não gosto muito que peguem em mim. não precisa tocar, especialmente se não somos próximos; acho desnecessário. não é "nojo" ou qualquer coisa estúpida desse tipo -- só me sinto pouco confortável.

mas aí tem essa menina, na quinta série, que não entende as indiretas. todo dia quando chego na sala, lá está ela: os braços esticados, as mãos postas na altura dos meus ombros. a cada sílaba, um toque. me irrita. é provável que meus olhares pra ela não sejam os mais cândidos.

ela segue não entendendo. perdi a paciência um dia e desviei o corpo. ela fez cara de susto, mas continuou no próximo movimento a pôr as mãos em mim. por conta disso, foi nascendo um tipo qualquer de indisposição minha com relação à menina.

mas.

na última quarta-feira, entrega de notas. corrigia as provas com os olhares atentos sobre mim e chamando cada um pra conversar. chegou a vez da menina, que roía (todas) as unhas. ficou abaixo da média -- um ponto abaixo da média.

ela voltou pra carteira e quando sentou tinha uma cachoeira lhe escapando pelos olhos e soluçava de balançar o corpo. chamei de volta e perguntei. "meu pai e minha mãe vão me bater porque eu vou ficar com nota vermelha no boletim" -- entre muitas fungadas.

ela não estava mentindo. a gente sabe quando estão mentindo. "a gente", digo, professores; mas todo mundo sabe.

num movimento contínuo, tirei a prova da mão dela, mudei um errado pra um certo. a nota subiu um ponto. de vermelha foi pra azul. (é vazio.)

porque ninguém apanha por minha causa. ainda mais por causa de nota que eu tenha dado. (que não significa porra alguma.)

ganhei um sorriso. e um beijo na bochecha de uma amiga dela.

em resposta a um e-mail na lista de discussão do Centro Acadêmico das Ciências da Terra, também conhecido como CACT-Unicamp, que falava sobre três greves acontecendo (ou acontecidas) em Campinas, São Paulo, nos últimos dias: 1) dos motoristas e cobradores de ônibus, 2) do funcionalismo público e, 3) da universidade pública.

entender esse movimento é entender o mundo. são três greves, simultâneas. nenhum diálogo entre as três. reivindicações que não ultrapassam o direito individual de consumo - quero mais dinheiro para mais compra. o que, vejam, é legítimo. há que se comprar leite e pão, há que se ir a um cinema ou tomar uma cerveja no fim de semana.

sabemos que a cidade não oferece isso a todos. não da forma como ela se organiza. ou, como é organizada por nós. no entanto, imagino, lá estão faixas, carros de som, muitos gritos e palavras de ordem, as mesmas figuras e suas bandeiras, a "força do povo" em ação.

nada menos "povo" do que isso. nada menos esclarecedor do que três greves, simultâneas, que não dialogam. tinha um senhor que dizia: o necessário, meu menino, é que todos, independente se têm uma vassoura na mão, um giz, um carimbo, vestem preto ou azul, dizem bom dia ou acordam de mau humor, todos precisam reconhecer-se como uma classe. vai ver ele tava mesmo é certo. e é o que falta.

enquanto grupos segregados, desunidos, portanto fracos, continuarem "batalhando" por seus interesses particulares e não saírem (não sairmos!) às ruas aos milhões, a coisa embolorada - que boia, como disse o Diego -, permanecerá por aí. é preciso que nos reconheçamos na mesma e desagradável situação. olhar pro cara que tá do meu lado no ônibus, na fila do banco, no PF, na greve e confirmar minha semelhança, a indissociabilidade dos meus anseios dos anseios dele.

no dia 1º de Maio, dia dos que trabalham, na França (e sempre a França, me perdoem), todas as centrais sindicais - separadas e brigando por seus interesses há anos (séculos?) - se juntaram e milhões (e isso não é uma hipérbole) marcharam por Paris. Dizem que o Sarkozy evitou deixar a cama naquele dia - um mal súbito, não houve médico que explicasse.

aqui no Brasil (sempre o Brasil, perdoem mais uma vez), eu vi, meninos, uma multidão indo pra festa da CUT e pra festa da Força. nem uma festa junta eles puderam fazer. o Paulinho não teve vergonha de aparecer. mas eu e meus escrúpulos. coisa mais em desuso. vi, também, lá em Porto Alegre, linda cidade, outra multidão indo benzer carteiras em missa com a Nossa Senhora dos Navegantes, vulgo Iemanjá - que esse sincretismo brasileiro funciona à perfeição. é lindo tudo isso.

daí que: como? como se não há reconhecimento? sozinho, não dá. fica complicado.

