então que as coisas seguem e hoje, finalmente, encaro de frente a possibilidade de um mestrado. não é pouca coisa e me sinto esmagado diante de uma cobrança que é minha, uma exigência própria de que anos de estudo resultem em um trabalho coerente. fugindo da memória maldita de uma monografia de conclusão de curso feita aos tropeços, anseio por um trabalho que me dê orgulho. a mim. a academia é meu canal, mas não é dela que espero reconhecimento -- é a possibilidade de erguer a cabeça sem temor que me instiga.

o que pretendo fazer é ainda um embrião gelatinoso. por enquanto caminho por novos horizontes. permanecerei dentro da geografia -- ciência que aprendi, mesmo ao longo da faculdade, a respeitar e pela qual me apaixonei; mas meu enfoque dentro dela está mudado. devo imensamente a tudo o que aprendi até agora, mas para o que quero fazer as bases metodológicas e teóricas que domino hoje não chegam onde preciso.

minha visão de mundo foi forjada pelo últimos (quase) dez anos de estudos em geografia. não posso cuspir no prato em que comi banquetes durante esse tempo. o que se passa é, justamente, o inicio de um novo festim. pretensão de deglutir novos sabores geográficos.

é por isso que nas últimas semanas venho tentando aprender tudo o que não sei sobre o método fenomenológico geográfico. pessoas! é preciso atentar às pessoas, aos seus perceberes, às suas angústias e seus sentimentos. mergulhar sem medo nalgo que não existiu pra mim ao longo de toda a graduação. fico imaginando como tudo seria diferente se eu tivesse dado ouvidos às conversas valiosas que a Fernanda tentava ter comigo ao longo dos anos, às quais eu reagia com os ouvidos-moucos da cegueira metodológica. não adianta pensar condicionalmente a história, mas é um resultado inevitável diante do assombro que esse novo horizonte tem criado em mim.

como passei tantos anos perdido? por que não me mostraram opções antes? ah, a academia... não vale a pena entrar por esse assunto espinhento. e, novamente, não é o caso de renegar o que, de fato, foi aprendido. apenas lamento o cerceamento silente. lamento.

mas não paro.

sinto que estou me metendo num problema imenso. e que alegria. trabalho intelectual sem desafio é inútil. é preciso quebrar paredes com os punhos nus. é preciso. vou fazendo. (assim, no gerúndio.)

ainda agora, um soco me acertou o entreolhos (porque é sempre assim) e eu acredito ter encontrado o objeto de estudo da minha dissertação. acaso. caos. não há ordem possível. está aqui, o testemunho, com hora e data.

assim que tudo mais arredondado, mais lapidado do que esta rocha imensa, transmito as boas novas. basta saber que existe algo novo, um novo ânimo. e isso é muito.

a estrada pode ser o que você quiser, de metáfora a objeto de estudo. gosto dos dois e dos entremeios. gosto de estrada porque, se a viagem é em conjunto, aparece essa cumplicidade que horas dentro de um carro criam, ou, se a viagem é solitária, é um bom momento pra mergulhos na sua própria vida.

se há sorte (e eu não sei se há), seu carro é confortável de dirigir e as horas viram as estrelas de repente despontando no céu carregado. antes disso, um pôr-do-sol de dar lágrima nos olhos. as nuvens em metade: negras, já a noite; tons de tudo o que você quiser, arco-íris inteiro e as sombras e dobras e formas. lindas nuvens.

além de tudo, o frio. um frio que não corta nem incomoda, mas consegue provar que está ali, de fato. mesmo dentro do carro, está gelado. e fumar um cigarro exige a janela aberta muito pouco -- a fumaça rodopiando na janela, meio que dançando, recriando as formas que estão fora. melhor não prestar muita atenção a isso. cento e vinte quilômetros é o dobro do que está escrito na placa branca e vermelha. os dedos ficam gelados. fecha a janela, assopra quente, fecha entradas de ar, sacode, se mexe; a perna não dói.

enquanto a estrada fica ali, serpenteando embaixo do carro, escorre dos auto-falantes a música-companheira. música-self. e tem de tudo. que o sol ia se pondo, longe, na curva, e era Jayme Caetano declamando payadas que evocam terra lá longe. "folk music from out there". as montanhas: atravessando neblina e negrume, faróis quase cegadores, ouvindo Amália explicando como a Maria Rita era bonita e do que o fado português é feito. cantar é possível e libertador: grite. chore a alegria, como fazem os lusitanos.

