Minha amiga Lady Rasta me pergunta por que sou contra a redução do limite para a maioridade penal. Trata-se de assunto delicado e complexo, que fica ainda mais complicado quando de fatos como esse, ocorrido com o assassino do menino João Hélio. A indignação popular e o clamor por justiça são mais do que justificados, quando tudo o que queremos é que o ato sórdido do assassino seja devidamente vingado.

É necessário sim que se questione com seriedade quais os limites de ação da justiça em casos assim, mas é ao mesmo tempo perigoso, no calor dos fatos, optar por ações drásticas sem pensar as conseqüências a médio e longo prazo. Apesar dos Champinhas e similares, será mesmo que mais prisões (nos moldes das nossas prisões) para mais jovens seriam mesmo uma solução efetiva para a delinqüência desses destes? Existem vários bons argumentos de ambos os lados, mas me posiciono contra a redução do limite por uma questão de coerência teórica e postura profissional. A melhor maneira de elucidar minha posição, por enquanto, é reproduzindo aqui o longo trecho abaixo (me desculpem):

Voltemos à motivação primeira do adolescente: trata-se de conseguir um reconhecimento para o qual ninguém sabe lhe dizer quais são as provas, qual é o ritual iniciatório necessário. E, por consequência, de colocar fim a uma moratória que lhe é imposta logo quando se sente maduro, forte e potencialmente adulto.

O adolescente é rejeitado pela sociedade dos adultos, que respondem ao seu pedido de admissão com uma bola preta na urna. Ora, quando um pedido não encontra uma palavra que no mínimo reconheça sua relevância, normalmente seu autor levanta a voz. Numa progressão linear, grita, quebra vidros e pratos, coloca fogo na casa e pode até se matar para ser levado a sério. Ou seja, ele tenta impor pela força, ou mesmo pela violência, o que aparentemente não é ouvido.

[...] "Delinqüência" não é uma palavra excessiva, embora de fato pouquíssimos adolescentes se tornem propriamente delinqüentes. Mas existe uma parceria de adolescência com delinqüência, porque o adolescente, por não ser reconhecido dentro do pacto social, tentará ser reconhecido "fora" ou contra ele - ou, o que dá na mesma, no pacto alternativo do grupo.

Ele constituirá um novo pacto entre adolescentes, com claras regras de reconhecimento mútuo. Essas regras sempre estarão deliberadamente em ruptura, mais ou menos declarada, com o pacto social.

Dentro ou fora da prática gregária, os jovens não desistirão de tentar suscitar a atenção e o reconhecimento dos adultos. O grupo que eles vierem a constituir seguirá um modelo de ação que deverá transgredir o pacto social, já que continua viva a esperança de merecer, por essa transgressão, a atenção dos adultos.

[...] Paradoxo e dificuldade da relação entre gerações: os adolescentes transgridem - até gravemente - não para burlar a lei, não na esperança de escapar das conseqüências de seus atos, mas, ao contrário, para excitá-la, para que a repressão corra atrás deles e assim os reconheça como pares dos adultos, ou melhor, como as partes escuras e esquecidas dos adultos. [grifos meus]

[...] Nessa condição, torna-se impossível para os adultos escolher uma estratégia correta entre tolerância e repressão. Por exemplo, é um perigo deixar a porta aberta (como está acontecendo cada vez em mais países) para que o tribunal decida se jovens culpados de crimes graves devem ser perseguidos como menores ou como adultos. À vista disso, como o jovem resistiria à tentação de fazer algo que seja grave a ponto de forçar o tribunal a julgá-lo como adulto - que é o que ele pede desde sempre? Se for julgado e condenado como adulto, isso será a demonstração do fato de que os adultos só ouvem a linguagem do crime mais detestável e de que essa linguagem funciona.

Tolerar não é uma opção, visto que o jovem atua justamente para levantar a repressão. A tolerância só o forçará a atuar com mais violência.

- Contardo Calligaris, em "A Adolescência" [pp. 39-42, São Paulo, Publifolha, 2000].