Talvez o que me tenha acontecido seja uma compreensão e que, para ser verdadeira, tenho que continuar a não estar à altura dela, tenho que continuar a não entendê-la. Toda compreensão súbita me parece muito com uma aguda incompreensão. Não. Toda compreensão súbita é finalmente a revelação de uma aguda incompreensão. Todo momento de achar é um perder-se em si próprio. Talvez me tenha acontecido uma compreensão tão total quanto uma ignorância, e dela eu venha a sair intocada e inocente como antes. Qualquer entender meu nunca estará à altura dessa compreensão, pois viver é somente a altura a que posso chegar - meu único nível é viver.
(Clarice Lispector, "A paixão segundo GH")

:
porque estar certo de si, numa infinita pretensão de sabedoria não é de fato saber de si. é menos, e diz menos, do que flutuar em incertezas.

"todo momento de achar é um perder-se em si próprio."

Ao mesmo tempo, Kaique lê admirado o mapa da divisão estadual dos Estados Unidos. E me afirma, categoricamente, que Saint Louis é feia.

"Como você sabe?", foi a minha resposta. É possível que tenha sido essa a minha resposta? Que espécie de professor deve responder assim para um aluno que me afirma, categoricamente, que Saint Louis é feia?

Torna-se absolutamente irrelevante o que eu possa achar sobre Saint Louis. Ou como o aluno construiu a sua verdade.

Saint Louis deve ser mesmo muito feia.

O direito de transmissão das emissoras de televisão são concessões públicas. Existem (não há muito o que ser feito a respeito), mas têm uma obrigação para com o público que as assiste. É preciso que cumpram quatro princípios, dispostos no artigo 221 da Constituição Federal - que trata da "função social da programação televisiva para crianças e adolescentes". São eles:

  • I - preferência a finalidades educativas, artísticas, culturais e informativas;
  • II - promoção da cultura nacional e regional e estímulo à produção independente que objetive sua divulgação;
  • III - regionalização da produção cultural, artística e jornalística, conforme percentuais estabelecidos em lei;
  • IV - respeito aos valores éticos e sociais da pessoa e da família.

Este direito, imagino, é necessário em função da influência majoritária desse meio de informação no cotidiano das pessoas. Foi preciso pensar numa forma de exigir das emissoras uma contra-partida em troca da permissão para que transmitissem, em sinal aberto, sua programação para todas as casas brasileiras.

No entanto, pensando na qualidade do que nos é oferecido por todos os canais (e aqui excetuo apenas aqueles que são geridos pelo poder público, i.e., TV Cultura, TVE, TV Brasil, etc.), cabe perguntar até que ponto os termos da lei são efetivamente cumpridos.

"Preferência a finalidades educativas", "respeito aos valores éticos e sociais", "promoção da cultura nacional" - são ideais nobilíssimos. Mas quanto disso, na prática, é produzido pelas televisões? Qual é a porcentagem da programação de uma RedeTV!, de uma Rede Globo, de uma Rede Bandeirantes, de um SBT que se dedica com esmero e respeito à "promoção da cultura nacional"? Eu não saberia citar programas nessas emissoras que são transmitidos em horário nobre e que cumprem com as determinações da Constituição.

Me incomodo demais ao assistir televisão, mesmo que por alguns minutos. É insuportável estar diante de um veículo de comunicação que faz tudo, menos comunicar. A informação, quando tem qualidade e serventia comprovada, fica relegada a programas com os horários mais inadequados (alta madrugada ou, por exemplo, a manhã dos domingos).

O programa "Pânico na TV" é a minha medida. Trata-se de uma atração de duas horas de duração, no horário mais nobre do domingo (com início às 21h00, de acordo com o site da RedeTV!). A maioria das pessoas neste país, salvo raras e louváveis exceções, está sentada na sala de casa, com a televisão ligada nessa hora. Adultos, velhos, gente que nem presta muita atenção ao que está sendo veiculado, mas, principalmente, crianças. Às nove horas da noite, de um domingo, as crianças estão acordadas - e assistindo televisão.

Este programa, que passa duas horas no ar, não mostra nada, rigorosamente nada, que minimamente instrua uma criança. Nada que lhe acrescente qualquer conteúdo de qualidade. É um par de horas jogadas no lixo - que vão para o limbo. De tudo o que elas assistem, o que sobra são comportamentos inadequados (e digo isso porque sou professor e as manhãs de segunda-feira são o retrato da influência deletéria desse programa). Brincadeiras (de gosto muito duvidoso) que, imagino, são compreendidas como ironias (de péssima cepa) pelos adultos - mas que, entre as crianças, viram uma cansativa repetição de abusos do bom-convívio. Em outras palavras, é impossível estar mais de que alguns minutos na mesma sala que uma criança que resolva levar a sério as piadas toscas que este programa leva ao ar todo domingo.

