por causa da queda de moto de um mês atrás, acabei desenvolvendo uma trombose na perna direita e estive internado desde a última quinta-feira no hospital municipal de Pedreira.

saí e estou melhor. não curado, mas curando. é um tratamento longo, pelo que entendi. mas entendi pouco. sabendo de mais, aviso.

do caderno. não espere grande estilo. desesperação e tristeza nem sempre ajudam na composição de qualquer coisa.

~.~

5/mar/2010 :: 12h17


  • o quarto tem o pé-direito alto, com uma janela de duas folhas e vidros esverdeados. como a maior parte do hospital (que uma das enfermeiras insiste em chamar de "instituição") parece estar instalado numa antiga casa. inclusive é possível notar que este cômodo devia ser um banheiro: ainda o antigo espelho e os ganchos de porcelana pra pendurar toalhas.

  • só posso me levantar pra ir ao banheiro.

  • há quatorze horas fumei meu último cigarro.

:: 20h09


  • depois de 24 horas de espera (que parece pouco, porque clichê), mudei de quarto.

  • conhecer o que te aflige é boa parte do problema resolvido. isso explica filosofias [talvez].

  • televisão é um poderoso sonífero.

6/mar/2010 :: 12h54


  • o tempo mudou: dia frio e chuva, mas eu não vejo porque a minha janela dá pra o que eu suponho que seja a lavanderia do hotel [escrito assim, ato falho poderoso; ainda era o que parecia].

:: 14h41


  • seu Manuel, algum problema relacionado a diabetes. parece que ronca -- e é evangélico. ele não tentando me converter, permanecemos amigos.

7/mar/2010 :: 22h27


  • as injeções têm incomodado mais. acho que porque a região [em volta do umbigo, entre roxa e amarela] está ficando muito sensível.

  • o seu Manuel tem desesperado. tem sentido dor e, simples, não impõe sua dor ao eterno descaso dos funcionários do hospital.

  • os dias se reduzem a um tempinho entre as duas sessões de injeções. espero que estejam ajudando de fato.

  • vieram tirar o "acesso" dele. a expressão de medo desse senhor de mais de 50 anos e tantas histórias é apavorante.

  • duas vezes eleito vereador em Alto Apiaí, no Paraná, nove filhos (três deles adotados), diácono da Assembleia de Deus.

  • não queria ouvir isso.

  • como sobreviver a um emprego assim?

8/mar/2010 :: 8h14


  • Perla, a enfermeira ruiva contra as constantes cusparadas de seu Manuel. com visita, em frente aos médicos, enquanto conversa com as enfermeiras seu Manuel não se acanha. mas não posso ser injusto com ele: quando na presença de outros (ou mesmo se, por acidente, estou olhando) ele faz um movimento rápido e certeiro com o pescoço, lançando o perdigoto na direção diametralmente oposta de quem observa. tomara que ao menos nesse plantão Perla, a enfermeira ruiva, consiga vencer a batalha contra seu Manuel.

9/mar/2010 :: 9h25


  • seu Manuel foi embora. fez um escândalo, chamou de enfermeira a diretor do hospital, invocou o santo nome do prefeito ("[...] a casa é simples, mas ele sempre aparece pra um café."), ameaçou processo e denúncia na televisão -- em vinte minutos estava fora. me enganei sobre seu Manuel.

10/mar/2010 :: 9h56


  • Hugo e Fernanda vieram me ver ontem.

  • dia de desesperação absoluta. ouvi do médico que ainda fico mais uns dias, até a dosagem do remédio ser acertada. acho que visitei o fundo do poço e volto. "maior".

:: 13h27


  • seu Angelo Galano, 76 anos, mais um oriundi, falando frases num italiano-dialeto parecido com o que minha nonna falava.

  • "por que deus criou as montanha? porque na ressurreiçón, quando todo mundo vortá, ele vai esparramá as montanha pra caber todo mundo."

:: 16h05


  • boas notícias, especificamente sobre minha alta, seriam meu melhor remédio.

  • se meu sangue colaborou, fico mais perto de ir embora. acontece que o médico nunca está pra dizer.

:: 17h06


  • o médico acha que não.

:: 17h20


  • "pode ser que amanhã."

:: 18h25


  • queria mais memória, apesar de não gostar de manchar as poucas lembranças com este lugar triste.

:: 21h07


  • Angelo Galano [na sua caligrafia]

  • seu Angelo e suas histórias de um mundo que já não existe repetidas infinitamente (porque sim memória), sem parar (porque não olhos) e sem diálogo (porque não ouvidos) foi a fonte do meu esquecimento dessa noite.

  • fico aqui até terça.

11/mar/2010 :: 8h32


  • acabou a internação. ainda uma luta pela frente, mas isso acabou.