Ora, se tolerar faz com que o jovem busque a repressão e reprimir com mais intensidade é dar a ele este "prêmio", parece haver mesmo um impasse que não será resolvido delimitando por força de lei (com letra minúscula mesmo) os limites da maioridade. A resolução dessa questão passa pelo questionamento da "moratória" imposta aos jovens pelos adultos (assunto do livro do Calligaris, recomendo) e pela revisão do papel dos jovens no pacto social. Precisamos sim encontrar maneiras de proteger a sociedade de indivíduos como os assassinos citados, mas acredito sinceramente que a alteração dos limites de maioridade seja uma proposta simplória que nem de perto toca no que está realmente envolvido nessa questão. Funciona mais para aplacar nossa ânsia por vingança e "justiça" do que para evitar que situações absurdas assim se repitam.


O humorista Danilo Gentili escreveu um belíssimo texto em que critica a relação da nossa sociedade com o humor. Ele levanta uma série de questões importantes que não vou retomar, até porque boa parte do que ele escreveu já foi discutido por outras pessoas durante toda a semana. É melhor você clicar no link e depois voltar aqui.

Trata-se de um texto certeiro, a despeito do péssimo humorista que ele realmente é, e o que chama minha atenção é o quanto a "qualidade" de seu trabalho foi usada durante a semana como desculpa para desqualificar o teor de suas reflexões a respeito tanto do ofício de fazer humor quanto de como o público lida com ele. Fico impressionado ao ver pessoas ditas progressistas, "lutadoras por um mundo melhor" e "defensoras da liberdade de expressão" agindo como turba agressiva sempre que surge uma palavra ou expressão que atente contra suas convicções.

Eu, mais do que ninguém, sei que palavras não são inocentes. Não há significado que não seja historicamente construído e que não reflita toda a carga de preconceito e desigualdade das nossa relações, desde o início dos tempos. É mister que cada um saiba do que está falando e saiba o peso do que está dizendo, mas não acredito que toda a gritaria politicamente correta que tenta calar a palavra nos leve a esse nível de compreensão. Muito pelo contrário, e o que está em jogo aqui é maior do que a semântica.

Para ficar nas palavras, costumo dizer que determinados setores de nossa sociedade andam muito amarrados a adjetivos e substantivos, e pouco afeitos ao verbo. A metáfora exemplifica bem o que estou tentando dizer: aquele que não partilha de minhas convicções políticas ou de minha ideologia é "golpista" ou "reaça". O dedo em riste aponta para a cara daquele que ousa pensar diferente, e qualquer possibilidade de ação morre. O movimento dialético proveniente do debate, que poderia até permitir a construção de um novo saber e de novas interações, é substituído pela inércia estanque e maniqueísta do "nós x eles", do "pessoas de bem x o mal".

Mas já estou tergiversando. Voltando ao humor, eu também gostaria de um mundo em que certas expressões não sejam mais usadas e em que certas piadas não sejam mais feitas, só não acredito que a censura raivosa seja o caminho para tanto. Fico preocupado demais ao ver o quanto as palavras "controle" e "regulamentação" estão na moda ultimamente, e como muitos de nós agimos como verdadeiras milícias, no afã de calar o outro que ousa verbalizar sentimentos, conflitos e mesmo preconceitos. Será mesmo que calar o "humorista covarde" na base da força e do controle é realmente um passo em direção à resolução de nossos conflitos? Ou será que não é mais uma maneira de fazer com que permaneçam vivos e fortalecidos em seu espaço de não dito?

O humor pode sim perpetuar preconceitos, como boa parte de nossas ações. E isso continuará acontecendo se não houver reflexão. Que a significação cruel de tantas expressões com as quais temos que conviver seja desconstruída pela força do argumento, e não da censura. Digo isso porque o humor também é denúncia e diagnóstico de nossas mazelas. Ao humorista cabe um papel importante, que é o de escrever a crônica nem sempre bem vinda de nossos costumes e de nosso momento histórico. O humorista existe também para fazer cair máscaras e para enfiar o dedo na ferida da hipocrisia. O riso que, dizem, é a arma dos covardes, pode ser também a arma daqueles que têm coragem de dizer sobre aquilo que preferimos calar. E vocês não fazem idéia do quanto isso é importante.

