Pois é,

A Lasanha Kaya-Reinehr e o descanso de Deus! - Final

Comecemos respondendo as diversas consultas recebidas de ontem para hoje. Todas afirmando que não haviam conseguido identificar, pela foto, o que poderia ser o tal tempero miraculoso. A dona Celestina, de Ramires do Oeste, expressou, até, certa indignação pelo tamanho das letras.

Apenas para efeitos de não precisarem rolar até o post anterior, repito a foto:

Respondi que ela não perdesse seu tempo, pois, infelizmente, para ela e qualquer outro habitante desta Terra, somente eu e o autor do molho é que podemos desfrutar da iguaria. Foi o que bastou para que dona Celestina enumerasse uma infindável série de "elogios" ao Chato. E que era uma "puta sacanagem" eu publicar uma receita, aparentemente tão gostosa, mas que ninguém mais poderia fazer.

Agora me digam: que culpa tenho se ganhei de presente? Minha intenção, ao dar o nome da lasanha a quem me presenteou, era apenas a de prestar a devida gratidão pela lembrança. O que tem dentro do potinho não tem nada a ver com o próprio. É um molho de pimenta caseiro feito pelo Rafael Reinehr. Daí o nome: Kaya, por ter sido ela a pedir; Reinehr, por ter sido ele a me presentear com o maravilhoso molho de pimenta.

Enfim, vamos ao final da receita:

É forte! Putz, meia colherinha de café misturada ao molho é suficiente para deixar qualquer mexicano cantando "ai, ai, ai, ai, ai..." pelo resto do dia. Coloquei um pouco menos. Afinal, a Condessa iria comer. Embora ela esteja acostumada aos meus molhos apimentados, nunca havia comido uma pimenta assim.

O resultado vocês já sabem. Está aqui, nesse video.

Ao final do cozimento do molho, acrescentar um punhado de orégano:


Mexer um pouco e tampar. Deixar assim enquanto prepara os materiais para começar a montagem:

Forrar o fundo com um pouco do molho e cobrir com uma camada de panquecas:

Após, cobrir com uma camada de queijo mussarela e outra de presunto de peito de peru (atenção: seja farto, não seja mesquinho com sua família. Você não está num restaurante que precisa economizar e só coloca tirinhas de queijo e presunto). Cubra com o molho:

Como soe acontecer com qualquer lasanha que se preze, repita a operação até atingir a borda do prato, observando para que a camada final seja de queijo coberto com molho:

Leve ao forno.

[Por falar em forno, temos uma consulta sobre isso. O José Carlos, de Constantina, que se diz amante da culinária, reclama das receitas que indicam a temperatura do forno. Diz ele: "Chato, fico danado com essas receitas que dizem 'coloque no formo pré-aquecido a 220ºC'. Será que não sabem que a maioria das pessoas mal e mal tem um fogão dos mais comumzinhos e só com o botão de alto e baixo? Como eu faço?

Não faz José Carlos. Simplesmente não dá bola pra isso. Essa gente faz isso porque não sabe fazer feijão com arroz. Aí inventa essas coisas de temperatura. Não te preocupa, pois os antigos homens da caverna tembém não tinham forno com marcação de tempereatura e sabiam fazer mastodontes assados como ninguém. Acende o forno no alto e coloca a lasanha. Depois de uns dez minutos, baixe o fogo e deixe assim até sentir o cheiro (forte) da lasanha. É quando ela estará pronta.]

Por fim, a lasanha pronta:

CHATOOOOO!!!!!

Fica tranquilo, Véio! Já reservei um pedaço pra Ti. A Eva vai levar. Agora, abre Teu olho: se a Eva resolver comer a lasanha no meio do caminho, a culpa não é minha!

Lasanha Kaya-Reinehr, a lasanha que acabou com o descanso de Deus!



Pois é,

A Lasanha Kaya-Reinehr e o descanso de Deus! - III

CHATO!!!

[putz, encrespou!]

