É como se pisássemos com os pés errados. Ou como se o chão não estivesse exatamente no lugar onde deveria estar.
Esquecer diariamente e com afinco os desconhecidos no metrô e do lado esquerdo da calçada
Esquecer os seus sapatos e a posição de seus dedos sobre os joelhos e as suas sobrancelhas
Esquecer também as rachaduras e os rodapés e a previsão do tempo para o dia seguinte
os noticiários e o guarda-chuva
as motocicletas
Esquecer aplicadamente os números de telefone antigos e a conta de luz
e a conta bancária
e as palavras exatas
e o que eu ia dizer.
Um dia substitui a noite. A noite dá lugar a um dia. Num ritmo lento e contínuo, o dia mergulha nos poros da noite e amanhece. Nesse mesmo e sagrado ritmo, aos poucos a noite se levanta através das estruturas que mantêm o dia.
Nunca tinha sido assim: cada dia que se vai e noite em que consigo enfim dormir (interrompo o que escrevo para abrir as cortinas e deixar a luz entrar) é uma realização. Logo antes de ir-me embora, eu costumava dizer: que cada noite é uma iluminação, cada amanhecer é um susto. Mas depois que fui, quando me vejo aqui: digo: que o momento em que fecho os olhos para me entregar ao sono tem sido sempre a sensação plena e completa -- nunca tão intensa e tão voltada às horas do relógio -- de que se realizou mais um dia. Fácil e livremente despeço-me dele, porque desejo a passagem constante do tempo; quando acordo, será preciso abrir as janelas e conferir o tempo que está fazendo, desenhar em mim a coragem necessária para sair de casa e possibilitar o dia. Nessa terra estranha, percebo-me pouco e uma pulsação solta, pouca, que vibra e vibra e se esquece. As semanas se completam enfileiradas, um dia atrás do outro como peças mal empilhadas desses jogos de montar: num equilíbrio oscilante, desajeitado, a torre se forma e também se deforma, os cubos de madeira não-exatamente em cima um do outro, as paredes finas que sustentam esse lugar que ainda não sei chamar de casa.
Será preciso movimentar-me para passar junto do tempo, acompanhá-lo cúmplice, atordoá-lo também. Será preciso deixar que as horas se acumulem e que se complete o período da viagem de navio que fez o meu avô, de Riga a São Paulo: enquanto havia oceano e ele navegava, era possível traçar o percurso de um ponto a outro do mundo. Para mim, que cheguei muito antes de ter chegado, e que já tinha toda a vida pronta aqui onde eu nada tinha, será preciso calma para corresponder aos passos e aos sapatos que caminham pelas ruas, coincidir com aquela que mantém-se firme sob as camadas de casacos.
Nunca tinha sido assim. (Hoje Paris nasceu com sol.)
"Mas se a doutrina do peixe preso é bastante aplicável, em geral, a doutrina do peixe solto o é ainda mais. É aplicável internacional e universalmente.
O que era a América em 1492, senão um peixe solto, no qual Colombo fincou o estandarte espanhol, como bandeira dos reis, seu senhor e senhora? O que era a Polônia para o czar? A Grécia para os turcos? A Índia para a Inglaterra? O que o México será para os Estados Unidos no final? Todos peixes soltos.
O que são os direitos do Homem e as Liberdades do mundo, senão peixe solto? O que é o principio religioso, dentro deles, senão peixe solto? O que são as ideias dos pensadores para os verborrágicos pomposos, senão peixe solto? O que é o próprio imenso globo, senão peixe solto? E o que é você, leitor, senão peixe solto e também peixe preso?"
Herman Mellvile
Moby Dick
Enquanto fazemos poesia
O seguinte artigo de Antonio Cicero foi publicado na sua coluna da "Ilustrada", da Folha de São Paulo, sábado, 11 de julho:
UMA VEZ PARTICIPEI de uma mesa redonda em Póvoa de Varzim, no norte de Portugal, em que se discutiu a proposição "Enquanto fazemos poesia não partimos". Trata-se de uma sentença de Hermann Broch, que se encontra no romance "A Morte de Virgílio". Mas ela foi apresentada fora do seu contexto, de modo que cada qual pudesse interpretá-la como quisesse, quer para defendê-la, quer para criticá-la. O importante era que essa interpretação pessoal revelasse algo da concepção de poesia de cada um. Foi, de fato, o que ocorreu.
Quanto a mim, concordo com a tese de que "enquanto fazemos poesia não partimos". Consultando o contexto em que essa frase se encontra, percebe-se que Broch lamentava o fato de não partirmos quando fazemos poesia, como se dissesse: "Quando fazemos poesia, não chegamos a partir". Para ele, o importante era partir. Pois bem, penso, ao contrário, que o fato de não partir é exatamente o que faz da poesia o que ela é: uma das dimensões insubstituíveis e, segundo penso, supremas, da experiência humana. Na verdade, creio que não é somente quando fazemos poesia, mas, principalmente, quando a lemos, que não partimos.
Partir quer dizer dividir em partes, separar as partes: e é da noção de separação que vem o sentido de ir embora. Pois bem, para que o juízo, isto é, o conhecimento humano discursivo, dianoético, seja possível, é necessário, em primeiro lugar, que o sujeito (que julga) e o objeto (sobre o qual se julga) tenham sido separados. No próprio objeto, é preciso também que o sujeito tenha sido separado de suas propriedades e relações etc. Ora, muito sucintamente, essas separações são condições para que possamos conhecer e instrumentalizar o mundo dos objetos. Através da partida, portanto, todos os entes se tornam objetos para o sujeito que conhece.
