Pêlos

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Antes de começar, um aviso: este não é um post fetichista. Tampouco serve para fetichistas. Longe disso. Fetichismo, ao que tudo indica, leva a outras manias que, na boa, preferimos não compactuar. Nada contra. É apenas uma questão de posicionamento sexual. E aqui, estamos tranqüilos e felizes com a nossa heterossexualidade. Por isso, gostamos de mulher. Mesmo. O que significa, invariavelmente, gostar de pêlos.

Sim, pêlos. Especialmente pêlos pubianos. Alguém aí menor de 15 anos sabia que as mulheres, há um tempo atrás, tinham pêlos recobrindo a vagina? Sim, e não era pouco, não. Não como agora, quando parece ter baixado uma diretriz proibindo a ostentação de pentelhos. Hoje, para ver uma mulher com pêlos púbicos é preciso praticamente entrar em sites especializados, alguns até com necessidade de assinatura. Virou artigo raro, reminiscência de uma época, peça de museu. Ou, pior, fetiche.

Claro, a coisa começou antes. Não sei bem quando, mas devem ter sido os norte-americanos e sua doentia mania por assepsia que contaminou o mundo e, de repente, as mulheres estava se raspando inteiras. Primeiro foram as axilas. Depois, as pernas. Aí, acho que a bola rolou para as brasileiras, que passaram a cortar tão rente o púbis para usar biquínis cada vez mais curtos e baixos que decidiram se depilar totalmente. Viramos até verbete em dicionário: brazilian wax.

Resultado, tornaram-se bonecas. Manja a Barbie? Não sei de vocês, mas eu, quando moleque, vivia abaixando a calcinha das bonecas das minhas primas para ver o que tinha por baixo. E não tinha nada, o que era imensamente decepcionante.

Só que nós não descendemos dos yankees. Descendemos dos europeus, amigos! Veja um filme pornô estadunidense e um italiano e você vai entender o que estou dizendo. Os atores do velho mundo têm pêlos, muitos pêlos. É natural. É bonito. É saudável. Diferente das fitas norte-americanas, cheias de gente lisa feito cano de PVC. Merda, eu não quer trepar com um cano de PVC! Quero trepar com gente de verdade. E gente de verdade tem pentelhos, pombas!

A minha sorte foi que verifiquei cedo que, ei, há cor e textura ali por baixo, sim. E quem primeiro me mostrou isso foi a Luiza Tomé, numa bela Playboy que papai guardava num envelope pardo na parte mais alto do guarda-roupas. Luiza era farta em pêlos, enroladinhos, espalhados prodigiosamente e cujas fotos faziam parecer macios e convidativos.

Adorei aquilo. Vaginas tinham pêlos, e ponto final. Qualquer coisa fora disso seria uma das bonecas das minhas primas. E eu não queria bonecas. Queria mulheres. Mulheres com pêlos. Pêlos que enchiam a boca, afagam o queixo e as bochechas e até aumentam a salivação durante uma bela sessão de sexo oral; pêlos que se misturavam com os pêlos do rosto; pêlos cheirosos de xampu ou sabonete; pêlos para, depois de uma vitoriosa expedição morro abaixo, serem atirados para longe em rápidas cuspidelas enquanto o restante da roupa tem o mesmo destino.

Pêlos pubianos. Ou pentelhos. Ou matinho. Ou moita. Ou floresta negra (essa eu vi, por incrível que pareça, num gibi do Arqueiro Verde!). São parte integrante do sexo. Não há sexo sem pêlos. A natureza os colocou ali. O triângulo do prazer, ora essa! A sensação de enfiar a mão pela primeira vez dentro de uma calcinha e sentir aquele farfalhar entre os dedos, um toque de certa forma conhecido e por isso confortável e acolhedor. Era o sinal da última barreira a ser transporta, a fronteira final diriam os trekkers!

Mas então resolveram cortar tudo. Tudo! Uma das justificativas era que facilitava a higiene. Porra, só sendo muito neurótico para achar que um monte de pêlos é impedimento para uma boa higienização. E a coisa é tão bem feita que dá para ter uma aula básica de anatomia feminina sem precisar tocar. Nada de "o que será que tem por baixo", ou "como faço para chegar até lá". Já tá lá, descoberto, despelado, é só fazer o serviço.