- fala, Véio!
- Que fizeste com a Eva,que ela está aqui toda choramingosa?
- ô Meu, pergunta pro Adão. Eu não fiz nada, apenas disse para ela esperar mais um pouco até eu publicar o próximo post.
- Cuidado! Ela me disse que havia encontrado algo que definitivamente iria nos satisfazer.
- Assim, ó, muita sacanagem Tua querer me cobrar por isso. Eu apenas falei que tinha uma dica.
- Não foi isso que ela me disse. E ela foi muito clara: "o Chato está fazendo algo que vai redimir nossos pecados".
- Peraí, o Bondoso. Não é bem assim. Tá certo que até dá pra chamar de "divina", mas, na verdade, está mais para pecado do que para redenção. Mesmo porque, estimula a gula. É, essa mesma que o teu pessoal (ah, só pra te atualizar, modernamente chamamos "pessoal" de "colaboradores") diz que é pecado. Aliás, até hoje não entendi porque comer bem e bastante é gula. Por acaso já provaste uma picanha sangrando? Não? Devias! Verias que a gula é uma coisa boa... Por acaso provaste o que eu fiz e estou tentando publicar? Nem precisa responder. Claro que não! Fiz e comemos tudo, sozinhos. Eu, Kaya e Condessa.

- Chato!
- Fala, Tchê!
- Não me provoca!
- Eu? Te provocar? Deixa eu Te dizer uma coisa: não tenho nada a ver com a Tua obra. Criaste a Eva por vontade própria. Agora aguenta as consequências. Por sinal, tenho uma duvida. Posso perguntar?
- Pergunta.
- Tens certeza que a Eva foi criada por Ti? Às vezes tenho a impressão que foi o Diabo... E antes que fales qualquer coisa, me deixa terminar. Tens todo o tempo do mundo. Eu não. Olha aí na tua agenda e vais ver a minha data. E como já perdi muito tempo nessa conversa, só vou poder publicar uma foto e dizer que a culpa é toda Tua, por não terminar de publicar a receita hoje.
- Que foto?
- A razão de ser do nome:



Pois é,

A Lasanha Kaya-Reinehr e o descanso de Deus! - II

Continuando o post anterior, na verdade, parte do nome é justamente uma homenagem para a Kaya, que sempre me pediu uma lasanha com massa de panqueca. A outra parte? Bom já vão descobrir, junto com o preparo. Como recebi dezenas de consultas, vou aproveitar para repondê-las enquanto preparo a lasanha.

- Chato!
- Fala Eva.
- Poxa, eu levo milênios pra te encontar e tu ainda resolve homenagear a tua mulher? Como é que tu acha que o Adão, e nem falo Dele, vão me receber se eu levar uma lasanha chamada Kaya?

[E já temos uma consulta: uma pergunta do João Flores, de Tucunduva do Norte:

"Chato, quando vi teu post anterior, fiquei com muita vontade de fazer a lasanha, mas tem um problema: eu não sei fazer massa de panqueca. Podes me ensinar como se faz? Estou precisando urgente fazer um agrado pra patroa!"

Caro João. E te endendo, pois preciso fazer um agrado pra Eva que tá aqui meio braba comigo. Não fica preocupado, pois é mais fácil e mais rápido que roubar doce de criança. Se procurares na internet vais encontrar muitas receitas. Eu faço a mais simples: uma xícara de farinha de trigo, uma xícara de leite, dois ovos e uma pitada de sal. Coloca tudo para bater no liquidificador. Coloque uns pingos de óleo numa frigideira e despeje uma concha da massa. Espere cozinhar, vire e deixe tostar a gosto. Repita isso até acabar.

Agora, se fores mesmo um tipo desastrado na cozinha, existem diversas marcas de massas prontas para panquecas nos supermercados. Dessa vez, como havia chegado tarde em casa, resolvi fazer com massa pronta. Qualquer coisa escreva, certo? Abraços.]

Comecemos, então, pelo molho. Molho de carne. Mas não qualquer carne. A melhor carne para fazer molhos: músculo. Algo como um quilo de músculo. Corte em cubos com mais ou menos o tamanho que você desejar. Retire excessos de gordura deixados propositadamente pelos supermercados para fazer peso e poderem ganhar mais dinheiro.

Em uma panela de ferro (e não preciso repetir: sempre panela de ferro) coloque azeite de oliva. Eu coloco bastante azeite. Coloque uma colher, de café, de açucar e esquente. Quando o açucar estiver queimado, despeje a carne e mexa. Tampe a panela e deixe a carne tostar.

Aos iniciantes: não coloquem a cara em cima da panela para olhar. Esse negócio espirra azeite quente pra todo o lado e vai te queimar.

