Eu não sou exceção, também curto os filmes do Quentin Tarantino. O cara faz entretenimento de muito boa qualidade, o que sempre foi e ainda é e vai continuar a ser raro. Faz mais de três meses que eu assisti ao Bastardos Inglórios (Inglourious Basterds, 2009, 153 min) numa sala de shopping. Então é certo que muito já esqueci e só vou mandar um comentário superficial (como se eu fosse acostumado a fazer análises críticas muito profundas). O ponto forte da filmografia do Quentin são os diálogos e no Bastardos eles continuam lá, muito bem num ritmo natural e cadência fluente. Outro serviço que ele executa na boa é a direção. Já os roteiros do cara são aquela história: aluno aplicado nas aulas de fórmula pra roteiro. Como o próprio Pulp Fiction assume no título, são todos folhetins (muito bem construídos, escreva-se). E geralmente com alguns vários punhados de referências culturais misturadas no liquidificador projetado. No caso de Bastardos, acho que a tal homenagem às trilhas do Ennio Morricone ficou meio fora de lugar e fraca, não me pareceu ter razão de ser, sei lá, fora de lugar e tamos conversados. O Morricone merece homenagem ou citação muito mais cavala e apropriada. Mas, buenas, o último filme do Tarantino começa muito bem e se desenvolve muito bem também, tranquilo, fui preso sem revolta pela narrativa da projeção. Mas do meio pro fim, Bastardos Inglórios dá umas derrapadas que não me convenceram, quase me arrancaram fisicamente da sala (porque dentro de mim eu já tinha escapado). Ali, pra mim, o filme se perdeu como a terrível raposa falante do Anticristo (Antichrist, 2009, 104 min) de Lars von Trier, da qual eu tive que me recuperar respirando lentamente por uns três minutos até conseguir retornar ao filme. Horrível, duma estapafurdice ridícula, a raposa falante. E por essa e algumas outras simbologias idiotas (o tronco decadente de árvore posando de signo fálico arruinado - Blé!), acho que o Lars von Trier perdeu de fazer um Puta filmaço. Anticristo é bom filme, mas podia ter sido muito, muito melhor e menos metido a besta.
Voltando ao caso do Bastardos, a ideia do final deve ter subido à cabeça do Tarantino como se ela justificasse tudo. Tipo "já tenho essa ideia pro fim que achei genial e original então é só acabar o filme num pastelão de qualquer jeito que vai ficar tudo beleza". Foi a minha impressão e isso que nem achei grandes trecos a ideia. Mesmo que o objetivo tenha sido mesmo esse desfecho pastelão sem graça, não foi bem realizado. Toda a forma de conclusão do roteiro (filmado) ficou muito nas coxas, otária, mal-acabada em relação ao resto. Não falo aqui do "desrespeito" do roteirista à História Oficial, mas do desleixo quanto à ficção pretendida. Até a mentira mais tosca merece um mínimo de verossimilhança e plausibilidade, vamos combinar. Dois fatos berrantes recordo que me incomodaram:
1) É sempre fácil (e é natural que seja, tem que ser) despencar no maniqueísmo quando o assunto é nazismo, mas tem escolhas que eu vejo desnecessárias. Falo do instante de hesitação piedosa da personagem Shosanna (Mélanie Laurent - boa, muito boa) diante do célebre ator nazista caído na sala de projeção. Pra mim, ficou forçado demais, não precisava. Não.
2) Foi ridícula e estúpida a rendição do coronel Hans Landa (Christoph Waltz - espetáculo), não condisse com a inteligência da personagem. Fiquei de boca aberta que aquilo estivesse no roteiro e fosse usado no filme. Infantilidade bisonha. Totalmente incrível.
Ainda quero rever o filme pra enxergar com mais clareza e reconhecer outras besteiras (talvez nem existam. Talvez) que me pegaram e chutaram no subconsciente (e no superconsciente) e fizeram com que eu achasse o final tão ruim e desparelho em relação ao resto da última empreitada cinematográfica do Tarantino. Declaro então: o desfecho de Bastardos Inglórios é entretenimento de defeituosa qualidade, fato que o diretor tinha toda a capacidade de evitar. Certo que há uma legião abundante pra discordar de mim. Que venha.
