hoje mesmo

| 1 pê ésse

não faltaram advertências: que não será a mesma coisa, que vou me arrepender, que os tempos mudam.

dane-se o tempo. enfim surgiu a oportunidade de viajar às alterosas.

então que planejando, descobri que divinópolis é a maior consumidora per capita de cerveja no país.

86 litros por ano. to indo lá. HONRAR & CELEBRAR a conquista.

desconheço a fonte original desses dados, mas não importa. vou lá, vou encontrar meus velhos amigos, vamos beber e pronto. porque sim.

às 22h45.

garoa

| 3 pê ésses

não é uma calçada muito movimentada. a alguns metros aparece uma garota - leva nos braços um pequeno vaso de flores, apoiado ao peito, e olha para ele. não são flores tão bonitas, não são as melhores, não chamam minha atenção, mas ela olha e sorri e acolhe aquilo como se fosse um bebê. talvez seja um presente, talvez seja um último rastro, uma saudade, não sei, mas o sorriso me cativa.

ela levanta o rosto e olha para a frente. se dá conta de um estranho caminhando no sentido oposto a ela, um estranho que a encara há sabe-se lá quanto tempo. fecha a cara fecha o tempo engole o sorriso mata minha alma.

~

me apaixono pela garota do ponto de ônibus. é quieta, tímida, envergonhada, deve ser. esconde um segredo. não. vários segredos. inúmeros. quero conhecer todos.

eu já tinha certeza de que ela ia subir no meu ônibus. de longe do banco em que me encontrei, destrinço a sua vida e desvendo alguns segredos: é imperfeita e tudo é simplesmente perfeito. último ponto da teodoro, ela se levanta. grito, chamo por ela, imploro que fique, mas ela ignora meus pensamentos e vai. só trocamos olhares em um instante para nunca mais.

eu nunca mais vou ver muita gente.


One nation under

| hit me!

SP já possui uma câmera para cada 16 habitantes


"No momento em que sai de casa, todo mundo já passa a ser gravado. Tudo é possível de ser monitorado"
- Selma Migliori, presidente da Abese


Banksy


"Tendo a violência como desculpa e o medo das pessoas como justificativa, invade-se a intimidade. O nível de neurose e o medo aumentaram, mas a sensação de segurança da população não é maior com esse aparato"
- Sérgio Kodato, coordenador do Observatório da Violência da USP


Rafael Sica


última ressaca

| hit me!

Corriam e se escondiam e se atropelavam, mas acima de tudo rogavam praga contra todos aqueles inúteis que nunca fizeram nada para preveni-los do dia que enfim chegava. A verdade é que todos sabiam que isso ia acontecer, mais cedo ou mais tarde. Em contraponto ao sentimento de desespero que tomou conta da população, a culpa e a raiva invadiram forte as traquéias de cada um. Sabiam que de nada adiantava reclamar, assim como era inútil e fútil correr, uma vez que as catástrofes se fizeram onipresentes. As consequências fizeram questão de corroer a pele de todos, deixando claro e indiscutível que era igualmente de todos que vinham as suas causas.

Em resumo, tão cedo quanto se deram conta no século XX de que o planeta não aguentaria muito tempo, não tardou para que surgissem protestos de todo tipo. Pessoas nas ruas, ações diretas de grupos radicais, documentários, canções, a atenção que dava a mídia, os resmungos e blasfêmias dos bares, as promessas dos políticos que geravam mais resmungos que geravam mais promessas, até as indústrias e gigantes corporações difundiam a ideia através da publicidade: um assunto crescente, conhecido, alertado, banal e chato. Se houveram propostas de mudança ou se houve a mais absoluta inércia, não faz diferença, agora que nada disso sobrou. As pessoas morreram, a tecnologia foi perdida, o mar caiu em calmaria e com ele todas as formas de ondas, líquidas ou eletromagnéticas, se extinguiram. Nada: uma planície absoluta em silêncio, repousando das estradas aos desertos.

Ahh, mas como os niilistas gostariam de viver num mundo como esse, sim! Não eu. Antes tivesse morrido. Que fosse enterrado debaixo dos escombros do maior dos shopping centers, a cabeça esmagada pelo peso do painel de uma rede de fast food, deteriorando em carne viva junto a milhares de playboys e madames e sorrisos inflados de botox com banha da bunda pendurada na cara. Uma morte dolorosa, cruel, indigna, mas, diabos, rápida. E não sobraria ninguém para julgar minha miserável decadência, ninguém para testemunhar a desgraça que o destino me reservou. Mas tive eu que sobrar de testemunha para a desgraça de todos os outros. Pouco me lixo para os outros.

