
Enquanto fazemos poesia
O seguinte artigo de Antonio Cicero foi publicado na sua coluna da "Ilustrada", da Folha de São Paulo, sábado, 11 de julho:
UMA VEZ PARTICIPEI de uma mesa redonda em Póvoa de Varzim, no norte de Portugal, em que se discutiu a proposição "Enquanto fazemos poesia não partimos". Trata-se de uma sentença de Hermann Broch, que se encontra no romance "A Morte de Virgílio". Mas ela foi apresentada fora do seu contexto, de modo que cada qual pudesse interpretá-la como quisesse, quer para defendê-la, quer para criticá-la. O importante era que essa interpretação pessoal revelasse algo da concepção de poesia de cada um. Foi, de fato, o que ocorreu.
Quanto a mim, concordo com a tese de que "enquanto fazemos poesia não partimos". Consultando o contexto em que essa frase se encontra, percebe-se que Broch lamentava o fato de não partirmos quando fazemos poesia, como se dissesse: "Quando fazemos poesia, não chegamos a partir". Para ele, o importante era partir. Pois bem, penso, ao contrário, que o fato de não partir é exatamente o que faz da poesia o que ela é: uma das dimensões insubstituíveis e, segundo penso, supremas, da experiência humana. Na verdade, creio que não é somente quando fazemos poesia, mas, principalmente, quando a lemos, que não partimos.
Partir quer dizer dividir em partes, separar as partes: e é da noção de separação que vem o sentido de ir embora. Pois bem, para que o juízo, isto é, o conhecimento humano discursivo, dianoético, seja possível, é necessário, em primeiro lugar, que o sujeito (que julga) e o objeto (sobre o qual se julga) tenham sido separados. No próprio objeto, é preciso também que o sujeito tenha sido separado de suas propriedades e relações etc. Ora, muito sucintamente, essas separações são condições para que possamos conhecer e instrumentalizar o mundo dos objetos. Através da partida, portanto, todos os entes se tornam objetos para o sujeito que conhece.
Também o poema consiste num objeto artificial. Não se trata, evidentemente, de um objeto artificial material, como a folha de papel sobre a qual ele se encontra escrito, mas de um objeto formal, de um objeto-tipo, como uma palavra. É assim que, como uma palavra, ele pode encontrar-se em diferentes meios ao mesmo tempo: nos vários exemplares de um livro, em revistas, em computadores, na internet, em gravações sonoras etc.
A mais importante característica a distinguir esses dois tipos de objetos artificiais de caráter formal que são as palavras e os poemas parece-me ser o fato de que, ao contrário de uma palavra, um poema enquanto poema não desempenha qualquer função sintática ou semântica na língua a que pertence. Na verdade, o poema enquanto poema é um objeto artificial de caráter formal desprovido de qualquer função determinada. Ora, um objeto destituído de função determinada é, literalmente, um objeto que não serve para nada.
Normalmente, não damos atenção a objetos que não servem para nada. Por que damos atenção a um poema enquanto poema? Coube a Kant responder a essa pergunta, ao descrever a beleza como uma finalidade sem fim. O poema enquanto poema é um objeto no qual reconhecemos a forma da finalidade sem, entretanto, reconhecermos o fim, a função que daria o seu conceito. Por isso mesmo, o poema enquanto poema é um objeto que, como diz Kant das ideias estéticas, "constitui uma apresentação da imaginação que dá muita ocasião ao pensamento, sem que nenhum pensamento determinado, nenhum conceito, possa ser-lhe apropriado e que, consequentemente, não é completamente alcançável ou tornado inteligível por nenhuma linguagem".
Sob o domínio da imaginação, o poema provoca o que o autor de "A Crítica do Juízo" chama de "livre jogo" entre as faculdades do conhecimento: trata-se de um objeto da língua ao qual voltamos, não por razões pragmáticas, mas estéticas, como voltamos a contemplar um quadro ou uma escultura.