CLICA

são situações que eu ESPERO que tenham acontecido:

1) o primeiro cara que BAIXOU essa imagem de 2003, aos 98% de DOWNLOAD, acendeu um cigarro, encheu um copo com Jameson até a boca e virou, deu play no "A Love Supreme" no máximo volume -- que ECOOU por todo o observatório no alto do MAUNA KEA -- e se resignou em tão-somente CONTEMPLAR o que via;

2) o mesmo cara, o DOWNLOAD já completado, sentado na cadeira, os óculos jogados na mesa, a mão na testa -- que SUA --, as pernas trêmulas, uma LÁGRIMA furtiva escorrendo pelo rosto (em reconhecimento à SUPREMA INSIGNIFICÂNCIA de TUDO o que a HUMANIDADE julga SABER); toca o telefone. do outro lado, é sua esposa pedindo que ele passe no MALL e traga uma pacote de FRALDAS e um saquinho de QUEIJO RALADO ao voltar pra casa. ele chora copiosamente. a mulher não entende nada -- jamais entenderá;

3) atordoado, o astrofísico sai correndo NU pelo departamento, gritando e chorando psicoticamente, até cruzar com o segurança da madrugada em quem dá um ABRAÇO apertado e sentido. o segurança, o BOB, não entendendo nada, resolve ligar pro CENTRO DE CONTROLE em Houston e informa a ocorrência com a ÚNICA frase que lhe vem à mente: "HOUSTON, I THINK WE HAVE A PROBLEM HERE.";

4) ainda NU, depois de passar por BOB, o cara sai do prédio e se joga na NEVE que cobre o topo do VULCÃO, olhando do céu para o oceano, lá embaixo. abre o sorriso mais sincero de sua vida e, naquele segundo, COMPREENDE sua própria existência;

5) enquanto observa a tela de 42" de seu computador, o cara sente o chão tremer violentamente, olha pro lado, em direção à janela e vê o vulcão DORMENTE há 4500 anos RESSUSCITAR, cuspindo lava, rochas incandescentes, vapores e cinzas em direção ao laboratório. acende seu último cigarro, abre a última cerveja e espera. simplesmente espera. pacientemente. resignadamente.

é o MÍNIMO que eu espero.

TREZE BILHÕES DE ANOS. A TREZENTOS MIL QUILÔMETROS POR SEGUNDO. NO ESPAÇO DE UM DÉCIMO DA SUPERFÍCIE DA LUA. DURANTE QUATRO MISERÁVEIS MESES.

~.~

culpo Leandro, vulgo @trecker, por essa EPIFANIA da madrugada ao compartilhar um post com essa imagem no Reader.

já faz dez dias desde que aconteceu o acidente. dez dias em casa, a maior parte do tempo na cama, com raras saídas pra um cigarro (necessário).

e digo acidente porque se trata realmente disso. óleo na pista, numa curva em descida, asfalto quente, uma moto e suas duas rodas; chão. não tive muita escolha. voltava pra casa almejando a cerveja do fim da semana que me esperava. não deu.

tenho fotos realmente desagradáveis do estado inicial da coisa toda (que enviei ao meu serviço particular de atendimento médico, aka, Mariana Duque, pra avaliações). nenhuma necessidade de mostrá-las aqui. digo apenas que, hoje, os ferimentos estão até simpáticos. já vejo pele nova surgindo e a dor diminuiu sensivelmente.

mas foram dias longos. quase infinitos. o primeiro banho foi a maior dor que já suportei na vida. quase desmaiei duas vezes. só me segurei porque pensei no transtorno que seria carregarem um gigante de quase dois metros de altura e bem mais de cem quilos desacordado.

não acho que conseguirei andar de moto tão cedo. não se trata de um "nunca mais" esperado pra situações como essa. sinto um medo que não combina em absoluto com um veículo que não depende apenas de si pra andar em segurança. não tenho mais confiança pra sair por aí. hoje. vá saber.

(de modo que estou vendendo uma Honda Twister 250cc 2007 -- consertada e revisada pós-queda. sabendo de alguém, me faça saber.)

o pior, acredito, são as pequenas proibições cotidianas. como machuquei as mãos e os braços (além da barriga e do joelho e...) ficaram difíceis as tarefas mais banais. daí que venho nutrindo alguns desejos especialmente significantes: conseguir dormir de bruços ou apoiado sobre o lado esquerdo do corpo -- como de costume --, tomar banho sozinho, acender o cigarro com o isqueiro, andar ereto, ler livros, entre alguns outros. (tomaria uma cerveja de muito bom grado neste feriado de carnaval que passa pela televisão em desfiles e mulheres quase robóticas com seus seios de silicone e coxas descomunais semi-nuas.)

meu pequeno acervo de filmes e documentários têm resguardado minha mente da obliteração nas tardes modorrentas e quentes. pirataria salvando vidas, mais uma vez.

mas com tudo isso a ideia mesmo é agradecer, sem citar nomes etc., a todos que transmitiram seus votos de pronto restabelecimento a este acidentado, das mais variadas formas (até telefonemas recebi, veja você). fica mais fácil sabendo que por aí tem pessoas realmente preocupadas com este (ex-)motoqueiro.

valeu mesmo. o/

o álbum.

gravado em 1959, em duas sessões distintas, entre março e abril, no estúdio da Columbia Records, em Nova York.

Julian "Cannonball" Adderley no sax alto, Paul Chambers no contra-baixo, James Cobb na bateria, Bill Evans e Wynton Kelly ao piano, John Coltrane no sax tenor e Miles Davis no trompete.

cinco faixas: "So What", "Freddie Freeloader" e "Blue in Green" no lado A; "All Blues" e "Flamenco Sketches" no lado B.


entre eu e meus comparsas há muitas diferenças. nos cruzamos em muitos pontos, mas num outro cenário é pouco provável que nos tornássemos grandes amigos.