O que muitos não percebem, seja por inocência ou por má-fé, é que numa sociedade marcada pelo conflito e pela desigualdade, aquilo que se cala é tão ou mais grave do que aquilo que é dito, e nada é mais "reaça" e útil ao establishment que calar as incômodas verdades que o humor costuma denunciar. Essa hipersensibilidade ao humor, tão característica de nossa sociedade, orna muito melhor com regimes totalitários. Acreditem, um mundo em que os humoristas são livres para pecar pelo excesso é infinitamente melhor do que aquele em que só fazem as piadas que não nos ofendem.


O trecho abaixo é a sinopse de um livro lançado pela editora oficial de uma igreja de denominação protestante no Brasil. Os grifos são meus:

Em apenas uma geração o Ocidente se tornou a incubadora do paganismo reavivado. Por trás da surpreendente diversidade da cultura pró-escolha - aborto, direitos, homossexualidade, feminismo, nova espiritualidade, adoração de deuses, feitiçaria - encontra-se uma espiritualidade pagã coerente, assumindo controle absoluto e intolerante a qualquer verdade que não seja a sua.

A contradição evidenciada pelos trechos grifados é obviamente absurda, mas não poderia ser mais humana: o preconceituoso, ao não ter a "sua verdade" aceita, acusa o diferente de intolerante, num exemplo clichê do mecanismo de projeção. Em alguns casos chega a ser cômico, mas não é o que acontece quando tal obra é reverenciada como sendo científica, e encontrada (em vários exemplares) na loja do colégio ligado à citada igreja.

O livro está na estante dos livros didáticos, e é oferecido aos alunos do ensino médio pelos funcionários da loja. Ser contra a mistura de religião com educação é apenas uma postura ideológica minha, reconheço, e é bem provável que os pais desses alunos não só aceitem como esperem que seus filhos entrem em contato com este tipo de material.

Mas o que aparece neste parágrafo (e o conteúdo da obra é bem pior) está além de questões religiosas. Culpar esta igreja e sua doutrina é a resposta mais rápida e direta, mas incompleta. É muito mais grave que isso: trata-se da incapacidade que todos nós temos, em maior ou menor grau, de lidar com o outro e de aceitar as diferenças. Pior, o preconceito é reproduzido e ensinado com ares de saber irrefutável, tendo a religião e a educação como veículos.

Este exemplo extremo me deixa pensando nas atitudes preconceituosas, aparentemente inocentes, que mesmo o mais "moderno e mente aberta" de nós é capaz de ter. A concentração de absurdos e besteiras presentes no parágrafo acima (um novo recorde mundial, provavelmente) nos leva a dizer que "esses religiosos são mesmo ridículos", mas é preciso cuidado para não sermos nós mesmos os ridículos, e para não transmitir a estupidez a nossos filhos e alunos.

Ainda não acredita que alguém possa ter escrito o trecho acima? Eu posso provar:

A ameaça do fanatismo

JONES, Peter. A ameaça pagã: velhas heresias para uma nova era. São Paulo: Cultura Cristã, 2002.


Está lá no blog do Kenji:

"Ser da esquerda é, como ser da direita, uma das infinitas maneiras que o homem pode escolher para ser imbecil: ambas, com efeito, são formas da hemiplegia moral. Ademais, a persistência destes qualificativos contribui não pouco a falsificar mais ainda a "realidade" do presente, já fala de per si, porque se encrespou o crespo das experiências políticas a que respondem, como o demonstra o fato de que hoje as direitas prometem revoluções e as esquerdas propõem tiranias." - Ortega y Gasset


A Psicanálise nas tramas da cidade


Bebê Hoje, dia 30 de outubro, é aniversário do episódio no qual a peça radiofônica "Guerra dos Mundos", baseada na obra de H.G. Wells, foi ao ar nos EUA, levando pânico aos ouvintes, que acreditaram que a Terra estava mesmo sendo invadida por marcianos. Deixando de lado o ótimo trabalho dramático de Howard Koch, Paul Stewart (autores) e Orson Welles (diretor e ator), fico pensando no que levou tanto desespero às pessoas em 1938, e se hoje, época em que as pessoas são teoricamente muito mais informadas e instruídas, o efeito de um evento assim seria diferente.