não era de voltar tão cedo. coisas que não ficam à escolha de quem queira. nem tudo. quase sempre. tem que voltar e vir cortando chão e céu. obrigação triste.

tenho essa urgência de mar e estrada. necessidades criadas ao longo dos anos. por minha escolha, ficava nisso a vida. apesar de achar que se fosse o tempo todo mar e estrada, as urgências eram outras. tenho urgências que me impelem. necessidades simples de amigos e alguma dúvida.

me repito.

mas não era sobre mim. era sobre a estrada e a viagem de não querer vir -- mas vir. era sobre esse sentimento triste bom que aparece num fim de tarde. era frio e só.

a avenida paulista não é o lugar pra isso acontecer, mas estávamos ali e a sequência dos eventos não tem ordem lógica nenhuma. (chama "vida"). enquanto caminhávamos entre a estação de metrô errada e a que seria certa, atravessando aquela ruazinha logo antes do masp, por um segundo, os sons diminuíram, os carros -- todos, em todas as direções -- pararam, as outras pessoas -- também atravessando -- ficaram quase imóveis. tudo o que se mexia, parou (ou quase). por um segundo. não houve barulho na avenida paulista naquela noite de domingo durante um segundo.

isso tem um nome. não acontece com todo mundo.

só com quem espera e quer ver.

don't cry
you can rely on me honey
you can come by any time you want
I'll be around
you were right about the stars
each one is a setting sun

(há coisas que é preciso viver pra ouvir. há coisas pelas quais vale a pena viver.)

"Let us eat and drink; for tomorrow we shall die."


parece que os dias compridos, cumpridos, formam sobre mim uma carcaça espessa, que endurece um pouco mais. e aqui não se procura vender a imagem de que é preciso força e muita luta pra que a vida ressoe cada vez mais. muito pelo contrário: reverberar é, também, absorver. mas fica essa casca. quantas vezes já repeti isso pra quantas pessoas? "criar casca".

o olhar deslumbrado sobre o mundo, procurando no pequeno a beleza, resiste. (resiste a mim.) muita coisa tem mudado. não consigo deixar de pensar que quase morri (acho que é inevitável e mais casca). aos 26 anos, um moleque, será que um dia deixo de me ver moleque?, são muitos os arrependimentos. mente quem diz que não -- ou não sente como eu sinto. quem sou eu pra dizer? há que se errar na vida, há que se enganar, que se perder -- e desses restos também é feita a casca.

engolir o mundo é minha única opção. é a única opção que aceito.

"(...) for tomorrow we shall die."

e, no entanto, não é possível viver olhando pra trás. a possibilidade de mundo, construída aos trancos, é o modo como experimentamos esse mundo. e é minha escolha, hoje, 17 de abril de 2010, seguir caminhando: errando, apaixonado, passos dados.

verdadeiramente feliz porque outros caminham comigo. não há possibilidade de mundo, de nenhuma forma, sem o outro, sem aquele que é comparação, prumo, repulsa, aconchego, admiração. como em todos os anos, acredito, vou eu aqui, no meu aniversário, agradecer a esses poucos (mas tanto): valiosos e sempre presentes, dividindo comigo o mundo e suas coisas.

é uma vida de eterna reconstrução, de se compreender profundamente -- de ser o melhor possível.

vamos seguindo.

por obra da gentileza e atenção de tiagón chegou até mim, dia desses, as duas últimas partes que me faltavam no tripé do "Arranco": o livro "Histórias de península e praia grande/Arranco" (a sétima parte do projeto A r e a l), com os relatos das viagens de André Severo e Maria Helena Bernardes pelo litoral sul do Rio Grande do Sul, e o curta-metragem "Arranco", apresentado durante a VII Bienal do Mercosul. pra completar, a trilha sonora oficial do filme, o disco "Arranco", produzido pelo Tiago, que venho ouvindo insistentemente já há alguns meses, sobre o qual já falei aqui -- e que está disponível pra download no site do all your gardening needs.

o livro é um ensaio geográfico do começo ao fim.