Porque oras, a história tal como conhecemos morreu, partimos novamente do zero. Os filmes e discos, maioria dependente das tecnologias digital e elétrica, serão cada vez mais raros. Mesmo os livros, sabe-se lá quantos estarão dispostos a ler. Eu não vou. Acorda, ei, o mundo acabou, entenda, não, não vou ler! Não dependam de mim para manter o conhecimento linguístico de uma nova sociedade, nunca li Shakespeare e não pretendo. Nem espero que outros alguéns se importem com isso. Os leitores e estudiosos sempre fizeram parte de uma minoria e a sociedade provavelmente vai continuar assim, procrastinando e ignorando os inúmeros livros nas prateleiras das bibliotecas, até que também se deteriorem e a língua caia em desuso. Nada de romancismo, nenhum herói para nos salvar (nem jamais conseguiria) convencendo todos a se manterem juntos em harmonia e salvarem a língua e a história da humanidade. Melhor assim. Não suportaria tamanha arrogância, um grupo ínfimo, insignificante, de pessoas determinando o que fará parte do nosso futuro e o que não. "Ahn, humm, talvez seja melhor deixar de lado a parte que nós destruímos o mundo?" Exatamente como aconteceu quando formularam o sistema de educação, percebendo uma chance de padronizar pensamentos e se aproveitar disso com seu poder de aparente sabedoria e civilização. A nova era chegou para confirmar que eles estavam errados: a civilização falhou. Desmoronou. Todas elas, caboom, fim de jogo: restart? Y/N?, não obrigado, aqui está a conta.

Nas aulas de geografia me dispersava imaginando se haveria música em lugares remotos. Tirando o Brasil como referência, percebendo a diversidade de estilos que variavam do norte ao sul, ou nem tão longe, mas até mesmo de estado para estado, não seria de se espantar que houvessem tantas quantas infinitas combinações estilísticas e musicais, inimagináveis, entre, diga lá - a Mongólia e o Cazaquistão. Quer dizer, isso nunca pareceu de interesse geral. Metade de uma nação saberia qual é o hit do momento nas baladas mais badaladas da cidade, enquanto a outra metade reclamaria do quanto a cultura baixou de nível dos velhos tempos para cá, mas ninguém seria capaz de pensar que, ei!, o mundo é grande e existem seis bilhões de pessoas nele, então talvez exista música boa e interessante escondida em algum lugar, vamos procurar?

Nada disso importa, agora que a geografia foi implodida pela Natureza e o Homem voltou a ser não mais que uma criatura rodando sem rumo em volta de uma bola achatada de matéria flutuando no vácuo ao meio do inconcebível infinito amém. Seu ego está agora tão diminuto quanto sua existência. Deus nos criou a partir do barro para que chegássemos ao nosso estágio final de evolução: nos igualamos aos macacos.




uma observação (imagino que desnecessária). o autor não concorda com o personagem em algumas coisas, especialmente no parágrafo 3 e começo do 4.


É uma das justificativas da polícia militar para o ataque de ontem na Usp. Quem disse foi o capitão e porta-voz Marcelo Gonzales para a Rádio Bandeirantes, por cerca das oito horas da manhã de hoje.

Isto é, preservar a integridade física usando bombas de efeito moral, cacetete e gás lacrimogênio. Sim, claro, faz todo o sentido.

~

Em um momento de inspiração, poucos minutos depois de começar o ataque (ao vivo também para a Rádio Bandeirantes), o coronel Cláudio Longo, comandante da operação, justificou-se dizendo que "um grupo pegou os policiais que tavam aqui dentro, de motocicleta, e fizeram reféns; começaram a agredir os policiais e a tropa teve que ir em socorro". Nestas mesmas palavras (aos 15 minutos e 30 segundos do arquivo de áudio).

Recapitulando:

Segundo o coronel, estudantes PEGARAM os policiais de suas motocicletas (que os pobres coitados não tiveram tempo de fugir ou se proteger, afinal todo seu equipamento não era páreo para os livro e mochilas mortais dos estudantes terroristas) e os fizeram de REFÉNS.

Tá.

~

Esse mesmo senhor coronel, durante a mesma entrevista, discute com uma garota que lhe aparece aos gritos argumentando algo sobre os absurdos cometidos pela PM. Ele ameaça prendê-la. Ela quer saber a razão. Desacato à autoridade, ele diz.

~

O repórter finaliza falando que ainda há tensão no local, com "estudantes que agridem policiais e policiais queeee... retiram estudantes".