Televisões são concessões públicas, com uma contra-partida que é a de auxiliar a divulgação cultural, o debate de ideias; a informação (ainda que não em estado puro) chega até as pessoas através da televisão. Do modo como a televisão brasileira (e imagino que este seja um "fenômeno" mundial) está estruturada, o que ela faz, mais do que nunca, é emburrecer a população. Entregando-lhe certo tipo de conhecimento que não agrega em nenhum sentido. Poderia dizer até, transformando a população numa massa inerte, que apenas recebe o que lhe é entregue, sem qualquer tipo de convite à reflexão.

Não é isso o que está escrito na Lei. Não se cumpre o que está disposto na Constituição Federal e, assim mesmo, as concessões são renovadas sem qualquer rubor.

Eu lido com crianças. Crianças que serão, num futuro próximo, o próprio País. O tipo de país que temos plantado, certamente não renderá bons frutos.

Se falo, e falo, é um grito numa ilha.

É algo trágico. Que vai muito além, na sua influência, do que nos permitimos pensar. Mas algo deveria ser feito.

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Em tempo, passei cinco minutos na frente da televisão, nesta noite de domingo. Daí a motivação para o post. Além, é claro, das salas de aula que frequento durante toda a semana.

Eu preciso que esses meninos pensem - que sejam livres para pensar e que se dediquem a essa liberdade.

Não é possível que permaneçam presos a um cabedal de ideias que lhes é pretérito sem que tenham a vontade (e o hábito, adquirido) de contestar tudo o que na maior parte do tempo parece normal.

Naturalizados, certos comportamentos sociais tornam-se uma espécie perniciosa de dogma que mais emburrece do que esclarece. E a minha função dentro de uma sala de aula é trazer à luz essas normalidades e destrinchá-las.

Mas fica óbvio que cada vez mais a resistência com relação a esse exercício de liberdade vai aumentando. Talvez minha perspectiva na comparação com a geração que hoje senta nas salas de aula seja outra e derivada de um outro tipo de construção do conhecimento e do próprio entendimento do mundo - que me permite a dúvida. Talvez seja somente um problema do "público" a quem me dirijo: excessivamente "infértil", um solo rude, já viciado.

E são crianças. São adolescentes. A força para as mudanças está neles e no entanto, o que eu vejo são reproduções irrefletidas de comportamentos que não lhes pertencem. A influência da família e de certo tipo de propaganda subtrai dessas pessoas a característica inata do "cogito", da dúvida. Eles simplesmente não duvidam, não querem duvidar e em torno de si, um escudo criado por esses elementos (família + propaganda bem sucedida) transforma qualquer tentativa de discussão num ambiente estéril.

Digo isso porque durante esses dias, achei de discutir (fiquei, pelo menos, na tentativa) alguns assuntos que tornaram à moda ultimamente. Entre eles, a "questão ambiental", suscitada pela campanha da ONG SOS Mata Atlântica, "Xixi no banho".

Como toda discussão ambiental, essa campanha propõe uma solução local, pontual, para um problema que é global. Ignorando a pertinência de uma reflexão em maior escala, incita as pessoas a uma atitude perante o problema que, além de ser algo absolutamente nojento e desnecessário, não dá conta da complexidade do processo. É, no entanto, um conforto para a tal República Morumbi-Leblon-Belvedere¹ a chance de "fazer alguma coisa" sem descalçar as pantufas, no conforto de casa. A consciência pesada fica aplacada em função de uma ação individual, inócua, mas convincente (especialmente quando em conversas com quem "não faz nada"). E esse convencimento é fruto da propaganda massiva, que usa os meios mais eficientes para tanto (no caso, um site "bonitinho", com uma trilha sonora "engraçadinha" e muitas frases de efeito) que acertam em cheio a alma do cidadão de classe média que aceita urinar no chuveiro, mas não dispensa o carro, não diminui o ritmo de consumo, não se organiza em prol de atitudes "macroescalares".

Toda discussão ambiental que se baseia na famigerada "responsabilidade individual" é um erro de perspectiva monumental. Ajuda a diminuir o sentimento de culpa, cativa pela ideia de pertencimento a um grupo "ambientalmente ativo e responsável", mas na prática não significa uma mudança estrutural; mudança que precisa acontecer se a intenção (legítima, diga-se) é a melhoria da qualidade de vida e do trato com o planeta e com nossos "vizinhos".