E nem adianta falar que pêlo é mania de coroa desleixada, lembrando aquela clássica Playboy da Vera Fisher. Só para ficar na mesma publicação, olha a última capa dela.

 

17.jpgCarol Castro. 100% silicon and brazilian wax free.

Pêlos púbicos são parte da nossa anatomia, e não gostar deles é estar a um passo da repulsa ao próprio sexo. Claro que, apesar de apreciador deles, ainda não cheguei ao nível de um Tinto Brass e suas atrizes que nunca viram uma lâmina de barbear na frente. Mas isso é trabalho para uma vida toda...

Maloca querida

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Pensamento cunhado após fatos recentes, lembranças de uma adolescência pouco saudável e bate-papos por e-mail:

"Num puteiro, toda mulher tem seu preço. Até a atendente do bar"

E não é?

Fui assistir ao Cavaleiro das Trevas. Num final de tarde de segunda-feira, num shopping center da capital gaúcha, rodeado de adolescentes ruidosos.

A primeira coisa em que pensei foi num post que fiz sobre a incomodação que passei durante a pré-estréia do Homem-Aranha 3. Na época convidei o Bia e mais um casal de amigos para uma sessão à meia-noite do filme num cinema em Santa Bárbara d´Oeste, cheio desses adolescentes ruidosos. Fiquei puto com a algazarra e saí no começo da parada. Segunda-feira, durante a sessão do Batman, percebi que estava errado. Não devia ter reclamado naquela vez. Sequer devia ter ido ao cinema, na verdade. Quem se sujeita a ir ver um troço desses tem mais é que se fuder, então abri meu pacotinho de M&Ms e esperei pelo que sabia que viria.

E veio. Começou com uma cena de assalto a banco. Claro que já se fez isso antes, tirolesa, corte do alarme, abertura de cofre, reação de algum elemento do banco, malotes de dinheiro e fuga orquestrada com piadinha na saída.

Aí temos o herói com crise de consciência e o vilão que se aproveita disso para tocar o foda-se. Tem espaço ainda para redenção de criminosos, discurso sobre o bem que triunfa sobre o mal e de como as coisas são porque são e fim de papo.

Dá pra ser mais óbvio, mais clichê, mais raso e bobo que isso?

Dá. Com um final com narração em off. Mas não uma narração em off qualquer, mas uma que termina com o título do filme enquanto o herói corre de encontro à luz no fim do túnel e corte rápido para os créditos com entrada imediata da trilha sonora impactante.

 

Uhú! Vô comê a tia do Bátema!Mas uma cena entrega mais a farsa que é a empreitada de Nolan. A seriedade com que Bruce Wayne e Alfred discutem a aposentadoria ou não do Batman enquanto o Coringa está à solta. É de uma indignidade atroz. É tão difícil perceber que não existe a menor possibilidade de adaptar quadrinho sem parecer ridículo? E quanto mais real se tenta ser, mais rísivel a coisa fica?

O universo dos quadrinhos permite que um sujeito, quando provocado, ganhe dez vezes o seu tamanho, fique verde, rasgue a roupa toda e continue com as calças. E tá tudo bem, tá ótimo! É ficção, fantasia, onde os caras sequer envelhecem, morrem e ressuscitam, usam malhas colantes coloridas e vivem dizendo frases de efeito. Tá limpo, nada de errado, é pra isso que os quadrinhos servem e é por isso que, depois de uma certa idade, eles deixam de ter a importância e o significado que tinham.

Se não há compromisso com qualquer lei da física nos quadrinhos, por que nas suas adaptações para cinema e TV elas são necessárias? É incrível pensar que isso é possível e besta levar isso a sério. O Batman do Adam West e o Hulk do Lou Ferrigno, sim, eram dignos de nota. Tão grotescamente caricatos que beiravam a chacota. Toscos, ridículos e exagerados, sim, tanto quanto as histórias e personagens que os inspiraram.