É necessária então uma reflexão sobre o ser humano e sobre a nossa sociedade. Três fatos recentes, aparentemente desconectados entre si, me deram algumas respostas. Primeiro, a declaração do governador do Rio, amparada depois pela opinião de um economista da FGV, de que o aborto legal poderia reduzir a criminalidade [link desativado]. Não vou entrar no mérito da legalização ou não do aborto; é assunto que demanda argumentos que não cabem neste post. O que chama atenção no caso é a tentativa de criar uma aparentemente fácil e rápida relação causal que explique um fato social. Famílias desestruturadas influenciam o aumento dos índices de criminalidade? Pode ser. Mas o que é uma "família desestruturada"? Mães adolescentes que tiveram uma gravidez indesejada necessariamente formarão famílias incapazes de cuidar dos seus? Famílias "estruturadas" (o modelo burguês-classe-média) formam com certeza menos criminosos? As declarações do governador e do economista demonstram total desconhecimento do que se passa na periferia. Jovens pobres recorrem ao aborto, seja ele legalizado ou não, tornando essa uma questão de saúde pública. Eu mesmo já vi o caso de uma menina que se perfurou com uma agulha de tricô, tentando perder a criança. Ou seja, elas não deixam de fazer porque é ilegal. Mas há também o outro lado. Será que eles sabem que um filho é visto por muitas adolescentes pobres como um "passaporte" para o reconhecimento como adulta e mulher? Será que eles sabem que elas optam por engravidar dos namorados (ou não), desafiando as famílias, apenas para obter o status de mãe?

Encarar de frente todas as variáveis econômicas, psicológicas e sociais envolvidas no problema de segurança? Compreender melhor o fenômeno para então agir? Claro que não, afinal já podemos explicar tudo pelo fato de pobres terem muitos filhos, tadinhas, porque a lei não as deixa interromper a gravidez.

Outro fato? Uma "enquete" em post do Sedentário e Hiperativo, sobre uma peça de publicidade italiana contra a discriminação sexual. Mais do que o possível sensacionalismo da imagem que ilustra esse post, o que irrita a maior parte das pessoas é a afirmação de que "orientação sexual não é escolha". Não se sabe, por mais que existam teorias a respeito, se há um componente genético na homossexualidade, mas sabemos, isso sim, que não há uma escolha consciente possível, por parte do indivíduo, quanto ao seu objeto de desejo. Eu não optei por gostar de meninas. Um dia descobri que elas me deixavam muito interessado e assim foi. Por que você, hétero, acreditaria que aos homossexuais foi dado um poder de escolha que você não teve? Na verdade, retirar de quem é diferente de você a responsabilidade da escolha por ser assim retira também o seu "sagrado" direito de culpá-lo por ser diferente e, ainda pior, joga sobre você a possibilidade de também se tornar um diferente, um "anormal". Óbvio que eles devem ter escolha, têm que ter!

Por último, uma reportagem que vi outro dia na TV, durante a madrugada, naquele canal dos bispos. Uma matéria até bem feita sobre os grupos violentos de jovens que andam atacando pessoas no centro de São Paulo, seguida da enquete "Qual a razão de existirem gangues de jovens violentos?". As opções eram mais ou menos essas:
- problemas sociais, como a desigualdade e a falta de oportunidades e educação.
- a ideologia presente nos grupos.
- má índole.

"Má índole" estava com quase 100% dos votos. É claro que o componente religioso é importante. Boa parte dos espectadores compartilha do que "pensa" a igreja, e ela precisa, até por uma questão de sobrevivência, dizer que o "mal" está em alguém. É necessário ter um demônio para onde apontar o dedo, mesmo que isso contradiga tantas vezes o ideal cristão do perdão. Mas há também o conforto de dizer "eles são assim pela índole, não há o que possamos fazer mesmo, e não temos responsabilidade (olha ela aqui de novo) alguma em termos de sociedade ou família; nem como cidadãos, e nem como pais. Nada disso pode acontecer com nossos filhos, porque eles têm boa índole". Mais uma vez, a culpa está sempre no outro, limitada a ele.

O resumo da Ópera é que, ainda que sejamos hoje, no início do século XXI, muito mais informados que no início do século passado, temos o mesmo medo paranóico daquilo que não conhecemos, de quem é diferente. Mas é medo só do desconhecido? Não. Aqueles que abandonavam seus carros desesperados na noite de 30 de outubro de 1938 temiam o fato de que os tais marcianos fossem tão belicosos e cruéis quanto são os seres humanos. O medo maior é de encontrar no outro tudo aquilo que temos em nós, que é parte da nossa humanidade, mas que não queremos que seja.