Educação ambiental é um faca de dois gumes. Ela deve existir, sem dúvida nenhuma, mas precisa se dedicar a instruir as pessoas ao bom convívio dentro de uma comunidade. Ambiente, este conceito, não significa apenas a floresta amazônica ou o rio da cidade; significa, também, a co-existência saudável entre todos os indivíduos da sociedade. E nesse sentido, é absolutamente necessário que se entenda a importância de não jogar lixo na rua, nos rios, de usar menos o transporte individual, de exigir esta ou aquela atitude dos governantes. Como um todo. O conjunto da sociedade trabalhando em favor de uma melhoria significativa na vida de seus indivíduos. Educação ambiental não pode mascarar essas questões seriíssimas focando seus trabalhos no "adestramento" das crianças e jovens dentro da falsa percepção de que deixar de varrer o quintal com a mangueira, desligar a torneira pra escovar os dentes, fazer xixi no banheiro são soluções efetivas contra a degradação do planeta. Porque não são. São paliativos de consciência.

O planeta está sendo degradado por conta do estilo de vida que todos levamos. Se ações individuais resolvessem o problema, ótimo. Mas apenas uma mudança em grande escala (principalmente com a alteração nos níveis de consumo) pode fazer alguma diferença².

Não adianta nada eu fechar minha torneira enquanto escovo os dentes, se um produtor de soja nos latifúndios do Mato Grosso continuar usando (e poluindo) bilhões de litros de água potável todo mês para irrigar sua plantação que vai alimentar o gado europeu.

O problema é sistêmico. Não adiantam soluções lineares.

O que não significa que a atitude deva ser a de simplesmente cruzar os braços ou dar de ombros. De modo algum. Algo precisa ser feito e é bom que hajam pessoas dedicadas a isso. Apenas que suas ações precisam ser globais, não pontuais.

Os alunos, ao ouvirem isso, recusaram a reflexão. Muitas pessoas recusam. Sentem-se até ofendidas, porque, afinal de contas, "estou fazendo a minha parte". É ótimo que exista a noção do problema, mas não é bom que as tentativas de solução sejam direcionadas equivocadamente.

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¹ Expressão cunhada (até onde sei) pelo Idelber Avelar, que vem muito a calhar.
² É emblemático nesse ponto o curta/documentário produzido por Annie Leonard, chamado "The Story of Stuff". Em menos de 30 minutos, está descrito todo o processo produtivo que destrói o planeta, baseado no consumo de massa. Há uma versão em português (dublado e legendado) neste endereço.

escrevi minhas primeiras frases em catalão.

Tinc molt desig d'aprendre a parlar el català. Escoltar música català crec que és un bon començament.

Una vegada més, gràcies per l'avís.

Una forta abraçada,

enviadas a um menino (catalão, por suposto) que me indicou meu vício atual, a banda catalã Manel. basta uma visita ao meu profile no Last.FM que qualquer um nota quanto a banda tem me acompanhado.

e mais do que isso. me põe em contato com essa língua que eu considero uma das mais belas que já ouvi. não sei até que ponto é verdadeira a afirmação de que o português, aos ouvidos estrangeiros, é sonoro, leve, "fluido", quase uma língua cantada, mas é por acreditar nesta assertiva que afirmo: eis aí uma língua para competir com a nossa em fluidez, leveza e beleza.

quem fala catalão, não termina as palavras. e, apesar de ser uma língua aparentada ao português, não se entende muita coisa do que dizem os falantes. a construção das frases, das palavras, o jeito de dizerem, como soa, por exemplo, "Els millons professors europeus" (o nome do disco do Manel), nunca vai ser o que achamos.

pretendo aprender a falar catalão. como pretendo aprender russo (mais do que apenas saber ler o alfabeto cirílico). me pergunte por quê.

  • quero não terminar palavras catalãs.
  • numa volta pela Unicamp, anos atrás, entrei no prédio onde aconteciam as aulas de línguas da universidade. cada sala dedicada a uma língua, havia hebraico, inglês, espanhol, alemão, grego, latim, japonês, francês e russo. na sala do russo, num quadro de avisos, estavam pregadas duas redações escritas naquele dia, com o cirílico cursivo (que eu nunca tinha visto). achei lindo. foi ali a decisão.

tenho um livro novo do Dostoiévski, "Братья Карамазовы" ("Os irmãos Karamázov"). é ele meu autor preferido - do pouco, muito pouco, que li. "Crime e castigo" é o maior livro que conheço (e não me refiro a tamanho). o drama psicológico, denso, cruel, poderoso influenciou tanto meu modo de pensar durante um tempo que nem sei. e agora, anos, muitos anos depois, finalmente compro "Os irmãos Karamázov", que, dizem, é a obra máxima do russo.