Mas aí chega um espertalhão e diz "Há! Já sei! Vamos aproveitar os recursos tecnológicos e nossas poderosa máquina de marketing para fazer mais dinheiro dizendo que estamos levando a sério os super-heróis, fazendo deles personagens críveis e dignos de serem discutidos como obras de arte". O resultado está nas bilheterias e em todos os meios de comunicação. Neguinho indo adoidado ao cinema e criticando o filme como se ele fosse uma fita recém-descoberta do Kubrick.

E a coisa só tende a piorar. Vem aí o Watchmen. Esse, definitivamente, nem um saquinho de M&Ms vai me segurar no cinema.

O Batata fez o seguinte comentário:

 

Você já leu algum gibi desses considerados excelentes? Preacher, Sandman, Maus, Cavaleiro das Trevas, Watchmen, V de Vingança, qualquer um desses?

Se leu e não gostou, tá ótimo.

Agora se não leu, deveria ler. São obras-primas. Chamá-los de gibi não diminui a importância ou qualidade delas. Não julgue tudo ruim apenas por conta do formato (mas sim, a grande maioria é).

E sim, você precisa ver o filme. Aliás, precisa conhecer o mínimo de qualquer coisa antes de decidir que é coisa de adolescente punheteiro. Até lá, a merda está na sua cabeça.

 

Não conheço o cara. Nem ele me conhece. Mas seu comentário esclarece alguma coisa.

Ele me questiona a respeito do que chama de obras-primas dos quadrinhos. Os de sempre, Watchmen, Cavaleiro das Trevas, V de Vingança, enfim. Sugiro a leitura desse texto do Alerta Geral. A propósito, o AG é um dos poucos blogs que trata de nerdices e afins sem ser pedante ou chato.

Eu li isso tudo o que o Batata citou. Li e provavelmente soltei um "Uau, que foda". E fui cozinhar, dormir, aparar as unhas ou qualquer outra coisa. Nada mudou. Nada. Porque esse tipo de leitura representa exatamente isso, nada. E afirmo com a autoridade de um consumidor de quadrinhos que sou, do tipo que é louco por edições especiais encadernadas, em papel especial, limitadas e caras. Gosto delas tanto quanto gosto de pastel de queijo. Nos dois casos, ambos são gostosos, mas não contêm todos os nutrientes de que preciso. Tira gosto, enfim.

Mas ler essas obras todas serve para entender melhor suas adaptações para o cinema? Se eu ler The Dark Night do Frank Miller, e a Piada Mortal, do Alan Moore, gostarei mais ou menos do filme do Christopher Nolan que, dizem, foi nelas inspirado? Mas é claro que não. Nunca um estúdio de Hollywood deixaria um diretor fazer um filme baseado em quadrinhos cujos únicos a entendê-lo/gostar seriam os leitores dos mesmos. Deixa disso, diria o blog do Flávio Prada.

A premissa básica de um blockbuster é atingir o máximo de gente possível. Logo, não importa de que raio de personagem/história ele trata. Ninguém precisar sequer conhecer o Batman para assistir ao Cavaleiro das Trevas. Se trocar o Batman pelo Homem Libélula e o Coringa pelo Dinho Ouro Preto o resultado final será o mesmo. O que contou mesmo foi a campanha de marketing dos caras. E ela foi muito boa, é preciso admitir. Mobilizou milhares de adolescente punheteiros e geradores de conteúdo para adolescente punheteiros ao redor do mundo e quebrou recorde atrás de recorde. Até um Oscar póstumo está preparado. Sim, os bambas de LA sabem o que fazem.

 

Do the bartman!.jpgNão tem nada de errado com o filme do Batman. Nem de certo. Não tem é nada, pra ser honesto. Assim como qualquer outro filme inspirado em gibis de sujeitos que vestem a cueca por cima da calça. Então por que tentar achar algum significado/profundidade/sentido onde está claro que não existe? Por que querer que o filme seja mais do que é?

Para parecer menos estúpido quando, numa rodinha com gente um pouco mais adulta, disser que se emocionou vendo o discurso de frases feitas do mocinho? Para se justificar pra gostosa da academia quando deixar escapar que espera salivante pela edição dupla comemorativa do DVD que vai trazer uma réplica do bat-sinal? Ou ter uma desculpa para vasculhar a prateleira de filmes infantis da locadora em busca da primeira temporada do desenho animado que faz uma ponte entre o primeiro e o segundo filme?