"Kind of Blue" é nosso denominador comum.

isso resume e relativiza tudo o que sobra e importa pouco.

o único prédio em que se nota algum silêncio e pessoas dormindo aqui em volta tem o nome duvidoso de Edifício Stella Luiza. parece ser um conjunto antigo, porque chama-se "edifício", mas tem apenas três andares, além do térreo -- com uma porta simples, que dá direto para a calçada. os prédios dessa região de São Paulo são antigos, em sua maioria. subindo essa mesma rua (vindo da Pedroso de Moraes) existe um portal onde se lê -- ironicamente -- "Vila Sossego": uma rua com muitas casas pequenas (como antigamente predominavam por toda cidade) que dá de cara com uma das vias mais movimentadas e caóticas em muitos quilômetros.

nos outros prédios, muito mais altos do que o mirrado Stella Luiza, algumas janelas acesas. poucas. as torres parecem enfeites de Natal com defeito. aqui e ali se notam sombras e reflexos de uma televisão ou um computador ligados. enquanto olhava, não vi pessoas.

a rua (e suas travessas) estão silenciosas. na medida do possível. ainda resquício do ano novo. é uma cidade ainda acordando pra loucura que lhe significa.

não vejo pessoas mas as adivinho resultados de tudo o que lhes faz (e fez) rir e chorar, ao longo da vida. exatamente como eu. ainda há pouco chorando ao lembrar de uma das minhas histórias revivi a sensação que me acompanhou durante muitos meses após o acontecido; me sentia a pessoa mais triste do planeta, único ser humano a carregar sobre os ombros toda a dor da vida. tive que rir da minha ingênua pretensão.

I'll tell you all my secrets, but I lie about my past.


São Paulo é um lugar especial pra quem deseja seus horizontes ampliados, suas ilusões rasgadas, seus delírios concretizados. é um lugar duro e rude. não te convida, não te afaga.

(

às quatro e quinze da manhã, pessoas que acordaram muito tempo antes estão zumbis nos ônibus que sobem -- um atrás do outro -- esta mesma rua. em qualquer dia. sob qualquer condição essas pessoas têm que estar onde quer que seja antes de eu mesmo pensar em me levantar.

)


é óbvio, hoje:

nunca fui nem serei diferente de quem está acordado, na torre ao lado, assistindo à televisão, a um filme, vendo pornografia na internet, chorando. há o mesmo em todos, algo que nos identifica, que nos torna parte de uma mesma história sarcástica e irônica.

(

pense em quem mora na Vila Sossego e a ironia, não só da cidade, te dá um tapa.

)


ano que começa com apenas uma opção: EPIC.

por enquanto,

let me fall out of the window with confetti in my hair
deal out Jacks or Better on a blanket by the stairs
I'll tell you all my secrets, but I lie about my past
and send off to bed for evermore


a quem já cantou essa canção comigo, bêbados pelas ruas de uma cidade qualquer; a quem já ouviu essa canção comigo numa noite qualquer; a quem amaldiçoou a vida comigo ouvindo essa canção; àqueles em quem tropeçarei, ao longo da vida, ao som dessa canção: happy fucking new year.

como é TRADICIONAL, verbeat corporations traz a você A LISTA dos melhores de 2009 segundo as mais diferentes e CATITAS visões do condomínio.

dia desses, el_rey comandou a playlist e criou a IMPOP LIST GALORE TOP 2009 pt 1: the BERÊ'S CHOICE.

hoje, no más, foi minha chance e está lá IMPOP LIST GALORE TOP 2009 pt 2: ÁLDUR TOP NINE

recomendo VIVAMENTE a visita. ressaltando que para seu benefício e alegria extrema ainda faltam as listas de RENNER e mano Brigatti, o americano. EM APARECENDO, aqui serão linkadas.

2009 escorre pelos meus dedos, embalado a boa música.

"eu fiz uma música sobre os sons do campo magnético da terra"


é só parar a compreensão por alguns segundos. você vai até a pasta, escolhe qualquer um dos discos, põe pra tocar e de repente a música preenche os espaços vazios da imensidão que você tem -- como eu tenho -- dentro da sua cabeça.

vasculhar e fazer o amálgama de captações dos sons que estão no mundo, disponíveis, impercebidos, que se reformulam, se decompõem, são misturados e transformados: música ambient é música metamórfica. transubstância e que tem a gentileza de, quando pode, ser música-silêncio; e sim.

é caos. é som de chuva e trovões. memórias de um carnaval. é estar na vida; é saber se emocionar com o fato, com o fado, com o belo. (pingo de chuva caindo em chão seco. nesse momento.)

música de sentir cheiro é o que você vai encontrar.

tiago casagrande, dinossauro vivo, bereteante, réptil de cordas impossíveis, comparsa, foi convidado para produzir a trilha sonora do curta "Arranco", meio-apresentado no Festival de Cinema de Porto Alegre neste 2009; com data de estréia pra virada do mês, em dezembro próximo.


esse disco, "arranco", que tece fios de barulhos coesos, é o resultado. e resulta que durante mais de uma hora estive absorvido e tranquilizado, encantado com a sutileza da música do all your gardening needs. (o lançamento do álbum vem depois.)

o rio súbito que invade a imensidão do deserto depois da chuva que cai destruidora -- وادي‎ -- e desaparece tão inesperado quanto as senhoras repetem repetem repetem.

faixa a faixa são e não são.

é um lindo disco.

adendo: pra baixar o disco e comprovar é só ir até o site do projeto.

Imagine que houve uma "discussão" no Twitter sobre a existência ou não de "preconceito contra a classe média" nos posts do blog "Classe Média Way of Life".