"livro novo" não significa que paguei extorsivos R$80 por uma nova edição. o livro é uma edição de 1980 do Círculo do Livro, com capa dura e em perfeito estado de conservação - ao que parece, nunca o leram.

ao mesmo tempo, comprei um presente para uma aluna que comemorou seus 15 anos neste sábado. "Budapeste", escrito por Chico Buarque. também um exemplar semi-novo. porque livro precisa ter história.

eis a dedicatória:

Isa,

Porque Budapeste é amarela, mesmo com um Danúbio (supostamente) azul lhe cruzando a alma e dividindo histórias entre Óbuda e Pest.

E porque a fantasia em prosa, transformada em poesia, faz da vida o que ela pode ser.

Não desista do húngaro. Não fuja ao respeito do Diabo. Aventure-se - e o amarelo, não-suposto, será sua chance de uma travessia possível.

Com carinho, Thiago e Bia.

com a intenção deliberada de que ela não entenda logo de cara.

a Cidade ela é o espaço das diferenças. e da expressão dessas diferenças. tanto quando o diferente está na quantidade de dinheiro (e aí são casas com 30 cômodos e barracos de compensado), como quando a diferença são formas de compreensão da sociedade completamente opostas.


Visualizar 6emeia em um mapa maior

o que define a Cidade é o e. não é um espaço de ou. estamos ali, todos juntos e se alguém resolve expressar sua condição, sua (in)diferença, seus anseios, todos vemos. expressar-se, na Cidade, é necessário. o desconforto, quando causado, é benéfico.

isso jamais será vandalismo. a não ser que queiramos uma cidade asséptica, não-humana, esvaziada daquilo que lhe dá vida. uma Cidade sem pessoas, não é uma Cidade. e pessoas sentem; precisam expressar o que sentem. pintam pequenos postes com feições de deuses africanos. o por quê? que se invente o porquê.


é vida. é o pulso da Cidade. é arte porque é necessário.

porque hoje, numa sala de sétima série eu dei uma daquelas aulas que fazem a coisa toda valer a pena. o tema foi "transposição do rio São Francisco" e, sem me alongar no assunto, provei pra eles o tamanho dessa mentira e como existem soluções muito mais eficazes, efetivas (que levam água a quem tem sede), baratas e honestas.

no fim da aula, a classe toda: "thiago, vamos montar uma ong e ir até lá furar poços!", "porque você não se candidata e vai lá furar poços, construir cisternas, usar direito o dinheiro público!" e eu quase chorei na frente deles; mas chorei, depois, sentado numa praça em Amparo, por entender que cumpri meu papel ali.

mostrei a eles que por mais distante que essa questão possa parecer, ela está ligada diretamente a tudo o que está errado no nosso país e que isso tem, sim, influências diretas, mais do que diretas, cruciais, nas nossas vidas, aqui em São Paulo, no Rio Grande, em Minas ou em qualquer lugar. porque é isso o que falta, "só" isso: que nos percebamos, todos, num mesmo barco, à deriva, controlado por pessoas desonestas.

fiz o que o Ministro do STF, Joaquim Barbosa, fez, ao peitar Gilmar Mendes, o presidente daquele tribunal, um canalha, um câncer, um exemplo daquilo que nos leva cada vez mais ao buraco. fiz, com muito menos coragem, com muito menos poder, mas fiz. é simbólico tal e qual. e aqueles meninos todos vão pra casa e comentam com os pais, e os pais, nos trabalhos, comentam com colegas e a informação correta se espalha e pode render frutos.

e é isso. é pra isso que venho. é esse o meu papel.

não quero pôr ninguém dentro de faculdade, não pode ser esse o meu objetivo. não é. felizmente, contra todo um sistema montado pra isso, azeitado pra criar imensas massas de manobras, não é. me esfolo em aulas que quase sempre dão errado. mas hoje, naquele sétimo ano, funcionou como deve.

e eu chorei.

amanhã, daqui a pouco, quando acordar, pra ir falar a classes sobre agronegócio no Brasil, sobre urbanização, sobre shopping centers vs. praças, vai ser essa de novo a minha tentativa: trazer esses meninos, todos eles, embotados por uma realidade absurdamente alienante, para situações e fatos que alteram seu cotidiano, o cotidiano de 190 milhões de pessoas e devem, sim, ser pensados e combatidos e aplaudidos e repudiados e imitados e expurgados.

uma aula como a de hoje, reafirma a minha vocação. uma aula como a de hoje, confirma que tenho feito meu papel - pequeno, formiga, mas absolutamente necessário.