Bom, sinto dizer, mas é tarde.

Estamos falando da mesma coisa?

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Batman - O Cavaleiro das Trevas foi lançado há duas semanas. Eu ainda não fui assistir, e pra ser sincero, acho que nem vou. Acompanhei toda a campanha de marketing viral, assisti aos trailers e li a sinopse. Preciso mesmo pagar uma dúzia de pilas para ver o que, em tese, já conheço? A julgar pela quantidade de resenhas sérias a respeito, sim.

Entendo a molecada de cara purulenta nos blogs, flogs, fóruns e sites nerds da vida babando sobre cada frame do longa. Mas também tem gente graúda - dentro e fora da grande-feia-má-e-bobona mídia - dedicando mais tempo e energia do que o filme realmente merece.

Então peralá. Estamos mesmo falando de um filme do Batman? Um filme baseado num personagem de gibi? É disso mesmo que estamos falando ou estou enganado? Tem gente realmente levando a sério esse negócio de filme sobre um bilionário que se veste de morcego para bater em bandido? Novamente, até entendo a molecada imberbe e os barbados que vivem de produzir material para eles - não é sempre que dá para ganhar a vida com dignidade, eu sei - mas, daí a tratar o troço com relevância e até reverência, é demais.

Pára um instante. O Batman, assim como o Homem de Ferro, o Hulk, e qualquer outro herói que ganhou ou vai ganhar uma adaptação milionária para os cinemas, não precisa de mais que uma linha de crítica. Sequer deve ser resenhado. Não porque não merece, mas porque não é necessário! A não ser que você tenha um veículo para adolescentes punheteiros. Aí sim, investe num especial, polemiza e fica discutindo e comparando todas as adaptações deles o quanto quiser.

Do contrário, não. É só um filme de um super-herói de gibis. E nada mais. Raso e fácil assim. Para não dizer bestamente pretensioso. Cansei de ler que é a adaptação mais fiel de um herói ou que nunca um herói foi tão bem retratado. E pra que? E por que? Dá para fazer isso, ser fiel a um gibi a ponto de ser levado a sério?

Só pra se ter uma idéia do nível de exigência com a qual estamos lidando, quando Joel Schumacher fez o Batman & Robin, a maior crítica dos fãs era que a armadura do Batman tinha mamilos. Mamilos! Criticaram tanto os mamilos que eles foram apagados das fotos promocionais! Nem se deram conta que os morcegos são mamíferos e, portanto, o que Schumacher fez foi corrigir uma falha de consultoria presentes nos filmes anteriores...

Mas Schumacher fez mais. Botou um Robin e uma Bat Girl histéricos, vilões canastrões, pintou Gotham City com neon e deu closes nas bundas e peitos de todos. E daí? Qual o problema? Foi ruim? Por que? Qual o demérito em aloprar com um personagem de gibi? De onde veio essa sanha de querer levar esse troço a sério de repente? Sim, porque agora tudo o que se refere a super-heróis precisa ser tratado com a mesma importância que a descoberta da cura de uma doença.

Pra ser sincero, eu iria até mais longe. O Batman se veste de morcego? Então eu botava ele pra bater asas e voar. E fazia ele dormir de ponta cabeça - opa, o Tim Burton já fez isso, né? E ele só comeria frutinhas e ratos. E quando voasse, cagava na cabeça de todo mundo. Pronto. É isso que falta na cabeça desse pessoal. Um pouco de merda. Tá louco.

Tocando o terror

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de: Gustavo Brigatti
para: tiago casagrande
data: 28/07/2008 19:15  
assunto: Terrorista?  

Tô tomando café numa padaria de Gramado no domingo com a Priscila de Martini, editora de Ambiente da ZH. Num desses display de jornal, há uma pilha de Zero Hora, Diário Gaúcho e alguns jornais locais. Um deles chama-se Jornal Integração (www.integracao.jor.br) e chama atenção pela manchete: "Al Qaeda campeão da Segundona". Eu olho, leio, leio de novo, e não acredito naquilo. Abaixo do título, uma foto do que parece ser um time de futebol de salão comemorando com a torcida. A legenda esclarece que é isso mesmo. É um time de futsal que ganhou o título a segunda divisão do campeonato de Canela.
 