~

Onde quero chegar: está claro que as razões apresentadas pelos representantes da polícia são falsas. Não preciso explicar isso. As grandes mídias (ou seja, aquelas nas quais você não consegue expor a sua voz) dão sempre atenção especial às versões dos policiais. Tanto que na manifestação, os repórteres seguiram atrás do próprio batalhão da polícia, como a segunda fila de combate em um campo de guerra. Eles não querem as versões dos manifestantes, não lhes interessa. E essa mídia é a maior formadora de opinião da população. Façamos as contas.



ps.: informação sobre a matéria na rádio via diego barreto, do blog perambulagens.



bukowski, Pulp

| hit me!
Era uma luta desigual, e se a gente dormia na própria cama já era uma preciosa vitória contra as forças. Eu tivera sorte, mas alguns dos passos que dera não os dera inteiramente sem pensar. Em geral, porém, era um mundo horrível, e eu muitas vezes me sentia triste pelos outros.

Bem, ao diabo com isso. Peguei a vodca e tomei um trago.

Frequentemente, os melhores momentos da vida são quando a gente não está fazendo nada, só meditando, ruminando. Quer dizer, a gente pensa que todo o mundo é sem sentido, aí vê que não pode ser tão sem sentido assim se a gente percebe que é sem sentido, e essa consciência de falta de sentido já é quase um pouco de sentido. Sabe como é? Um otimismo pessimista.


Sei como é. Achava que era só eu; sempre achamos.

No balcão de um bar sentado entre a Morte e o Espaço. Então penso no que teria acontecido ao canário desbotado de vermelho.


00:27

| hit me!

a arte não tem porque imitar a vida. a vida é um quarto escuro, largado, empoeirado, onde ficamos deitados no canto embaixo de um sofá rezando para não sermos vistos. a vida deveria imitar a arte. deveria ser fantástica. romântica em toda sua melancolia.


Sampa Moriarty

| hit me!

Compramos duas cervejas na Praça da Sé e paramos para observar um pequeno grupo de forró tocando por esmola. A música era agitada, mas os ânimos de todas as pessoas em volta estavam no mesmo nível de quando num trem da CPTM em horário de pico. Formava-se uma rodinha e se revezavam cerca de 10 pessoas, parando, olhando, às vezes balançando a cabeça timidamente em sinal positivo e esquecendo do momento tão logo virasse de costas. Dean se deliciava com tudo isso. Foi até os músicos, se virou para mim e apontou na cara de um deles como se apontasse para uma pintura: "Repara no semblante deles, cara! Não rola emoção nenhuma!", voltou para trás da linha invisível que separava esse grupo do público e seguiu a gozar do que para ele soava como um momento único, "Sim, sim, sim!". O músico não se importou. Logo ao lado um louco vestido de messias pregava suas palavras enquanto outros quatro com o mesmo figurino distribuíam folhetos. Ninguém lhes dava muito crédito, mas muitos paravam para ao menos escutar. O desespero é tamanho que qualquer fé é bem vinda. Enquanto eu observava isso, Dean enrolou um baseado com uma técnica brilhante. Acendeu, deu uns tragos, levou para o músico e rodou por mais alguns em volta enquanto eu observava tudo e ele gargalhava e gargalhava de algo que não saberia explicar. Ria sem parar, falava com todos ao redor, levava a maconha para o messias e do messias para os músicos e dos músicos de volta para o messias. Eu estava em transe por aquele momento, puxei uma senhora de surpresa para dançar forró e ela quase morre de susto e ela quase morre de rir e nós quase morremos de tanto dançar. Dean aprovou a idéia com muito gosto e convidou uma das seguidoras do louco, uma morena gostosa que não teve êxito nenhum em esconder seu corpo com aquele vestido longo e chapado, e que apesar da aparência de santa não tardei para descobrir o quão deliciosamente bem é uma pecadora. Logo, um casal de jovens se juntaram a nós, e depois um casal de velhos, e mais casais se juntavam até um bom trecho da praça se tornar um grande palco de dança. Os músicos perderam a expressão de imigrantes derrotados e começaram a tocar com cada vez mais vontade e prazer, rindo, errando, improvisando e atendendo a pedidos de sua multidão de fãs, formado desde por velhos tarados aproveitando para passar a mão em garotas anônimas, a executivos de terno intimados na surpresa por um indie-neo-hippie qualquer na porta do metrô. Certamente os músicos ganharam mais gorjeta do que nunca e imagino que devam ter passado sempre a convidar alguns amigos para dançar quando tocam na praça, chamando mais atenção das pessoas, entretendo e ganhando e se divertindo mais, até num ponto que provavelmente começaram a render tanta grana que deixaram de se preocupar com isso para simplesmente seguirem com seus projetos ou talvez tocar em lugares inusitados apenas por prazer. Não ficamos muito tempo lá; Dean pegou a religiosa fanática e partimos para mais um bar.