Vá preparar o restante do molho. De vez em quando dê uma olhada e uma mexida. A carne começará a soltar seu caldo:

O molho. Como disse, cheguei meio tarde para o almoço. Então, e contrariando minha própria tese de que tudo deve ser preparado com calma e sentindo o prazer de cortar a cebola (uma), o alho (quatro dentes), o tomate (três) e o pimentão (meio), joguei tudo no liquidificador e bati:

Molho pronto, é hora de temperar a carne, para que ela adquira sabor:

Coloque um pouco de água, dois trabletes de caldo de carne (pode ser o de galinha, afinal, é tudo igual) e um punhado de pimenta do reino. Mexa até que os tabletes se derretam e tampe, deixando cozinhar mais um tempo.

Agora vem a primeira exclusividade da receita. Acrescentei duas colheres de sopa disso aqui ó:

Advinhem quem me deu? Mas o nome não é só por isso.

[Temos nova consulta, desta vez da Catarina Cunha, de São José do Jaboticabal:

"Chato, moro nessa cidadezinha, aqui no interior da Amazônia. Como faço para adquirir esse negócio aí?"

Não faz, querida Catarina. Somente eu e o cara que me deu isso é que podemos fazer. Mas fica tranquila, mesmo sem isso tenho certeza de que a tua lasanha também ficará supimpa. Escreva sempre. Beijos]

Deixar a carne cozinha por bastante tempo. Se for preciso, vá acrescentado água. Por fim, despeje o molho:

e três ou quatro (depende do gosto de cada um) colheres de molho, ou massa, de tomate (caso você ainda não tenha feito seu próprio molho de tomate, use um desses prontos). Não sou pago para fazer propaganda, mas prefiro esse (dá cor, encorpa e não quase não tem sabor próprio. Atenção pessoal da Arisco: isso é um elogio, viu?):

Tampe a panela, coloque em fogo baixo e deixe cozinhar, mexendo de vez em quando, até que você perceba que o azeite começa a se separar e o molho está escuro. Isso demora.

Agora vem o que realmente me fez dar o nome. Mas vai ficar para o próximo, pois este já está muito grande...

- Porra, Chato! Esperar mais outro post?
- Evinha, querida, o que são mais alguns dias pra quem já esperou tanto?



Pois é,

A Lasanha Kaya-Reinehr e o descanso de Deus!

A Bíblia nos conta muitas coisas, mas esconde o mais importante: afinal, o que fez Deus no descanso do sétimo dia?

- Eva, venha cá!
- Senhor, disse Eva, com cara de quem recém descobrira a vergonha, ainda estou, como direi, do jeito que o senhor me fez!
- E que importância tem isso, retrucou Deus. Afinal, só estamos eu, teu pai, e Adão, teu marido, por aqui. Deixa de bobagem e escuta o que vou te pedir.
- Então tá, né? Pede!
- Seguinte: trabalhei muito nesses últimos dias e estou cansado. E, pelo que sei, Adão já nasceu cansado. Não que o tenha feito assim, mas perder uma costela parece não lhe ter caído bem. Assim, trata de inventar algo que nos satisfaça. Mas desde já te digo: se falhares, mandarei uma cobra para que com ela cometas o pecado original. Ainda não decidi o que é isso, mas coisa boa com certeza não será.

Eva sequer tentou discutir com Deus. Olhou para Adão e imaginou o que poderia ser a tal da cobra. Assustada, saiu imediatamente a procurar, pelo paraíso, algo que pudesse satisfazê-los. Falhou, claro. E cá estamos nós.

Tenho, para mim, que o povo judeu propositadamente escondeu isso de nós ao escrever os relatos bíblicos. E por uma razão muito simples: ao ver que Eva falhara, Deus encarregou-se de fazer o almoço. Mas, puto da cara como estava com a Eva, disse:

- vou criar algo maravilhoso que tu e tua descendência jamais, pela eternidade, poderão comer.

E disse: faça-se uma lasanha de presunto!

"E Deus viu que isso era bom. Houve uma tarde e uma manhã: sétimo dia."