Eu nem dou muita bola, acho que é só engraçadinho e renderia um post pro blog. Mas Priscila, não. Hoje ela me liga dizendo que vendeu a idéia de fazer uma matéria sobre essa bizarrice e a chefia gostou. Sobrou pra mim, claro. Mas depois acabei curtindo muito o lance. Tinha que encontrar o sujeito que deu o nome de uma organização terrorista para um time de futebol! O cara não pode ser normal, não bate bem da cabeça! Ou é louco pra arrumar confusão, hehehehe!
 
Bom, vou atrás do sujeito e, pela matéria do JI, da para saber que o time chama Al Qaeda/Casa dos Colchões. Toco pra Casa dos Colchões em Canela. Encontro com o dono da bagaça, que também joga e é dono do time. Sujeito gente boa, diz que deu o nome de curtição, que na época dos atentados formou o time, precisava de um nome e Al Qaeda estava em todos os lugares. A galera curtiu e ficou.
 
Agora, o nome dele: Claudio. O sobrenome: Casagrande. Aí ficou tudo explicado, ahahahahahahahahahahahahahahahaha! O mundo todo chocado com a queda das Torres Gêmeas, pagando de sentimental com a morte de um punhado de norte-americanos, "ai, é o fim do mundo, ai, o Nostradamus preveu isso, ai, ai, ai, buá, buá buá". Teve até quem simpatizasse com o política externa do Bush! É aí chega um Casagrande de Canela e bota o nome dos terroristas no time de futebol de salão dele, hahahahahahahahhahahaha! Tipo "vamos aproveitar que os bombeiros sairam de férias pra botar fogo no circo"! Muito afudê, virei fã do cara, claro!

Sabe aquele papo de fim das gravadoras, as delícias do mundo independente pós-P2P? É, a coisa não é bem assim. Nem um pouco.

E quem diz são eles.

Aqui. Aqui. E aqui.

Tem um graficozinho bem marromeno pra quem possa interessar, mas o lance é o caldo de letrinhas, mesmo...

As coisas só pioram

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No começo, podíamos fazer de tudo. Não tínhamos nada, e nada nos era negado. Trepar com quantas fêmeas - ou machos - quiséssemos, endoidar afú bebendo chá de cipó, fumar toda a savana, brigar por farra, perambular pelado sem nada pra se preocupar. Nem a bunda tínhamos que limpar!

Mas aí a coisa estava muito boa pra ser verdade, e alguém - provavelmente um sujeito de pau pequeno que não comia ninguém durante as farras ou uma mulher feia que ninguém comia durante as farras - inventou deus. Deus e a religião. E um livro de regras. E aí ninguém mais fodeu, bebeu e perambulou pelado por um bom tempo. Em compensação brigar...

Só que, sabe como é, um jeitinho aqui e ali, conversa vai, conversa vem, e decidiram que, ah, beber vinho nos dias santos pode. E trepar também, desde que sob a concordância do rei - e ele comeria sua mulher antes, sim, porque nada é fácil nessa vida. E só para a reprodução, então tome filho no mundo.

E as coisas estavam começando a voltar àquela zorra gostosa de outrora quando uns sujeitos - provavelmente um sujeito de pau pequeno que não comia ninguém durante as farras e uma mulher feia que ninguém comia durante as farras - inventaram de matar deus e criar a ciência. E a ciência virou uma religião. E não com um, mas vários livros de regras, e com regras que mudam a toda hora.

Aí a carne vermelha começou a fazer mal. E gordura virou um troço a ser evitado a qualquer custo. Assim como ovo, farinha e açúcar. Alface, tomate e água, ó sim, taí o que vocês precisam pra viver. O negócio chegou a ponto que matar bicho também não podia mais - a não ser peixe, que não tem como levar pra passear.