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perdoem os erros de digitação e o mau português. aos borbotões. saiu-me aos borbotões.

posts de aniversário são sempre iguais.

mas antes que apareçam os parabéns, quero agradecer. agradecer a todos vocês, putos e amigos, comparsas, grandes irmãos, de antes e de agora - que espero seja pra sempre. agradecer por tudo e sem exageros ou hiperbolias.

foi um ano incrível ao lado de todos vocês.

obrigado. a todos.

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eu sou um cara de sorte. é um mundo inteiro que gira, um universo inteiro que canta, afinado e consequente. obrigado, você.


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de tudo, vai ficando a vontade de sempre mais. a certeza de que falhar miseravelmente é ainda um sinal de sucesso no meio em que vivo. as pessoas que importam entendem isso e compartilham comigo a vitória nos fracassos.

é com vocês que falo. é a vocês que agradeço.


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para mais: encherei a cara logo mais. que é o que sói.

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uma porra de um quarto de século.

nada.


foi ontem, mas era dia da mentira - ninguém ia acreditar.

só reafirmo: é uma honra e um prazer sem tamanho estar por essas bandas (e noutras).

sorte ao condomínio. obrigado aos comparsas tiagón e gejfin. êra.

A semana está acabando e foi assim.

Começou com o show do Radiohead e tanto choro e muita dor. Mas foi um grande show, sem a menor sombra de dúvida e não tenho mais tantos elogios a fazer - boa parte deles está aqui, o que torna qualquer nova tentativa em esforço desnecessário.

Na segunda-feira eu não trabalhei, e muita coisa aconteceu num dia só. Acordei em São Paulo e dormi em Pedreira, com muitas escalas no meio do caminho. Quando finalmente parei, a cabeça girava com tanta informação. Por exemplo, saber com alguma certeza de que até a linha amarela do metrô ficar pronta, a Chácara do Jóquei não é um lugar decente pra ir assistir a shows. É muito longe. Mesmo se você está acostumado a andar por São Paulo atravessando o mundo pra chegar aos lugares. Não vá até lá com o seu cavalo - o coitado não merece essa jornada. E a grama nem é tão verde.

Depois, trabalho. E eu sou professor - o que implica em acordar muito cedo e ir ter com muitas, mas muitas crianças. Mais do que isso, porque não é simplesmente estar lá com elas, batendo papo e contando que a linha amarela do metrô paulistano não está pronta, que o José Serra desalojou um monte de gente por causa de uma obra mal feita, que ninguém saiu culpado dessa história e que, horror!, querem que ele seja presidente do país. Não é isso. Eu tenho que ficar lá na frente deles ensinando coisas. Claro que falar sobre o metrô, falar mal do José Serra, do PSDB, das políticas públicas podres desse partido podre, do show do Radiohead, é ensinar - mas me obrigam a falar, por exemplo, sobre conceitos demográficos (população relativa, população absoluta, crescimento vegetativo e coisas tão chatas quanto). "É o que está na apostila e precisa ser dado". É o "conteúdo". E mães mandam bilhetes nas agendas dos filhos se o "conteúdo" não é cumprido à risca.

"Conteúdo" o meu ovo. Mas os caras me pagam pra isso e eu, uma puta da educação, não tenho muita opção. Ensino sobre conceitos demográficos. São uns quatrocentos alunos - e eles precisam saber do metrô, das coisas erradas do governo José Serra; não sobre taxa de natalidade, assim, crua. Se eu pudesse juntar as duas coisas e falar sobre metrô+natalidade, porra, seria fenomenal - porque aí eu teria chance de falar do show -, mas não me deixam, porque existem as apostilas e elas têm prazos e datas e. Então fica um pouco complicado.

Mas nem sempre é isso. Porque a gente precisa do caos. "A gente não quer eles quietos" aprendendo sobre as feições geomorfológicas da América. A gente quer eles andando pra lá e pra cá dentro da sala, experimentando, atrapalhando a professora na sala ao lado (que devia estar ensinando alguma coisa sobre números primos) e aprendendo - apreendendo, assim, a vida. Porque senão é sentar e esperar bater o sinal. Uma hora ele bate, mas tem uma diferença crucial entre esperar ele bater, sentado, resignado, e espera ele bater cansado, suando, depois de ter feito o moleque notar que, sim, existe uma relação direta entre a música que ele gosta de ouvir e a geografia, essa que eu tento mostrar pra ele - longe, muito longe das porcentagens e dos índices. Eu odeio índices. Se você, durante uma conversa, fala em números, eu paro de te ouvir. Sem o menor constrangimento. Acendo um cigarro e vejo a Billie Holiday sorrindo e cantando. É muito mais divertido e significa muito mais pra mim.