O único problema é que Deus ainda não me conhecia. Vá lá, se admitirmos a hipótese da existência de todos os seus "oni"atributos, até pode ser que ele soubesse que um dia eu apareceria por aqui. Mas se ele quiser discutir o direito autoral da lasanha que fiz ontem, que vá procurar seus direitos na Justiça!

[cá pra nós: se o cara era tão "oni" em tudo, por que ficou tão cansado a ponto de ter que descansar?]

Voltando ao tempo presente, e antes que receba a intimação para fazer um acordo extrajudicial com Deus (de bobo Ele não tem nada. Sabe bem que na Justiça perderia), vou mostrar um vídeo que é a prova cabal de que sou autor da lasanha:

Viram? Crianças não mentem!

Supimpa! Não fosse eu o autor, e sabedor que estarei arranjando um problema com Ele, até diria: "divina"!

Querem saber porque se chama "Lasanha Kaya-Reinehr"? Querem a receita? Esperem o próximo post!

Afinal, vocês não onipacienciosos?

Putz, já vi que não. Vou adiantar um pedacinho da história, então!

Eva até hoje procura uma maneira de satisfazer a Deus e a Adão. Cansada de procurar, veio a mim e pediu:

- Chato, por milênios tenho procurado satisfazer um pedido de Deus. E até hoje não consegui descobrir o que ele quer!

- Eva, não sei o que Deus quer, mas tenho uma dica que pode te ajudar: minha mulher, a Kaya, há tempos me pede para fazer uma lasanha com massa de panqueca...



Pois é,

Top 5 músicas do Roberto Carlos

Há tempos, bem antes de toda essa comemoração pelos 50 anos de carreira do Roberto Carlos, que penso em fazer um post sobre ele. A correria, novos interesses que aparecem, enfim, coisas que todo mundo sabe e passa, vão nos impedindo de realizar certas coisas a que nos propomos.

Dia desses, no entanto, o Inagaki (Pensar Enloquece, Pense nisso)lançou, no Twitter, um verdadeiro desafio: selecionar apenas 5 músicas do Roberto Carlos. Foi o estopim. Dei um reply dizendo que topava e já larguei, assim sem muito pensar, as minhas cinco preferidas. Ele disse que faria um post convidando outros blogueiros para que fizessem o mesmo.

Pois saiu o post. E agora vamos lá.

Primeiro, uma exibição para dizer que acompanho RC desde os tempos do LP. Uma pequena coleção, eu sei, mas que ainda escuto:

Eu sei que é apenas para fazer a lista e não ser muito chato, mas para O Chato isso é difícil. Mesmo por que, mais difícil ainda é selecionar apenas 5 músicas.

Se bem me recordo, meu primeiro contato consciente com Roberto Calos foi lá pelos idos de 1964/65. Meus irmãos mais velhos ouviam; eu tinha 7/8 anos. Recordo de duas músicas. Uma, por causa do nome, Brucutu, então muito na moda por duas razões: o gibi e aquela pecinha que existia em cima do capô dos fuscas (por onde saía a água para limpar o pára-brisas). Nunca entendi a relação daquilo com o brucutu dos gibis. De qualquer forma, era o "must" roubar brucutus e fazer anéis com eles. Vá lá, cada época tem suas bobeiras...

A segunda música foi "O calhambeque". Tudo isso a toque de Jovem Guarda. Assim foi meu início de carreira nesta vida: embalado por tudo o que aconteceu nos anos 60, 70 e 80. Mas isso é outra conversa, voltemos ao RC. A Jovem Guarda era de fácil assimilação. Tanto que passava aos domingos à tarde. Nada comparável aos festivais de MPB.

Durante muito tempo (até parece a letra...) "As flores do jardim da nossa casa" foi a minha preferida. Até que, em 1970, surgiu o LP "Roberto Carlos" com a música "Jesus Cristo", minha primeira da lista. E não por menos, pois foi uma época marcante em todos os sentidos: mudei de cidade, tri no futebol, "90 milhões em ação...", "ame-me ou deixe-me", "esse é um país que vai pra frente...", comecei a fumar (recordo que lançaram, por essa época, o Minister longo, alguém lembra?), primeiras saídas à noite e tratativas naquilo, e, enfim, ainda não existiam os "Jesus te cura" por aí. Logo, era tranquilo sair por aí cantando a música:

Em tem "olha você tem todas as coisas, que um dia eu sonhei pra mim...". Se fosse uma lista maior essa entraria com toda a certeza. Um hino que, sussurrado ao ouvido de qualquer mulher, se transforma na chave do seu coração.