se antes de corrermos afoitos ao Anglo houvéssemos conversado com o administrador do porto municipal de Pelotas, teríamos compreendido que o frigorífico era mais um dos bairros de certa cidade paralela, refratária a nossos olhos novatos e oculta dentro de outra cidade, aquela que se pode tocar e fotografar.

as viagens de A. e M. pelo litoral sul gaúcho, boa parte delas na península formada entre a Lagoa dos Patos e o Oceano Atlântico, são relatadas em textos curtos, repletos de lirismo e observações cuidadosas do espaço ao redor. um olhar próximo, mas, ainda assim, de observadores estrangeiros, que não deixam de se surpreender com os aspectos mais característicos de uma vida que é vivida de acordo com os descaminhos das forças naturais -- poderosíssimas -- de mar e de terra.

perguntamos a B. sobre as dunas que, anos atrás, ameaçavam as casas. ele disse que continuavam lá, que as pessoas se acostumavam com elas. uma cerca aqui, um tapume ali. vai-se levando.

o litoral gaúcho não se define como tantos outros. quem vai às praias espera sol rascante, areia branca, mar azul e quente -- o oposto do que se encontra na faixa ininterrupta de areia que se estende desde o sul de Santa Catarina e avança pela costa uruguaia (a maior praia do mundo fica por ali, dizem, a praia do Cassino). um sem-fim de dunas imensas, móveis, vivas, varridas por ventos fortíssimos, olhando pra um mar marrom, frio e sujo de restos de marés imensas. não existe ali a identidade litorânea encontrada em tantos outros lugares, vendida aos turistas de verões e feriados.

a gente que vive ali, "gaúchos do litoral", e aquelas que se aventuram por suas estradas, encontraram maneiras distintas de construir a identidade do local. da leitura depreende-se um espaço contíguo de lendas e histórias fabulosas de marujos, pescadores e senhoras perdidas em vilarejos esquecidos -- ainda hoje. "Piratas dos Neutrais", "O Hermenegildo" e "O filho do faroleiro", três passagens do livro, não me deixam mentir porque atestam o modo como essa população encara o seu espaço: um misto de aceitação do destino que achou de colocá-los ali, de respeito profundo pelo poder do mar, de crença em certa fantasia, certa mitologia, que ajuda a compreender, sem rodeios, o que é estar nesse lugar.

Arranco, os três Arrancos -- livro, filme e disco --, me impressionaram na forma e me deram um soco no queixo no conteúdo. especialmente a trilha sonora -- geografia: field recordings, batata-doce japão, brotas de macaúbas, toponímias, chocalhos e chuva --, que completou seminalmente a leitura.

um grande geógrafo, o professor Milton Santos, me ensinou que "o lugar, à sua maneira, é o mundo" e que o lugar é o intermédio entre o Indivíduo e o Mundo. o que faz o indivíduo transforma e significa o lugar e, dialeticamente, o lugar, com suas características inerentes, termina por condicionar (ainda que não determine) as ações de vida dos indivíduos. dizendo isso o professor me alertou muito tempo antes de Arranco que não basta que eu presuma saber algo sobre o espaço que procuro apresentar a quem quer que seja (alunos, amigos, colegas...), senão que é preciso estar em contato com a gente que dá vida a esse espaço, que cria e é criado por esse lugar, seja ele qual for.

espero visitar o quanto antes o Rio Grande do Sul, mais uma vez, mas escapando do esperado, me perdendo e tentando entender esse lugar que é, pra mim, hoje, dos lugares mais fantásticos que eu ainda desconheço. ainda que talvez eu deva tomar um pouco de cuidado onde meterei os pés, seguindo conselhos da querida Lucia Malla.

hoje eu perdi um pedaço de mim que não sei de onde saiu. não sei o que perdi, apenas que já sinto sua falta.

hoje fiquei mais velho. mais profundo. mais incompleto.

menos crente. menos sólido.