Bom, pelo menos podíamos continuar trepando. E contínuamos, e fomos bem, pílula, camisinha, amor livre, ninguém é de ninguém, DST era uma pereba que sarava com pomada até que... AIDS. Pronto. Fodeu de novo. Digo, não fodeu. Não dava mais pra trepar sossegado. Epidemia. A culpa é dos bichas. A culpa é das mulheres. A culpa é de um macaco africano. A culpa é nossa. Risca o sexo, pronto.

Mas mesmo sem poder trepar, dava pra fumar! Depois de uma preliminar bem feita, era só estender o braço e acender um careta pra ficar legal. Até dizerem que ele causava câncer. Sim, pesquisas e mais pesquisas, certo, comprovado, não tem erro, morte ao tubinho de nicotina. Nem cigarrinho de chocolate mais era permitido. Campanha educativa na criançada, foto de gente lazarenteada, fetos podres, pulmões podres, banimento da propaganda, ah, cerca eles num canto qualquer que essa fumaça vai fazer cair o meu permanente. Você fuma? Ai, que nojo, beijar quem fuma é como lamber cinzeiro, ai, que cheiro, ai, os dentes amarelos, ai, empestou todo o lugar, ai, você gasta mais com cigarro que com leite pras crianças. Risca o cigarro.

Só restava o álcool. O árco. O velho e bom demônio da garrafa. Tínhamos que meter todas as nossas frustrações em algum lugar, e era no alambique que a coisa acontecia. Até hoje. Até meia-dúzia de zé ruela não segurar a bronca e cagar o pau matando gente. Aí perdeu a graça. E pronto, risca o árco também.

Sem carne com capa de gordura. Sem promiscuidade. Sem cigarro. E agora sem bebida.

Eu só acho isso:

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Saca isso.

Tô faxinando a casa quando recebo um telefonema do jornal. É a Deca, editora da Geral, dizendo que eu tinha sido cogitado para um Teste ZH de bafômetro. O lance consistia em beber uma determinada quantidade de bebida alcoólica e depois fazer um teste de bafômetro na EPTC.

Aceitei, claro.

No horário marcado, vou com um grupo para o Guion Center. Lá, a equipe foi dividida em duplas, onde cada uma deveria tomar um determinado tipo de bebida. Cada integrante da dupla beberia ou um copo de caipirinha, ou dois copos de chopp, ou três taças de vinho, ou comeria dois bombons de licor. Eu fiquei com a caipirinha. Bebemos e fomos pra EPTC.

No caminho, uma garota, 22 anos, começa a dizer que nunca havia bebido tanto na vida. E ela tinha bebida três taças de vinho Concha Y Toro. Ela faz o teste e dá 0,31, suficiente para que fosse presa, enfim. Todos nós fazemos o teste, pegamos os comprovantes e vamos embora.

Eu volto no mesmo carro que ela. No caminho, a garota continua dizendo que está zonza, que nunca tinha bebido tanto e de repente VOOOOOOOOOOOSHHHHH! Começa a vomitar as tripas. Adivinha em cima de quem? É, do simprão aqui, que ainda consegue mandar o motorista parar o carro, abrir a porta e redirecionar o jato de vômito para fora do carro.
Mas já era tarde, e adeus uma calça e tênis, ensopados de vinho, bile, e macarrão com salada.

A garota, claro, fica sem graça, mas começa a gargalhar, típico de quem tomou o primeiro porre da vida, manja? E eu lá, vomitado!

Ai eu penso "porra, quem foi o gênio que escalou essa mina pra encher a lata?". Mas em seguida penso "Hahahahahahahahahahahahahahahaha, do caralho, do caralho!"

E ainda voltei pra trabalhar - devidamente limpo, claro...

"Gelo em Marte, diz a Viking
Mas no entanto não há galinha em meu quintal"

Raul Seixas, 1976

 

Sonda Phoenix encontrou gelo em Marte, dizem pesquisadores

Folha Online, 2008.