Bom, como por vezes eu sou tão chato que nem eu mesmo me aguento, vamos encurtar a história e:

a segunda da lista é: "Você não sabe". A interpretação da Maria Betânia é simplesmente algo de fabuloso (a gravação de estúdio):

A expressão maior do amor doar-se:

"Você não sabe que os anseios do seu coração
São muito mais pra mim
Do que as razões que eu tenha
Pra dizer que não
E eu sempre digo sim
E ainda que a realidade me limite
A fantasia dos meus sonhos me permite
Que eu faça mais do que as loucuras
Que já fiz pra te fazer feliz"

Dá até para repetir: "E ainda que a realidade me limite / a fantasia dos meus sonhos me permite / que eu faça mais do que as loucuras / que já fiz pra te fazer feliz". Até para escrever arrepia!

"Cavalgada", a terceira da lista, é quase "hors concurs": "vou me agarrar aos teus cabelos pra não cair do teu galope"... e grande êxtase das mulheres:

"Vou me perder de madrugada
Pra te encontrar no meu abraço
Depois de toda a cavalgada
Vou me deitar no seu cansaço

Sem me importar se neste instante
Sou dominado ou se domino
Vou me sentir como um gigante
Ou nada mais do que um menino"

A quarta da lista é "Detalhes", disputando cabeça com cabeça com muitas outras. Mas listas são assim mesmo. Injustas por natureza. Vá lá! É a nossa vingança: "detalhes muito grandes de nós dois são coisas muito grandes pra esquecer..." e assim por diante:

Por fim, a quinta da lista e não importa "Se chorei ou se sorri / O importante / É que emoções eu vivi..."

É a frase que eu gostaria de poder dizer no último segundo de vida: "o importante é que emoções eu vivi". Ou, se questionado por tudo que tenha feito, vou dizer: ah! deixa pra lá, o importante é que emoções eu vivi...

É o resumo da vida (do cd acústico):

Por fim, meu protesto: sacanagem Ina. Só cinco?



Pois é,

Araranguá - I

Aquí me pongo a cantar
Al compás de la vigüela,
Que el hombre que lo desvela
Una pena estrodinaria,
Como la ave solitaria
Con el cantar se consuela.

Pido a los santos del Cielo
Que ayuden mi pensamiento;
Les pido en neste momento
Que voy a cantar mi historia
Me refresquen la memoria
Y aclaren mi entendimiento.

Vengan Santos milagrosos,
Vengan todos en mi ayuda,
Que la lengua se me añuda
Y se me turba la vista;
Pido a mi Dios que me asista
Em una ocasión tan ruda.
1


Meus últimos final de ano e carnaval de ilustre atirador passei-os em Morro dos Conventos, Araranguá/SC. Se meus já enfraquecidos neurônios permitirem a lembrança, creio que se passaram nove ou dez anos.


Y no son pocos diez años
Para quien ya llega a viejo.
Y los he pasado ansí,
Si en mi cuenta no me yerro;

[...]1


Morro dos Conventos foi, por um bom tempo, anos 70 e 80, a meca dos magrinhos. Junto com Garopaba e as demais praias do sul catarinense, eram o point daqueles que se diziam alternativos. Eternos hippies, ex-hippies, novos hippies, gente que nem sabia o que era um hippie, enfim, de tudo um pouco.

Até que chegaram los hermanos com sua característica inconfundível: afastar de perto de si todos os demais. O domínio dos hermanos durou todos os anos 90, desde que o camping foi adquirido por um representante da espécie. Só voltei lá por um convite de um casal de amigos para passar o final de ano acampando com eles

Eu, campista inveterado desde criança, topei. A namorada topou. Afinal, o que a gente não faz por... Bueno, deixa prá lá...

O final de ano, na companhia do casa de amgos até foi bom. O suficiente para que quisessemos voltar para lá no carnaval. Claro que não deu certo. O namoro terminou ali mesmo e o que era para ser quinze dias acabou virando quatro.