Se as rádios, os blogs, o twitter e sei lá mais o que começarem a falar que estamos sendo invadidos por gangues de jovens punks, gays e frutos de gestações indesejadas, vai ter gente pulando no Rio Tietê para se salvar. De certa forma, os marcianos somos nozes, sempre. O meu medo? É de que isso nunca mude...

* Originalmente publicado no dia 31/10/07, e ainda atual.
** Dados os eventos recentes, se tivermos invasoras de micro-vestido a população começa uma guerra, sem medo...


Fascinados pelo prestígio da interpretação de Freud feita por Lacan, os lacanianos se tornaram, sobretudo, fascinados pelo "saber" do qual eles investiram Lacan. O "sujeito da verdade" apontado pela leitura original e fecunda dos textos freudianos feita por Lacan, sujeito incorpóreo - sujeito do inconsciente - foi substituído por um "sujeito de verdade", encarnado e identificado ao sujeito da enunciação da nova leitura. Lacan se viu, portanto, confrontado com um paradoxo do qual ele não foi o único responsável: se ele proclamava o retorno a Freud e a seus textos, não percebeu que a maior parte de seus adeptos achava mais confortável aceitar como definitiva a sua interpretação, desembaraçando-se, assim, da obrigação de reinterrogá-los eles mesmos. A partir daí, criou-se um estado de indução recíproca: em lugar dos textos, seus alunos preferiram colocar a palavra de Lacan, atribuindo-lhe valor de lei. O que eles esqueceram é que ao fazê-lo, renunciavam à "singularidade", exigência fundamental do agir do analista e a única capaz de permitir-lhe experimentar-se enquanto analista. Ao reproduzirem a palavra do "Mestre", os alunos abdicaram da experiência da escuta singular, colocada à prova na dinâmica viva da análise, para se converterem em "analisados", ou seja, em testemunhas do valor da escuta do seu analista.
- Jayme Salomão, em nota introdutória ao livro "A violência da Interpretação (do pictograma ao enunciado)", de Piera Aulagnier.

Deixo este trecho aqui como uma nota que deve sempre me lembrar da necessidade de questionar todo e qualquer texto ou enunciado pré-estabelecido como verdade, mesmo que seja de um gênio como Lacan. No processo, que eu sempre seja capaz de me reinterrogar sobre as minhas verdades.


distribuição normal


Outro dia vinha para casa ouvindo "Tema de Tostão", belíssima homenagem de Milton Nascimento e Fernando Brant ao lendário camisa 9 do Cruzeiro, e fiquei triste. A tristeza é pelo fato de que não haverá outro Tostão, e não falo de jogadores tão geniais quanto ele; mas que tenham nomes assim, simples e marcantes. Não teremos mais Dadá Maravilha, ou mesmo um Fio Maravilha. Não teremos mais Didi ou Canhoteiro, muito menos Garrincha ou Pelé. Aliás, se Pelé estivesse começando a carreira por estes dias, já teria um assessor de imprensa o aconselhando a chamar-se "Edson Arantes". "Tudo bem que é nome de despachante, mas ajuda na hora de conseguir uma boa transferência", ele diria.

E tem também a feijoada. Outro dia fui com um amigo a um famoso bar paulistano para comer a tradicional feijoada de sábado, e fiquei assustado ao receber apenas uma cumbuca de feijão preto com carne seca. Fiquei indignado e perguntei ao garçom o que estava acontecendo. A resposta foi simples: "as pessoas não comem mais feijoada com tudo. Nada de pé, orelha e rabo de porco. Agora tem que ser light". A mesma coisa está acontecendo com o pastel de feira livre. É dizer "comi um delicioso pastel de queijo quando vinha para a faculdade" que a turba fica enfurecida: "que absurdo que é comer fritura logo de manhã!".