Imagine que um lado afirma que, sim, o tom do blog é preconceituoso, porque "a classe média é o novo preto" -- são as exatas palavras --, já que ela, a classe, sofre essa (inadequada, segundo compreendi) personificação de certo tipo de comportamento dito "da classe média", que não necessariamente pertence ao grupo social em questão, mas que lhe é impingido por pessoas preconceituosas.

Imagine que o outro lado contesta a afirmação do primeiro dizendo que, na verdade, não se trata de preconceito, uma vez que os textos do blog são escritos por representantes da própria classe média e, portanto, o que existe é auto-crítica, cujo veículo é o humor. Uma atitude louvável, a auto-crítica, que permite uma percepção da situação a partir de dentro, ressaltando pontos negativos na própria experiência. Expediente que pode desembocar numa reflexão saudável sobre os problemas e, talvez, na bem-vinda mudança. Em outras palavras, a auto-crítica como estopim de uma crise -- e a crise sendo, ela mesma, o estopim de revoluções comportamentais.

Agora imagine que o primeiro lado não dá o braço a torcer e não arreda pé de sua posição. Insiste que, na verdade, o blog é preconceituoso e hipócrita porque os autores não "admitem" que fazem parte da classe média em momento algum durante suas postagens. Criticam os comportamentos se imiscuindo de qualquer "responsabilidade" sobre os fatos -- ou seja, não embalam o Mateus que pariram.

O que o primeiro lado parece não ter compreendido é que nosso mundo é um mundo profundamente segregado. Um mundo onde os indivíduos de "tipos" diferentes caminham por estradas que raramente se cruzam. Uns não se dão a saber dos outros -- que literalmente são tratados como "os outros", um grupo (ou vários grupos) distintos de mim, externos à minha existência, irrelevantes dentro dos aspectos que compõem minha vida.

A isso chamamos classes sociais (e vários apêndices podem vir junto: economia, espaço, política, etc.). Vivemos numa sociedade de classes: dividida, desunida; alheios uns aos outros.

O Brasil, como poucos países do mundo, é um exemplo do que de pior essa sociedade de classes pode criar. Há, por aqui, uma pequena parcela da população que vai muito bem, obrigado (em diversos aspectos, mas especialmente no acesso àquilo que a vida pode oferecer de melhor), e uma maioria esmagadora de pessoas que experimentam uma existência repleta de privações, muito em função do lugar que ocupam na nossa pirâmide social. Dentro da pequena parcela de pessoas que podem, que têm acesso, está a classe média -- bem na rabeira, se equilibrando no orçamento apertado de fim de mês, que, ainda assim, permite algum luxo nessa vida severina.

É pirueta pra cavar o ganha-pão Que a gente vai cavando só de birra, só de sarro E a gente vai fumando que, também, sem um cigarro Ninguém segura esse rojão ("Meu caro amigo")

Pois bem.

Imagine que a classe média, representada pelos posts do tal blog, por quem os escreve, por mim, por você, vivemos nessa ilha de prosperidade. Vivemos nessa ilha de prosperidade e, segundo as pesquisas mais recentes, somos quem, de fato, têm acesso à internet no conforto de nossos lares. Os "internautas" somos ainda um grupo restrito aqui no Brasil. Ainda é muito caro ter um computador, pagar um serviço de conexão, comprar uma mesa e uma cadeira confortáveis, ter um estoque (digno) de cervejas na geladeira se, como a maioria (não nos esqueçamos), precisamos sobreviver com salários miseráveis (obviamente, quando há salário) nessa carestia eterna.

Temos então essa ilha. Nessa ilha convivemos com outra classe social: a classe rica. Os ricos "na batata" -- com a licença da paráfrase -- que nasceram ricos, estão ricos, morrerão ricos. Pessoas pra quem o carro do ano, a roupa da moda, o último aparelhinho mágico do Steve Jobs, não são "sonhos de consumo", mas uma realidade tão corriqueira que, a bem da verdade, não significam tanto. Para a classe média, no entanto, ali na bordinha da ilha, ter todas essas coisas -- poder desfilar com o iPod no ouvido, dentro do carro zero quilômetro, vestindo uma marca qualquer -- são muito significativas. E mais. São indicativos de que este indivíduo se trata de alguém muito bem sucedido, fora do comum, não-ordinário. É visto com inveja e desdém pelos pares que não conquistaram (ainda!) seu lugar ao sol -- e que pra isso, insistem no método "cidadão de bem".

Circundando essa ilha, temos, por definição, o mar. Mas não se trata de um mar qualquer. É um mar de merda. Uma imensa extensão de agruras liquefeitas. Um oceano de miséria, carência, esquecimento. Criado pela ilha e, ao mesmo tempo, criador da ilha -- numa relação perniciosa para o lado frágil da corda, já diria o outro.

Nesse mar, nesse terceiro espaço, vive a maioria. Vivem as pessoas que a classe média insiste em temer: a classe pobre. "O Outro". O demônio dentro do armário, que cutuca a bunda da classe média com seu tridente todas as manhãs, pra lembrar que "sem trabalho duro, não se chega a lugar nenhum". Ou pior, chega: à classe pobre. E isso é inadmissível.