Para ela, que pisa em ovas

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Vai, chega mais pra perto aqui. Deixa esse lamento, essa falta de criatividade desse povo bobo pra esse povo bobo. Que se lasquem com seus modelos de cuecas, suas gostosas sabor melancia e seus paus a meia-bomba. Eles podem ser sensuais, mas nós, amiga, nós somos sexuais. Somos feito de blow jobs invertidos, aditivos tarja-preta, trepadas sinceras e sangu, suor e sêmem por todo lado. PVC e hormônios por todos os orifícios, líquidos e espessos, lânguidos e carnudos, grossos, lentos, concisos, tenros e intumescidos. Não, eles não querem brincar com a gente. Sequer observar.Talvez, ter consciência. Não ficamos na borda, amiga, você sabe disso, então pára de se enganar. Cabelo solto, noite, dia, madrugada, umas palmadas e voi lá, chegamos onde queríamos, mas não puxa todo o cobertor que tá um frio danado. Nada de curvas ou retas, apenas relevos altos e baixos por quilômetros de pele e pêlos encaracolados e ensopados de indecência e obscenidade. Discrição de cu é rola, e disso, hehehe, nós entendemos e nos esbaldamos. E claro que fazemos propaganda, mesmo sem querer, e todos meio que sabem, e os que curtem chegam junto, os que correm por fora, bom, esses nem chegam perto. E é longe deles que devemos manter nossas trompas e testículos, como se a ponto de apodrecer ficassem assim, logo que esticassem suas garras brancas e gritassem feito falsas virgens ante uma bela estocada. Eles que se fodam, amiga, se fodam maleporcamente entre si, que é o que sabem fazer, enchendo o mundo de gente chata e modorrenta como eles. E vamos nós nos foder o quanto e o mais que pudermos - metaforica e sardonicamente, você me entende. Fingem que não nos notam, que não nos conhecem, mas respiram fundo quando passamos e cerram os dentes e apertam as pélvis quando segredamos besteiras tão inocentes e infantis quanto esfregar os pés num dia de frio e, ei, ei, ei, esquenta mais água pro chá e traz outro pires com doce de leite. Queremos. Entregamos o que prometemos e vulgarizamos o máximo permitido dentro de nossas vontades. Não há Procon na nossa cola, não cometeremos jamais o crime de estelionato em decúbito dorsal. Quer? Vem pegar. Com muito açúcar para inflar as dobras do seu despudor, com muita gordura animal para entupir as artérias da porra da tua indecência, cheio de fumaça ancestral feita para estupefaciar o pouco de ordem e arrogância que ainda guarda nesse livrinho de regras cagadas na cabeça. Forte. Extra-forte. Premium. Edição especial. Sem embrulho, pelado, mal diagramado, fora de esquadro, vivo, pulsante, sem parte pudentas, nada de pudismo, tudo aflorado, exposto, escorrendo e implorando para não ser desperdiçado. Engolimos tudo. É bom? Você gosta? Quer mais? Eu dou. Dou tudo e mais um pouco. Mas também pegamos sem que você perceba. Roubamos a paz deles, amiga, e ele só notam isso quando o sol nasce vermelho em plena aurora boreal. É fim de mês e nem aí pras contas amontoadas na caixa de correio. Mas agora desliga essa caixa e solta os cachorros no mundo.

Pra casar

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A coisa de um palmo de distância, amigos, um palmo...

 

 

Comentário impertinente, mas necessário e notável: num show de black music, os únicos negros fora do palco eram os seguranças.

Pílulas de sabedoria em vídeo

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No YouTube, digite TYPOGRAPHY.

Abaixo, uma mostra.

 

 

 

Totalmente viciante. E genial.

O profeta

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"Essa daí tá igual a melancia no sol: louca pra fazer mal pra alguém"

EDV, calçadão de Ipanema, março de 2005, uma tarde de domingo

 

MELANCIAA2.JPG

A conferir...

