Traio o momento atual por lembrar-me de outros passados e traio também os outros por não estar neles e no entanto resgatá-los: então se me assumo traidora, que a fidelidade seja a esse agora turvo que explode em minha boca.
Esse momento (e o próximo) (e o próximo) (e o próximo) (e o próximo) é carregado de todos e por todos aqueles momentos que o antecedem.
A arena em que se constituem os sonhos e em que se formam todos os segredos -- desejos -- como dar um nome ao que fomos?
São muitas as manhãs que passam por nós em silêncio, que tímidas iniciam o dia, que inauguram mais uma vez a palavra hoje, que a exploram em todas as suas letras, sons, sentidos. São muitas as manhãs que possibilitam a tarde, muitas e sempre longas, manhãs sempre amplas, ainda que terminem ao meio-dia são quase intermináveis as manhãs. Enquanto dormimos a manhã se levanta na madrugada, no equilíbrio tênue da madrugada, se sustenta a partir das quatro horas, ganha consistência às cinco, às seis já penetra todos os poros da noite e conquista o dia. A madrugada: essa lenta luta entre noite e manhã, embate de forças. Todo dia a noite cede espaço ao dia, teimosa mas enfim convencida pela retórica da manhã, pelos seus gestos de costureira hábil e idosa.
Depois que passam, as manhãs descansam nas margens e nas folhas das árvores. A noite vai sempre relutante, já as manhãs se entregam completamente às tardes, dão passagem e se retiram. Nenhum dia é menor que o outro: todos têm o exato mesmo tamanho, e quando um dia morre todos os outros têm de morrer um pouco também. É uma linha fina que une todos os dias, pequenos pontos de costura nos permitem dizer hoje e saber com segurança que antes veio ontem e depois virá amanhã. São palavras, é a combinação das letras, mas é também a realização dos dias, a potência dos dias, os raios do sol.
Será preciso dizer hoje para que o dia então aconteça, e o acontecimento do dia ficará gravado no ar. O dia de hoje esgota todas as outras possibilidades, trai o dia de ontem por roubar dele até o seu nome, por substituí-lo absolutamente. As manhãs então são também ladras, e na perversidade com que decidem passar, às vezes deixam escapar um ou outro soluço da noite, a noite que ainda lamenta. A madrugada é essa fronteira que todos os dias se define e se perde, uma linha que se traça e apaga. Na passagem da noite para o dia, no momento em que uma dá lugar ao outro, a noite cochicha um recado e o dia escuta. Todos os oceanos também sabem.
Debaixo d'água não há dia nem noite. A dança dos peixes é outra. O corpo do mar se movimenta e murmura, e todas as baleias ouvem. Com ele começam as manhãs, e a superfície do mar é a cama onde a noite dorme quando não está mais acontecendo. A tarde respira, e no fundo do mar o eco ainda ressoa, o eco de um outro tempo, porque o tempo debaixo d'água tem outra densidade.
Antes de existir o dia, as baleias cachalote dormiam atrás de grandes rochas submarinas. Às vezes acordavam e com seus olhos miúdos assistiam a escuridão do oceano. Hibernavam atentas, esperavam, descansavam de um cansaço que ainda não tinha chegado. Peixes minúsculos e coloridos dançavam em câmera lenta, envolvidos pelo corpo sem forma da água. Antes de existir o dia, era o movimento mínimo das barbatanas, ondas agudas.
O domingo se desenrola sem perspectiva, é um dia achatado. Todo domingo dorme, deixa-se passar. As horas se arrastam, carregam a si mesmas, puxam-se pesadas, pingam gordas, acumulam-se. O dia inteiro se consome lento, inchado de ar. No meio do caminho, parece que o domingo vai desistir. (Ele quase desiste.) No entanto persiste, se espreguiça e persiste, como se a preguiça o impedisse mesmo da desistência ou como se fugisse tanto que até da precisão da fuga.