é um dia pra ser lembrado.

nunca é fácil.

ficar afastado do meu trabalho: nunca imaginei que seria o mais penoso nessa história toda. estou há quase dois meses (vai completar na segunda-feira próxima, dia 5 de abril) sem encontrar minhas salas, meus alunos, meus amigos.

cultivo utopias. sonho com outros mundos. sonhos que não quero realizar sozinho. um pouco desse desejo levo comigo em cada aula. todas as manhãs, de uma forma ou de outra, consigo renovar esse sentido. é, como dizem, como digo, um "trabalho de formiga": lento, difícil, cansativo -- mas pleno de recompensas. pequenos momentos (às vezes não tão pequenos assim) que me afagam a alma e confirmam o bom caminho que escolhi seguir.

admirei alguns professores ao longo da vida. homens e mulheres que me transmitiam, também em pequenos momentos, todo o amor que nutriam por aquilo que me entregavam -- e, inclusive, o amor por estarem me entregando. tive a sorte de encontrar verdadeiros mestres ao longo da vida e a eles devo imensa parte de tudo o que sei hoje. não enchem uma mão. mas são nomes que levarei por toda a vida, não tenho dúvidas.

jamais me imaginei professor, no entanto. e agora tenho diante de mim um bom punhado de alunos.

mundo redondo que gira.

preparar a maior aula do mundo e tentar entregar-lhes da melhor maneira. desistir da aula quando. quem sou eu pra definir condutas?

é trabalho que me exige trazer a eles questionamentos, crítica, conhecimento, crescimento -- nenhuma certeza. (nada disso está dentro de apostilas. mas esse é outro assunto.) é esforço diário de tentar passar a eles o mesmo amor que senti nas palavras dos meus mestres. mas é trabalho realista -- não entro em sala cheio de expectativas, apenas entro. esperando de mim, apenas.

deles espero pouco. nem silêncio. espero não-apatia, espero compreensão. e, claro, bato a cara no muro inúmeras vezes. tem que ser assim. "cantar nunca foi só de alegria."

mas são os pequenos momentos.

quando menos espero, tenho amigos. pra minha surpresa (sincera), de repente eles estão mais próximos de mim do que eu imaginaria possível. nunca da mesma forma. às vezes é um olhar discreto quando caminho porta a fora, às vezes é um aceno de cabeça, às vezes é contar o que não se sentem à vontade de contar a qualquer outra pessoa, às vezes é sentar comigo no meio-fio e dividir um cigarro (moralismo não está incluso).

de mim eles esperam. há olhos em que enxergo admiração. e fico sem entender: "eu? por quê?".

tem sido cruel estar longe de tudo isso.

como eu nego que este é um mundo absurdo? como eu olho pra um aluno (quando.) e digo a ele assim: "meu querido, eu sei que tudo o que eu te disse aqui faz parecer que não tem jeito e que nós estamos irremediavelmente fodidos [sim, porque eu falo "essas coisas" com meus alunos], mas não é bem assim".

eu não tenho colhões pra isso.

porque eu sento na sala depois de um jantar qualquer em que sou obrigado a comer, mais uma vez (e quem me garante que não "pra sempre"?), um prato (pequeno) de arroz e feijão com muito pouco sal e assisto trechos desconexos de um telejornal profundamente descomprometido com qualquer forma de comunicar. vejo o âncora falando sobre queda de índices de bolsa de valores, sobre aumento da cotação desta ou daquela moeda, tentando fazer isso parecer realmente relevante pra quem está assistindo em casa, como eu. e eu não acho relevante. nem ele acha -- com seu gestual comedido e entonação típica de professora de educação infantil --, mas fica ali, falando.

depois corta pra cobertura minuciosa e delirante de um julgamento de um pai e uma madrasta acusados de assassinar a filha jogando a pequena do alto de um prédio. há delírio público a cada passo do processo, detalhado infinitamente, martelado constantemente na cabeça de todos. há expectativa ignorante sobre o desfecho do julgamento, que todos esperam acabe por condenar à morte duas pessoas que talvez tenham errado. há torcida. há pessoas que passam o dia em frente ao fórum e que aparecem nas reportagens de todos os jornais exigindo uma "justiça" que não é justiça, que é desejo de sangue. em cada grito um pouco do que há de conquista humana desaparece e vamos nos tornando o que talvez nunca tenhamos deixado de ser.

como eu digo isso pra uma criança de quinze anos?