Essa era minha história com Araranguá até então. Eis que para minha surpresa, o Rafael Reinehr, que mora em Araranguá, aceitou o convite para almoçar aqui em casa. Afinal, não deixa de ser arriscado ir na casa de quem a gente mal e mal tem notícia pela internet. mais ainda quando esse alguém tem um blog e se autodenomina O Chato. Pensando nisso, fiz questão de parecer normal durante as conversas. Mandei fotos da mulher, das filhas e até dos gatos, tudo para mostrar que sou apenas O Chato e não um psicopata qualquer.

[imagino a cena dele sugerindo para a mulher - a Carol - que haviam sido convidados para almoçar na casa de um tal de chato e ela (modo sotoquejáquasecatarina on):

- se largares esse computador só um pouquinho a gente conversa!
- (jogando o notebook no sofá, mas com a tela virada pra ele) tá, já larguei!
- benhê, não será perigoso? Eu estou grávida e sabe-se lá o que essa gente é capaz de fazer!
- não te preocupa que já fiz minhas pesquisas. Tenho gente em Porto Alegre que conhece ele e me disse que é inofensivo. No máximo vai ser chato, mas isso a gente aguenta! E pô, o cara tá oferecendo um churrasco.
- Tá bem, mas se eu não gostar de lá, eu faço uma cara de quem está enjoada com a gravidez e nós vamos embora, certo?
- certo!
]

Pois bem, a visita deles está aqui.

A segunda surpresa, e essa sim uma grande surpresa, foi ter recebido, ainda no mesmo dia, um convite para vistá-los em Araranguá. Tá certo que o cara cometa um erro, mas três? Vir na minha casa já parecia ser algo arriscado (1), mas sair daqui e me convidar para passar um fim de semana lá (2), mesmo que tenha sido apenas por educação ou gentileza (3)?

[pensei, pensei e cheguei a seguinte conclusão: o que eles gostaram mesmo é da companhia da minha mulher e da minha filha. O Rafael não resistiu ao abraço que a Condessa deu nele assim que o viu. Por sinal, tamanha espontaneidade sequer eu mesmo tinha visto. É, eu sou o preço a ser pago.]

E então resolvemos ir. Conversa daqui, conversa dali, e a única coisa que ele me perguntou foi o que a Condessa e a Kaya gostavam de comer. Um tiro certeiro na minha tese de que eu seria apenas o motorista, um chato necessário, o preço a ser pago para receber mais um daqueles abraços da Condessa. Assumi minha função. Afinal, até coadjuvantes ganham o Oscar. Quem sabe eu não ganharia o meu, em forma de um naco de picanha?


Yo no soy cantor letrao,
Mas si me pongo a cantar
No tengo cuando acabar
Y me envejezco cantando:
Las coplas me van brotando
Como agua de manantial.
1


E não é que ganhei mesmo! Olha só:

A tarde foi de passeios, para mostrar onde "o rio beija o mar":

Advinha para quem? Para ela, claro:

De sobra, além de motorista, servi de fotógrafo:


Entonces... quando el lucero
Brillaba en el cielo santo,
Y los gallos con su canto
Nos decían que el dia llegaba,
A la cocina rumbiaba
El gaucho... que era un encanto.
1


E assim foi. Depois de uma passadinha no hotel, retornamos ao som dos gallos para ver el gaucho que a la cocina rumbiaba para fazer o melhor salmão do mundo, acompanhado de batatas cortadas ao meio e assadas com casca.

[sou obrigado a recordar - e não para que sintam pena, mas para que a verdade seja registrada - que nas conversas preparativas comentei que a Kaya, como catarina que é, adora peixe. Terá sido coincidência ter aparecido um salmão no jantar?]

O salmão estava tão fabuloso que até me esqueci da minha função coadjuvante de fotógrafo: não tirei nenhuma foto. Pudera, mesmo eu que sou picanheiro, comi três postas do salmão, sempre acompanhadas das batatas.


Atención pido al silencio
Y silencio a la atención,
Que voy en esta ocasión,
Si me ayuda la memoria,
A mostrarles que a mi historia
Le faltaba lo mejor
. 1


Terminado o refesteleio salmoníaco, a Carol, com justa razão, foi acostar-se. E eis que então


Siento que mi pecho tiembla
Que si turba mi razón,
Y la vigüela al son
Imploro a la alma de un sabio
Que venga a mover mi labio
Y alentar mi corazón.
1


Eis que el sabio resolve alentar mi corazón:

E assim passamos o primeiro dia...