Mas um poema é um objeto especial também em outro sentido, evidentemente ligado a esse primeiro. Ocorre que ler um poema é como mergulhar nele em pensamento. O poema é objeto e pensamento ao mesmo tempo. E, ao contrário do que ocorre nos não poemas, no poema não é possível separar o objeto do pensamento ou do sujeito do pensamento. Aquilo que pensa no poema é também a sua materialidade linguística: não apenas os seus significados convencionais, mas os seus significantes: e os significados não se separam, no poema, dos significantes. Nada, nele, se separa de nada; nada se parte; nada parte.
É nesse sentido que eu diria que, enquanto fazemos ou lemos poesia, não partimos.
passagens sobre a vida que fica
sob a perspectiva de quem vai embora.
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Sê o dono de ti
Sem fechares os olhos.
Na dura mão aperta
Com um tacto apertado
O mundo exterior
Contra a palma sentindo
Outra coisa que a palma.
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Ricardo Reis
descobertas sobre a vida que fica
sob a perspectiva de quem vai embora.
Os preparativos para uma grande viagem são progressivos, constantes. No momento em que recebemos a notícia da confirmação de algo pelo qual esperávamos muito, e que sabemos que certamente será uma virada nos hábitos, qualquer coisa já muda então - não é que antecipemos a mudança futura: simplesmente começamos no ato a criar o território para que ela aconteça. Mudar exige abertura, no sentido mais amplo e até literal que a palavra "abertura" pode abranger. Mudar exige espaço.
Os preparativos para uma grande viagem começam e não terminam, porque os continuo quase que religiosamente, a cada passo e tijolo na parede, a cada momento e expiração. Tudo é motivo de movimento e de despedida, como se eu já costurasse agora a saudade que sei que vou vestir em breve. Alguns gestos sobre os quais eu nunca tinha me detido ganham substância de um momento para o outro, tornam-se gordos, grandes: acenar com o braço para parar um ônibus, cada pé sobre os degraus da escada, o movimento rápido da minha mão na maçaneta da porta, escovar os dentes, colocar um sapato. Conquisto com os olhos espaços que eu nunca tinha notado: o canto do teto da sala de aula, o rodapé do meu quarto. As cores estão mais vibrantes.
lembranças sobre a vida que fica
sob a perspectiva de quem vai embora.
Ainda o mesmo homem cego de um olho e carregando um saco plástico azul no final da Vital Brasil. Desde os onze anos o vejo ali com a mesma expressão de constante espera. Cerca os pontos dos dois lados da rua, quase nunca está sentado. Não olha diretamente para nada, os cabelos rareando. Não sei que mistério tem naquele saco pendurado em sua mão direita. O olho cego, muito branco e muito aberto, parece independente do homem e é de uma malícia aguda, me faz lembrar um filme dos anos quarenta do qual já não sei o nome. Ontem o vi de dentro do ônibus e é sempre um susto duro saber que ele continua ali e que ainda o encontro. Travamos um conhecimento mutuamente ignorante. Acho que ele é também o sujeito dos meus pesadelos, o personagem real que mais me mete medo.
impressões sobre a vida que fica
sob a perspectiva de quem vai embora.
Às vezes quero dobrar os acontecimentos como faço com as folhas de papel depois de escritas - dobrá-los e guardá-los, para que eu possa consultá-los sempre. Quero poder levar também os tijolos do meu quarto. Recorrer constantemente ao canto repetido do pássaro toda mesma manhã. Os atos e os momentos contêm verdades minúsculas e que se desabrocham diante de mim. O mundo se exibe. A lua cheia do reveillon era estandarte e era também mulher e deusa, tambor de todos os ritmos, exibindo-se para nós na estrada, absolutamente cheia de si.
constatações sobre a vida que fica
sob a pespectiva de quem vai embora.
São Paulo é feita de nós. Cada rua da cidade desemboca num nó. Bem apertados, insistentes, teimosos. Que se enroscam em si mesmos, amontoando-se. Uma cidade que se embaraça e não conhece pente que a penteie.