[há fogos de artifício em comemoração à condenação. há fogos de artifício.]

quantos meninos e meninas foram mortos entre o tal crime e este momento? e por que ela foi a escolhida? são perguntas que se eu respondo, consigo enxergar a esperança escorrendo pelos olhos daquela criança de quinze anos.

eu tenho que responder e ainda assim garantir que o mundo não é esse lugar terrível.

no intervalo comercial do jornal passa um anúncio de um carro. é só um carro e ele custa cinquenta e um mil reais. no anúncio avisam que este é o preço à vista. se avisam é porque há quem pague cinquenta e um mil reais à vista num carro. que, apesar disso, é só um carro. cinquenta e um mil deve ser o número de crianças passando fome em cada quilômetro quadrado do mundo -- numa média gentil.

é só um carro. apesar de tudo.

como?

professores protestando legitimamente são espancados pela polícia. estavam fazendo uma passeata perto do palácio do governo (que em teoria é um lugar público, do povo) -- onde é proibido fazer manifestações (porque um governo cerca sua grama, pondo o povo pra fora? é uma boa pergunta) -- e foram recebidos com cacetes e bombas. há muitos anos, aqui mesmo neste país, cenas assim eram comuns, mas nem todo mundo via. e muitos dos que viam achavam perfeitamente normal, porque há que se manter a ordem pública. espancando o povo. há um despropósito tão imenso nisso que. mas está tudo dentro de uma normalidade absurda, dentro de um mundo absurdo.

mas, calma, eu preciso... eu não posso...

we are just fucked up people.

não posso dizer isso pra ela. ao mesmo tempo que não tenho alma pra olhar e dizer, de verdade, não é assim tão mal.

simplesmente não tenho alma.

passei dias internado num hospital. eu podia ter morrido. eu bem que podia ter morrido. algumas pessoas mudam o mundo depois disso. eu não sei mais ser nem o cara apaixonado que um dia eu fui.

por quê?

porque esse é um mundo absurdo.

mas eu não posso dizer isso, assim.

eu não saberia convencer uma pessoa a lutar pelo que ela acredita. eu não saberia fazer crescer o desejo por um outro mundo.

me dizem que é possível. eu me digo.

e nem eu acredito.

fogos de artifício.

por causa da queda de moto de um mês atrás, acabei desenvolvendo uma trombose na perna direita e estive internado desde a última quinta-feira no hospital municipal de Pedreira.

saí e estou melhor. não curado, mas curando. é um tratamento longo, pelo que entendi. mas entendi pouco. sabendo de mais, aviso.

do caderno. não espere grande estilo. desesperação e tristeza nem sempre ajudam na composição de qualquer coisa.

~.~

5/mar/2010 :: 12h17


  • o quarto tem o pé-direito alto, com uma janela de duas folhas e vidros esverdeados. como a maior parte do hospital (que uma das enfermeiras insiste em chamar de "instituição") parece estar instalado numa antiga casa. inclusive é possível notar que este cômodo devia ser um banheiro: ainda o antigo espelho e os ganchos de porcelana pra pendurar toalhas.

  • só posso me levantar pra ir ao banheiro.

  • há quatorze horas fumei meu último cigarro.

:: 20h09


  • depois de 24 horas de espera (que parece pouco, porque clichê), mudei de quarto.

  • conhecer o que te aflige é boa parte do problema resolvido. isso explica filosofias [talvez].

  • televisão é um poderoso sonífero.

6/mar/2010 :: 12h54


  • o tempo mudou: dia frio e chuva, mas eu não vejo porque a minha janela dá pra o que eu suponho que seja a lavanderia do hotel [escrito assim, ato falho poderoso; ainda era o que parecia].

:: 14h41


  • seu Manuel, algum problema relacionado a diabetes. parece que ronca -- e é evangélico. ele não tentando me converter, permanecemos amigos.

7/mar/2010 :: 22h27


  • as injeções têm incomodado mais. acho que porque a região [em volta do umbigo, entre roxa e amarela] está ficando muito sensível.

  • o seu Manuel tem desesperado. tem sentido dor e, simples, não impõe sua dor ao eterno descaso dos funcionários do hospital.

  • os dias se reduzem a um tempinho entre as duas sessões de injeções. espero que estejam ajudando de fato.

  • vieram tirar o "acesso" dele. a expressão de medo desse senhor de mais de 50 anos e tantas histórias é apavorante.