Devia significar mais pro mundo. Viveríamos melhor. Sem índices e com as divas do Jazz flutuando entre nossas cabeças. Cantando e sorrindo.

Eu fiz eles me contarem, em poucas linhas ("Atividade chupeta", era o nome do... exercício?), o que eles sentiam quando escutavam suas músicas preferidas. Que escrevessem livremente e me contassem o melhor possível como era escutar aquela música. Sem me dizer o nome da música, porque essas crianças andam com um gosto terrível pra músicas.

Eles escreveram e os resultados, se não excepcionais, me deram a medida das coisas que eu esperava: apesar de ouvirem músicas ruins, existe a possibilidade de um dia eles pararem por sete minutos e contemplarem a beleza que é Ella Fitzgerald sendo genial - e seus óculos fundo-de-garrafa. Está ali, escondido, mas está ali essa possibilidade. Tanto que quando a música que tocou fui eu quem escolhi, as reações foram maiores e melhores (em quantidade e em qualidade). Escrevam mais e, que lindo!, se surpreenderam ao descobrir que existe algo além e que, sim, eles podem gostar das músicas que o professor maluco escuta. Vi olhos lacrimejando (além dos meus) enquanto assistíamos ao Justin Vernon cantando à capela. Isso não tem preço - e nenhuma apostila inspira professores a agir assim.

Odeio apostilas.

Então, cansa. É massacrante, porque só dá certo em 20% das vezes. Você vai criar e na sua cabeça vai ser mágico, perfeito. Na hora, quando os outros precisam comprar sua ideia, nada vai acontecer como programado. O caos é meu amigo, companheiro de aulas, mas ele cansa, às vezes. E apesar disso, não me vejo fazendo outra coisa.

Agora fico aqui, ouvindo o disco novo do Mastodon. Amanhã não tenho hora pra acordar e essa sensação é das melhores que posso ter. Não ter horário. Porque o difícil não é acordar cedo, é ir dormir sabendo disso.

Mas o disco. Fui apresentado ao Mastodon ouvindo "Leviathan". E me surpreendi ouvindo uma banda de metal progressivo e curtindo muito. Ouvi acompanhado pelos melhores comparsas e, dizem, a chama do metal acendeu em meu peito tão dedicado ao folk e ao rock alternativo. Esse disco novo, "Crack the Skye", é diferente daquele. Me parece que tem mais guitarras e mais "gritos". A faixa seis, que dá nome ao álbum, é uma mistura estranha de coisas que costumo ouvir com esses "gritos" (que vêm entre aspas porque provavelmente têm um nome correto, que eu desconheço). Sou um "ser não-metal", mas não nego a qualidade dessa banda e que ouvindo essas faixas ganho uma força qualquer, um ânimo diferente. É bom. Diferente do primeiro que ouvi, mas bom, sem dúvida.

[São os amigos que têm dado o tom aos últimos tempos. Um tanto de referências novas e descobertas maior, muito maior do que eu.]

Foi uma grande semana.

Eu não sei do lugar - porque eu não estava lá. Entre o que eu escrevo agora e o começo de noite do domingo, morri uma parte e renasci outra. Se tinha mais 35mil pessoas ao meu lado, se choveu ou se fez frio, se os amigos estavam ali pra ser encontrados, se a luzes ou o vento, se a lama... Não sei. Eu não estava lá.

Não sei quais foram todas as músicas. Não lembro de ter respirado por duas horas e meia. Mas chorei. Chorei porque sim e porque foi a recompensa mais incrível por mais de dez anos de espera. Uma catarse minha, em mim - num tudo ao mesmo tempo que.

Tudo doía. O corpo todo, dolorido e amortecido. Em alguns momentos tudo o que estava muito confuso e difuso (com exceção do palco) voltava a ganhar forma, porque a dor de ficar em pé, num piso irregular, insistia em me trazer de volta à Chácara do Jóquei. Mas eu não estava ali - e se a dor rasgava os músculos, a próxima música sempre trazia mais lágrimas e uma euforia contida, silenciosa, como que por respeito.

