Corriam e se escondiam e se atropelavam, mas acima de tudo rogavam praga contra todos aqueles inúteis que nunca fizeram nada para preveni-los do dia que enfim chegava. A verdade é que todos sabiam que isso ia acontecer, mais cedo ou mais tarde. Em contraponto ao sentimento de desespero que tomou conta da população, a culpa e a raiva invadiram forte as traquéias de cada um. Sabiam que de nada adiantava reclamar, assim como era inútil e fútil correr, uma vez que as catástrofes se fizeram onipresentes. As consequências fizeram questão de corroer a pele de todos, deixando claro e indiscutível que era igualmente de todos que vinham as suas causas.
Em resumo, tão cedo quanto se deram conta no século XX de que o planeta não aguentaria muito tempo, não tardou para que surgissem protestos de todo tipo. Pessoas nas ruas, ações diretas de grupos radicais, documentários, canções, a atenção que dava a mídia, os resmungos e blasfêmias dos bares, as promessas dos políticos que geravam mais resmungos que geravam mais promessas, até as indústrias e gigantes corporações difundiam a ideia através da publicidade: um assunto crescente, conhecido, alertado, banal e chato. Se houveram propostas de mudança ou se houve a mais absoluta inércia, não faz diferença, agora que nada disso sobrou. As pessoas morreram, a tecnologia foi perdida, o mar caiu em calmaria e com ele todas as formas de ondas, líquidas ou eletromagnéticas, se extinguiram. Nada: uma planície absoluta em silêncio, repousando das estradas aos desertos.
Ahh, mas como os niilistas gostariam de viver num mundo como esse, sim! Não eu. Antes tivesse morrido. Que fosse enterrado debaixo dos escombros do maior dos shopping centers, a cabeça esmagada pelo peso do painel de uma rede de fast food, deteriorando em carne viva junto a milhares de playboys e madames e sorrisos inflados de botox com banha da bunda pendurada na cara. Uma morte dolorosa, cruel, indigna, mas, diabos, rápida. E não sobraria ninguém para julgar minha miserável decadência, ninguém para testemunhar a desgraça que o destino me reservou. Mas tive eu que sobrar de testemunha para a desgraça de todos os outros. Pouco me lixo para os outros.
Porque oras, a história tal como conhecemos morreu, partimos novamente do zero. Os filmes e discos, maioria dependente das tecnologias digital e elétrica, serão cada vez mais raros. Mesmo os livros, sabe-se lá quantos estarão dispostos a ler. Eu não vou. Acorda, ei, o mundo acabou, entenda, não, não vou ler! Não dependam de mim para manter o conhecimento linguístico de uma nova sociedade, nunca li Shakespeare e não pretendo. Nem espero que outros alguéns se importem com isso. Os leitores e estudiosos sempre fizeram parte de uma minoria e a sociedade provavelmente vai continuar assim, procrastinando e ignorando os inúmeros livros nas prateleiras das bibliotecas, até que também se deteriorem e a língua caia em desuso. Nada de romancismo, nenhum herói para nos salvar (nem jamais conseguiria) convencendo todos a se manterem juntos em harmonia e salvarem a língua e a história da humanidade. Melhor assim. Não suportaria tamanha arrogância, um grupo ínfimo, insignificante, de pessoas determinando o que fará parte do nosso futuro e o que não. "Ahn, humm, talvez seja melhor deixar de lado a parte que nós destruímos o mundo?" Exatamente como aconteceu quando formularam o sistema de educação, percebendo uma chance de padronizar pensamentos e se aproveitar disso com seu poder de aparente sabedoria e civilização. A nova era chegou para confirmar que eles estavam errados: a civilização falhou. Desmoronou. Todas elas, caboom, fim de jogo: restart? Y/N?, não obrigado, aqui está a conta.
Nas aulas de geografia me dispersava imaginando se haveria música em lugares remotos. Tirando o Brasil como referência, percebendo a diversidade de estilos que variavam do norte ao sul, ou nem tão longe, mas até mesmo de estado para estado, não seria de se espantar que houvessem tantas quantas infinitas combinações estilísticas e musicais, inimagináveis, entre, diga lá - a Mongólia e o Cazaquistão. Quer dizer, isso nunca pareceu de interesse geral. Metade de uma nação saberia qual é o hit do momento nas baladas mais badaladas da cidade, enquanto a outra metade reclamaria do quanto a cultura baixou de nível dos velhos tempos para cá, mas ninguém seria capaz de pensar que, ei!, o mundo é grande e existem seis bilhões de pessoas nele, então talvez exista música boa e interessante escondida em algum lugar, vamos procurar?
Nada disso importa, agora que a geografia foi implodida pela Natureza e o Homem voltou a ser não mais que uma criatura rodando sem rumo em volta de uma bola achatada de matéria flutuando no vácuo ao meio do inconcebível infinito amém. Seu ego está agora tão diminuto quanto sua existência. Deus nos criou a partir do barro para que chegássemos ao nosso estágio final de evolução: nos igualamos aos macacos.
uma observação (imagino que desnecessária). o autor não concorda com o personagem em algumas coisas, especialmente no parágrafo 3 e começo do 4.
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