Sim, a falta de expectativa é a melhor coisa que já inventaram. Ex: Numa madrugada dessas, eu curtia em casa uma folga bonita (depois dumas inocentes rubias muy frias) quando decidi resgatar, de uns DVDs emprestados do meu pai, o grande Nabor, príncipe do Sol (não tente entender) e presidente da ASSPRORGS (Associação dos Prognatas do Rio Grande do Sul), o faroeste Matar ou Morrer (High Noon, 85 min, 1952). Como é que ninguém me avisou sobre esse filme? Como é que eu não pesquisei e procurei e achei sozinho o filme antes? Ouvi dizer por aí que é clássico e leva uns Oscars na guaiaca, não interessa, eu não esperava xongas, só mais um western mediano, mas acabei assistindo a essa obra que entrou direto sem fila pras minhas favoritas do gênero. Tanto que, uma semana depois, me bateu a vontade de rever High Noon, sem as rubias muy frias na testa, pra ter certeza de que não tinha me conquistado por efeito etílico nocivo.
Claro que desconto alguns míseros vícios de narrativa e umas poucas tomadas que me acordaram por meio segundo e atestam a idade avançada do filme. Natural que alguma partícula se perca ou fique ultrapassada depois de meio século. Mas isso não é nada, nada, rien de rien, nulla, res, nada. High Noon é espetáculo sobre o remoto Oeste sem apelar pro bangue-bangue, tenho que ver outros trabalhos desse diretor, o Fred Zinnemann, que eu sabia só de nome. A construção da narrativa, no roteiro e na película, me deixou muito satisfeito por não me tratar como o imbecil que outras fontes têm o costume de me pressupor. Tem motivações interessantes ali nas personagens, nada de profundezas escatológicas, algo simples e básico (farwestwise) mas bom e bem feito e concatenado. Claro, deve ter algum mérito da história original queimado naquele múltiplo carretel de filme. E a trupe de atuação é bem convincente, até o Gary Cooper que é um sujeito que não me desce muito desde que eu vi o Love in the afternoon (Amor na Tarde, 1957) do Billy Wilder, e que pra mim estragou o filme, passou batido e me deixou tranquilo. Os caras que interpretaram o velhote ex-xerife e o juiz me venderam com classe. E tem a estreia da Grace Kelly no cinema que se não por outra coisa fica ali pela faccia hiperbólica de boneca. E Lee Van Cleef (muito canastra mas fica também pela faccia cinematográfica) e Lloyd Bridges e assim avante.
Agora, também tem outra, a música, a canção "The Ballad of High Noon" (Do Not Forsake Me, Oh My Darlin') que permeia a banda sonora de grande parte do filme e grudou na minha mente duma forma inumana (meio que uma sacanagem, mas perdoável). Até hoje, uns dias depois da 2ª sessão, a sóbria, restei com ela ressoante na mufa. Baladão cuja letra narra toda a história dum jeito exagerado e até meio engraçado às vezes, mas é bom, ainda que meio pegajoso e com aquela pieguice natural que não faz mal a quase ninguém.
Ao vivente que por acaso se depare com o filme rodando na tela e fique até o final da sessão depois de ter lido o acima digitado, juro, juro que não tive a intenção de criar expectativa nenhuma.