Julio Cortázar
Te tendré que matar de nuevo.
Te maté tantas veces, en Casablanca, en Lima,
en Cristianía,
en Montparnasse, en una estancia del partido de Lobos,
en el burdel, en la cocina, sobre un peine,
en la oficina, en esta almohada
te tendré que matar de nuevo,
yo, con mi única vida.
Sem a Nina, parece que o mundo ruiu um pouco. Tudo continua, mas a cor das coisas está um tom abaixo, como se elas chamassem mudas. Saber que a Nina estava aqui sempre me encheu de uma saudade tranquila; muito mais velha e muito mais sábia do que todos nós, a Nina era a nossa gata e a sua presença ecoava e ainda ecoa por todos os cantos da casa. Perdê-la é como cavar um poço muito fundo. Agora o mundo parece um pouco mais cansado. A Nina tinha patinhas sempre muito brancas e o seu silêncio às vezes era indeciso e por isso interrompido por miados mínimos, insistentes. A Nina se escondia por entre as roupas do armário e afiava as unhas no tapete da sala. Lambia-se minuciosamente e uma ou duas vezes também me lambeu, sua língua áspera nos meus dedos. Ela nos conhecia e mesmo muito doente os seus olhos dilatados no escuro nos reconheciam. Lembro muito de como ela subia em cima da televisão e nos assistia assistindo, aconchegada pelo calor da máquina e o quarto fechado. A Nina calculava com precisão cada salto que dava: passava algum tempo olhando para cima e para baixo, medindo distâncias, e só saltava com a certeza de onde iria cair. Ela conquistou o território da casa e a cada um de nós, no seu silêncio quente e doce de gata. Suas cores e a atenção com que percebia os movimentos, o alerta nas orelhas quando o carro fazia a curva na rua de baixo. Sem a Nina, parece que o mundo ruiu um pouco. Tudo chama um pouco por ela, com a mesma quietude que ela sempre teve. Tudo lamenta.

Todos os dias o dia anoitece e a noite me aguça os sentidos. A cada noite que passa, não dormir é uma experiência quase irresistível pela qual tenho de repetidamente lutar contra. A falta de sono era princípio constitutivo, mas hoje tornou-se hábito tanto quanto seria dormir. Perco as madrugadas na ilusão de retê-las, acompanho a passagem muda das horas no relógio, e a manhã se aproxima lenta e gigante, como uma baleia cachalote de olhos miúdos que me encara sem me ver. Fina e constante, a madrugada me aconchega e me esquece, e eu me aperto por entre esses segundos suspensos. Render-me ao sono é, antes de tudo, saber que perco esse tempo negro-azul em que a contagem dos minutos é mais larga e os barulhos assumem-se rítmicos, cadências. Às vezes me flagro quase dormindo e desperto orgulhosa do sono que veio -- a consciência de que por isso o espanto é tardia ou nem sempre vem. Atravesso a constância da madrugada com a minha inconstância, desloco uma e outra, intercalamo-nos. É como se todas as coisas ao meu redor tivessem se desnudado e entregassem-se à noite: a torneira se exibe grave para mim, magistral; minha cama e a maçaneta da porta encaram-se e travam uma conversação muda e muito séria. Assistir à existência dos objetos que perderam sua utilidade durante a noite, quando todos dormem e sonham, consome todo o tempo que se faz inconsumível nessas horas glaciais, segundos elásticos. Os tijolos do meu quarto, únicas e imóveis testemunhas desse período sempre solitário, seguram-se entre si e também me seguram, riem-se por dentro do meu deslumbramento com o que eles sabem e eu não. Uma brecha possível para espiar uma brecha impossível. É tarde, e a passos longos e tranquilos o dia mergulha entre os poros da noite -- é preciso dormir, antes que amanheça (será preciso perder o espetáculo do amanhecer).