Meu corpo trabalha sem mim. Ouço o lento maquinar da minha barriga, que movimenta-se continuamente, pequenos espasmos rítmicos, uma dança repetitiva; meus órgãos conversam entre si, independentes, cientes de suas responsabilidades, cada um segue estritamente a sua função. Os pulmões incham e encolhem, os brônquios se inflamam. Acompanho em silêncio os ciclos que se descrevem, espectadora passiva do meu interior. Sou testemunha do que acontece dentro de mim, e no entanto não sei dizê-lo: tateio as palavras exatas e com os dedos procuro os inchaços e as dobras, as saliências, os côncavos e os convexos que desenham a minha pele. Oscilo entre chamar-me causa ou consequência do meu corpo, que trabalha sem mim. Examino-me, assustada: essas são as minhas mãos. Mexo os dedos dos pés, um por um, e é difícil alcançar o menor de todos eles, no canto direito, tão miúdo e encolhido que às vezes quase já não é mais eu. Meus joelhos esticam-se inconscientes, escuto atenta as cartilagens e os nervos, tento visualizar os labirintos de dentro dos meus ouvidos. O grande complexo do meu corpo funciona ininterruptamente, e o que tenho de fazer é deixá-lo agir, essa natureza, esse aparelho fechado, os sistemas todos que se comunicam e auxiliam, longos programas que se concretizam no esôfago, o sangue a correr pelas veias, as paredes de dentro, minhas vísceras. A cadeia dos meus movimentos: a que se deve esse leve dobrar do cotovelo? E como posso me esquecer dos ossos? Os ossos que pronunciam-se nas esquinas de meu corpo, envolvidos pela carne mole e os meus músculos, um vocabulário que se desdobra da minha língua e se arrasta na minha memória, será preciso trazer de volta as aulas de biologia -- por que não pensei nisso enquanto as assistia? --, será preciso abrir novamente o livro didático e colecionar todas essas palavras, o baço e os intestinos e a vesícula e as glândulas salivares. Tudo o que se manifesta enquanto escrevo, todo o percurso dos meus membros, a pequena dor que de repente acende do lado esquerdo do pescoço, o peso na lombar, os meus tornozelos. Tudo isso que -- posso dizer assim? -- me mantém viva. Meu corpo trabalha comigo. Acompanhamo-nos cúmplices, costuramo-nos um ao outro e, à noite, dormimos juntos.
e o amor fica entre os dois olhos e na divisão dos dedos, nas vísceras e bem no meio do peito.
Pessach
Os dias crescem como embarcações enormes e mesmo assim flutuantes. Convivemos diariamente com o oceano, que mesmo de longe canta suas repetidas notas e respira. A lenta respiração de todos os mares salga o ar que inspiramos e é por isso que expiramos. Os dias passam, navios longos, traçam cruzeiros e lutam cruzadas, barcos quentes sobre a água, docemente. A cada onda, é como se com ela viessem recados distantes ou antigos, que nos revelam secretamente o desenho das conchas. As manhãs descansam roucas sobre a areia úmida, despedem-se suaves da noite anterior antes que a tarde as abarque e conquiste o território. No encontro dos oceanos suspiram todos os dias e também os dias seguintes. As novas terras descobertas antes dormiam um sono invisível e agora se cobrem novamente, longamente. A passagem é do tempo mas é sobretudo nossa, são nossos os movimentos e as escolhas e os caminhos. Somos nós que passamos pelo meio do mar.
Tenho em mim a imagem insólita de um homem de terno e gravata sentado num banco de praça. Não há nada ao redor dele, nenhum cenário. A cena é situada num fundo branco, vazio. Silencioso, o homem mantém as mãos sobre o colo, uma em cima da outra, e olha indefinidamente para a frente. Não sei o que ele espera, não sei se posso saber. De vez em quando, esse homem aparece logo antes de eu dormir: seus olhos passam através de mim sem me ver, e então seu constante ato de esperar é uma assombração a qual procuro afastar. E como desconheço o objeto da espera, ela se torna constante e inesgotável.
É como se pisássemos com os pés errados. Ou como se o chão não estivesse exatamente no lugar onde deveria estar.