  • duas vezes eleito vereador em Alto Apiaí, no Paraná, nove filhos (três deles adotados), diácono da Assembleia de Deus.

  • não queria ouvir isso.

  • como sobreviver a um emprego assim?

8/mar/2010 :: 8h14


  • Perla, a enfermeira ruiva contra as constantes cusparadas de seu Manuel. com visita, em frente aos médicos, enquanto conversa com as enfermeiras seu Manuel não se acanha. mas não posso ser injusto com ele: quando na presença de outros (ou mesmo se, por acidente, estou olhando) ele faz um movimento rápido e certeiro com o pescoço, lançando o perdigoto na direção diametralmente oposta de quem observa. tomara que ao menos nesse plantão Perla, a enfermeira ruiva, consiga vencer a batalha contra seu Manuel.

9/mar/2010 :: 9h25


  • seu Manuel foi embora. fez um escândalo, chamou de enfermeira a diretor do hospital, invocou o santo nome do prefeito ("[...] a casa é simples, mas ele sempre aparece pra um café."), ameaçou processo e denúncia na televisão -- em vinte minutos estava fora. me enganei sobre seu Manuel.

10/mar/2010 :: 9h56


  • Hugo e Fernanda vieram me ver ontem.

  • dia de desesperação absoluta. ouvi do médico que ainda fico mais uns dias, até a dosagem do remédio ser acertada. acho que visitei o fundo do poço e volto. "maior".

:: 13h27


  • seu Angelo Galano, 76 anos, mais um oriundi, falando frases num italiano-dialeto parecido com o que minha nonna falava.

  • "por que deus criou as montanha? porque na ressurreiçón, quando todo mundo vortá, ele vai esparramá as montanha pra caber todo mundo."

:: 16h05


  • boas notícias, especificamente sobre minha alta, seriam meu melhor remédio.

  • se meu sangue colaborou, fico mais perto de ir embora. acontece que o médico nunca está pra dizer.

:: 17h06


  • o médico acha que não.

:: 17h20


  • "pode ser que amanhã."

:: 18h25


  • queria mais memória, apesar de não gostar de manchar as poucas lembranças com este lugar triste.

:: 21h07


  • Angelo Galano [na sua caligrafia]

  • seu Angelo e suas histórias de um mundo que já não existe repetidas infinitamente (porque sim memória), sem parar (porque não olhos) e sem diálogo (porque não ouvidos) foi a fonte do meu esquecimento dessa noite.

  • fico aqui até terça.

11/mar/2010 :: 8h32


  • acabou a internação. ainda uma luta pela frente, mas isso acabou.

CLICA

são situações que eu ESPERO que tenham acontecido:

1) o primeiro cara que BAIXOU essa imagem de 2003, aos 98% de DOWNLOAD, acendeu um cigarro, encheu um copo com Jameson até a boca e virou, deu play no "A Love Supreme" no máximo volume -- que ECOOU por todo o observatório no alto do MAUNA KEA -- e se resignou em tão-somente CONTEMPLAR o que via;

2) o mesmo cara, o DOWNLOAD já completado, sentado na cadeira, os óculos jogados na mesa, a mão na testa -- que SUA --, as pernas trêmulas, uma LÁGRIMA furtiva escorrendo pelo rosto (em reconhecimento à SUPREMA INSIGNIFICÂNCIA de TUDO o que a HUMANIDADE julga SABER); toca o telefone. do outro lado, é sua esposa pedindo que ele passe no MALL e traga uma pacote de FRALDAS e um saquinho de QUEIJO RALADO ao voltar pra casa. ele chora copiosamente. a mulher não entende nada -- jamais entenderá;

3) atordoado, o astrofísico sai correndo NU pelo departamento, gritando e chorando psicoticamente, até cruzar com o segurança da madrugada em quem dá um ABRAÇO apertado e sentido. o segurança, o BOB, não entendendo nada, resolve ligar pro CENTRO DE CONTROLE em Houston e informa a ocorrência com a ÚNICA frase que lhe vem à mente: "HOUSTON, I THINK WE HAVE A PROBLEM HERE.";

4) ainda NU, depois de passar por BOB, o cara sai do prédio e se joga na NEVE que cobre o topo do VULCÃO, olhando do céu para o oceano, lá embaixo. abre o sorriso mais sincero de sua vida e, naquele segundo, COMPREENDE sua própria existência;

5) enquanto observa a tela de 42" de seu computador, o cara sente o chão tremer violentamente, olha pro lado, em direção à janela e vê o vulcão DORMENTE há 4500 anos RESSUSCITAR, cuspindo lava, rochas incandescentes, vapores e cinzas em direção ao laboratório. acende seu último cigarro, abre a última cerveja e espera. simplesmente espera. pacientemente. resignadamente.