Também o poema consiste num objeto artificial. Não se trata, evidentemente, de um objeto artificial material, como a folha de papel sobre a qual ele se encontra escrito, mas de um objeto formal, de um objeto-tipo, como uma palavra. É assim que, como uma palavra, ele pode encontrar-se em diferentes meios ao mesmo tempo: nos vários exemplares de um livro, em revistas, em computadores, na internet, em gravações sonoras etc.
A mais importante característica a distinguir esses dois tipos de objetos artificiais de caráter formal que são as palavras e os poemas parece-me ser o fato de que, ao contrário de uma palavra, um poema enquanto poema não desempenha qualquer função sintática ou semântica na língua a que pertence. Na verdade, o poema enquanto poema é um objeto artificial de caráter formal desprovido de qualquer função determinada. Ora, um objeto destituído de função determinada é, literalmente, um objeto que não serve para nada.
Normalmente, não damos atenção a objetos que não servem para nada. Por que damos atenção a um poema enquanto poema? Coube a Kant responder a essa pergunta, ao descrever a beleza como uma finalidade sem fim. O poema enquanto poema é um objeto no qual reconhecemos a forma da finalidade sem, entretanto, reconhecermos o fim, a função que daria o seu conceito. Por isso mesmo, o poema enquanto poema é um objeto que, como diz Kant das ideias estéticas, "constitui uma apresentação da imaginação que dá muita ocasião ao pensamento, sem que nenhum pensamento determinado, nenhum conceito, possa ser-lhe apropriado e que, consequentemente, não é completamente alcançável ou tornado inteligível por nenhuma linguagem".
Sob o domínio da imaginação, o poema provoca o que o autor de "A Crítica do Juízo" chama de "livre jogo" entre as faculdades do conhecimento: trata-se de um objeto da língua ao qual voltamos, não por razões pragmáticas, mas estéticas, como voltamos a contemplar um quadro ou uma escultura.
Mas um poema é um objeto especial também em outro sentido, evidentemente ligado a esse primeiro. Ocorre que ler um poema é como mergulhar nele em pensamento. O poema é objeto e pensamento ao mesmo tempo. E, ao contrário do que ocorre nos não poemas, no poema não é possível separar o objeto do pensamento ou do sujeito do pensamento. Aquilo que pensa no poema é também a sua materialidade linguística: não apenas os seus significados convencionais, mas os seus significantes: e os significados não se separam, no poema, dos significantes. Nada, nele, se separa de nada; nada se parte; nada parte.
É nesse sentido que eu diria que, enquanto fazemos ou lemos poesia, não partimos.
passagens sobre a vida que fica
sob a perspectiva de quem vai embora.
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Sê o dono de ti
Sem fechares os olhos.
Na dura mão aperta
Com um tacto apertado
O mundo exterior
Contra a palma sentindo
Outra coisa que a palma.
--
Ricardo Reis
descobertas sobre a vida que fica
sob a perspectiva de quem vai embora.
Os preparativos para uma grande viagem são progressivos, constantes. No momento em que recebemos a notícia da confirmação de algo pelo qual esperávamos muito, e que sabemos que certamente será uma virada nos hábitos, qualquer coisa já muda então - não é que antecipemos a mudança futura: simplesmente começamos no ato a criar o território para que ela aconteça. Mudar exige abertura, no sentido mais amplo e até literal que a palavra "abertura" pode abranger. Mudar exige espaço.
Os preparativos para uma grande viagem começam e não terminam, porque os continuo quase que religiosamente, a cada passo e tijolo na parede, a cada momento e expiração. Tudo é motivo de movimento e de despedida, como se eu já costurasse agora a saudade que sei que vou vestir em breve. Alguns gestos sobre os quais eu nunca tinha me detido ganham substância de um momento para o outro, tornam-se gordos, grandes: acenar com o braço para parar um ônibus, cada pé sobre os degraus da escada, o movimento rápido da minha mão na maçaneta da porta, escovar os dentes, colocar um sapato. Conquisto com os olhos espaços que eu nunca tinha notado: o canto do teto da sala de aula, o rodapé do meu quarto. As cores estão mais vibrantes.
lembranças sobre a vida que fica
sob a perspectiva de quem vai embora.
Ainda o mesmo homem cego de um olho e carregando um saco plástico azul no final da Vital Brasil. Desde os onze anos o vejo ali com a mesma expressão de constante espera. Cerca os pontos dos dois lados da rua, quase nunca está sentado. Não olha diretamente para nada, os cabelos rareando. Não sei que mistério tem naquele saco pendurado em sua mão direita. O olho cego, muito branco e muito aberto, parece independente do homem e é de uma malícia aguda, me faz lembrar um filme dos anos quarenta do qual já não sei o nome. Ontem o vi de dentro do ônibus e é sempre um susto duro saber que ele continua ali e que ainda o encontro. Travamos um conhecimento mutuamente ignorante. Acho que ele é também o sujeito dos meus pesadelos, o personagem real que mais me mete medo.
impressões sobre a vida que fica
sob a perspectiva de quem vai embora.
Às vezes quero dobrar os acontecimentos como faço com as folhas de papel depois de escritas - dobrá-los e guardá-los, para que eu possa consultá-los sempre. Quero poder levar também os tijolos do meu quarto. Recorrer constantemente ao canto repetido do pássaro toda mesma manhã. Os atos e os momentos contêm verdades minúsculas e que se desabrocham diante de mim. O mundo se exibe. A lua cheia do reveillon era estandarte e era também mulher e deusa, tambor de todos os ritmos, exibindo-se para nós na estrada, absolutamente cheia de si.