Mas a maior injustiça mesmo estão fazendo com as mulheres peludas. Ousei gritar contra este absurdo que é dizerem que a Carol Castro está peluda demais na Playboy, tomando partido da campanha do meu amigo Brigatti, e fui atingido por espátulas, depiladores e potes de cera quente. Ouvi absurdos do tipo "tenho amigos que simplesmente não topam a transa se percebem que a mulher não está muito bem depilada", isso sem falar na pergunta "mas não é ruim e anti-higiênico?". Ora, a tal da brazilian wax é coisa nova, de menos de 20 anos, e a espécie humana faz sexo a bem mais tempo, não é verdade? Anti-higiênico é a mocinha não lavar as partes íntimas, e garanto que se o sexo antes fosse ruim, não estaríamos aqui para discutir o assunto. O fato é que querem tirar do sexo o cheiro, o gosto e as texturas. É o furor higienista dos fiscais da normalidade em ação.

Tudo bem, você deve estar pensando, o que a brazilian wax tem a ver com os nomes de jogadores, com comer pastel de manhã e com a feijoada light? Sou obrigado a dizer que TUDO. A ação dos "agentes mantenedores da normalidade" [obrigado @piupass] é incisiva. Quando você menos espera já está repetindo regras como um robô, sem qualquer postura crítica, achando que tudo é "normal". Mas aí eu me volto para a Estatística, e vejo que mais próximos da normalidade estão os pontos que circundam a média e a mediana, e penso que a raiz destes termos é a mesma da palavra mediocridade.

Não é estranha essa modernidade que nos diz "seja você mesmo, sua individualidade é o que vale" mas que pune qualquer atitude, comportamento ou opinião que te afaste da média? Vamos pensar: você pode ser você mesmo quando isso leva ao egoísmo e à competitividade. Sua individualidade é "respeitada" quando serve de argumento para os homens de marketing que querem explorar nichos de mercado, mas na realidade você deve se submeter a regras e códigos de conduta que tentam padronizar até mesmo o tesão e os fetiches?

Na verdade, faz todo o sentido. O sexo, as relações, as sensações, até mesmo a subjetividade de cada um de nós, tudo é produto. Ora, se os aspectos mais íntimos de nossa vida podem se tornar produtos; estão passíveis então de padronização e controle de qualidade. Simples assim.

A imagem dos jogadores, o horário pré-determinado para comer pastel e o controle sobre o que deve ir na feijoada são sintomas da mesma doença. Cuidar da saúde é importante, é obvio que comer frituras toda manhã não faz muito bem, mas cada um tem o direito de agir segundo as próprias regras, desde que não prejudique terceiros. Eu devo saber os limites da minha saúde e do meu bem estar. É paradoxal, para não dizer patético, este mundo onde você deve fazer valer sua individualidade apenas quando convém aos outros, sem se expor.

O mesmo cara que não transa se a mulher não estiver perfeitamente depilada é o que não come a feijoada com rabo ou o delicioso pastel do início da feira [sem metáforas com rabos e pastéis aqui, por favor!]. Provavelmente o nome dele é Edson Arantes, e ele trabalhará durante trinta anos no mesmo cubículo em uma repartição pública, depois vai morrer, sem que ninguém se lembre dele.

* a imagem da curva normal é do blog netodays - reflexões.

** originalmente publicado em 01/09/2008


superman_batman.jpg Quadrinhos num blog que fala de psicologia? Pois é. Conversava hoje com o Chico Fireman sobre a tal da arte seqüencial e sobre cinema, e sobre a maravilha que é a graphic novel X-Men: Deus Ama, O Homem Mata. Fiquei pensando no quanto este tipo de leitura foi importante para minha formação, ainda que muitos digam (não sem razão) que quadrinhos podem ser alienantes. E é engraçado também perceber que adoro os personagens da Marvel, mas que sempre acabo comprando apenas revistas da DC Comics.

Mas voltando ao papo com o Chico Fireman, chegamos à conclusão fácil de que Superman - O filme (1978) é a melhor adaptação dos quadrinhos para o cinema, mesmo passados mais de trinta anos. Os motivos são muitos, Marlon Brando e o fantástico Mario Puzo entre eles, mas acredito que a questão se resume ao fato de que o bom e velho escoteiro de cuecas vermelhas é, diferente do que costumam dizer por aí, um grande personagem. Acho até que o Alan Moore chegou a dizer que o Superman era muito mais rico e complexo, muito mais interessante de se trabalhar, do que o Batman. Eu não poderia concordar mais, principalmente depois que me meti a ser escritor.