é o MÍNIMO que eu espero.

TREZE BILHÕES DE ANOS. A TREZENTOS MIL QUILÔMETROS POR SEGUNDO. NO ESPAÇO DE UM DÉCIMO DA SUPERFÍCIE DA LUA. DURANTE QUATRO MISERÁVEIS MESES.

~.~

culpo Leandro, vulgo @trecker, por essa EPIFANIA da madrugada ao compartilhar um post com essa imagem no Reader.

já faz dez dias desde que aconteceu o acidente. dez dias em casa, a maior parte do tempo na cama, com raras saídas pra um cigarro (necessário).

e digo acidente porque se trata realmente disso. óleo na pista, numa curva em descida, asfalto quente, uma moto e suas duas rodas; chão. não tive muita escolha. voltava pra casa almejando a cerveja do fim da semana que me esperava. não deu.

tenho fotos realmente desagradáveis do estado inicial da coisa toda (que enviei ao meu serviço particular de atendimento médico, aka, Mariana Duque, pra avaliações). nenhuma necessidade de mostrá-las aqui. digo apenas que, hoje, os ferimentos estão até simpáticos. já vejo pele nova surgindo e a dor diminuiu sensivelmente.

mas foram dias longos. quase infinitos. o primeiro banho foi a maior dor que já suportei na vida. quase desmaiei duas vezes. só me segurei porque pensei no transtorno que seria carregarem um gigante de quase dois metros de altura e bem mais de cem quilos desacordado.

não acho que conseguirei andar de moto tão cedo. não se trata de um "nunca mais" esperado pra situações como essa. sinto um medo que não combina em absoluto com um veículo que não depende apenas de si pra andar em segurança. não tenho mais confiança pra sair por aí. hoje. vá saber.

(de modo que estou vendendo uma Honda Twister 250cc 2007 -- consertada e revisada pós-queda. sabendo de alguém, me faça saber.)

o pior, acredito, são as pequenas proibições cotidianas. como machuquei as mãos e os braços (além da barriga e do joelho e...) ficaram difíceis as tarefas mais banais. daí que venho nutrindo alguns desejos especialmente significantes: conseguir dormir de bruços ou apoiado sobre o lado esquerdo do corpo -- como de costume --, tomar banho sozinho, acender o cigarro com o isqueiro, andar ereto, ler livros, entre alguns outros. (tomaria uma cerveja de muito bom grado neste feriado de carnaval que passa pela televisão em desfiles e mulheres quase robóticas com seus seios de silicone e coxas descomunais semi-nuas.)

meu pequeno acervo de filmes e documentários têm resguardado minha mente da obliteração nas tardes modorrentas e quentes. pirataria salvando vidas, mais uma vez.

mas com tudo isso a ideia mesmo é agradecer, sem citar nomes etc., a todos que transmitiram seus votos de pronto restabelecimento a este acidentado, das mais variadas formas (até telefonemas recebi, veja você). fica mais fácil sabendo que por aí tem pessoas realmente preocupadas com este (ex-)motoqueiro.

valeu mesmo. o/

o álbum.

gravado em 1959, em duas sessões distintas, entre março e abril, no estúdio da Columbia Records, em Nova York.

Julian "Cannonball" Adderley no sax alto, Paul Chambers no contra-baixo, James Cobb na bateria, Bill Evans e Wynton Kelly ao piano, John Coltrane no sax tenor e Miles Davis no trompete.

cinco faixas: "So What", "Freddie Freeloader" e "Blue in Green" no lado A; "All Blues" e "Flamenco Sketches" no lado B.


entre eu e meus comparsas há muitas diferenças. nos cruzamos em muitos pontos, mas num outro cenário é pouco provável que nos tornássemos grandes amigos.