Tanto a classe rica quanto a classe pobre, no entanto, não prestam muita atenção à classe média. Para os ricos, não passamos de arremedos, tiros que saem constantemente pela culatra, tentativas mal-sucedidas, fonte inesgotável de vergonha alheia. Para os pobres, somos os caras que tacam fogo em mendigo, que fecham as janelas (blindadas, depois de três meses de economia) ao entrar numa "área perigosa" (normalmente um bairro pobre) -- e querem mais é que a gente se exploda. Nós é que ficamos queimando a mufa com ambos -- admirados com os primeiros, observando de soslaio os segundos.

Os ricos e os pobres têm suas próprias lógicas, suas próprias territorialidades no espaço. Isso fica muito claro dentro do espaço urbano -- onde há que se conviver com todos os tipos. Infelizmente, dizem alguns. Há bairros ricos e há bairros pobres. Há eventos de ricos e há eventos de pobres. Há baladas de ricos e há baladas de pobres. No ambiente virtual, isso se repete. O que eu, excelso representante da classe média, faço na internet é diferente do que uma pessoa rica vai fazer ou do que outra, pobre, vai fazer (lá na lan house).

Mas há os momentos em que o mar de merda avança sobre a ilha. E todos fogem -- quase sempre. Exemplos: 1) Não há o que chamam de "orkutização" de mídias sociais? As pessoas esvaziando espaços virtuais quando "o outro" invade domínios pouco consolidados com essas "conversas de pobre", "esses erros de português", "esse comportamento chulo", "esse computador das Casas Bahia", etc. 2) Não há o medo eterno da classe média (e dos ricos, também, por que não?) com relação à violência, ao que foi conquistado "com tanto suor", que pode a qualquer momento ser roubado por essa massa ignara e suja? E tome vidro blindado, grades, muros, guaritas, armas, polícia pra quem precisa com sua "violência preventiva". 3) Não há aquele momento na festa de formatura ou de casamento em que todos dançam "rebolando até o chão" quando toca um funk carioca -- produto egresso dos morros, das favelas, do populacho, "som de preto"; mas que na hora "de se soltar", serve? Quando o mar avança, as classes na ilha chiam (menos enquanto dura a festa). Quando permanece mar: permanece longe, distante, incógnito -- bom.

Fica ali a classe média espremida entre o que pretende ser e o que despreza. Nessa ilha criada pela nossa sociedade espacial, economica e socialmente segregada.

Confusa, perdida, embasbacada, alienada, massa: é para o centro da ilha, a morada dos ricos, que a classe média olha. Acaba que se esquece do mar. E se acostuma a achar que todos vivem como si ou como os ricos (se for alguém "que mereça"). Quando, na verdade, a maioria está no mar -- levando uma vida do cão, à sua maneira. Aqui peca quem não acredita na auto-crítica, pois considera que todos são como si, que tem as mesmas inquietações e as mesmas preocupações -- que outras classes além da classe média escreveriam um blog rindo da classe média. Não, não escreveriam.

Tudo isso pra dizer que, provavelmente, a segunda parte está correta na sua contestação. Fica patente, se você analisa a realidade social do Brasil, que os autores do blog muito provavelmente são representantes da mesma classe média que criticam através do humor. É, portanto, uma auto-crítica, como ensinou a segunda parte, e não "preconceito contra a classe média". Considerar essa possibilidade é não compreender o país em que vive. Me parece muito pouco provável que um rapaz vá gastar seus reais de tempo na lan house pra ficar escrevendo textos sobre a classe média -- esse monstrengo que ele "desentende", que não lhe diz nada, que é apenas o carro com os vidros fechados ou a senhora que segura a bolsa na frente do corpo quando ele passa.

A classe média rindo de si é o melhor que essa história toda tem: entendendo sua ignorância em relação ao que lhe cerca, entendendo seus antolhos, estes sim, perigososamente preconceituosos.

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Nomes e links não citados de propósito. São pessoas conhecidas e foi uma "discussão" largamente acompanhada, e este não se trata de um post sobre essas pessoas.

João

eu fui um adolescente solitário, que não via outra saída na luta diária pra manter a sanidade a não ser conversar com as paredes. me mudei pra Pedreira em 1996, trazido pela família que fugia de São Paulo e do medo de uma vida potencialmente complicada -- no mesmo ano o João chegou até nós.

um vira-lata da melhor estirpe, que destruía todas as latas de lixo pelo caminho, com o olhar carente e o charme típico dos cachorros que entendem a vida fora do mundo irreal de pedigrees e salões de beleza.

o João foi meu único amigo durante os anos sem-fim da minha adolescência, desde a chegada nesta cidade até o momento em que a vida ganhou alternativas e eu sai de casa, pra estudar e/ou trabalhar.

ainda assim, mesmo mais distante, era ele que me esperava, sempre com a maior festa do mundo, toda vez que eu abria o portão da rua ou quando acordava de manhã cedo, bêbado de experiências, álcool, alegrias ou saudades.

sempre que a solidão voltava (porque preso eternamente a este buraco de mundo), ele se chegava, sentava do meu lado e infinitas vezes soube me consolar -- exigindo carinhos. à maneira dos cachorros. que confiam plenamente na capacidade de ajuda de um bom afago.

foi o melhor cachorro que alguém pode ter. sabia como ninguém me mandar à merda, com uma bufada. "chega de carinho, você já tá melhor."

os orelhas baixas toda vez que ouvia a palavra "banho". ele mesmo pegava meu chinelo quando ouvia a palavra "passeio". "não", "sim" e "vamos dormir" também estavam em seu vocabulário -- que era, no fim das contas, bem extenso pra um cachorro. eram boas as conversas. sempre foi muito melhor contar tudo a ele do que às paredes, imovíveis.