Aí me lembro do quanto Superman pode ser odiado, enquanto o Batman parece ter se tornado um queridinho dos geeks. É comum ouvir, por exemplo, que o Superman é um personagem ruim por ser poderoso demais, que não dá para escrever boas histórias para um semi-Deus que pode tudo. Pois é exatamente o contrário! A complexidade psicológica de um personagem que "pode tudo" e suas possibilidades são ilimitadas. Aposto que qualquer bom roteirista sabe disso. Mas o que faz com que nos identifiquemos com um ou com outro?

Pensando em minha própria experiência, faço uma generalização. Meu primeiro contato com as histórias do Morcego foi o arco As Muitas Mortes de Batman, e fiquei fascinado. Ora, o adolescente é aquele que ainda não é. Está preso numa espécie de limbo entre a infância e a idade adulta, esperando por um status que só lhe será conferido quando "estiver preparado". É a dificuldade de depender da mesada dos pais (se é que ela existe) e a angústia de corresponder a todas as expectativas, sem falar na insegurança dos primeiros contatos com as meninas. Natural que Bruce Wayne seja um modelo tão interessante. A imagem do garoto cheio de espinhas que passa o dia lendo Batman e ouvindo Iron Maiden, não é estranha a muitos de nós. Para este garoto, Batman é aquele que, além de ser um playboy desejado por mulheres lindíssimas, é um homem que conseguiu tudo pelo próprio esforço, apesar das adversidades. É o maior detetive do mundo e o cara que tem os gadgets mais legais. É claro que ele é o maior!

Mas aí o garoto cresce e percebe que não será este homem que sonhou. As utopias dão lugar à necessidade de se reconstruir e se reinventar a cada dia, para sobreviver. Há um mundo de responsabilidades e nostalgia ao qual estamos presos. Neste contexto, nos identificamos com um homem que tem os pecados do mundo nas costas, ainda que seja super poderoso. No fundo, somos todos rapazes simples criados na imensidão do Kansas, precisando salvar a humanidade diariamente, e o planeta Krypton é a nossa juventude, a vida da qual fomos apartados. Esse extraterrestre de roupa azul está mais próximo de cada um de nós do que qualquer outro personagem. Os dilemas éticos e morais de um semi-Deus são os mesmos de todos os homens (e os gregos já sabiam disso).

Na verdade, a despeito de todas as identificações e projeções, e do ideal de homem que construímos e que nunca vamos atingir, percebo que somos tão próximos do Superman por um motivo muito simples: tudo que queremos é saber voar, e ter uma Lois Lane para amar também seria bom.

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Revista A PESTE - Capa
Data: 30 de junho de 2009 (3ª feira) das 19:30 às 22:00 horas

Local: TUCA (Teatro da Universidade Católica), R. Monte Alegre 1024, auditório superior (Perdizes, São Paulo - SP)

ENTRADA FRANCA


A PESTE: Revista de Psicanálise e Sociedade é um periódico científico semestral temático, com o objetivo de publicar investigações/ desenvolvimentos teóricos, relatos de pesquisas, debates, entrevistas e resenhas que contenham análises, críticas e reflexões sobre temas, fatos e questões sociais, a partir do referencial psicanalítico. Publica também artigos voltados à interlocução entre a Psicanálise e outros campos do saber, como a Filosofia e as Ciências Sociais, igualmente dedicados ao pensamento sobre a sociedade e a cultura.

A PESTE: Revista de Psicanálise e Sociedade é uma publicação do Núcleo de Pesquisa Psicanálise e Sociedade do Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia Social da PUCSP (instituição responsável), em parceria com o Laboratório de Estudos em Teoria Social, Filosofia e Psicanálise - LATESFIP/USP -, vinculado ao Departamento de Filosofia e ao Instituto de Psicologia da USP (instituição parceira).

Abaixo, os artigos desta primeira edição:

Revista A PESTE - Artigos
Eu vou!

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Marcos Donizetti

  • Paulistano. São-paulino. Escritor e futuro psicanalista. Fã de Leminski, de Ali, dos Beatniks e do Super-Homem (aquele do Nietzsche também).
  • Imagem do Header: Untitled-Summer rain, obra de Gregory Crewdson.
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