- O problema é que ninguém quer assumir ninguém. Bando de bunda-moles. Ficam o tempo todo se policiando para não foder com a vida de alguém. E o que há de errado em foder com a vida de alguém de vez em quando? É o único jeito de se fazer notar, de ser lembrado, de movimentar algumas coisas.
- Então tudo se resume a isso, a marcar em brasa, tipo gado, para não ser esquecido. O teu medo é não ser lembrado, é isso? Por que se for isso, de fato, foder a vida de alguém é um excelente caminho.
- Não, não é isso. O que eu tô tentando dizer é que não vejo porquê ficar nessa de "ah, faz o que você quer por você, não faz por mim, porque se der errado, não quero me sentir culpado". Então tu é capaz de abrir mão de algo que tu acha valioso só para evitar um possível ataque de consciência no futuro? Como se alguém pudesse prever isso, como se fosse natural adivinhar o que vai acontecer antes de se fazer.
- Algumas coisas dá, sim. Só de olhar pra elas, dá pra sacar que são péssimas idéias e evitar a dor de cabeça que vão dar. Pra ficar na dor de cabeça como exemplo, é certo que tomar vinho vagabundo dá dor de cabeça no dia seguinte. Então tu não toma.
- Mas e se eu quiser tomar?
- Então toma já sabendo do que vai acontecer. Pra mim, isso é burrice. Se sabe que vai ser ruim, porque insistir?
- Porque posso estar errado.
- No que toca a vinho vagabundo, jamais.
- Tô falando de pessoas. Por que evitar problemas? Por que se encolher num canto? Covardia. Covardia pura e simples.
- Ninguém quer tomar uma atitude que só vai dar encheção de saco depois, é só isso.
- Ah, tá, então o que devemos fazer é só agir quando tivermos absoluta certeza? Não somos cupins, somos seres humanos. Não agimos com lógica. E no toca à relacionamentos, sequer com inteligência.
- É isso que tanta gente quer evitar. Agir sem inteligência. Por isso a cautela.
- Cautela demais é medo. É arregar. É preferir matar um sentimento a assumi-lo e vivê-lo da forma que se deve.
- E que forma é essa?
- Intensamente. Cegamente. Irracionalmente.
- O resultado pode ser ruim, e aí?
- O resultado pode ser bom, e aí? Prefere mesmo escolher o caminho mais fácil? Imagina quanto tempo a gente não morou em caverna por causa de gente que morria de medo de, sei lá, tigres dentes-de-sabre? Até que alguém levantou e disse "porra, cansei de comer aipim, vou lá fora arrancar o couro do primeiro bicho que cruzar o meu caminho e fazer um churrasco".
- O cara deve ter sido morto.
- Melhor morto que vegetal. Que é a forma como esse povo vive.
- Estamos falando de foder com a vida de alguém, e não matar um animal pré-histórico. São coisas diferentes.
- Tá, foder a vida de alguém, às vezes, não é todo ruim. Te contei da XXX, não?
- A-hãm.
- De certa forma, ela fodeu a minha vida. E até hoje eu agradeço por ela ter sido tão filhadaputa comigo e ter me ensinado que as luzes não acendem enquanto os créditos sobem numa telona retangular. O que eu acho é que muitas vezes as pessoas estão só esperando terem suas vidas fodidas.
- Não é bem assim. Você se saiu bem. Tem gente que, dependendo de como a coisa acontece, só pioram. Então é melhor deixar como está.
- Não, não tem que deixar como está.
- E quem é você para decidir se é para deixar ou não como está.
- Alguém que teve a vida fodida e sabe do que está falando.
- Você é um. Seu parâmetro é só seu, não tenta aplicar ele a outras pessoas. O que deu certo pra você, não quer dizer que dará certo com os outros.
- Mas e se der?
- Vai arriscar? Não estamos falando de cupins, estamos falando de pessoas, como você mesmo disse. Já pensou nas conseqüências do que tu faz, das coisas que tu fala?
- Toda noite.
- Então sabe do que eu tô falando. Sabe que pode estar errado, mas prefere pensar que está agindo certo.
- Só quero ajudar.
- Ajuda quem te pedir ajuda. Pára de querer lobotomizar todo mundo que encontra pela frente.
- Eu não tento lobotomizar ninguém, só faço o que acho que tenho que fazer. E assumo isso, ao contrário dessa gente que prefere não fazer nada. Não tô nessa a passeio.
- Ótimo, mas tem gente que está. Tem gente que embarcou nesse ônibus sem querer e não vê a hora de descer no próximo ponto. Se tu quer curtir a viagem, beleza. Mas não incomoda os outros.
- Não consigo.
- Então vai se foder.
v e r b e a t b l o g s

gustavo brigatti

  • jornalista, gary oldman, tora!tora!tora!

  • grito e msn gustavobrigatti@hotmail.com