Esse foi o discurso da formatura de jornalismo da Famecos/PUCRS em 29.1.2010. Em virtude do nervosismo e de um leve improviso irresistível na hora, algumas coisas estão levemente diferentes, mas é por aí.
Muito obrigado por tudo, sempre.
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Magnífico Reitor da PUCRS - Professor Doutor Joaquim Clotet / aqui representado pela Excelentíssima Senhora Diretora da Faculdade de Comunicação Social / Professora Doutora Mágda Cunha
Excelentíssima Coordenadora do Curso de Jornalismo desta Casa, Professora Doutora Cristiane Finger
Excelentíssimos Professores que compõem o Corpo Docente desta Instituição, alunos, pais e amigos, boa noite.
Antes de conversar um pouco com os novos colegas, gostaria de agradecer por estar aqui, e ao mesmo tempo, compartilhar com o corpo docente o mérito dessa escolha. É a primeira vez e justo 10 anos depois da minha formatura, quando também recebi o troféu "Troféu São Marcelino Champagnat". Meu eterno carinho e respeito para vocês, é uma responsabilidade imensa, e pensar o que conversar hoje foi uma pauta difícil. A terça-feira do apitaço nunca será esquecida, e até hoje não entendo como vocês guardaram o segredo por tanto tempo. No estilo dos encontros da sala 107 e 108, sem Dreamweaver, vamos conversar um pouco.
O primeiro pensamento que compartilho é sobre nossa futura conduta. Vivemos um tempo único para a comunicação. Grandes estruturas são colocadas em xeque, empresas tradicionais compram o passe de jovens famosos no YouTube e resumimos o mundo a 140 caracteres, como o pessoal faz agora no Twitter. Observamos na prática a sinergia entre as possibilidades do virtual que alteram o real. São espaços complementares, não opostos, e carecem mais do que nunca de informação de qualidade para o público. Ainda encontramos profissionais que confundem isso e, por tabela, a população, que aprende sobre o online conosco.
A velocidade do meio digital altera o processo da comunicação e nós erramos sobretudo ao tentar ganhar a atenção e, principalmente, a compreensão do público. Diante da pluralidade de espaços para comunicar - e não apenas mais falar sem ouvir ou esquecer o outro lado do processo - a busca pela atenção beira o ridículo e esquece preceitos básicos que o juramento antes recordou. É fácil brilhar muito e ganhar a audiência de maneira fútil e na contramão do correto, enquanto infelizmente o básico de informar e entreter de forma sadia tornou-se difícil.
10 anos atrás, quando estava aqui na minha formatura, os jornalistas ainda sonhavam com um receptor ativo e que conversasse diretamente conosco. Pois bem, vivemos na sociedade da participação e fazemos do sonho um pesadelo ao negligenciar que o fluxo mudou ou ao oferecer tudo sob a forma de escolhas sem valorizar o roteiro bem escrito, a informação apurada e a entrevista concedida dentro dos limites éticos.
Se esse público fala, nós temos de ouvir, mas também esclarecer, educar e informar. Ainda somos as referências da sociedade e nosso bom trabalho, seja em qual meio for, é requisito básico em um ambiente democrático formado pela nossa expressão e dos outros que querem falar e não são ouvidos. Esta liberdade expandida de expressão ainda não é compreendida nem pelas autoridades nem por todos os nossos colegas, permitindo becos e caminhos escusos para a imprensa.
Assim, o diploma que vocês recebem hoje é uma vitória e um atestado nosso da qualidade da informação carregada pelos nomes de vocês. Interfaces entre as notícias e o público, cabe a vocês comunicar com base em fortes valores de qualidade humana, ética e profissional. Lembrem que esta certificação é feita diante de uma sociedade que confia e aposta em vocês. Mais do que nunca, a formação acadêmica representa que vocês têm caráter e sabem o que fazem, não é apenas uma via para o exercício da profissão.
E esse ofício requer uma dedicação constante. Desconfiem, apurem, lembrem que vocês iluminam o conhecimento de todos aqui. Como comentamos nas aulas, usem a força da rede para verificar antes de publicar e evitar uma barrigada. A velocidade das ferramentas não deve ser usada pensando apenas em publicar primeiro, mas sim em encontrar os dados corretos antes. Vocês dialogam com o digital de maneira natural, então também ajudem os colegas de redação na compreensão desse caminho.
Carecemos, como imprensa, cada vez mais de olhares críticos e fora dos padrões. Estamos cansados de ouvir que a Internet acabou com o jornalismo quando na verdade lentamente ficamos acomodados em nossas cadeiras esperando as informações ou confiando apenas nos telefones. Não é problema técnico, é atrofia dos olhares e pensamentos. Vocês até então desconfiavam das nossas informações e comentavam entre si baixinho ou no MSN, então está na hora de justificar este diploma e contrapor as informações quando aparecem de forma nebulosa diante de nós. Simples ações evitam o errado vire verdade às custas do nome de vocês.
Esse é o bem maior de vocês, a reputação. Preservem isso, não deixem que o sucesso tire os pés do chão. Não tenham pressa, construam suas reputações de maneira sóbria. Leva tempo, mas é recompensador e sólido. Vivemos em tempos complexos, como afirma Edgar Morin, e vocês são parte de um todo conhecido como sociedade, mas o todo está na parte. Não adianta abrir um telejornal com denúncias sobre corrupção se passamos dos limites para chegar lá.
Serão noites difíceis, sem dúvida, mas o bom trabalho e a resistência sustentada pelo correto nos momentos mais amargos levará vocês até aquele instante supremo da profissão, quando somos úteis para o todo. Não será fácil, nem todos irão compreender, mas este pequeno grande prazer vicia e nos leva a outros desafios e vitórias. E quando parecer difícil, fechem os olhos e voltem não só para esse momento de hoje, mas para toda a jornada até aqui... pensem e honrem todas as pessoas que procuraram os nomes de vocês nos menores espaços ou nos boletins mais curtos e sempre estiveram do lado.
Esse apoio vale muito, mesmo. Virão decepções, infelizmente, mas aprendam a reconhecer quem sempre esteve do lado. Essas pequenas fortalezas serão a base para ir além, para parar no final da noite e recarregar as baterias para mais. Deixem que o amor calibre a tolerância de vocês e até mesmo diferenças de pensamento sejam resolvidas sem brigas. Nessa hora tenham certeza de que profissionalmente e pessoalmente estarão colaborando muito para o bem comum.
Provavelmente isso vai custar um pouco da juventude de vocês, mas preservem essa qualidade. Não fiquem chateados quando isso for motivo para outras pessoas esquecerem a competência e duvidarem de um trabalho bem feito. Tenham calma e respondam da melhor maneira possível, mostrem que são bons jornalistas.
Essa formação para construir a informação não termina por aqui. A caminhada apenas começou e vocês não podem parar. O aprendizado deve ser constante e sempre dará mais força e conhecimento na hora das pautas, tenham certeza disso. Voltem até a Famecos, a casa de vocês, sempre estaremos esperando, seja para novas jornadas, para tirar uma dúvida para não publicar errado ou mesmo para matar a saudade tomando um capuccino. Nós também precisamos disso.
Não esqueçam, filhotes,
Vocês serão nossos olhos em pautas que sonhamos fazer
Vocês serão nossos ouvidos quando as fontes falarem
Vocês serão nossas bocas em perguntas que vão desmontar os entrevistados
Vocês são a nossa esperança de um jornalismo melhor.
Parabéns. Fiquem com Deus e tenham boas carreiras. Muito obrigado.
Foto @Chelkanoff