1Trechos do poema Martin Fierro, de Jose Hernandes, tirados da 2ª edição, de 1944.



Pois é,

Bifes acebolados à moda do Chato!

Em termos de culinária, posso dizer que sou um homem realizado. Tenho duas pessoas que adoram minhas gororobas. E as duas mais insuspeitas que um homem pode ter: a filha de 4 anos e a mulher.

A filha pela autenticidade natural das crianças, a mulher, quem sabe, pra não ter que fazer um miojo. Como um dia serei famoso (aí terei um fotógrafo tirando fotos dos meus pratos) e minhas receitas experimentadas mundo afora, aqui vai mais uma, que fiz ontem:

Ingredientes:

- seis bifes de bom tamanho. E não me pergunte o que seja "bom tamanho". A carne? Prefiro a que por aqui chamamos de coxão de dentro. Tem lugares que chamam de coxão-mole. Pode até ser de alcatra ou file mignon. Mas aí já não é mais "à moda do Chato", porque o Chato é pobre e pobre não come essas carnes.

- dois bons dentes de alho. E não me pergunte o que sejam "bons dentes de alho". Pra nós, que comemos alho puro, um bom dente de alho é um "grande dente de alho".

- uma cebola grande, cortada em rodelas finas e as rodelas cortadas ao meio.

- ovos. Um para cada pessoa que vai comer. A menos que comam mais de um ovo. Daí, faça uma pequena conta de matemática.

- Uma colher bem cheia de margarina (ou manteiga). Essa é outra medida que incomoda pacas, que nem a tal de pitada. Vá lá, cheia, aqui, quer dizer o suficiente. E não me pergunte o que é o suficiente.

- azeite de oliva. E tem que ser azeite de oliva. O resto faz mal pra saúde.

- uma frigideira de ferro. E tem que ser de ferro. O resto só serve para fazer miojo.

- fatias de queijo (prato ou mussarela). Quantas? As necessárias. Depende do tamanho da frigideira.

- sal a gosto;

- pimenta do reino a gosto;

- orégano a gosto.

Preparo:

Descasque um dos alhos e corte-o ao meio. Passe sobre ambos os lados dos bifes. Coloque o sal, a pimenta e o o orégano:

Coloque a frigideira para esquentar apenas com o óleo com a qual ela estava conservada. Sim, lembrem-se: panelas de ferro, após serem lavadas, devem ser secas esquentando no fogo e, depois de frias, untadas com óleo. Aqui usamos azeite de oliva, que já servirá para o preparo dos pratos. Quanto estiver bem quente, passe os bifes o suficiente para que "queime" o fundo:

Separe-os enquanto prepara a cebola. Coloque, primeiro, o alho (já cortado em fatias finas) para fritar:

Após, coloque as cebolas:

E a colher de margarina e um pouco de azeite de oliva:

Deixe a cebola ficar dourada (mas não queimada):

Retorne com os bifes e cubra-os com a cebola:

Cubra tudo com as fatias de queijo:

Quebre os ovos e acrescente um pouco de sal:

Tampe a panela e deixe os ovos cozinharem:

Quando estiverem prontos, o prato também estará:

Sirva com arroz e não vá esquecer do pão para passar no delicioso caldo que se forma.

As meninas da casa se fartaram. Não sobrou um para contar a história...



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Entre sem bater



Alguns negam, outros não sabem. Alguns mais, outros menos. Todos somos chatos!

E Einstein já dizia que "apenas duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez humana e eu não tenho certeza se isso é verdadeiro para o primeiro".

Sobre o Chato



"Vós vos deleitais em estabelecer leis, mas deleitais-vos ainda mais em violá-las, como crianças que brincam à beira do oceano, edificando pacientemente torres de areia e, logo em seguida, destruindo-as entre risadas. Povo de Orphalese, podeis abafar o tambor e afrouxar as cordas da lira, mas quem poderá proibir a calhandra de cantar?"
(O Profeta, Khalil Gibran)


Doe suas asas. Não importa se quem as recebeu voará tão logo, ou se ainda viverá muitos e muitos anos antes de iniciar o voo final. Lembre-se: dure quanto tempo durar, você estará ajudando um pássaro a voar feliz.

Aqui não tem democracia!


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