(personagem pego emprestado com o kerouac e texto concebido bem de surpresa)

Alguns dias atrás revi esse amigo; esse de um coletivo que fiz parte nos meus últimos anos em Divinópolis. Fomos a um gig no Impróprio, outro do Cólera na Barra Funda, trocamos novidades e brindamos por três bons dias. Nos encontramos com dois suecos que vieram para o Brasil encontrar uma parente, e que resolveram conhecer alguns poucos lugares - dentre eles, um fim-de-mundo de 200 mil habitantes, sem atração turística nenhuma e anônima para todas as maiorias absolutas. Acho que não foram nem ao Rio, mas foram lá, e isso e algumas outras coisas me fizeram ter um orgulho gigante da cidade.

Apesar de ter uma cultura conservadora, com as três poucas "grandes atrações" sendo rodeio, festa à fantasia e festa da cerveja, levando bandas de pop rock em decadência e reunindo jovens que em geral seguem um modelo globo/mtv way-of-life, Divinópolis conta com um movimento underground pequeno porém FORTE. Músicos, poetas, videomakers, punks, rappers, headbangers, indies, loucos que fazem uma grande diferença na cultura local. Gente que se sente incomodada com algo e passa isso claramente com uma mensagem construída na base do do-it-yourself.

Então ontem rolou um papo com alguns comparsas da Verbeat sobre o fazer acontecer, motivações, mudanças, e tudo me fez lembrar mais uma vez de que devo a mim mesmo a divulgação desse trabalho. Meu tcc, um documentário de 26' sobre os produtores independentes da cidade e onde eles firmam suas raízes. Gente que me serviu como exemplo de que "outra coisa" é possível, por mais romântico que isso possa soar.

"Em busca da radicalidade perdida".

(Ou no youtube, em três partes.)


tijolos

| hit me!

Então que na volta para casa me assusto ao deparar logo à minha esquerda com uma quantidade torrencial de livros empilhados e com um sujeito carregando um carrinho de mão lotado de vários deles, à porta daquilo que me pareceu ser algum sebo num processo de mudança do mais desorganizado que já teria presenciado. Sebo, confirmaram. Ou, como disseram, "coisa do tipo". Entro.

A princípio pensei que era um labirinto ou corredor sem fim onde eu me perderia fácil, mas tinha uns 20 metros por algo em cerca de 50 centímetros. Cercando-me por todos os lados, via apenas PAREDES de livros, seguindo do chão até uma altura maior que a minha, com apenas um tablado de madeira apoiando eles por trás e sem uma estante sequer poupando o esforço que têm as letras das páginas mais próximas do chão. Não exagero em dizer que eram paredes de livros - era isso mesmo, como tijolos à mostra do corredor mais antigo, estreito e mal produzido que se possa imaginar. Caos, coisa linda.

A última coisa em que penso é ver os livros que o lugar tem a oferecer. Não sei por onde começar. No final do corredor, um minúsculo hall que deve levar a um banheiro emporcalhado e uma conexão a uma loja de móveis usados, todos igualmente empilhados, mas algo já bem comum nos arredores da estação Marechal Deodoro. E revista pornô, e hentai... Pô. Acho que vi alguma lógica sequencial no espaço: o começo do corredor tem literatura, romance, dvds... depois aparecem enciclopédias e livros acadêmicos; e por fim, pornografia. Marketing simples e funcional.

Admirável Mundo Novo. Volto e pergunto ao dono como é possível que ele tenha arrumado tantos livros com um espaço tão pequeno, e ele me responde da forma mais simplória e humilde possível. Comprando. Não sei o que eu esperava, mas tinha a impressão de que boa parte era roubada.

Cem Anos de Solidão. A Metamorfose. Não sabia bem o que fazer, me senti como os personagens de todas aquelas histórias futuristas que ainda não li, quando descobrem um universo subterrâneo de alguma comunidade de resistência ao Estado autoritário. Ou como o personagem de Borges que se encontra frente ao "objeto secreto e conjetural, cujo nome usurpam os homens, mas que nenhum homem olhou: o inconcebível universo". (Melhor conto.)

Dom Quixote, vol. 2. "Faço por dez". Comprei. Blasfemei por não ter conhecido o lugar antes. Sempre um sentimento de que a vida não começou.

E na rua seguindo meu rumo, não pude deixar de pensar no vendedor como um desses cavaleiros andantes, vencendo moinhos, edifícios, carros, televisores e outros tantos endemoniados gigantes.

 

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