"Kind of Blue" é nosso denominador comum.

isso resume e relativiza tudo o que sobra e importa pouco.

o único prédio em que se nota algum silêncio e pessoas dormindo aqui em volta tem o nome duvidoso de Edifício Stella Luiza. parece ser um conjunto antigo, porque chama-se "edifício", mas tem apenas três andares, além do térreo -- com uma porta simples, que dá direto para a calçada. os prédios dessa região de São Paulo são antigos, em sua maioria. subindo essa mesma rua (vindo da Pedroso de Moraes) existe um portal onde se lê -- ironicamente -- "Vila Sossego": uma rua com muitas casas pequenas (como antigamente predominavam por toda cidade) que dá de cara com uma das vias mais movimentadas e caóticas em muitos quilômetros.

nos outros prédios, muito mais altos do que o mirrado Stella Luiza, algumas janelas acesas. poucas. as torres parecem enfeites de Natal com defeito. aqui e ali se notam sombras e reflexos de uma televisão ou um computador ligados. enquanto olhava, não vi pessoas.

a rua (e suas travessas) estão silenciosas. na medida do possível. ainda resquício do ano novo. é uma cidade ainda acordando pra loucura que lhe significa.

não vejo pessoas mas as adivinho resultados de tudo o que lhes faz (e fez) rir e chorar, ao longo da vida. exatamente como eu. ainda há pouco chorando ao lembrar de uma das minhas histórias revivi a sensação que me acompanhou durante muitos meses após o acontecido; me sentia a pessoa mais triste do planeta, único ser humano a carregar sobre os ombros toda a dor da vida. tive que rir da minha ingênua pretensão.

I'll tell you all my secrets, but I lie about my past.


São Paulo é um lugar especial pra quem deseja seus horizontes ampliados, suas ilusões rasgadas, seus delírios concretizados. é um lugar duro e rude. não te convida, não te afaga.

(

às quatro e quinze da manhã, pessoas que acordaram muito tempo antes estão zumbis nos ônibus que sobem -- um atrás do outro -- esta mesma rua. em qualquer dia. sob qualquer condição essas pessoas têm que estar onde quer que seja antes de eu mesmo pensar em me levantar.

)


é óbvio, hoje:

nunca fui nem serei diferente de quem está acordado, na torre ao lado, assistindo à televisão, a um filme, vendo pornografia na internet, chorando. há o mesmo em todos, algo que nos identifica, que nos torna parte de uma mesma história sarcástica e irônica.

(

pense em quem mora na Vila Sossego e a ironia, não só da cidade, te dá um tapa.

)


ano que começa com apenas uma opção: EPIC.

por enquanto,

let me fall out of the window with confetti in my hair
deal out Jacks or Better on a blanket by the stairs
I'll tell you all my secrets, but I lie about my past
and send off to bed for evermore


a quem já cantou essa canção comigo, bêbados pelas ruas de uma cidade qualquer; a quem já ouviu essa canção comigo numa noite qualquer; a quem amaldiçoou a vida comigo ouvindo essa canção; àqueles em quem tropeçarei, ao longo da vida, ao som dessa canção: happy fucking new year.

como é TRADICIONAL, verbeat corporations traz a você A LISTA dos melhores de 2009 segundo as mais diferentes e CATITAS visões do condomínio.

dia desses, el_rey comandou a playlist e criou a IMPOP LIST GALORE TOP 2009 pt 1: the BERÊ'S CHOICE.

hoje, no más, foi minha chance e está lá IMPOP LIST GALORE TOP 2009 pt 2: ÁLDUR TOP NINE

recomendo VIVAMENTE a visita. ressaltando que para seu benefício e alegria extrema ainda faltam as listas de RENNER e mano Brigatti, o americano. EM APARECENDO, aqui serão linkadas.

2009 escorre pelos meus dedos, embalado a boa música.

v e r b e a t  b l o g s

thiago gonçalves

comentários

  • Marcus, em paixão: É muito mesmo. Não...
  • tiagón, em esse L ibérico: estrada e mar são ...
  • renmero, em minúsculo: a comemoração este...
  • tiagón, em minúsculo: feliz aniversário,...
  • thiago, em el viento protege al faro: agradeço de novo a...
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