vou sentir tanta saudade.

hoje esse meu grande amigo perdeu a batalha que travava há anos contra o câncer que lhe devorava o corpo. morreu virgem, sem nunca ter conhecido uma cachorra, porque essa maldita doença começou seu percurso funesto pelo escroto -- e ele foi castrado ainda jovem. morreu quase não podendo mais respirar, por culpa dos três tumores que lhe preenchiam os pulmões.

ironia macabra do destino. numa casa com três fumantes, é o cachorro que morre de câncer pulmonar.

foi levado pelo veterinário para ser sacrificado. (a decisão mais difícil que já tomei na minha vida.)

eu ajudei a carregá-lo até o carro do médico. e minha mão não alcançou seu focinho para um último carinho. em nenhum momento seus olhos se desgrudaram do meu. ele não entendia nada. e essa maldita imagem nunca mais vai me deixar.

João foi o melhor cachorro que alguém pode ter. sua companhia vai fazer muita falta. dormíamos juntos, no mesmo quarto. há treze anos. e hoje não vou ter mais meu amigo comigo.

meu cachorro. meu melhor amigo. minha salvação nos anos escuros. meu companheiro. morto.

quanta tristeza.

saudades eternas, meu querido João.

(agosto de 1996 - novembro de 2009)

Já faz umas duas semanas que uma notícia não me deixa em paz, algo que eu não teria visto se a Bia não tivesse chamado minha atenção. Uma notícia que, a bem da verdade, deve ter passado batida para a maioria das pessoas, mas que há dias volta e me assombra.

Lia-se na notícia que o zoológico da Faixa de Gaza viu-se obrigado a pintar um casal de burros como se eles fossem zebras porque as crianças de Gaza queriam ver uma zebra de perto -- e porque seria caro demais trazer um animal verdadeiro pelos túneis que ligam esta região ao Egito.

Um dos meus grandes professores, um dos meus verdadeiros mestres, me ensinou uma vez que compreender o mundo passa por procurar entender a situação do outro, tentar mimetizar o que acontece ali -- e buscar uma tal "experiência compreendedora" que permita uma tentativa de analisar holisticamente o mundo (mesmo que dentro de um recorte analítico, porque não se pode fugir disso), foi o que ele disse.

Olhando o burro pintado de zebra, tentando enxergar o mundo que está ali, disponível ao dono do zoológico, por exemplo, que não vê outra alternativa a não ser pintar o burro, na intenção de ver o sorriso da criança, vislumbro o que de pior conseguimos criar, depois de tantos milênios de erros, como seres humanos. É essa síntese macabra, suja, esfregada na nossa cara, do quão injusta e perversa a humanidade pode ser.

Se eu dissesse apenas "há crianças na Faixa de Gaza", minha vida inteira não daria conta de lidar com todas as pertubações que isso me causa. Há crianças em Gaza e elas viram da janela de suas casas homens sendo mortos, homens matando, tanques e tiros e bombas e fogo e dor. São crianças perdidas, no meio do fogo cruzado de uma luta que as desumaniza antes que elas tenham condições de se enxergarem como humanas -- herdeiras de toda tradição humanística que nos diferencia de uma besta qualquer. Essas crianças na Faixa de Gaza simplesmente não têm chance alguma contra o mundo, nascem perdedoras.

E, no entanto, veem uma figura no livro escolar de uma zebra e olham para os pais pedindo para ver uma, andando e pastando, como as veem em suas imaginações. Porque, apesar de tudo, e isso é maior do que qualquer dor no mundo, apesar de tudo, mesmo em Gaza, essas crianças ainda são crianças. Essas crianças olham para a figura de uma zebra correndo pela savana africana e, no mesmo instante, ali num qualquer bairro de uma Gaza destroçada, uma zebra, a savana, três ou quatro pássaros, um elefante, outras pessoas, com suas roupas coloridas e suas peles escuras explodem no ar, aparecem e correm, gritam, fazem barulho, batem os dentes, mexem os rabos, estão por ali, cheiram, é possível tocá-las.

Mas,

Antes que a próxima bomba exploda. Antes que o Estado de Israel resolva destruir sua escola. Antes que sua mãe morra por usar um véu. Antes que seu pai, confundido, se exploda numa praça de uma cidade israelense qualquer.

Ainda assim, destituída de toda humanidade, esvaziada de suas possibilidades de criança, oca, ainda assim, o que vemos ali é uma criança.

Em Gaza não tem uma zebra. Em Gaza nunca existirá uma zebra. Perdeu-se toda e qualquer esperança de uma zebra, em Gaza. Então o dono do zoológico e os pais das crianças, numa noite quente qualquer, se encontram e decidem que o melhor para as crianças de Gaza é pintar um casal de burros; simular um casal de zebra, que a partir desse momento, deixa de ser um burro transformado em zebra e passa a simbolizar a agressão que vêm sofrendo todas as vidas que circulam, sombras, por Gaza.

Pequenas sombras -- desejando uma zebra, em todo o seu direito de criança que precisa ver a zebra do desenho abanando o rabo em frente a si. Apegadas a um fiapo de fantasia que ainda lhes é permitido, essas crianças são o símbolo do descaso do mundo diante de algo tão horrendo e sem tamanho em sua crueldade.

