
= Olhei nos olhos da Medusa e ela apenas latiu.
= Não sei o que é a beleza, mas quando a vejo reconheço.
= Édipo matou o pai, foi rei, casou com a própria mãe, foi irmão de seus filhos, furou os olhos e virou um simples complexo burguês.
= Se Deus é brasileiro, está exilado.
= Somos a reencarnação de partículas, aleatórias ou não, de nossos antepassados.
= Certas músicas apalpam indivíduos num assédio consentido.
= As pragas e pestes e guerras são inofensivas perto da veloz evolução epidêmica das tecnologias.
= Por que não preservar o tradicional quando este não pode ser melhor e não dá prejuízo?
= Uma estátua em cada praça para os camundongos de laboratório por favor.
= Para alguns, arte é feiúra e beleza é publicidade. E às vezes é isso mesmo.
= Se a carne é fraca, o espírito é de algodão doce
= Continua montando aquele quebra-cabeças com a imagem, o som e sensações do Mundo em tamanho natural.
= Puta merda!, disse o carona sem cinto ao constatar que não havia puta-merda.
= Se a vida é professora, eu sou aquele mau aluno sempre de castigo.
= O Pop só fica bom quando começa a ser desprezado.
= Tudo acaba em bacanais solenes.
= É impossível quebrar o protocolo do caos.
= Velma Middleton não faleceu.

Ass: Um Anônimo

Postscriptum: As sentenças acima foram encontradas rodopiando no Minuano das cinco e vinte, estavam manuscritas numa folha pautada. Exames posteriores de grafoscopia revelaram que a caligrafia da assinatura não correspondia à grafia dos aforismos.

Hoje ontem ainda

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Hoje o lotação Menino Deus ultrapassou a praça Argentina e a Edith Piaf cantava as folhas mortas nos meus ouvidos, eu parei de contar moedas e olhei pela janela uma revoada meio triangular de pombas pairou bem perto da janela e subiu traçando um meio círculo e desapareceu por cima do viaduto e o céu nublado por trás e eu respirei fundo. Ceninha básica e cotidiana mas me fez muito bem, ainda mais com aquela trilha de fundo: a Edith, xará da minha querida vó, carregando nos erres e na melodia. E nem lembrei na hora que tinha visto ontem um pouco mais adiante (talvez da mesma janela) a fotografia de um amigo meu bonito com o sorriso de dentes perfeitos na publicidade estúpida de uma companhia telefônica mafiosa e era triste olhar aquilo. Porque tantas pernadas já passadas e os caminhos bifurcados do presente, muitos camaradas em outras praias distantes e nostalgia hedionda off the rocks. Mas então, hoje outra vez, larguei as moedas na mão do motorista e desci os degraus, acendi um careta na chama do meu bic azul. E na rua dos Andradas eu vi um pônei petista (pelo menos parecia um pônei). Um desses cabos eleitorais girava no meio do calçadão com o pônei vestido com bandeiras do Partido. Sacanagem com o pônei que não consegue ter escolha. Mas talvez seja melhor não ter que escolher. E talvez seja melhor que alguém te vista com uns panos coloridos e uns emblemas incompreensíveis costurados e te puxe pelas rédeas cidade adentro. E talvez... ah, deixa pra lá. O mundo é bom, a vida é justa e a tinta da minha caneta secou


  • Filosofias iconoclastas de boteco às quatro da manhã. Mitologias do século XXXIV, reportagens esdrúxulas e relatos fantásticos. Poesia falcatrua e texto experimental. Causos e lendas de regiões improváveis e receitas de autoajuda para tatuíras desesperadas...


  • por Tiago Thomé

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