E não porque sejam deuses de um planeta distante do meu. Eram ali uns meninos, tocando instrumentos e cantando - como tantos outros. Não eram deuses. Mas um respeito pela qualidade do que era apresentado, pela comoção coletiva, pela alegria de estar em pé (por quatro horas, na mesma posição) pra ver uma de minhas bandas favoritas.


Just 'cause you feel it doesn't mean it's there.


Lembro de ter pensado bobamente num momentos dos momentos em que voltei ao chão: "E a mãe do Thom, o que ela acha disso tudo? Como é?" Bobamente.

Fui absorvido pela dor e por um torpor que poucas vezes senti. Balançava o corpo pra diminuir o incômodo e pra deixar a música entrar por todos os poros. Me "alimentando de música", seguindo uma sugestão fantástica de Renmero, que junto com a Bia e a Michele, dividiram comigo a vitória. Mais essa vitória épica.

Você não ganha de mim quando o assunto são vitórias. Nunca.




This is what you'll get when you mess with us


Foram minutos infinitos. Entre uma música e outra a ansiedade me consumia. E nos primeiros acordes, adivinhados, mais uma porrada.

Um coro de 35mil pessoas convencendo a banda a continuar cantando a música que na teoria deveria ter acabado. E eles cantavam conosco. E sorriam. Eu os vi sorrindo e cantando junto. À merda com a modéstia: fomos uma grande audiência. Um coro de 35mil vozes. Catárticas. Entoando mantras. Eles estavam felizes, sorriam - riam! - e se surpreendiam com aquilo tudo.

Mas não vi nada. Eu não estava lá. Aquilo tudo não existiu. Foi sonho, com muitas luzes e uma das melhores bandas do mundo.


Your ears are burning
Denial, denial
Your ears should be burning
Denial, denial


Não quero me achar mais.

Você nunca vai me ver correndo pelado por aí, porque não é isso que eu faço. O que eu faço, na verdade, não é a mesma coisa. Ficar ali, tudo, é complicado demais, então desisto e não.

Agora, você pode me ver olhando um elefante. Olhar um elefante, almoçando, é algo que faço com algum cotidiano. Não sem um motivo. Pra te dizer o motivo, você precisa pedir. Sair contando segredos assim, sem querências, é coisa de gente que não sabe diferenciar uma boa música de um litro d'água. E não quero conversar com quem deixa de beber música.

Ficar sentado vendo o elefante ali, mascando suas folhas, evoca. E--voca. Sabe do que eu falo. Acontece algo no meio do caminho e o elefante é um planeta, de repente. Faz um chiado, como pavio, e explode em poeira -- nessa hora, é um planeta.

Mas não vou te dizer que corro pelado só pra ver sua cara de satisfação. Sua cara, satisfeita, é medonha. Um sorriso torto de qualquer coisa. Prefiro você sério e sisudo. Sise. Se.

Malaquias. Era o nome do primeiro pássaro que comi. Houve um segundo de dor e, depois, provar as pernas tenras de Malaquias me satisfez. Não com o sorriso de satisfação das pessoas de Cuiabá (cujo humor pouco varia nos dias em que os termômetros, feitos de banana, passam dos 40 pontos que não cicatrizam e).

Falho na tentativa. Fumando um cigarro. Porque.

cinco anos de verbeat e uma sensação muito, muito foda de que é tudo nosso.

fui convencido a não mais agradecer, apenas pagar com cervejas. há ainda muitas cervejas.

não se pretendem proibições. a ideia é agregar e compartilhar. não há lados nessa história.

mas estar aqui é um orgulho. é um conforto. é estar onde sempre se quis e fazer parte de algo bonito, algo cuidado, algo que é fruto de sonhos e convicções do tiago e do gejfin - mas de cada um, também.

é meter a cara, peito aberto, nas experimentações possíveis. ser livre, entre livres. encontrar as tais ressonâncias. falar línguas diferentes e ainda assim, ser ouvido e entendido.

verbeat é sentar na mesa do bar e, entre tantas risadas, destruir o mundo, deslocar o tempo, aprender e ensinar - fazer valer a pena.

é a minha casa, num cantinho de internet. é a expressão mais clara do quanto há de revolucionário e utópico em tudo isso.

mas é, principalmente, todas essas pessoas que, de uma forma ou de outra, acabei conhecendo através dela. isso, apenas isso, é mais valioso do que qualquer outra coisa.

um brinde a todos. todos os vizinhos, aos idealizadores - meus amigos.

parabéns, verbeat.

v e r b e a t  b l o g s

comentários

  • madoka, em na bochecha: :) bunitinho mesmo...
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