São crianças de Gaza que veem um casal de burros pintados de zebra e fantasiam. Elas sorriem. Veja a cara de absoluto assombro do menino de vermelho. A sombra-menino vendo a sombra-zebra fantasiando um mundo de savanas e cheiros, que ele nunca vai ver -- mas que foi, eu tenho a mais absoluta e perturbadora certeza de que foi, a melhor história que ele já contou para o avô.

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Tentar entender tudo isso e tentar passar essa minha perplexidade só aconteceu porque grandes amigos ouviram minhas pertubações e me ajudaram. Fica o agradecimento.

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Una llegenda africana intenta donar una explicació folklòrica a les ratlles d'aquest èquid:

Fa molt de temps, les zebres no tenien les ratlles blanques i negre que tenen avui en dia, sinó que eren totes blanques. Quan veien una zebra, alguns deien que es tractava d'un creuament entre un cavall de color blanc i un ase, o potser una mula. En aquell temps, la gent encara intentava domesticar els cavalls salvatges per poder cavalcar-los i lluir-los davant de tothom, car eren molt bells.

Les zebres rebien un altre nom perquè eren diferents dels cavalls i les mules. A diferència dels seus cosins, era molt difícil capturar i ensinistrar una zebra. Un dia, una zebra que encara era molt jove es perdé i, caminant, caminant, acabà dins un poblat. La gent començà a mirar-la i a xiuxiuejar, pensant en maneres de poder capturar-la.

La zebra s'espantà, i es donà compte del que li volien fer. Començà a córrer mentre la gent entrava a casa a buscar una xarxa per caçar-la. Corregué i corregué, fins que finalment li vingué una idea. Veié un pot de pintura negre i, sense pensar-s'ho dues vegades, el féu tombar; la pintura s'escampà per terra en moltes ratlles ondulades. La zebra s'hi rebolcà fins que les ratlles li quedaren pintades al cos, pensant que així quedaria lletja i la gent ja no la voldria capturar.

La gent del poble la trobà, i veié el que havia fet. Com que pensaven que ja no era bonica amb totes aquelles ratlles negres per sobre el pelatge, la deixaren anar. Aviat, totes les zebres començaren a fer el mateix perquè la gent no les molestés. Amb el pas del temps, ja no els calgué fer-ho, car començaren a néixer d'aquesta manera. Però ara les ratlles les feien belles.

Vou muito pelo que sinto. Não preparo e não planejo. Dá muito errado - numa proporção quase indecente. Mas errar - não saber para onde, nesse sentido -, me dá a chance de surpresas e certas descobertas ao acaso. Frutos do caos e da sensibilidade do mundo, alheios à retidão, à força bruta. Erro.

"[...] uma célebre resposta de Sarah Bernhardt quando uma jovem atriz comunicou, orgulhosa, não ter medo de errar: 'Não se aflija, querida, isso vem com o talento'".

Eu não diria apenas 'talento'. Diria 'talento para a vida'.

Enquanto eu fumava, recomeçou a pingar. Uma chuva bem-vinda. Há quem dissesse, uma chuva que atrapalhou o momento, as últimas tragadas. Não. As últimas tragadas, essas, antes do sono, sempre me levam a uma revisão do dia, um recontar de tudo o que houve e, quase sempre, à tentativa inútil - tanto quanto compreensível - de corrigir o que não saiu a contento. Mas nessas últimas tragadas, hoje, choveu. E eu me resignei. Brindei à chuva, ao mundo, à vida, aos amigos e aos pequenos erros.

Eu não seria quem sou se não tivesse aprendido a respeitar minhas falhas, se não soubesse que elas são a real expressão da minha (particular e intransferível) tentativa de vida - que não são poucas e não são inválidas.

Erro, portanto. E durmo com a chuva tamborilando em minha janela de madeira. Porque há vida.

Ainda agora, o Kaique me pergunta, entre irritado e sinceramente confuso:

"Mas, Thiago, por que você fica ensinando sobre a África ao invés de falar sobre cangurus?"

E eu não vejo como alguém poderia estar mais certo sobre algo que absolutamente não compreende.

Durante esta semana alunos de um segundo colegial foram convidados por seu professor de História a participar de um debate em que deveriam se opor dois grupos: um deles contrário e outro a favor das cotas raciais para o ingresso em universidades públicas brasileiras.

Me assustou o fato de que vários desses alunos vieram a mim pedir ajuda com argumentos para a discussão proposta. Porque esses adolescentes não sabiam o que fazer com a obrigação de defender algo que lhes parece errado. Me perguntaram quais seriam as posições daqueles que concordam com essa política.

O público do debate, adolescentes das classes A e B, é bastante característico nas suas ideias, nos seus preconceitos -- são fileiras cerradas na crença de que a política de cotas lhes agride, lhes é prejudicial, lhes põem em situação desfavorável na competição a que são instados durante os anos de exame vestibular.

Muitos deles, certamente, repetem irrefletidamente argumentos absorvidos. Ao léu. Inadvertidamente.

Porque é preciso um malabarismo intelectual (que caracteriza certo grau de desonestidade histórica) para não perceber como o mínimo necessário as chamadas políticas afirmativas. O objetivo de tais políticas públicas não é outro senão uma tentativa ainda muito rasa de reparação de injustiças históricas, imensas, profundas, radicalmente incrustadas em nossa sociedade. Ainda hoje, cento e vinte e um anos depois da assinatura da Lei Áurea. Sobretudo hoje quando as diferenças abismais existentes entre as pessoas, baseadas na cor de suas peles, em suas origens, em suas crenças, tornam-se mais uma vez "naturais", "comuns". Se é que um dia deixam de sê-lo.

O comércio secular de escravos negros africanos é o maior responsável pela total desorganização de, pelo menos, dois continentes inteiros -- a América e a África --, em função de interesses externos a estes lugares. (Isso para que a discussão permaneça "em nossos quintais"; ignorando todos os outros eventos de seres humanos cativos, que abundam na História.) O continente africano talvez precise de muitos séculos ainda para encontrar um ponto de equilíbrio entre a herança maldita deixada por esta prática suportada pelos "países desenvolvidos" e as necessidades prementes do presente que se impõem. Enquanto não consegue, consome-me em conflitos sociais, étnicos, movidos por interesses de ordens econômica e/ou política que, séculos depois, ainda lhe são estrangeiros.

Na América, especialmente a parcela que por séculos dedica-se a servir como "armazém" de gentes e de mercadorias aos "países desenvolvidos" (está para nascer termos mais esvaziado de sentido), a constituição de uma elite local subjugada aos "primos nobres" fez-se à custa de muitas vidas negras (e índias, por igual), trazidas d'além-mar como escravas para fazer girar a roda-viva, faminta, da expansão do capital mercantil europeu. Roda-viva que nos obriga a uma posição subalterna no jogo político internacional; não muito diferente daquela que sempre ocupamos durante nossa curta história e comandada, a punhos de ferro, por representantes modernos daquela elite consumidora de vidas.

Esses jovens são meu quinhão dessa elite. Um quinhão cercado por muros altíssimos construídos por preconceitos e entendimentos equivocados mais antigos do que qualquer memória que tragam consigo. Entendimentos que mudaram de forma, mas não de essência. Privilégios garantidos em uma sociedade antiga, "segura", do ponto de vista de uns poucos, que se mantêm, se reproduzem e cada vez mais se enterram fundo no agir das pessoas.

É fato conhecido que o sistema de cotas adotado pelo governo brasileiro deve muito com relação à nossa realidade histórica -- posto que é uma cópia mal-ajambrada do sistema norte-americano. A situação brasileira cria casos como o meu, por exemplo: neto de italianos, espanhóis, índios e negros. Com a pele mais alva do que muito europeu "puro-sangue", mas "com um pé na senzala" -- como costuma pontuar minha mãe, fazendo graça. A determinação de cotas estritamente raciais em nosso caso fica comprometida pela presunção da auto-afirmação, segundo a qual não é possível a ninguém negar minha negritude, se eu achar por bem declará-la. Num país cuja população é composta principalmente por mestiços e mulatos, a separação óbvia em raças (como acontece nos Estados Unidos ou nos países europeus) fica dificultada.

No entanto, é preciso um grau significativo de desonestidade para negar a necessidade de uma política afirmativa dessa magnitude. Ainda que não nos moldes perfeitos, a criação e aplicação dessas políticas é um passo firme e adiante na tentativa de quebra do ciclo vicioso que insiste em manter a sociedade brasileira refém de uma estrutura muitíssimo semelhante àquela imediatamente posterior à assinatura da Lei pela Princesa Isabel, em 1888. Dar a chance de mudança de condições de vida à parcela mais desfavorecida e injustiçada do país é o objetivo e, felizmente, o resultado dessa política de cotas. Sua imperfeição momentânea é passível de ajustes, queremos crer; sua existência e manutenção são, sem sombra de dúvida, uma vitória que precisa ser defendida e esclarecida à população.

Especialmente à população que constitui essa elite; tão temente por seus privilégios seculares. Elite que deveria enxergar a adoção da política de cotas como algo que extrapola os limites de seu tempo de vida, algo que extrapola mesmo suas preocupações um tanto confusas e momentâneas sobre a quantidade de vagas em cursos universitários. Na faculdade onde estudei, de um total de trezentos alunos apenas dois eram negros. No universo de alunos da Universidade Estadual de Campinas, com algo em torno de quinze mil alunos, entre graduação e pós-graduação, chutar que apenas mil sejam negros é uma estimativa muito generosa. Algo está obviamente errado.

E é um erro maior do que Unicamp, do que meus alunos deste segundo colegial, do que este texto, do que discussões acaloradas. É um erro e um problema que estão na própria base de construção deste país (e de outros, muitos outros). É preciso que se faça algo. O fato de a iniciativa partir do âmbito governamental não é nada mais do que o mínimo a se esperar de governos decentes, honestos e sensíveis à História do país que comandam. Não se trata da única ferramenta de reparação das injustiças históricas, mas é, seguramente, a mais efetiva e mais frutífera.

Este post está errado. Confundi as definições. Posseiros são os "grileiros" de terras devolutas - que falsificam os documentos que comprovam a posse dessas terras.

Falha indesculpável que Brigatti, muito camarada, me fez ver. Amanhã mesmo arrumo a confusão de conceitos com os alunos.

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Na apostila.

b. Relações de trabalho [no campo]
· Ocupante ou Posseiro: ocupante de uma propriedade sobre a qual não tem nenhum direito, explorando terras alheias sem nada pagar (em dinheiro, em produto ou em trabalho) pelo seu usufruto.

Na lousa.

6. "Posseiro": produtor rural que usa terras sem possuí-las formalmente. Cultivam terras improdutivas; que de outra forma, têm dono, mas não têm quem lhes dê uma função social real.

Porque sim.

v e r b e a t  b l o g s

thiago gonçalves

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